Por Laura Roson (lauraroson@usp.br) e Livia Bortoletto (liviafb@usp.br)
Em continuação à programação da Semana do Jornalismo foi promovido, às 19h30 do dia 22 de setembro, um debate sobre a importância da apuração para a prática jornalística. Mediada pela repórter Luana Riva, a conversa contou com a participação de Matheus Meirelles, repórter da Globo e da Globo News, Luís Brasilino, editor na Le Monde Diplomatique Brasil, e Cesar Paciornik, designer e editor de arte do mesmo veículo. O evento, organizado pela Jornalismo Júnior, foi sediado na Escola de Comunicação e Artes (ECA) e conta com palestras e atividades voltadas para jornalistas e comunicadores.
Matheus destacou que, dada a grande responsabilidade que paira sobre o jornalista, é crucial que a apuração seja feita de modo rigoroso. Para ele, o importante para se fazer uma boa investigação é manter contato com as fontes primárias. “Se eu estou apurando um caso policial, quero estar sempre em contato com o delegado ou de um investigador que está participando dessa investigação”, explica.
Já Luís aponta que, na Diplomatique, a apuração é muito extensa, pois o veículo preza por reportagens mais completas. Segundo ele, os repórteres podem ter até seis meses para produzir uma matéria, e frequentemente leem livros e fazem viagens para poder refinar sua apuração.
Cesar complementa que, para adquirir credibilidade, não basta transmitir informações de qualidade, mas também garantir que a diagramação da revista seja adequada. “Quando [a diagramação] tem poucos erros, o veículo mostra respeito, consideração pelo leitor e isso passa credibilidade para a matéria”, comenta o designer.
Os desafios de uma nova era
Os palestrantes também trataram sobre as questões relacionadas às transformações do mercado com a popularização das redes sociais e o fenômeno dos influenciadores digitais, que têm se apresentado como um fator de extrema relevância para o exercício do jornalismo na atualidade.
De modo geral, Cesar, Luís e Matheus apontaram que, a ascensão das redes sociais no cotidiano da população descentralizam os monopólios ligados às grandes empresas de mídia — como, por exemplo, as emissoras de rádio ou televisão — e trazem mais organicidade à notícia.
Eles comentam que o verdadeiro desafio está no funcionamento dos algoritmos — que não são transparentes, privilegiam a retenção de audiência às custas da informação legítima, favorecem bolhas e lucram com a desinformação. Para eles, a concorrência desleal não está nos criadores de conteúdo, mas na desregulamentação das big techs.
Cesar acrescentou que, com a rapidez na disseminação das informações e a dinamicidade das redes sociais, perdem-se as etapas de checagem e escrutínio, fundamentais para a qualidade da notícia. Luís complementou a fala do colega dizendo que, no mundo digital, existem influenciadores e formadores de opinião compromissados com a ética jornalística e outros que não o são, cabendo ao público “treinar o olhar” para se atentar às reais intenções de cada um.
Os três jornalistas concordaram que a forma mais eficiente de solucionar — ou, ao menos, amenizar — esse dilema é com a regulamentação das redes sociais e das big techs, que dominam o mercado econômico relacionado ao mundo digital.

A conversa se encaminhou para alguns dos aspectos da produção jornalística. Os convidados comentaram que a publicação de um texto ou a transmissão de uma notícia são processos densos, que envolvem diversas pessoas e passam por diferentes crivos na apuração. Matheus explicou que certas fontes só concedem entrevistas aos jornalistas mais renomados, e isso pode dificultar a produção daqueles ainda em início de carreira.
Os palestrantes também comentaram que há muita autocobrança por parte dos profissionais do jornalismo. Na televisão , por exemplo, há sempre a possibilidade de que um erro do repórter se torne um “meme”, ou que alguém invada uma transmissão ao vivo. Assim, os jornalistas estão sob constante pressão para não cometer nenhum erro que possa arruinar a conquista árdua de um espaço nas redações.
O dia a dia de um jornalista
Ao serem questionados sobre a rotina, todos concordaram que, para um jornalista, não há um dia igual ao outro. Para Matheus, que trabalha com as hard news, ter uma rotina fixa é mais difícil ainda. Ele conta que, em seu dia a dia, tem que se preocupar com os “furos” — notícia divulgada por um veículo de comunicação em primeira mão, antes que qualquer outro concorrente a publique — e checagens de informações, vivendo sob um clima de competição. Apesar disso, Matheus diz estar acostumado com a rotina frenética: “Geralmente, os dez últimos dias de férias parecem uma tortura”.
“Não existe ‘jornalismo isento’. O jornalismo toma um lado a partir do momento em que a forma como organizamos nossa visão de mundo vai determinar sob qual enfoque traremos a informação.”
Cesar Paciornik
A palestra encerrou-se com uma rodada de perguntas do público aos jornalistas. Em uma delas, o processo de escolher fontes qualificadas para as reportagens pôde ser destrinchado de forma mais detalhada. Matheus disse que, desde que passou a trabalhar na Globo, notou que mais pessoas aceitaram conceder entrevistas.
O palestrante explicou que é muito comum que os especialistas aceitem ser entrevistados após gostarem de alguma matéria anterior feita pela pessoa que irá entrevistá-lo. “É uma construção, um trabalho de formiguinha”, completou.
[Imagem de capa: Nina Nassar/Jornalismo Júnior]






