Por Manuela Trafane (manutraf@usp.br)
Abandonadas como memória de um espetáculo encerrado, as orcas (Orcinus orca) Wikie e Keijo foram deixadas em tanques vazios do parque Marine Land França, que fechou suas portas no início de 2025 devido à lei francesa que proíbe a apresentação de cetáceos. A empresa demitiu todos os seus veterinários, e os animais que sofreram com esse descaso estariam sob os cuidados de apenas dois treinadores. Toda a situação fez ressurgir um assunto na mídia: a triste história do cativeiro de orcas.

As baleias-assassinas são utilizadas há décadas em apresentações para entreter visitantes de parques aquáticos, entretanto, pouco se sabe sobre os prejuízos causados pelo cativeiro. Hábitos repetitivos, atitudes violentas e evidências físicas demonstram o risco que esses ambientes representam para a vida e para o bem-estar dos animais. Embora diversas providências tenham sido tomadas para melhorar a qualidade e as condições de tratamento, o sofrimento da espécie foi negligenciado por décadas.
Natureza X Cativeiro
Entre os meses de junho e novembro, o Brasil passa pela temporada de baleias. Grupos de cetáceos podem ser avistados pelo litoral da Bahia, do Rio de Janeiro e até de São Paulo. Ainda que a gigante do mar aguardada pelos turistas seja a Baleia Jubarte, é possível observar algumas orcas pela costa brasileira.
A movimentação rumo às águas mais quentes tem um propósito: reprodução. Os animais nadam durante cerca de dois meses e impulsionam o turismo por onde passam. Apesar do apelido de baleias-assassinas, elas costumam ser gentis com turistas, e exibem entusiasmo nas relações com seres humanos — até hoje, nunca registrou-se um ataque a homens na natureza.
Quando se trata das orcas presas, a história é outra. Diversos casos de ataques por parte das “baleias” foram reportados. O mais divulgado pela mídia foi a morte da treinadora do SeaWorld Orlando Dawn Brancheau, em 2010. Uma orca macho, chamada Tilikum, arrastou a profissional de uma plataforma pelo pé, depois pelos cabelos, a escalpelou e consumiu o seu braço.
Em 2013, foi lançado o documentário Blackfish, que denunciava parques aquáticos e criticava a postura do SeaWorld — maior parque aquático do mundo — em relação ao ocorrido. A obra repercutiu mundo afora, unindo pessoas e entidades a favor dos direitos de animais.
A cena ocorreu em meio a um espetáculo, no qual a orca se mostrava relutante ao exercer as manobras usuais. Muitas das pessoas presentes dizem que o acidente teria sido premeditado, e poderia ter sido evitado pela empresa caso ela tivesse tomado os devidos cuidados ou dado atenção aos sinais exibidos pelo animal. Esse não foi o primeiro acidente envolvendo Tilikum: a orca já tinha sido responsável por um afogamento no SeaLand Canada e pela morte de um invasor noturno, encontrado em um dos tanques pela manhã. Mesmo assim, o parque se recusava a retirá-lo das apresentações.
Outras da espécie também se envolveram em casos graves, como decepamento de membros, afogamentos e esmagamentos, além de ataques entre os “golfinhos”. A ausência de casos similares de agressão na natureza indica uma possível motivação para tal frequência no cativeiro: a situação pode impulsionar um comportamento anormal à espécie. Mas os impactos do confinamento vão muito além da agressividade, afetando a estrutura física e até a saúde mental desses animais.
Ambiente hostil
Orcas se locomovem muito nos mares. Além das viagens de regiões polares ao Brasil uma vez por ano, os animais podem percorrer até 225 km por dia; no cativeiro, entretanto, ficam limitadas a pequenos tanques. Para suprir seu instinto em um espaço limitado, elas tendem a se deslocar em círculos, em um hábito quase obsessivo. Além disso, já se observou que as orcas muitas vezes consomem o plástico das piscinas devido à ansiedade, desgastando seus dentes até causar feridas.
A pressão da água nos mares permite que a nadadeira dorsal (estrutura no topo do corpo do animal) fique “de pé”. Como no cativeiro a pressão é inexistente, ela acaba caindo para o lado em que nadam compulsivamente. No documentário Blackfish, treinadores expõem que o SeaWorld afirmava que a deformação era tão comum na natureza quanto em seus parques. O discurso enganoso criava uma falsa impressão sobre o bem-estar dos animais, não apenas ao público, como também aos cuidadores.

