Home Corpo e Mente Fio a fio: a química capilar
Fio a fio: a química capilar

Da ação de produtos a tratamentos químicos e térmicos, entenda como funciona, estruturalmente e quimicamente o cabelo humano

Corpo e Mente
28 abr 2021 | Por Ana Paula Alves (anapsantos@usp.br)

Por que a progressiva alisa o cabelo? Como a chapinha é capaz de modelá-lo? O que os cremes de tratamento vendidos em mercados e perfumarias realmente fazem? Como a descoloração tira a cor do cabelo? Por que o cabelo se danifica ao passar por tratamentos químicos? Por que usar chapinha ou secador todo dia faz mal para os fios?

O cabelo humano vai muito além de meras funções biológicas no corpo. Ele se tornou uma forma de expressão social, parte da autoimagem das pessoas, e a forma como é tratado varia, dependendo de cultura, religião e convicções pessoais.

Apesar de toda essa importância, muitos não sabem como funciona o próprio cabelo, do quê ele é feito, qual é a ação dos vários produtos e tratamentos químicos nos fios ou como os aparelhos térmicos são capazes de mudar o fio.

Este texto do Laboratório vai tratar todas essas questões para entender como funciona, estruturalmente e quimicamente, o cabelo humano.

 

Estrutura dos fios 

Primeiro, é preciso entender: de onde vem nosso cabelo? Claro, todos sabem que ele nasce do couro cabelo, mas essa não é a questão. A constituição dos fios é complexa e envolve diversas células e processos, mas, conhecendo algumas delas, já é possível ter uma noção melhor sobre do quê eles são feitos e como surgem.

Os fios de cabelo são derivados dos folículos capilares, que são invaginações, como se fossem “dobraduras” voltadas para dentro da pele do couro cabeludo. O cabelo é feito de células epidérmicas (da camada superficial da pele) mortas, que passaram por um processo de queratinização.

O folículo do cabelo é como uma “dobra” na pele. [Imagem: Reprodução/Pixabay]

O folículo capilar é como uma “dobra” na pele. [Imagem: Reprodução/Pixabay]

É nos folículos onde se encontram as raízes dos cabelos e as células que vão constituir os fios. Entre elas estão os queratinócitos, células que também temos na pele, mas, no caso do folículo capilar, se multiplicam em uma velocidade bem maior. Os queratinócitos se diferenciam para formar as estruturas do cabelo. Eles realizam o processo de queratinização, que é a produção e armazenamento de queratina, uma proteína que endurece os queratinócitos, fazendo seus núcleos se desintegrarem e, consequentemente, levando esses queratinócitos à morte. Por isso, cerca de 80% do cabelo é feito de queratina. Assim se forma o fio, juntamente com outros processos de outros tipos de células presentes no folículo. 

A queratina é de extrema importância para fornecer estrutura e rigidez e tem alta proporção de enxofre, presente no aminoácido cistina, um dos principais para sua formação. Além disso, a forma como essas proteínas e seus aminoácidos interagem é um dos fatores que define a forma do fio e sua curvatura.

Inicialmente, os queratinócitos não apresentam pigmentos. Então, para definir a cor do fio, entram em cena os melanócitos. Esses, por sua vez, produzem o pigmento melanina e o transferem para o queratinócito. Diferente dos presentes na pele, esses melanócitos não precisam de luz do sol para produzir o pigmento, mas o fazem através dos melanossomos, organelas especializadas dessas células. As diferentes colorações dos fios variam de acordo com o número, tamanho e arranjo dessa organela. 

A glândula sebácea também é um componente importante na constituição do fio, pois libera os lipídios, importantes para manter a coesão e flexibilidade da haste do cabelo em forma de sebo – a famosa “oleosidade” natural do couro cabeludo. 

