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#StopAsianHate: a luta contra a pandemia do preconceito

A comunidade asiática é atacada e discriminada por uma suposta culpabilidade pelo coronavírus

JPRESS
30 abr 2021 | Por Lucas Zacari (lucas.zacari@usp.br)

“Têm sido semanas tensas, bem tristes. Sair de um silenciamento é algo muito relevante, por isso eu resolvi falar, apesar de toda a insegurança. Mas eu vejo que, estar aqui falando, como mulher amarela, como pesquisadora, são pequenas coisas que fazem sentido.” O desabafo da psicóloga Karina Tiemi Kikuti é forte, carregado de simbolismo e retrata um quadro da sociedade ocidental: o racismo contra asiáticos.

Desde os primeiros casos da COVID-19, o estigma de que as populações do leste-asiático, sobretudo os chineses, seriam os culpados pela disseminação do vírus ao redor do mundo está presente no discurso de muitas pessoas. Nos últimos meses, contudo, o que se limitava à violência verbal – que não deixa de ser extremamente grave –, passou a ter um caráter físico, que gerou agressões, mortes e, principalmente, o medo imposto a essa comunidade. 


A violência brutal contra a população asiática

Em 16 de março deste ano, oito pessoas foram mortas em três casas de massagem na região de Atlanta, nos Estados Unidos. Dessas vidas, seis eram descendentes de asiáticos. Esse caso, isoladamente, já seria extremamente grave e doloroso para a comunidade como um todo. Entretanto, o massacre representa o ápice de uma violência que acontece e que, por muitas vezes, não é vista como crime de ódio.

O próprio caso em questão demonstra a forma com que muitas autoridades e parte da sociedade está reagindo a esses episódios sem a devida preocupação que eles merecem. Apesar de Robert Aaron Long, o autor dos disparos, ter contado que não agiu por questões raciais, segundo o xerife do condado de Cherokee, Frank Reynolds, a atual conjuntura pode representar uma motivação racial por trás do crime.

Pessoas usando máscaras e segurando flores brancas

Homenagem feita pelas famílias das vítimas do massacre de Atlanta [Imagem: Ed Reed/Fotos Públicas]

O cenário de violência contra descendentes e imigrantes asiáticos, decorrente da suposta culpabilidade pela disseminação do coronavírus, atingiu números nunca antes registrados. De acordo com relatório da Stop AAPI Hate – organização criada no início da pandemia com o intuito de proteger a população asiática residente nos Estados Unidos – , entre março de 2020 e fevereiro de 2021, cerca de 3.800 atos discriminatórios contra essa comunidade foram reportados somente em território estadunidense.

Ainda segundo esse levantamento, 11% dos casos reportados foram agressões físicas, um número muito alto se comparado a anos anteriores. Uma segunda publicação, do Departamento de Polícia de Nova York, demonstra que o número de ocorrências de casos anti-asiáticos na cidade passou de uma, em 2019, para 20 até setembro do ano seguinte. No entanto, esse não é um fenômeno presente somente nos EUA, tendo em vista que agressões contra asiáticos por motivos raciais também foram registradas, principalmente, no Canadá e no Reino Unido.  

Pelos dados apresentados, as mulheres relataram duas vezes mais ocorrências nesse sentido. Além disso, uma parcela dos ataques aconteceram contra idosos que, em muitos casos, não poderiam se defender. A estudante de ciências sociais da UNESP e militante do movimento asiático Gabriela Shimabuko é enfática ao demonstrar o porquê dessas duas parcelas da comunidade serem os alvos prioritários dessa violência: “Eu acho que, em parte, é covardia. É essa questão de quem não vai revidar, de quem é vulnerável”. Ela ainda complementa: “Com idosos e com mulheres, acho que tem muito esse lugar da misoginia também, o desprezo pela presença”. 

