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Crônica | Escravo das agulhas

Acompanhe o relato de Pedro em sua luta contra a dependência em anabolizantes, vício que vitimou Marcos “DJ Macaully” Paz e Jodi Vance
Agulha sendo injetada no braço de uma pessoa
Por Luiz Dias (lhp.dias11973@usp.br)

O som da televisão parecia vir do fundo de um aquário, um gosto ácido subiu à boca enquanto meus olhos injetados passavam pelo letreiro do jornal. “Fisiculturista morre aos 32 anos, vítima de ataque cardíaco”. Meu braço tensionou e tive que recuar um pouco conforme o coração disparava, na tentativa de conter a onda de desespero que tomava controle do meu corpo.

Sentei na cama, o coração acelerado, eu tentava recuperar o fôlego. Repetia para mim mesmo que aquilo era apenas uma crise de ansiedade, mas sempre havia uma dúvida — e se dessa vez fosse realmente um infarto? Aquele medo constante ainda me assombrava, mas para entendê-lo, talvez tenha que conhecer um pouco da minha história.

O ano era 2022, e eu era mais um cara que entrou na onda da academia, os famosos “projetinhos”. Estava obcecado com os vídeos de treinos, essa sanha por me tornar cada vez melhor, estava apaixonado. E sinceramente, após quase dois anos preso em casa por causa da pandemia, as academias eram um oásis.

O começo foi difícil: os treinos eram exaustivos e as dores no outro dia eram debilitantes, pensei em desistir mais de uma vez. Porém, essa vontade parou assim que os resultados começaram a aparecer, seguidos de elogios que até então eram inexistentes. Eu não estava acostumado com aquilo, era inebriante, e me ajudou a aderir a esse novo estilo de vida.

Mas a felicidade durou pouco. Conforme o tempo passou, a evolução, tão rápida nos primeiros meses, desacelerou até a estagnação, me enchendo de frustração. Olhando nas redes, todos estavam evoluindo tão rápido, por que não eu? Tantas pessoas teoricamente naturais conseguindo 20 quilos de massa magra em um mês enquanto eu lutava por um quilo a cada semestre, eu me achava uma piada.

Aliado a esse humor cada vez mais mórbido, havia um pensamento intrusivo, como um diabrete no meu ombro: “Por que não ir pelo caminho mais rápido?”. Acho que todo mundo que já pisou em uma academia já teve esse pensamento, constantemente. Eu me esforcei tanto e não evolui, porque não usar os esteroides que vejo todos fazendo tanta propaganda por aí? Os ganhos de um ano em um mês, era tentador.

O que sempre me impedia de aderir ao uso de anabolizantes era o medo. Os avisos de alguns influenciadores, como o Rodrigo Góes, sobre os perigos dessas substâncias me aterrorizavam. No entanto, o medo diminuía a cada vídeo zombando da esperança de um natural se tornar grande, a cada propaganda de influenciador patrocinado.

O medo foi suplantado pela curiosidade que me fez entrar em um link nas páginas dos próprios influenciadores, onde fui apresentado a um verdadeiro cardápio, com preços e opções acessíveis a partir de R$100. A culpa me fez fechar a tabela, mas a curiosidade nunca me deixou apagá-la, me fazendo constantemente voltar para dar uma nova olhada, até que a culpa e o medo não eram mais suficientes para conter minha ganância, e eu cedi.

Em uma epifania aparentemente racional, eu cheguei à conclusão de que poderia usar apenas pequenas dosagens, não me viciaria e os colaterais seriam pequenos. Com apenas um mês e uma ampola, teria os tão prometidos resultados e depois pararia. Queria poder voltar no tempo e bater com um halter na minha cabeça.

Minha porta de entrada foi a durateston, droga produzida a partir do hormônio masculino, a testosterona. Me senti horrível durante as primeiras aplicações, injetando o veneno nas minhas veias escondido no banheiro como um viciado. Passei uma semana sem resultados, apenas culpa e medo, mas não demorou tanto para os efeitos começarem a chegar: força, virilidade, desempenho. Eu me sentia um super-herói.

Tudo aquilo que desejava tinha voltado ainda melhor: a atenção, os elogios, naquele momento tudo valia a pena. Aquele único mês e ampola foram estendidos para mais um, talvez dobrar a dose não fosse algo tão ruim? Talvez injetar pequenas doses de oxandrolona para ficar mais definido também não fosse fazer tão mal. Talvez, adicionar um quarto de pílula de hemogenin para aumentar um pouco a força não faria mal…

Não é difícil imaginar aonde isso me levou: aumento de doses e substâncias. Minha geladeira e armário haviam se tornado farmácias pessoais com ampolas, frascos e seringas. Mas até aí nada tinha mudado, tudo estava bem, não estava?