 

Cutícula, a parte externa dos fios de cabelo

As cutículas dos fios do cabelo se posicionam uma acima da outra, parecido com um telhado ou escamas. [Imagem: Reprodução/Wikimedia commons/CSIRO]

As cutículas se posicionam uma acima da outra, parecido com um telhado ou escamas. [Imagem: Reprodução/Wikimedia Commons/CSIRO]

Camada mais externa do fio , a cutícula é o revestimento da fibra capilar que  protege as estruturas internas com células que parecem “escamas” e se sobrepõem uma à outra, unidas por lipídios. Assim, proporcionam certo grau de impermeabilidade e coesão aos fios, além de um aspecto de brilho.

Esta é a parte dos fios que está exposta aos danos diários, causados por diversos fatores, como o próprio ato de lavar e pentear o cabelo, a radiação ultravioleta (UV) do sol, além de tratamentos químicos e térmicos. O estado em que a cutícula se encontra pode modificar muito o aspecto visual e tátil do cabelo, definindo o quão macio, sedoso e brilhante ele parecerá. Por isso, muitos produtos cosméticos têm como foco agir nas cutículas, trazendo substâncias que prometem selá-las ou melhorar seu aspecto.

 

Córtex

É o “corpo” do fio, representando cerca de 70% de sua massa. O córtex é formado por células “alongadas” que permanecem unidas por um tipo de queratina flexível rica em lipídios – que, por isso, também proporciona certa impermeabilidade e coesão aos fios, além de flexibilidade. As ligações químicas que mantêm toda essa estrutura possuem forças variáveis: vão desde as fracas pontes de hidrogênio, ligações iônicas, até fortes pontes de dissulfeto. Estas últimas, são presentes no aminoácido cistina e formadas pela ligação entre seus átomos de enxofre. É sobre essas diferentes ligações que as práticas e produtos agem para mudar a forma do fio.

Nessas células também se encontra a melanina, responsável pela coloração, que faz com que produtos que mudem a cor do cabelo também tenham uma ação sobre o córtex.

 

Medula

É a estrutura mais interna do fio. Comparada ao restante, ela tem uma quantidade grande de lipídios. Ela se encontra no centro do córtex, porém não está presente em todo o comprimento, pois suas células se degeneram rapidamente. Ainda não se sabe exatamente sua função.

 

Influência do pH no cabelo

O pH, o nível de acidez e alcalinidade, tem uma grande influência em como o fio de cabelo se comporta. O pH natural do cabelo é por volta de 5 ou 5.5, e alterá-lo, seja para uma maior acidez, pH mais próximo de 1, ou para uma maior alcalinidade, pH próximo de 14, trará consequências, danosas ou não.

Tabela de pH. O pH do cabelo acaba sendo próximo do neutro, apesar de ligeiramente ácido. [Imagem: Reprodução/Wikimedia Commons/Tux-Man]

Tabela de pH. O pH do cabelo acaba sendo próximo do neutro, apesar de ligeiramente ácido. [Imagem: Reprodução/Wikimedia Commons/Tux-Man]

Quando deixamos o cabelo em um pH mais alcalino que o seu natural, mesmo que levemente, entre 5.5 e 10, as cutículas já se dilatam, aumentando a porosidade do fio, deixando-o “aberto” e diminuindo a proteção proporcionada pelas cutículas. Isso também deixa o cabelo com aparência ressecada e opaca. Já em um pH ainda mais alcalino, entre 10 e 14, as estruturas do fio já começam a se degenerar.

De maneira oposta, em meio ácido, em pH entre 1 e 4.5, as cutículas se fecham, diminuindo a porosidade do fio e deixando-o mais enrijecido e encolhido, além de aumentar seu brilho – pois essa posição das cutículas gera um maior reflexo da luz. É importante salientar que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) não permite produtos capilares com pH abaixo de 2, pois podem trazer danos e irritações à pele do couro cabeludo.

 

Máscaras de tratamento capilar

Existe uma infinidade de produtos voltados para os cabelos, desde produtos para sua limpeza até aqueles que promovem uma melhoria do seu aspecto ou que o estilizam. Quando falamos de máscaras de tratamento ou hidratação, há diversos efeitos que se pode dar ao fio. Por isso, na internet se vê muito conteúdo sobre o “cronograma capilar”, uma prática em que se alternam máscaras que causam diferentes efeitos a partir de seus componentes ativos. Esses componentes agem sobre a cutícula ou sobre o córtex, dependendo do componente ativo do produto e do quão danificado o fio está.