Os treinadores não eram responsáveis apenas por cuidar das orcas, mas também por ensinar truques, como pulos, giros, e até montaria. A fórmula de treino também era estressante aos animais: se fizessem a rotina correta, recebiam um peixe; se não, passavam fome. O controle do alimento poderia instaurar um ressentimento em relação aos profissionais, fator que impulsionaria ataques.
Durante o adestramento de Tilikum, uma técnica utilizada foi colocar a orca inexperiente para seu adestramento junto de outras, que já estavam no parque há mais tempo. Caso a novata não fizesse os truques corretamente, nenhuma delas seria alimentada. Devido à frustração, outras baleias-assassinas atacavam Tilikum, que aparecia em apresentações com marcas de mordidas e feridas pelo corpo.
Mas essa não é a única problemática em relação à alimentação. A espécie adquire a maioria da água que necessita a partir do metabolismo dos alimentos. Os peixes congelados que as orcas recebem no cativeiro são muito menores e diferentes daqueles consumidos na natureza, fazendo com que seu processo metabólico não as hidrate suficientemente. Assim, a demanda é suprida de forma artificial, não tão eficiente, via gelo e água potável. Além de peixes, a espécie também caça focas, baleias cinzentas e até filhotes de jubarte, de forma eficiente, e organizada em grupos. Essa habilidade é o que as dá o apelido de assassinas — nada tem a ver com ataques a humanos, como algumas pessoas creem.

Sociabilidade inibida
Assim como seres humanos, as baleias-assassinas se dividem em grupos que compartilham “culturas” diferentes, transmitidas de geração em geração. Ecótipos são populações que apresentam variedades genotípicas e fenotípicas, diferenciadas a partir da seleção natural para facilitar a adaptação a diferentes habitats. O fluxo gênico ainda ocorre, mas os ecótipos distintos têm hábitos alimentares, predatórios, comunicacionais e sociais próprios. Nos oceanos, eles raramente se encontrariam, mas no cativeiro são colocados nos mesmos tanques, o que pode gerar conflitos.
Em 1998, durante apresentação do SeaWorld San Diego, as orcas Corky e Kandu se envolveram em uma briga, competindo, aparentemente, por dominância. O evento causou a morte de Kandu devido ao rompimento de uma artéria.
As relações entre indivíduos vão além de comunitárias. Em entrevista a BBC News, o biólogo conservacionista Rob Williams afirmou que a orca “trata-se do mamífero mais sociável da Terra, mais até que o homem”, demonstrado pelo forte laço entre mães e filhotes. A prole nunca abandona sua matriarca, podendo até desenvolver uma família própria sem se separar da ligação parental.
A ex-treinadora do SeaWorld Carol Ray, conta a história da orca Kalina, de três anos, que foi separada de sua mãe Katina por conta de comportamentos erráticos e desafiadores. Ao retirarem Kalina do tanque compartilhado, Katina passou a emitir sons estridentes, chamados de assobios, em busca de sua prole. Segundo a profissional, era parecido com uma forma de luto e revolta, e outras orcas fêmeas foram confortá-la durante a noite do ocorrido.
Ultrapassando a perspectiva emocional, as ligações são biológicas. O estudo Lateralization of spatial relationships between wild mother and infant orcas explora uma tendência dos filhotes nadarem ao lado esquerdo das mães em situações perigosas. A chamada “lateralização” é influenciada pela percepção de ameaça — no caso estudado, um barco. O artigo explica que quando a lateralização não é obedecida, como nos parques, ambas as orcas podem ficar estressadas, e seu comportamento se torna mais imprevisível e agressivo.

O falso discurso conservacionista
A página do site oficial do SeaWorld diz: “Temos uma missão — e ela é grandiosa. Do parque ao planeta, estamos comprometidos em proteger e conservar animais em todo o mundo.” O texto continua, afirmando que os parques são importantes para o estudo de cetáceos, uma prática conservacionista. Mas se relações sociais não são respeitadas e o ambiente propicia mudanças comportamentais e físicas, o que esta sendo “conservado” não é a existência natural da espécie.
Nos últimos anos, o SeaWorld adotou uma série de reformas. O parque otimizou instalações para se adequarem às necessidades dos animais, e o espetáculo teatral Shamu, do qual Tilikum e seus companheiros participavam, acabou.
No entanto, o discurso conservacionista tem sido questionado por especialistas que enxergam, na retórica ambiental, uma fachada para a manutenção de lucros em detrimento do bem-estar animal.
Em entrevista ao Laboratório, o Pesquisador do Núcleo Ética e Direito Animal do Diversitas (FFLCH/USP), Laerte Levai, afirmou que o animal em cativeiro está sendo subvertido em sua natureza. A sociedade teria construído a ideia de zoológicos e parques aquáticos como naturais, quando são instituições culturais.
“Quando você pensa no animal, sempre tem que pensar na liberdade”
Laerte Levai
A permissividade da apresentação, sem considerar as consequências físicas e psicológicas causadas aos animais, transforma-os em meros objetos. O sentido da vida da orca passa a ser o uso recreativo pelos humanos, e sua existência é tratada como forma de diversão pública. Por isso, há uma luta no direito ativista brasileiro para que elas sejam consideradas seres sencientes perante a lei, ou seja, indivíduos que sentem.
Levai continua dizendo que o argumento de conservação é vazio quando as instituições continuam buscando lucro. O convívio excessivo com humanos não é natural à fauna, e gera efeitos negativos a ambos os envolvidos, como evidenciado nos ataques de orcas.
A fim de exemplificar uma conduta responsável, o pesquisador traz à tona o projeto SEB (Santuário de elefantes no Brasil). Seus mantenedores afirmam que a visitação desnatura a própria finalidade do santuário. Os animais, nesse caso, são expostos ao mínimo contato, com uma vida próxima à que teriam na selva — uma alternativa verdadeiramente conservacionista e mais positiva do que parques e zoológicos.
Contudo, Laerte afirma existir uma exceção: “animais que sofreram lesões ou violência não tem como serem introduzidos na natureza”. Eles precisam do cativeiro e do contato humano artificial, já que exigem contato direto com tratamentos.
História do cativeiro de orcas