Foi justamente um caso envolvendo um idoso que fez as pessoas começarem a se preocupar com essa violência racial. No dia 26 de janeiro, Vicha Ratanapakdee, imigrante tailandês de 84 anos, estava fazendo sua caminhada matinal quando foi violentamente atirado no chão por um jovem de 19 anos. O impacto gerou uma hemorragia cerebral no idoso, que não resistiu e faleceu em um hospital de São Francisco dois dias depois. O vídeo de uma câmera de segurança demonstra como a agressão ocorreu de forma abrupta, sem que Vicha pudesse se proteger – as imagens são fortes.  

A partir desse caso, a comunidade asiático-americana passou a publicar hashtags nas redes sociais que demonstravam a indignação pelo acontecimento e pela situação da discriminação enfrentada por eles nos últimos tempos. A #JusticeForVicha e, principalmente, a #StopAsianHate foram duas das principais vozes de protesto contra a situação de violência racial ao redor do mundo.  

Pessoa segurando placa do Stop Asian Hate que diz, na tradução, "Amor mais união para nossa comunidade asiática"

Protesto ocorrido em Vancouver, no Canadá. Na placa traduzida: “Amor + União para a nossa comunidade asiática” [Imagem: GoToVan/flickr]

Apesar de esse triste caso ter dado luz às agressões contra as comunidades asiáticas, especula-se que exista ainda subnotificação desses casos. Karina e Gabriela apontam dois motivos possíveis para que esse número não reflita exatamente o que está acontecendo, o que torna a situação ainda mais alarmante: a dificuldade em comunicar-se sobre e o receio de possíveis represálias ao denunciar.

Retomando o caso de Atlanta, Karina ressalta que, assim como essas mortes não foram consideradas crime de ódio, um delito leve provavelmente também seria julgado dessa forma pelas autoridades, o que afasta as pessoas de denunciarem. Além disso, existe uma dificuldade em se falar, não só pela barreira linguística, por muitos serem imigrantes, mas também por uma questão cultural. “Muitas comunidades asiáticas tem enraizado na forma de lidar com os problemas, na cultura mesmo, essa coisa de aguentar, de não falar, de não expor sentimentos ruins ou situações que possam gerar algum tipo de desconforto emocional”, explica a psicóloga.

Além disso, Karina ressalta como existe um outro fator possível para essa subnotificação: a disseminação do mito da Minoria Modelo. Segundo esse estereótipo, todos os asiáticos conseguem, de forma universal, alcançar o sucesso e as melhores posições sociais. Assim, por muitas vezes, a comunidade pode dizer que essas agressões, por conta dessa situação, de certa forma, privilegiada, não é uma agressão preconceituosa e, por isso, não lidar como um crime de ódio. “Mas também pela questão da minoria modelo como um grupo dócil, que vai acatar algumas coisas, que tem menos possibilidades de se defender”, apresenta a psicóloga.

Já a estudante de ciências sociais explicita como, muitas vezes, ser um imigrante pode impedir que as pessoas recorram às autoridades: “Elas nunca vão ir até a polícia fazer um boletim de ocorrência porque estão em situação migratória irregular, não conseguem se regularizar, e elas acham que se forem em qualquer instância da polícia, elas vão ser deportados, seja isso legítimo ou não”. 


Por trás da discriminação, um discurso

Rogério Dezem, historiador brasileiro e professor na Universidade de Osaka, no Japão, aponta como o discurso contra os asiáticos advém de um longo processo: “Existe uma certa continuidade nesse discurso de resgate de estereótipos que surgiram há cem anos. Associar a figura do chinês a uma doença é uma das primeiras coisas, você desumaniza o amarelo”.  

É nessa noção de desumanizar o oriental que consiste o termo Perigo Amarelo. Tratar esse imigrante ou esse descendente como alguém responsável por disseminar o novo coronavírus, citando hábitos alimentares ou a própria cultura em si, e, consequentemente, afetar o funcionamento do mundo ocidental é um exemplo disso. A origem desse termo, criado pelo ex-imperador alemão Guilherme II, foi o preceito para a invasão europeia na China, no final do século XIX, para uma suposta proteção dos povos ocidentais contra os avanços de Gengis Khan, então imperador mongol. 