O cronograma capilar classifica três tipos de máscaras de tratamento: as de hidratação, cujos componentes ativos ajudaram a atrair moléculas de água para o fio; as de nutrição, que trazem lipídios, muitas vezes na forma de óleos; as de reconstrução, que trazem proteínas e aminoácidos. 

O próprio nome dessas etapas já é polêmico entre os profissionais da área. Amanda Barbeito, graduada em visagismo e terapia capilar pela Universidade Anhembi Morumbi, especializada em tricologia pela Academia Brasileira de Tricologia (ABT), aponta para essa questão: “Não existe nutrição em cabelo por meio de tratamento de haste. Entendemos que nutrição é algo gerado no processo de alimentação. E a tal da reconstrução é impossível quando falamos em reconstruir um fio de cabelo que já passou por processos que o destruiu. Não existe como reconstruir um cabelo”. Outra questão é que a etapa de hidratação não exatamente hidrata o fio, pois ele não pode absorver água como a pele faz. Na verdade, essa etapa envolve ativos que vão atrair água aos fios, logo, um nome mais adequado seria umectação. Entretanto, umectação é a forma como muitas pessoas denominam um tratamento em que se aplicam óleos (ou seja, lipídios) diretamente no fio e no couro cabeludo – o que seria parte da suposta etapa de nutrição. Ou seja, a nomenclatura utilizada acaba sendo confusa e imprecisa para definir o que esses ativos fazem no fio.

Além disso, esses produtos trazem apenas um efeito temporário, que não conserta o dano capilar. Assim que seu uso for paralisado, os aspectos que denunciam os danos voltarão a aparecer. O cabelo é um tecido morto, então não se “alimenta” desses ativos presentes nos cosméticos nem se regenera. Barbeito aponta que “máscaras que contêm ativos mais estudados e específicos tratam bem a porosidade, brilho e maciez do cabelo, mas nenhuma delas é capaz de recuperar um cabelo danificado”.

Apesar disso, outros profissionais consideram a ideia do cronograma válida. Segundo Luma Sakamoto, graduada em visagismo e terapia capilar e especializada em tricologia e terapia capilar pela Universidade Anhembi Morumbi,  “entre os ingredientes que compõem os produtos, há mais adequações para cada tipo de dano capilar, pois um tipo de ativo pode dar mais resultado do que outro”. A adição de lipídios pode melhorar o aspecto do cabelo se ele está rígido ou opaco; a adição de ativos que atraiam água pode melhorar um fio com aspecto seco; um cabelo quebradiço ou elástico pode se beneficiar de uma adição de proteínas e aminoácidos. Mesmo que o cabelo não seja capaz de absorver essas substâncias e incorporá-las permanentemente na fibra, aplicá-las de forma periódica pode “tapar os buracos” causados por algum tipo de dano no fio, melhorando temporariamente sua aparência.

Sakamoto conta que um erro comum ao alternar os tratamentos é achar que há uma sequência específica para ser seguida. Isso não tem receita pronta, cada cabelo apresenta determinado grau de dano e uma estrutura diferente, então cada cabelo precisa de um determinado tipo de ingrediente tratamento em cada momento”, afirma. Ela ainda aponta que deve haver um equilíbrio entre os ativos que são aplicados, o que depende do estado do fio.

Assim, ainda que sejam algo temporário, como uma “maquiagem” que não vai consertar os danos do fio, apenas mascarar a condição em que ele se encontra, esses tratamentos podem ser válidos quando se busca uma aparência melhor para o cabelo.