Eu via alguns colaterais no meu corpo, meu cabelo estava ficando mais ralo e minhas costas se enchiam de espinhas, mas nada com o que eu não pudesse lidar, pelo menos era o que eu achava. As pessoas estavam se afastando, eu estava me isolando, pouco a pouco, sem perceber o que estava acontecendo. Minhas amizades estavam se limitando apenas à academia, enquanto minhas outras relações só se deterioraram.

Meu ponto de virada foi em um dia que corria como qualquer outro, até eu urinar sangue no banheiro. Minhas ilusões de “isso nunca vai acontecer comigo” se dissolveram como o sangue naquela água, sujas, escondidas em um lugar que minha cegueira não me deixava ver. O medo, censurado por tanto tempo, irrompeu como um trovão na minha consciência, enquanto o coração saltava em explosões lancinantes. Finalmente cheguei à conclusão que podia morrer e tudo que acreditava caiu por terra.

Eu me tornei forte para viver melhor ou eu estava vivendo para ser forte?

Aquela foi a primeira de muitas crises de ansiedade, o medo se tornou o novo porta-voz da minha mente e tomei outra medida igualmente imprudente. Joguei tudo no lixo, cada ampola e pílula foi descartada sem pudor. Porém, se livrar de um vício não era tão fácil, não era só meu corpo que tinha se viciado, minha mente também, e talvez ela fosse o maior obstáculo.

Os sintomas comuns da abstinência estavam presentes, mas o que mais me destruía era o espelho. Cada vez menor e mais magro, tudo tinha sido em vão? Aquela pessoa cada vez mais franzina era eu? Não podia ser. Sem saber, eu estava sofrendo com vigorexia, ou dismorfia corporal, um transtorno de disforia de imagem que me fazia acreditar que eu era menos musculoso do que realmente era. Um inimigo antigo que voltava para me atormentar agora com mais intensidade.

Homem olhando-se no espelho e vendo seu reflexo distorcido

Foram observadas taxas de dismorfia em praticantes de musculação que podiam alcançar mais de 50% de acordo com estudos dos anos 2000-2010, antes mesmo da popularização das redes sociais. [Reprodução/Wikimedia Commons]

Não bastasse os efeitos psicológicos, o físico começou a se deteriorar de forma severa. O abandono das substâncias de forma tão abrupta, acabou por me gerar um quadro de hipogonadismo. De forma simples, meus testículos atrofiaram, sem precisar produzir testosterona com tanta introdução externa, eles pararam de funcionar. Agora sem as doses, eu não tinha mais hormônios, nem de fora e nem de dentro.

A falta de testosterona estava me destruindo, estava fraco, com variações de humor e disfunção erétil, não sei quantas vezes não pensei em acabar com tudo, eu me sentia patético. Até que decidi procurar um médico e, ironicamente, a solução dos meus problemas era retomar o uso de anabolizantes, em uma terapia conhecida como Terapia Pós-Ciclo (TPC), em que eu tomaria pequenas doses para suprir minha necessidade de hormônio, até meu corpo retomar a produção natural.

O retorno às substâncias foi agridoce, o medo gritava alto, mas havia uma parte bem lá no fundo de mim que estava feliz em poder voltar a usá-las. Sinto nojo, mas não posso negar que havia uma pequena faísca de esperança de ser grande novamente. Porém, a constatação de quanto eu parecia um viciado qualquer gerava repulsa o bastante para cessar essa linha de pensamentos.

Mesmo em tratamento, não consegui apagar os anos de uso. Perdi boa parte do meu cabelo, minha aparência envelheceu 15 anos e até hoje enfrento problemas com disfunção erétil. Tenho que tomar uma rodada de remédios diários para conter os danos nos fígados e rins, além de terapia semanal para aceitar que aquela carcaça magricela que eu via no espelho, era eu. Que belo negócio, né?

Porém, eu conto esse relato de um lugar privilegiado, ainda tive a chance de buscar tratamento. Marcos “DJ Macaully” Paz estava no noticiário hoje: morto antes de conseguir pedir ajuda. No começo do mês, Jodi Vance foi vítima de diuréticos, desidratada atrás dos palcos do Arnold Classic Ohio 2025. Todos buscando a glória de um corpo perfeito, mas eu tive chance de escapar, eles não. 

Mas essas são apenas as mortes que foram noticiadas. Para cada Shawn Rhoden, cinco outros praticantes amadores morrem na preparação para, quem sabe, conseguir um pro card para competir profissionalmente. Para cada Aziz “Zyzz” Shavershian, dez jovens morreram de infarto misturando esteroides com álcool na busca de um estilo de vida insano.

E é dessa forma que eu sigo minha vida, fazendo meu tratamento na medida do possível. Porém, sempre com aquele maldito diabinho sussurrando na minha mente: “Se eu não tivesse abusado, poderia ter tido os resultados, mas sem os colaterais”. Olho para a ampola de testosterona na geladeira com um olhar faminto.

E se eu aumentasse as doses de reposição, só um pouquinho…?

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