Dezem demonstra como esse discurso dos asiáticos serem perigosos possuem momentos alternados de aparições latentes, de acordo com o momento pelo qual a sociedade está passando. “Por trás desse discurso, tem um elemento detonador, e esse elemento detonador, geralmente, tem uma questão, por trás, política ou econômica”, explica. 

Esse objeto político econômico é explicitado por Gabriela: “Talvez a escalada de violência também tem a ver com isso, de que essa animosidade com a China não vem da pandemia, começa com a guerra comercial que o Trump resolveu travar com a China”. A guerra comercial em questão, travada pelos dois países desde 2018, gerou diversas sanções e uma atuação protecionista do ex-presidente norte-americano contra o país oriental e, como resposta, os chineses tarifaram os produtos estadunidenses.

A partir disso, os ataques de Trump e seus apoiadores contra os chineses passaram a ser cada vez mais incisivos. Os primeiros casos confirmados da doença terem sido em Wuhan, na China, foi um prato cheio para tais acusações. Citações como “Vírus Chinês” e “Kung Flu” – um trocadilho entre a arte marcial e o termo “Flu”, que significa “gripe” em inglês – foram apenas alguns dos ataques racistas proferidos contra os asiáticos. 

Donald Trump, de terno, proferindo um discurso

Nos discursos de Donald Trump enquanto presidente dos Estados Unidos, a referência à China como culpada pela pandemia foi intensamente utilizada [Imagem: Gage Skidmore/Wikimedia Commons]

Assim, com a autoridade máxima do país dizendo tais termos, a população, por muitas vezes, pode ter sentido uma espécie de permissão para realizar ataques. “Quando há um discurso de ódio vindo do governo, aquela parcela da população que já é preconceituosa, passa a se sentir protegida e empoderada”, ressalta Juliano da Silva Cortinhas, professor de relações internacionais da Universidade de Brasília.

A partir disso, as agressões que, infelizmente, já são comuns contra imigrantes em geral, através de frases como “saia do meu país”, “aqui não pertence a você”, “volta para sua terra”, com teor extremista, passaram a ser, de certa forma, legítimas por parte desses nacionalistas, o que também abriu a possibilidade da violência física sofrida por essa comunidade.  

O discurso nacionalista contra os asiáticos, sobretudo os chineses, também pode estar relacionado à alta expressiva no número de pessoas dessa comunidade dentro dos Estados Unidos, seja de descendentes ou mesmo imigrantes. De acordo com pesquisa realizada pela Pew Research, entre 2000 e 2015, a população asiática nos EUA cresceu 72%, mais que qualquer outra comunidade racial e étnica.   

Com a crise e o desemprego da população norte-americana, a situação do mercado de trabalho acabou aflorando os sentimentos anti-asiáticos. “A pandemia gerou uma crise econômica, os americanos estão tendo que se sujeitar eles mesmo a subempregos, e aí eles passam a concorrer com estrangeiros no mercado de trabalho, e isso com certeza é um fator de influência [para as agressões]”, explica Cortinhas. 


O preconceito no Brasil

Entre os entrevistados, é quase um consenso o cenário brasileiro em relação à essa violência contra as comunidades asiáticas. Ao analisar pelo lado histórico, a situação de ações físicas é extremamente improvável que aconteça – apesar de agressões verbais já terem acontecido, por vezes até encaradas sem o teor alarmante necessário. No entanto, existe um cenário atual de nacionalismo exacerbado entre uma parcela da sociedade que pode alterar essa situação.

Assim como nos Estados Unidos com o governo Trump, a atuação do governo de Jair Bolsonaro perante a pandemia também possuiu traços de ataques contra à China – o que dificultou a obtenção de insumos para a produção de vacinas contra o coronavírus em solo brasileiro. O discurso de culpabilização proferido pelo presidente e por seus filhos, sobretudo por Eduardo Bolsonaro, foi ponto de crise com o maior parceiro comercial do Brasil.