 

Alisamentos 

O alisamento pode ser temporário ou permanente, feito por processos químicos ou térmicos. [Imagem: Reprodução/Pexels/Bennie Lukas Bester]

O alisamento pode ser temporário ou permanente, feito por processos químicos ou térmicos. [Imagem: Reprodução/Pexels/Bennie Lukas Bester]

 

Por diversas razões, existe em muitas pessoas o desejo de ter o cabelo liso, mesmo que tenha uma curvatura naturalmente cacheada, ondulada ou crespa. Isso as leva a recorrer aos alisamentos, que podem ser feitos de várias maneiras, permanentes ou temporárias. Mas, como o fio tem seu formato alterado? Os processos de alisamento são feitos através da quebra das ligações químicas que mantêm a molécula de queratina na sua forma original. Essa quebra pode ocorrer tanto nas ligações fracas como nas fortes.

 

O que é e como funciona o alisamento térmico no cabelo

Este é um alisamento temporário no fio, normalmente feito com o secador, chapinha ou escovas aquecidas. Ele modifica as ligações iônicas e de hidrogênio do fio, deixando-o no formato desejado. Essas ligações já são quebradas temporariamente ao molhar o cabelo, deixando-o mais maleável. Com a adição de calor na secagem dos fios, é possível descolar as ligações de suas posições originais e mantê-las assim por um certo tempo. O secador causa uma desidratação acelerada, o que mantém o fio liso se este for “esticado” enquanto é seco. Já a chapinha dá o efeito alisado moldando as cutículas, “achatando-as” no fio. Trata-se de um processo mecânico de molde.

No entanto, por essas ligações serem fracas e maleáveis, elas facilmente retornam à sua forma original, basta que a umidade retorne para o fios pelo ar, suor ou ao molhá-los de outra maneira. Uma vez que o cabelo seja umidificado, as pontes de hidrogênio são quebradas novamente, junto com as alterações feitas pelo secador ou chapinha. Isso permite que as ligações sejam refeitas em suas posições originais quando o cabelo secar de forma natural, sem a interferência de uma fonte de calor.

Esses processos térmicos danificam os fios por conta da alta temperatura a qual os submetem, o que pode ocasionar na desnaturação da proteína do cabelo – ou seja, alterações na estrutura dessa proteína, mudando sua forma. Sakamoto compara esse processo com o que vemos ao fritar um ovo: “Quando você quebra o ovo e coloca na frigideira, ele está mole e a clara está transparente. Conforme você  esquenta esse ovo, essas características mudam, a clara fica branca e endurece, assim como a gema. Essas estruturas proteicas sofreram uma desnaturação, e não dá para fazer esse ovo voltar a ter as mesmas características de quando ele estava cru. É isso que acontece com o cabelo. A gente tem uma estrutura proteica que pode ser desnaturada quimicamente ou com superaquecimento, que, basicamente, derrete o material lipídico e frita a proteína do fio”. Por isso, muitas pessoas ao fazerem uso recorrente de alisadores térmicos sentem mudanças no formato e curvatura do fio.

Se o processo não for feito de forma adequada, sem a utilização de protetores térmicos, mantendo o secador muito próximo do cabelo ou utilizando a chapinha no cabelo úmido, os danos são ainda maiores, podendo até mesmo gerar tricoses (doenças do fio). Uma dessas possíveis tricoses é a bubble hair, que é a formação de “bolhas” no interior do fio, formadas pelo aquecimento extremo da água presente nele. “O calor excessivo nos cabelos é uma grande fábrica de bubble hair. A água esquenta no fio e termina se interiorizando, sensibilizando totalmente a fibra capilar”, diz Barbeito.

 

O que é e como funciona o alisamento químico

Esta é uma técnica mais agressiva para alterar a forma do cabelo, que gera uma mudança permanente. Os alisamentos químicos quebram as ligações dissulfídicas dos fios, o que permite alterar sua forma, a fim de alisar ou  encaracolar o cabelo. No processo de alisamento, após a quebra das ligações que mantinham sua forma, o cabelo é esticado para ter suas ligações parcialmente refeitas.

Tania Sá Dias, em sua tese de doutorado pela Universidade de São Paulo (USP) na área de produção e controle farmacêuticos, avalia o efeito dos diferentes processos de alisamento químicos e térmicos na fibra capilar e os danos e alterações causados por eles. Ela aborda os alisamentos que utilizam hidróxidos, tióis, formaldeído e ácido glioxílico.

