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Cheerleading: um esporte em ascendência no Brasil

A importância e o funcionamento da união entre o artístico e o preparo físico no novo esporte

ARQUIBANCADA
27 abr 2021 | Por Juliana Matias (julianasilvamatias.jsm@usp.br)

Já se tornou clichê de filme americano os cheerleaders, ou líderes de torcida, com seus pompons e cambalhotas, torcendo ao redor dos jogos de futebol americano. Mas, afinal, o que é o cheerleading? É considerado um esporte? 

O cheerleading é um esporte americano que surgiu em 1887 na Universidade de Princeton e desde então é praticado nos EUA. Entretanto, ele chegou ao Brasil muito recentemente, somente em 2008, por meio da Comissão Paulista de Cheerleading. Nessa época, o cheerleading ainda não era nem mesmo considerado prática esportiva. Foi somente a partir de 2012 que o SportAccord, organização que reúne todas as federações internacionais de esportes, reconheceu o cheerleading como esporte. 

A partir daí, em 2016, o Comitê Olímpico Internacional (COI), além de reconhecer o esporte, também reconheceu a União Internacional de Cheerleading (ICU). Atualmente, fala-se que o cheerleading é um esporte quase olímpico e as expectativas são altas com relação à inclusão da modalidade nas Olimpíadas.

William Ferraz, mestrando em “Inserção do cheerleading no cenário esportivo brasileiro” pela EACH-USP (Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo) e atual treinador das Goldens (ECA-USP) e da Uninove Med Osasco, explica como acontece o processo de inclusão de uma modalidade nos Jogos: 

“O cheerleading foi convidado para fazer uma demonstração, só apresentação, mas sem competição nas Olimpíadas de Tóquio. A ideia do esporte de demonstração é que você demonstre em uma Olimpíada para poder competir na outra. O boato é que o cheerleading vire modalidade oficial nas Olimpíadas de Los Angeles que vão ocorrer em 2028. Por que Los Angeles? Porque é nos EUA, o ‘cheer’ nasceu nos EUA”.

Entretanto, mesmo com todo o destaque que o cheerleading tem no cenário internacional, no Brasil, o esporte ainda é pouco conhecido. Isso porque ele chegou há pouco tempo no país e, mesmo com toda difusão, as pessoas ainda possuem uma visão estereotipada desse esporte. Mas como ele realmente funciona? Como ele é praticado no cenário brasileiro?

 

Figuras e movimentos

O cheerleading é um esporte que trabalha o lado artístico e esportivo de um atleta. A maioria dos movimentos exigem um bom preparo físico e uma ótima expressão corporal e facial. A prática do cheerleading acontece a partir de cinco tipos de atividade: jump, tumbling, stunt, pirâmides e dança. A partir dessas categorias, o esporte se desenrola em subcategorias, com movimentos e figuras cada vez mais específicos.

Os jumps podem ser categorizados pelos spreads eagles, que são saltos com os braços e pernas estendidas; pelos tucks, quando o cheerleader traz as pernas o mais próximo do corpo e mantém os braços levantados; os hurdles, movimento em que o atleta traz a perna dianteira quase em paralelo ao corpo e mantém a perna traseira dobrada, entre outros.   

Imagem de jump

Jump [Imagem: Wikipedia Commons]

Os tumblings são acrobacias no ar e podem ser divididos em diversas subcategorias. Existe a parada de mãos, momento em que um atleta fica de cabeça para baixo na vertical, apoiado pelas mãos; as estrelas; as reversões, movimento que os atletas fazem a transição de uma posição de pé para uma ponte traseira e em seguida retornam de pé; cambalhotas, entre outros. 

 Tumbling

Tumbling [Imagem: Pixabay]

Já nos stunts, há três tipos de base: laterais, composta geralmente por dois atletas que sustentam a flyer pelos pés; backspot, que é a base traseira que auxilia na elevação da flyer e na sustentação; e a frontspot, a base frontal que auxilia a flyer a subir e a manter-se no alto. Não é obrigatório que todos os stunts tenham todas as bases.

Imagem de stunt

Stunt [Imagem: Wikipedia Commons]

As pirâmides não são nada mais que a junção de dois ou mais stunts. “Se você juntar um stunt com forma uma pirâmide, conforme vai se adicionando stunts, a pirâmide vai aumentando. Pode ter um andar, dois andares e ela vai crescendo o quanto der”, como William expõe. 

