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Netflix | ‘O Recepcionista’: quando a sucessão de erros aluga um quarto

Previsibilidade e preconceitos marcam o longa comprado pela Netflix em 2020

CINÉFILOS
10 jun 2021 | Por Rebeca Fonseca de Ávila (rebecafonsecadeavila@usp.br)

O Recepcionista (The Night Clerk, 2020), filme dirigido e escrito por Michael Cristofer, narra o universo particular de Bart Bromley (Tye Sheridan), um recepcionista de hotel, voyeurista e que está dentro do espectro autista, por 90 minutos. O jovem tem o hábito de observar a vida dos hóspedes através de câmeras secretas instaladas nos quartos, mas esse costume, até então inofensivo para ele, torna-se prejudicial quando Bart presencia uma mulher sendo assassinada por seu amante e não encontra meios de ajudar a resolver o caso sem ser incriminado.

A história segue pela inserção de personagens planas e aleatórias, tais quais o homicida e a vítima. Andrea Rivera (Ana de Armas) é um desses casos, ela torna-se uma nova hóspede e o novo foco de atenção secreta de Bart. Porém, é claro que ela seria diferente das outras pessoas que cruzam o caminho do recepcionista, afinal, por já ter tido um irmão com Asperger, ela compreende as dificuldades interacionais dele, o que é um das muitas coincidências inverossímeis que a trama de O Recepcionista nos impõe. 

Em cena de O Recepcionista, moça está de pé apoiada no balcão e rapaz está sentada atrás do balcão.

Andrea fazendo check-in no hotel e tendo seu primeiro contato com Bart [Imagem: Divulgação/Saban Films]

O desenrolar do filme O Recepcionista é composto por outros exageros improváveis, além de ser previsível e confuso, em razão da tentativa de interligar micro-histórias sem focar em nenhuma. Por estar na cena do crime minutos depois dele ocorrer, Bart torna-se o principal suspeito do assassinato, entretanto não há provas de seu envolvimento, então ele continua trabalhando como recepcionista no hotel. Esse fio condutor do caso de homicídio é frágil e se perde diante das longas conversas de Bart com Andrea sobre como ele não é ingênuo ou estranho, apesar de ser percebido dessa maneira. Em determinado momento, é cabível questionar se o foco do enredo são esses diálogos superficiais e monótonos.

É complicado fazer uma diferenciação precisa entre personagens principais e secundários em O Recepcionista. Além dos já citados, há o detetive Espada (John Leguizamo) que investiga o crime e acusa o recepcionista; o amante (Johnathon Schaech) e a mãe de Bart, Ethel Bromley, interpretada por Helen Hunt, cujo potencial cênico foi extremamente subaproveitado na trama. Não foi conferida a nenhum deles a profundidade necessária para torná-los atraentes ou evocar a mínima simpatização do público. 

Em cena de o Recepcionista, Bart, jovem rapaz loiro, vestindo gravata social e gravata, sentado em um banco é interrogado pelo investigador, homem em pé vestindo terno.Bart sendo interrogado pelo detetive Espada [Imagem: Divulgação/Saban Films]

Bart sendo interrogado pelo detetive Espada Bart sendo interrogado pelo detetive Espada [Imagem: Divulgação/Saban Films]

Como se não bastassem, os problemas do longa O Recepcionista não estão apenas em seu enredo, mas também na caracterização dos personagens. A performance de Tye Sheridan seria digna de elogios, não fossem as inúmeras estereotipias autistas por ele personificadas. A construção do arquétipo autista, baseado na ingenuidade, excentricidade, incapacidade de manter contato visual e de estabelecer diálogos, não é mérito de Michael Cristofer. Essa representação reducionista já foi reproduzida por outras produções como Rain Man (1988), Tão Forte e Tão Perto (Extremely Loud and Incredibly Close, 2011) e Music (2021), apenas para citar alguns exemplos, contudo uma tentativa de fugir dela e evitar a decupagem de indivíduos autistas em poucas características é sempre bem vinda.

Além disso, a escalação para o papel de Bart Bromley é problemática. Tye Sheridan é um ator estadunidense neurotípico, ou seja, não está inserido no espectro autista. Portanto, sua atuação é artificial e imita, de modo ofensivo, quem possui esse transtorno, o que beira a ridicularização, não contribui para a representatividade desse grupo, sugere a inexistência de talentosos atores com funcionamento psíquico diferente e insinua que ser autista é uma fantasia que pode ser temporariamente usada por qualquer um.

Nos finalmentes de O Recepcionista, ainda há a sensação de que subitamente seremos recompensados pelas enfadonhas reviravoltas, pelo tédio dos incontáveis minutos anteriores e pela desrespeitosa e genérica representação autista, todavia o longa continua insosso e termina de modo frustrante, sem ter tido sequer um momento de tensão.

Por fim, O Recepcionista nos deixa revoltados por termos perdido preciosos minutos de vida diante da tela assistindo a algo esquecível e com roteiro supérfluo, mas também nos permite sentir um pouco de gratidão, afinal ele ao menos cumpre o que promete ser: uma trama de mistério, pois é de fato um enigma como um filme poderia dar tão errado.

O Recepcionista está disponível para os assinantes da Netflix. Confira o trailer

*Imagem da capa: Divulgação/Saban Films

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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COMENTÁRIOS
James Henrique Amorim
Parabéns Rebeca pela forma clara e transparente que você expõe a análise crítica do filme O Recepcionista, principalmente comparando com outros similares e a forma reducionista que por décadas a indústria cinematográfica insiste em mostrar o Autismo de forma tão caricata.
11 jun 2021
 
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