No caso do alisamento feito com produtos com base em hidróxidos, o íon hidroxila (OH-) quebra as ligações dissulfídicas. Este processo gera lantionina, que substitui parte dos aminoácidos da queratina, a cistina, cuja ligação foi quebrada. Todo esse processo ocorre em um pH alcalino, que permite que as cutículas se abram e que a hidroxila penetre no córtex. Enquanto as ligações são quebradas, o fio é esticado para adotar um formato alisado. Assim, para interromper o processo e manter este formato, o meio é neutralizado, normalmente através de shampoos e acidificantes, fazendo com que as pontes dissulfeto voltem a se fechar com a lantionina na estrutura do fio. Entretanto, a lationina apresenta apenas um átomo de enxofre, portanto não forma ligações dissulfídicas como a cistina, o que reduz a resistência do fio e aumenta a propensão a quebras.

Já o alisamento feito com “tióis” (tioglicolato) tem sua ação baseada em uma reação de oxirredução, que quebra os pontes dissulfeto e torna a queratina mais maleável para ser moldada no novo formato. Assim, os fios são esticados para obter o resultado de alisamento, com um secador ou chapinha. Após isso, utiliza-se um creme que neutraliza o tiol, com algum agente oxidante, o processo químico é interrompido e as ligações de dissulfeto são parcialmente restabelecidas, fazendo os fios permanecerem “esticados”.

Por fim, temos as famosas “escovas progressivas”, que utilizavam formaldeído, ou formol, como princípio ativo. O uso desse componente como alisante foi proibido pela Anvisa, pois vários estudos comprovaram que, com a concentração necessária para promover o alisamento, o vapor formado pelo produto, quando inalado, pode gerar graves consequências à saúde, sendo comprovadamente cancerígeno e gerando danos aos tecidos do trato respiratório. O formaldeído é utilizado misturado a uma solução de queratina hidrolisada com creme condicionante. O que o formaldeído faz é restabelecer as ligações dissulfídicas rompidas por outros ativos, adicionando uma ponte metilênica, o que, junto ao calor da chapinha, liga-se às cutículas dos fios e aos aminoácidos da solução de queratina, formando um filme que “plastifica” os fios,  impermeabilizando-os e mantendo-os na forma alisada. 

Como o formol e o glutaraldeído se tornaram proibidos como alisantes, foram criados outros produtos similares, como o “botox”, que utiliza ácido glioxílico e derivados. Nesse caso, o ácido libera aldeídos que quebram as pontes de dissulfeto, em pH baixo. Em solução aquosa, o ácido apresenta ação semelhante ao formol. Entretanto, há uma falta de informações sobre sua reação química exata no fio. Assim, o botox foi proibido pela Anvisa, pois há dados que mostram que há possibilidade de um dos aldeídos liberados ser o próprio formaldeído. Barbeito aponta que “tudo que se entrega em um processo de alisamento ácido é uma falsa sensação de cabelo ‘bonito’, por fora esse cabelo recebe um filme quase impossível de ser retirado, que, por muito tempo impede que o fio receba algum tipo de tratamento”.

Todos esses processos danificam os fios e o couro cabeludo. O próprio pH em que atuam para atingir o efeito alisante já danifica o cabelo, pois, como foi dito anteriormente, os fios são sensíveis às alterações de pH e podem ter suas estruturas danificadas por elas. O couro cabelo também é sensível a essas alterações, podendo ser ferido ou sofrer com irritações, excesso de oleosidade e descamação, que acaba gerando a caspa. É possível que esse processo leve até mesmo à queda de cabelo. Sakamoto afirma que “quando as alterações partem de reagentes químicos alcalinos, há uma maior dilatação dessa fibra e, consequentemente, uma perda lipídica e proteica. Então, dependendo da agressividade dessa química, esse cabelo vai sofrer danos, como se fossem buracos na estrutura, e pode apresentar certa porosidade”.