Pirâmide [Imagem: Creative Commons]

A dança no cheerleading possui movimentos e passos mais marcados e é sempre muito sincronizada. William ressalta que “a dança trabalha bastante expressão corporal, expressão facial, que o ‘cheer’ é totalmente alegre e feliz”, expondo um lado mais artístico do líder de torcida. 

Um cheerleader pode ter diversas funções dentro de uma rotina, que é o nome dado às apresentações feitas nas disputas. Em um stunt, por exemplo, o atleta pode ocupar a posição de base ou flyer. Além disso, “o ideal seria que todo mundo fizesse tumbling, a equipe vai precisar porque se todo mundo fizer, o time pontua. Porém,  o Varsity (código de regras utilizado nos campeonatos brasileiros), por exemplo, pede só que 70% da equipe faça. A partir disso, sendo base, sendo flyer, todo mundo faz jump e todo mundo dança”, afirma William.

 

Por dentro de um treino de cheerleading

Todas essas figuras e movimentos que os atletas realizam com sorrisos nos rostos e expressão radiante exigem, entretanto, um bom preparo físico. Em um treino de cheerleading, é trabalhado tanto os membros superiores quanto os inferiores, utilizando a musculatura do corpo todo. 

“O atleta de cheerleading precisa ter um preparo físico decente, porque é um esporte pesado, cansativo  e que demanda bastante força, flexibilidade, equilíbrio e resistência física. Além disso, a gente tenta trabalhar as habilidades mais técnicas que são correlacionadas a stunt, à pirâmide e às posições de perna, de corpo. Precisa trabalhar dança, expressão corporal também”, explica Willian. 

É somente através de muito treino e dedicação que uma equipe consegue atingir um alto rendimento no cheerleading. Mas além de benefícios para a equipe, os treinamentos também têm suas vantagens para os atletas individualmente. Um cheerleader, ao trabalhar seu condicionamento físico, consegue se manter ativo e “com isso ele consegue melhorar sua saúde com o decorrer do tempo”, William acrescenta. Não somente à saúde física, a prática de esportes, no geral, também traz benefícios à saúde mental dos atletas. O exercício físico faz com que o cérebro libere neurotransmissores, como as endorfinas, fazendo o esportista sentir-se melhor.

 

Campeonatos e competições pelo Brasil

Após muito treino e preparo, é chegada a hora das competições. No Brasil, os torneios de cheerleading vêm recebendo cada vez mais equipes do Brasil todo. Já existem diversos campeonatos acontecendo por todo o país, como o Cheerfest, o Campeonato Brasileiro de Cheerleading e também várias outras competições universitárias. 

O esporte  divide-se em duas categorias principais na competição: a All Star ou Open e a Universitária. “As equipes All Star estão vinculadas a ginásios de cheerleading, enquanto as equipes universitárias são formadas por alunos universitários de uma faculdade e/ou curso específico”, explicam os organizadores do  Campeonato Brasileiro de Cheerleading em entrevista concedida ao Arquibancada

As competições são feitas por meio de rotinas de dois minutos e meio, quando os atletas apresentam todas as cinco principais atividades e suas subcategorias. Essas rotinas devem ser executadas ao som de um mix, que pode ser a junção de diversas músicas, com letras específicas para a equipe, ou vozes com o nome da equipe. 

A avaliação das rotinas é feita pelos seguintes critérios: “Técnica, habilidade e criatividade. As equipes são separadas por níveis e realizam os movimentos obrigatórios para o nível que estejam competindo”, explicam os organizadores do Campeonato Brasileiro. 

Os campeonatos têm como regulamento o Varsity, que é o código de regras do esporte, definindo quais habilidades cabem em cada nível. Existem seis níveis no cheerleading, eles partem do mais básico ao mais elaborado. No Brasil, a maioria das equipes universitárias competem no nível 2, mas existem algumas que chegam até mesmo ao nível 4. 

Além das competições em equipes, também existem as categorias individuais, como a Best Cheer, na qual um atleta compete fazendo dança, tumbling e jump;  categorias com menor número de integrantes como a Best Stunt, entre outros.

