Jornalismo Júnior

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Espaço Petrobrás de Cinema: história e resistência do cinema de rua em São Paulo

Processo de reintegração de posse do anexo reacende reflexões sobre a valorização dos espaços culturais no município
Por Alícia Simões (aliciasimoes@usp.br)

O Espaço Petrobrás de Cinema, localizado na Rua Augusta, no centro de São Paulo, é um dos mais conhecidos cinemas de rua da cidade. Em 2025, foi eleito pelo Guia Folha como o melhor deles em SP pela segunda vez consecutiva.

O local, conhecido anteriormente como Espaço Augusta de Cinema, contou, por quase 30 anos, com patrocínio do banco Itaú e, desde 2025, é viabilizado pela companhia Petrobrás. Em maio de 2026, o anexo do espaço foi alvo de um processo de reintegração de posse, o que chamou a atenção de diversos frequentadores e direcionou olhares da imprensa para o local. 

São Paulo e os cinemas de rua

As salas de cinema chegaram em São Paulo, evidentemente, como cinemas de rua. Tal história começou em 1907, quando a primeira delas foi inaugurada na Rua São João (atual Avenida São João), no centro, a Bijou Theatre. O lugar tinha capacidade para 400 pessoas e foi um marco no entretenimento da cidade, chegando pouco mais de dez anos após a primeira sala do país, no Rio de Janeiro

O Bijou Theatre se tornou, no século passado, um símbolo do centro de São Paulo por ser o primeiro cinema da cidade [Imagem: Reprodução/Agência Fapesp/Centro de Documentação LIM/CAC]

Algumas décadas depois, o cinema foi se popularizando na região por ser uma forma acessível de lazer e um ambiente para socialização. O auge dos cinemas de rua foi entre 1930 e 1960, quando surgiram diversos novos espaços, como o Cine República (na Praça da República), o Cine Marabá (na Avenida Ipiranga) o Cine Bijou (na Praça Roosevelt), o CineSala (em Pinheiros),  e vários outros.

Depois de um tempo, a partir da década de 1970, novas tecnologias de exibição passaram a ser incorporadas. Essa modernização levou a alguns cinemas de rua entrarem em declínio, e, com o passar dos anos, muitos migraram para os shoppings. Isso fez com que se perdesse muito da apreciação artística, pois passaram a se sujeitar ainda mais à lógica do mercado. Evidentemente, antes as salas de exibição também seguiam um pouco dessa dinâmica para conseguirem permanecer existindo. Porém, com a ascensão dos cinemas de shopping, passou-se a visar muito mais o lucro do que a experiência. Além disso, outros interesses passaram a ser incorporados, com os preços exacerbados de alimentos, produtos licenciados, e outros que tornam a obra de arte em si um dos elementos menos relevantes.

“Uma das coisas mais legais dos cinemas de rua tem a ver com a curadoria que ele apresenta (…) porque você sabe que é um tipo de cinema com uma programação que te oferece alguma reflexão, alguma coisa, e te apresenta um lado do cinema que foge um pouco do cinema comercialzão.”  

Simone Castro, jornalista

Atualmente, a cidade, que já contou com mais de 160 cinemas de rua, possui aproximadamente 16. Ainda assim, há um movimento que ganha força ao lutar pela continuidade dessa modalidade de sala de exibição que segue sendo extremamente relevante para a apreciação cinematográfica.

O que o Espaço de Cinema foi até chegar aqui?

O local que abriga hoje o Espaço Petrobrás é cinema há quase oitenta anos. Construído na década de 1940, o imóvel foi inaugurado como Cine Majestic, em 1947. Vinte anos depois, o espaço teve seu nome modificado para Majestic Cinerama, conhecido por sua enorme tela de 22 metros, a “cinerama”. 

Placa da Memória Paulistana enfatiza a importância do espaço para a cultura da cidade [Imagem: Acervo pessoal/Alícia Simões]

Depois disso, em 1985, o lugar passou a funcionar como Gaumont Majestic até 1989, quando encerrou suas atividades. Foi nesse período, em que o cinema estava fechado, que Adhemar Oliveira foi convidado a desenvolver um novo ponto cultural na cidade. Ele estava pesquisando outros imóveis quando um imprevisto aconteceu. “Quando eu estava voltando para o hotel e passei na frente do Majestic, teve um assalto no ônibus e pensei, ‘olha só, o ônibus está sendo assaltado!’. Quando o ônibus saiu, eu vejo: ‘Aluga-se Sala Ademar Gonzaga’. Eu estava com a Patrícia, minha esposa, eu falei: “vamos ficar aqui que aqui parece um cinema, né?”, relatou o exibidor, distribuidor, agitador cultural e diretor do Espaço Petrobrás de Cinema em entrevista à Jornalismo Júnior. 