Print de tweet feito por Eduardo Bolsonaro

Tweet do deputado federal Eduardo Bolsonaro culpando a China pela disseminação da COVID-19, o que gerou mal estar com as autoridades chinesas [Imagem: Reprodução/Twitter]

Como uma espécie de cópia do cenário trumpista, “você tem uma legitimação do Estado, até certo ponto. Do Estado não, mas do Governo, de figuras do Governo, que criaram essas condições para o ato violento”, explicita Rogério. 

Essa culpabilidade já não faria sentido normalmente. Entretanto, no caso brasileiro, isso é mais contraditório ainda na medida em que os primeiros casos da doença não foram provenientes de asiáticos, mesmo que essa comunidade já estivesse com esse estigma. “As primeiras pessoas que chegaram aqui e tiveram teste positivo de COVID, foram pessoas de classe média-alta, classe alta, que estavam de férias na Itália”, relembra Gabriela, apresentando tal contradição.

No entanto, agressões verbais e a supressão de certos locais contra essas comunidades são situações presentes desde o início de 2020 e, até hoje, pessoas originárias ou descendentes asiáticas são alvos de discriminação. Logo no início da pandemia, um prédio comercial de São Paulo instaurou elevadores separados dos trabalhadores não-asiáticos para os trabalhadores asiáticos. Esse é apenas um caso das várias microagressões que rondam as comunidades de imigrantes e descendentes de países da Ásia. 


Redes de proteção e ajuda

Apesar de ações contra essa discriminação racial por parte do atual presidente estadunidense Joe Biden, como o aumento de fundos para o combate ao racismo contra os asiático-americanos e uma força-tarefa contra a violência decorrente do coronavírus, a medida em si ainda não é efetiva. Por conta disso, organizações estão sendo criadas e se mobilizando para criar formas de denunciar e de atuar por essas comunidades. 

Nos Estados Unidos, a principal organização que está agindo contra essa discriminação é a Stop AAPI Hate – AAPI, em tradução livre, significa Asiático-Americanos e das Ilhas do Pacífico. Além de ser uma plataforma de denúncias, de reportar o que aconteceu, com opções de línguas-mãe asiáticas, juntamente do inglês (o que facilitou a questão da barreira linguística), ele também é uma forma de disponibilizar estudos sobre o presente e a história das comunidades asiáticas.

Homepage da Stop AAPI Hate, inspirado no Stop Asian Hate

Homepage da Stop AAPI Hate. A possibilidade de escolher uma entre diversas linguagens asiáticas para relatar uma denúncia pode diminuir a subnotificação. [Imagem: Reprodução]

No Brasil, a própria Ibrachina – Instituto Sociocultural Brasil-China – criou uma Central de Denúncias para relatar esses casos de xenofobia e de racismo contra a população asiática como um todo, não apenas chinesa. Por meio de relatos enviados para um e-mail (racismonao@ibrachina.com.br), a instituição pretende reunir as denúncias e levá-las para as autoridades brasileiras”.  

A psicóloga Karina ressalta que essa reunião de informações é importante para demonstrar a seriedade da violência contra a população asiática. “Eles estão fazendo o levantamento de dados, as tabulações, estão colocando e trazendo à tona esses números, quem são essas pessoas, então no sentido de se dizer se são mulheres, se são idosos”, exemplifica.

Para a estudante Gabriela, apesar de serem extremamente importantes como uma forma de acolhimento, essas organizações não podem ser a porta de saída dessa questão. Segundo ela, é necessária uma série de reflexões: “Se a gente quer mesmo falar de como impedir esse ódio de se manifestar de novo, não é com a assimilação. É também pensar, o que causa, qual é o gatilho dessas agressões?”.


*Capa: [Imagem: Elvert Barnes/Wikimedia Commons]

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