Goldens ECA USP [Imagem: Paola Papini]

O cheerleading como ferramenta de inclusão

O cheerleading, no cenário brasileiro, ao contrário da visão estereotipada, é um esporte muito inclusivo. Não é necessário padrões corporais para ser um líder de torcida. E, principalmente quando falamos da categoria universitária, o esporte também pode ajudar na inserção dos estudantes no ambiente universitário. 

“É um esporte que acolhe todo mundo. Precisa de muita força de vontade, a partir disso todo o restante você consegue, força, flexibilidade. É um esporte que é inclusivo e você consegue se inserir em qualquer parte do time que seja necessária, você fazendo base, fazendo flyer, fazendo tumbling. Ele realmente tem espaço pra todo mundo. E eu, enquanto treinador, já consegui colocar todo mundo ali, independente da altura, do peso, do formato físico”, William ressalta. 

Toda as habilidades necessárias para ser cheerleader podem ser obtidas nos treinos, com muita prática e ensaio. Além disso, “devido aos níveis, todo mundo consegue se encaixar”, William completa. 

Goldens ECA USP [Imagem: Paola Papini]

Já no cenário universitário brasileiro, o cheerleading pode ser usado como ferramenta de inclusão dos estudantes no ambiente universitário. João Lucas Martins, cheerleader das equipes UFLA Cheer e Panthera Cheers da Universidade Federal de Lavras (UFLA), conta como o cheerleading afetou seu estilo de vida e suas relações dentro da universidade: 

“A primeira mudança que  senti foi na parte de desmistificação do esporte. As pessoas têm aquela visão estereotipada do cheerleading e, quando comecei a fazer, vi que não era nada daquilo. Afetou também as minhas relações pessoais, principalmente por ser um esporte em equipe que exige que as pessoas sejam bem unidas e tenham uma boa ligação. Senti muita mudança física também e um aumento na minha coordenação motora, concentração e disciplina. Tudo isso afeta diretamente na minha vida e no meu dia a dia, pois fizeram com que eu me conhecesse melhor e mudasse meu estilo de vida”.

Durante um treino de cheerleading, diversos movimentos perigosos, envolvendo altura, são executados. Um stunt, por exemplo, exige que a flyer confie nas bases e que estas estejam sempre prontas para ampará-la. Esse nível de interação promove uma confiança e gera nos atletas uma sensação de pertencimento a um grupo, uma unidade.

Não somente dentro de uma equipe, “em uma boa perfomance, o esporte exige também uma interação do público. O impacto na vida social de quem participa é enorme devido ao nível de integração que o cheerleading leva e o vínculo que se forma com as pessoas da equipe”, relata João. 

O entrosamento do estudante no ambiente universitário é muito importante, pois diminui as chances de que ele abandone a universidade. “Os esportes em geral fazem isso, só que o cheerleading faz muito bem, é um esporte animado, as pessoas ficam engajadas quando fazem. Essa sensação de estar com o uniforme e ser reconhecido, de o atleta se identificar com uma equipe, fazer parte de um grupo, isso pra saúde mental é sensacional, sem contar os benefícios físicos”, como William salienta. 

Goldens ECA USP [Imagem: Paola Papini]

Apesar de todos os benefícios que o cheerleading pode trazer, ele não é devidamente valorizado no país. Ainda existem poucos incentivos governamentais aos cheerleaders e ao cheerleading em geral. “Como o cheerleading é um esporte muito novo no Brasil, ainda é um pouco difícil encontrar patrocínio, mas eu percebi que nos últimos anos tem muita demanda de trabalho. Então é um esporte que tem margem para crescer”, explica William. 

Mesmo novo, o cheerleading vem ganhando corações e também mais espaço entre os brasileiros, como os organizadores do Campeonato Brasileiro de Cheerleading ressaltam: “O cheerleading no Brasil e no mundo vem evoluindo a cada dia mais, fazendo com que a inclusão seja maior ainda. A inclusão de pessoas não estereotipadas faz com que o esporte seja mais democrático, abrindo mais espaço para diversidade”.

Arquibancada
O Arquibancada é a editoria de esportes da Jornalismo Júnior desde 2015, quando foi criado. Desde então, muito esporte e curiosidades rolam soltos pelo site, sempre duas vezes na semana. Aqui, o melhor de todas as modalidades, de todos os pontos de vista.
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