Apesar do incidente, o que ocorreu foi que, a partir desse momento, ele se interessou pelo lugar e optou por negociar sua locação. “A gente locou, era um cinema só de 1.800 lugares e a gente fez a obra que está até hoje, dividindo o cinema em três salas e criando uma praça, criando um café, criando uma livraria. Então veio o projeto completo”, explicou Adhemar.

Foi assim que, em 1993, agora com um ambiente reformado, foi inaugurado o Espaço Banco Nacional de Cinema, com uma sessão do filme O Banquete de Casamento (Xi Yan, 1993). A reforma do cinema durou cerca de 100 dias, com obras aceleradas e 300 funcionários. Além da divisão das salas, foram instalados projetores e sistema de som mais modernos e de melhor qualidade.

Em 1995, o cinema passou a receber o patrocínio do Unibanco (Espaço Unibanco de Cinema). No mesmo ano, também foi incorporado ao espaço o anexo do outro lado da Rua Augusta, com mais duas salas menores e um café. Em 2010 o apoio passou a ser do Itaú, após a fusão das duas instituições (Espaço Itaú de Cinema).

Em 2012, o local passou por outras reformas, com incorporação de maiores tecnologias e reformas na fachada e nas salas do anexo. Em 2024, o banco encerrou o patrocínio e, por quase um ano, as salas foram administradas por Adhemar Oliveira.

Chegando aos dias de hoje, em janeiro de 2025 houve a reinauguração do cinema com patrocínio da Petrobrás, com contrato vigente até o fim de 2026. As primeiras sessões deste novo momento foram dos longas Terra Estrangeira (1995), Malês (2025) e Kasa Branca (2025).

Relação com os espectadores

Um dos principais diferenciais dos cinemas de rua é que comumente os frequentadores estabelecem relações afetivas com esses espaços e preferem frequentá-los a ir a cinemas de shopping. Além disso, muitas pessoas optam por uma curadoria mais seletiva, ao invés de lugares que exibem como conteúdo principal somente blockbusters.

“Eu gosto muito mais dos estilos de filme que passam em cinemas de rua”, declarou Simone Castro, jornalista e redatora que costuma ir ao Espaço Petrobrás e outros cinemas na região central. “Especialmente pela questão da programação e pela relação afetiva com esses lugares. É um cinema que passa filmes que nem sempre você encontra em outros lugares”, afirmou.

Adhemar Oliveira comenta também sobre a mudança do público ao longo das décadas em que ele esteve presente como diretor do cinema. Ele explicou que, durante esses 33 anos, o público tanto envelheceu, quanto rejuvenesceu. Para ele, trabalhar com cinema é sempre estar em contato com o novo, com o jovem.

O espaço hoje

Em quase 80 anos de relação com o cinema e mais de 30 como Espaço de Cinema, esse ambiente tornou-se um símbolo da resistência cultural em São Paulo, principalmente diante do crescimento de outros tipos de entretenimento que, muitas vezes, tornam a existência desses espaços que valorizam uma cultura alternativa um grande desafio. 

Ainda assim, o local passou por diversas transformações durante todo esse tempo que contribuíram para sua permanência. A própria Rua Augusta, logradouro tão emblemático do centro do município, era, no final do século passado, muito diferente do que se vê na atualidade. “Olha, quando eu vim em 1992, a rua era meio que… seis horas da tarde era um breu. Porque não tinha ninguém circulando, não tinha um punhado de imóvel locando.  Imagina uma coisa dessa assim!”, conta Adhemar Oliveira. Hoje em dia o cenário é bastante distinto, sendo essa uma rua conhecida por sua vida boêmia e agitada.

A fachada do cinema já passou por diversas mudanças ao longo de suas décadas de existência
[Imagem: Acervo pessoal/Alícia Simões]

Muito mudou também no que se refere à distribuição e exibição dos filmes. Quando esse cinema foi criado, ainda não existiam os Multiplex, complexos que contemplam diversas salas em um mesmo local, proporcionando uma maior variedade de longas. Dessa forma, o cinema era cartelizado: um determinado distribuidor trabalhava somente com seus exibidores específicos (distribuidor A com exibidor A, distribuidor B com exibidor B, e assim por diante). Para quem não estivesse inserido nesse arranjo, era muito difícil transmitir as obras, pois era necessário comprar cada uma delas separadamente.

