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Coreografias impecáveis e conflitos silenciosos compõem Reset

Benjamin Millepied ouve música em seu smartphone enquanto anda por seu apartamento parisiense. Não é o que você inicialmente pensaria, mas ele é o novo diretor da dança de uma das maiores companhias de ballet de todo o mundo, o Paris Opera Ballet (POB). Agora, está ouvindo demos da possível trilha sonora do seu primeiro …

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Benjamin Millepied ouve música em seu smartphone enquanto anda por seu apartamento parisiense. Não é o que você inicialmente pensaria, mas ele é o novo diretor da dança de uma das maiores companhias de ballet de todo o mundo, o Paris Opera Ballet (POB). Agora, está ouvindo demos da possível trilha sonora do seu primeiro espetáculo autoral neste imponente cargo. Quando termina, retira os fones de ouvido, e exclama: “Incrível. Magnífico.” Por trás da excitação, sua tarefa é apavorante: ele tem apenas 33 minutos para provar seu valor para o público geral e também interno da companhia, no documentário Reset (Relève: Histoire d’une création, 2015)

Ex primeiro bailarino do New York City Ballet, no entanto mais conhecido por ter coreografado para o filme Cisne Negro (Black Swan, 2010) – onde conhece Natalie Portman, com quem hoje é casado, e que figura brevemente, como um easter egg, no documentário -, Millepied tem a mente tão jovem e contrastante quanto ele próprio aparenta ser em meio ao cenário barroco da Ópera. Ele veste camisetas e calças de moletom e contrata uma figurinista, um maestro e um compositor tão jovens e excêntricos quanto ele próprio. Ele calça sapatos de jazz e carrega seu notebook enquanto arrisca os primeiros passos de sua nova criação.

Imagem: Reprodução

Enquanto o coreógrafo tem a mente perpetuamente absorvida no processo criativo, imaginando movimentos enquanto ouve música ou tamborilando os dedos em sua mesa, sua assistente Virginia vai ao seu encalço, freneticamente atendendo muitas ligações e fazendo outras tantas, anotando, pedindo assinaturas, e cuidando de tudo aquilo que “não combina” com a personalidade de Millepied. Estando em uma companhia desta dimensão e relevância, a burocracia é um obstáculo constante a Benjamin, que a afasta e detesta. Este é apenas um dos muitos conflitos que ele enfrentará no novo cargo.

Reset tem como pano de fundo um impasse já antigo para a dança. A manutenção da história, da técnica clássica e do legado de coreógrafos e dançarinos de renome conflita com o desejo popular entre a juventude de reinventar e dar nova vida ao balé. Com sua metodologia e coreografia, Millepied aproxima-se da dança contemporânea e afasta-se do ballet clássico, tão prezado na França, uma de suas nações expoentes.

A primeira decisão controversa do diretor é escalar apenas dançarinos do corpo de baile – o corps, ranking mais baixo dentre os dançarinos contratados pela companhia – em seu balé. Nisto, ele vai de encontro com a tradicional pirâmide hierárquica que propõe papéis de destaque somente aos bailarinos principais. E esta é exatamente sua intenção. Depois, ele seleciona a bailarina Letizia Galloni para protagonizar o balé de repertório La Fille Mal Gardée: ela, além de membra do corps, passa a ser a primeira bailarina não-branca a conquistar o papel principal. Com isso, Millepied espera trazer maior diversidade à atrasada Opera.

A preocupação de Benjamin com seus dançarinos é comovente, especialmente em um meio em que muitos são instruídos a dançar através da dor e das lesões. Ele contrata médicos para incentivá-los a se hidratarem, massageia o pé lesionado de uma bailarina, e indigna-se com o atendimento negligente a ela prestado.

E, sempre com visão inovadora, Millepied pede aos membros para expressarem-se e soltarem seus corpos enquanto dançam, deixando suas personalidades únicas irromperem os movimentos: algo que, na disciplina rigorosa do balé clássico, é no mínimo perigoso.

Imagem: Reprodução

O desafio de Millepied parece interminável. Greves de funcionários do Opera ameaçam adiar a estréia do espetáculo, que, a menos de um mês da primeira noite, ainda não está concluído. Todavia o stress do diretor e do restante dos envolvidos na produção, talvez intencionalmente, não é apresentado no filme de forma dramática – pelo contrário, é subjetivado, e em ponto algum o espectador é permitido sentir uma ameaça iminente do fracasso.

O documentário é, acima de tudo, incrivelmente artístico. Possui uma paleta de cores pouco variável do início ao fim – exceto em vislumbres do espetáculo em si. Trabalha com ângulos intimistas, focando em detalhes como o posicionamento de mãos e pés dos dançarinos e seus rostos, enquanto ouvem as correções gentis de Millepied. A trilha sonora é parte fortemente ativa do longa, desde o deslizar das sapatilhas de ponta no piso às explosões de música durante os ensaios, e parece complementar perfeitamente o propósito e a estética de cada cena.

E a dança é maravilhosa, como já era de se esperar. Alguns erros podem ser capturados por olhos mais acostumados à técnica clássica, porém são perfeitamente cabíveis à proposta do filme, e à dançarinos trabalhando por longas horas todos os dias.

Imagem: Reprodução

Reset é belo, imersivo e repleto de movimento, gerando um apelo visual que talvez distraia de seu fraco apelo emocional. É certamente um prato cheio para amantes da dança, e capaz de arrepiar até quem não é tão fã.

O documentário estreia no dia 25 de maio. Confira o trailer abaixo!

por Juliana Santos
jusantosgoncalves@gmail.com 

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