A primeira orca a se apresentar ao público foi Moby Doll. Em 1964, o macho teve uma lança atirada no meio de seu corpo. O objetivo era matá-lo, mas ele se mostrou relutante, gritando e se debatendo mesmo após tiros de rifle. Devido à persistência, o golfinho foi levado a um aquário, onde permaneceu em um pequeno contêiner no Canadá por oitenta e sete dias, quando morreu por problemas de pele.
Moby Doll deixou um legado. O contato próximo com a temida baleia-assassina fez a sociedade perceber que elas não eram tão perigosas. Gentil e complacente, Moby mudou a perspectiva a respeito dos animais, mas deixou um vazio ao partir.
Um ano depois, em 1965, o espaço foi preenchido por Namu. A fêmea foi capturada por um pescador, que ligou ao dono do Seattle Marine Aquarium. Obcecado pelos cetáceos, Ted Griffin a comprou por 8.000 dólares, e se mostrou determinado a compartilhar com o mundo a natureza dócil da espécie. Mesmo sendo denominado louco, pulou no tanque da orca e começou a se apresentar junto dela. Infelizmente, assim como seu precursor, Namu morreu em menos de um ano, após contrair uma infecção bacteriana.
O dono do aquário viu ali uma oportunidade de negócios. Todos amavam o espetáculo, e mais de 120 000 pessoas foram ver a “assassina domada”. Griffin começou uma companhia de caça baleeira em Washington, a Namu Inc., cujo maior cliente era o SeaWorld — que comprou deles Shamu, sua primeira baleia-assassina que originou o nome do principal espetáculo do parque por muito tempo.
Frente ao crescimento da prática e antecipando consequências negativas à fauna, o governo de Washington proibiu a caça às baleias. Desesperados em busca de mais espécimes, os barcos migraram para a Islândia.
Mas o problema não está longe da realidade do Brasil, que também teve sua própria história de espetáculos com orcas. Foi da Islândia que o país recebeu dois espécimes: Nandu e Samoa. Em 1984, a dupla foi transportada até São Paulo, onde chegaram de avião no aeroporto Vira Copos. Seu destino era o PlayCenter, parque de diversões famoso por montanhas-russas e pela boneca Eva, mas que ganhou atenção devido ao Orca Show.
As duas se apresentaram por cinco anos, até a morte de Nandu. Samoa foi transferida para Ohio, devido à natureza social da espécie que não permitia sua solidão. Ela morreu alguns anos depois por uma infecção fúngica, a mesma causa de morte de outros três golfinhos que habitaram o PlayCenter.
Após anos de apresentações bem-sucedidas pelo mundo, a evidência de maus-tratos às orcas fez com que sua popularidade decaísse. Hoje, os animais não sofrem com a caça, e sua inseminação artificial acabou, quase por inteiro, em 2016.
Mesmo que a exploração das baleias-assassinas aparente estar chegando ao seu fim, Laerte lembra que sua história não deve ser esquecida, para não se repetir. O profissional diz que devemos lutar por legislação mais incisiva, para que o bem-estar da fauna ultrapasse a procura por diversão e lucro. “Muitos (animais) já estão nessa situação e não conseguem ser reintroduzidos na natureza, ou de alguma outra forma, se recuperar do cativeiro. Mas os que estão vindo, não; não se pode perpetuar a situação.”, conclui.
Caso queira saber um pouco mais sobre o treinamento de orcas, confira os artigos: I trained killer whales at SeaWorld for 12 years. Here’s why I quit., Por que orcas em cativeiro são perigosas e Why Would a Trained Orca Kill a Human?.