Atualmente, essa relação não é tão exclusiva. As distribuidoras possuem os direitos dos filmes, sabem onde eles podem ser transmitidos e vão atrás dos cinemas para ofertá-los. Dentro das opções, cada cinema escolhe quais serão exibidos de acordo com seus interesses (lucro, criticidade, qualidade etc).

“A gente faz uma seleção em cima do espectro, do investimento, do P&A [Prints and Advertising – cópias e publicidade], de uma série de fatores que consideramos. E mais ainda com relação ao tipo de filme, porque nem todo filme comercial é bobo e nem todo filme de arte é lúcido.” 

Adhemar Oliveira, diretor do Espaço Petrobrás

Além disso, um fator essencial para o funcionamento do Espaço é o patrocínio, que viabiliza as sessões e diversos projetos realizados no local. Desde janeiro de 2025 o cinema recebe apoio da Petrobrás, que investiu R$5 milhões por dois anos, através da Lei Rouanet, com auxílio da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo e do Ministério da Cultura.

Com esse investimento, foi possível a troca dos projetores das salas para o sistema a laser e a permanência de projetos vinculados ao cinema. Um deles é o Clube do Professor, em que são realizadas sessões exclusivas e gratuitas para professores do ensino formal e informal. Elas acontecem aos sábados e a programação é divulgada no site do Espaço Petrobrás.

Reintegração de posse

Na segunda semana de maio de 2026, o anexo do Espaço Petrobrás e o Café Fellini foram alvo de um processo de reintegração de posse. Oficiais de justiça chegaram no local no dia 14 com caminhões para retirada de móveis e materiais. Quase todo o espaço foi esvaziado e os trabalhadores que estavam no local relataram que foram pegos de surpresa.

O anexo, do outro lado da rua, continua com as atividades paralisadas [Imagem: Alícia Simões]

A empresa que moveu a ação foi a imobiliária Rec Villa 15 Empreendimentos, que é proprietária do imóvel desde 2022, com intuito de construir um prédio residencial. Entretanto, há uma liminar de 2024 que proíbe a demolição do espaço construído na década de 1930. 

Desde a venda do imóvel há quatro anos, frequentadores do cinema se manifestam de forma contrária ao fechamento do anexo. Simone Castro esteve presente nas manifestações e relata que “em 2024 houve uma grande mobilização para que o anexo do Itaú não fosse fechado e nem o Café Fellini ali. Eu lembro que a mobilização era, além de assinaturas, lotar os cinemas, tentar frequentar e mostrar o quanto ele era importante.” Ela conta que nesse momento, viveu sessões muito marcantes, como a de A Última Floresta (2021), que contou com um discurso emocionante de Luiz Bolognesi. 

O anexo, apesar de não abranger as principais salas do Espaço Petrobrás, sempre teve um papel muito importante na valorização do cinema independente, com um espaço para exibir filmes que não fossem exibidos nas salas maiores, mas que talvez não tivessem espaço em outros cinemas. “O anexo é uma coisa, é um capítulo à parte, vamos dizer assim. (…) Ali nasceu o Curta às Seis, ali nasceram todos os filmes que não têm espaço do outro lado da rua, cria-se uma possibilidade de exibir. A SPCine teve um trabalho de acompanhar a programação de dez anos do Anexo, demonstrando como é que ele era vital para filmes de pequeno porte.”, expôs Adhemar Oliveira.

No meio de junho, o Ministério Público Federal pediu a anulação da reintegração de posse que ocorre desde o mês anterior. O MPF se mostrou favorável à documentação apresentada pelo cinema e pelo Ministério Público de São Paulo contra o despejo, o que pode representar uma vitória da cultura frente ao crescimento desenfreado da especulação imobiliária.

Em setembro, o Superior Tribunal de Justiça suspendeu a reintegração de posse, a pedido dos responsáveis pelo cinema. “É muito triste pensar que espaços culturais estão perdendo essas relevâncias”, conclui Castro.

*A capa desta matéria usa imagens editadas de Boaventuravinicius e Ajmcbarreto.

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