Além disso, o formaldeído e ácido glioxílico, por exemplo, deixam os fios muito mais quebradiços que os demais tratamentos, fazendo com que possam se quebrar até mesmo no ato de pentear. Isso pode estar relacionado à rigidez proporcionada pelo filme que é produzido em torno do fio, além do pH ácido necessário em sua aplicação. Segundo Sakamoto, a cutícula perde essa característica de flexão, que é gerada por sua estrutura de “escamas”. “Quando se faz a escova progressiva é como se fosse fazer uma maçã do amor”, assim como a maçã do amor, as cutículas são revestidas totalmente por esse filme, elas “ficam coladas, polimeriza e fica rígido”, afirma.

Os alisamentos químicos também geram  perda de proteínas, a partir da quebra das ligações dissulfídicas da cistina. Como elas são refeitas apenas parcialmente e em posições diferentes, o cabelo alisado perde esses aminoácidos que compõem as proteínas. Isso diminui a resistência natural do fio, deixando-o fragilizado. Novamente, o tratamento que mais causa a perda de proteínas é o que utiliza formol. Em segundo lugar ficam os outros tratamentos que incluem o uso de fontes de calor, como o que utiliza o tiol.

Esses alisantes também acabam danificando as cutículas dos fios, que perdem a uniformidade das suas bordas e podem ter sua função de proteção da parte interna do fio comprometida. Quando se faz uma alcalinização e uma consequente dilatação cuticular, o cimento intercelular, material lipídico que liga as cutículas umas às outras, é consumido no processo. Como a cutícula define a aparência do fio, esses danos fazem com que o cabelo se torne mais áspero ao toque e com aspecto opaco.

Além disso, esses são tratamentos que muitas vezes têm que ser refeitos para que se mantenha o efeito de alisamento desejado, o que os danifica os cabelos cada vez mais. Por se tratar de um tecido morto, que não se regenera, isso faz com que o cabelo perca cada vez mais massa e tenha suas estruturas cada vez mais danificadas, de modo irreversível.

 

Mudanças de cor

Para esconder fios brancos ou para mudar o visual é possível encontrar facilmente tinturas e descolorantes em farmácias e perfumarias. A mudança da coloração dos fios se tornou algo tão comum que muitas pessoas fazem o procedimento em si mesmas, em casa, o que pode ser arriscado caso não se tenha experiência e conhecimento sobre o procedimento.

O maior problema para o fio nos processos de mudança de cor é que normalmente eles são feitos em meio alcalino, para que as cutículas sejam dilatadas e abertas, e que os ativos possam alcançar o córtex e a melanina nele presente. Se esse processo for feito repetidas vezes ou de forma errada, pode levar a danos graves principalmente nas cutículas do fio, resultando em um cabelo muito mais poroso e fragilizado.

 

Coloração dos fios

Existem alguns tipos de colorações no mercado, que podem ser classificadas segundo sua fixação. Há produtos que promovem coloração temporária, ou seja, saem na primeira lavagem; há outros que promovem coloração semipermanente, resistindo a algumas lavagens, mas sem capacidade de clarear o fio; e há os que promovem coloração permanente, que contam com um processo de oxidação para manter a nova cor por mais tempo. No caso da coloração permanente, trata-se de um processo em que, ao mesmo tempo em que se altera a cor base,  adiciona-se a nova coloração.

Quando se fala de tinturas que utilizam o processo de oxidação, estas precisam de um meio alcalino para agir, dilatando as cutículas e permitindo que os ativos cheguem ao córtex, onde se encontra a melanina, alvo da ação. Esse tipo de coloração normalmente é composto por uma combinação de amônia, que torna o meio alcalino, e peróxido de hidrogênio (a famosa “água oxigenada”), responsável por oxidar a melanina presente no fio. Depois disso, os ativos precursores da coloração também sofrem oxidação, resultando na nova cor fixada no fio, resistente a lavagens.

 

Descoloração do cabelo

O processo de descolorir, sem adicionar uma nova cor aos fios, é feito primeiro a partir da água oxigenada, novamente oxidando e dissolvendo a melanina dos fios, que em seguida são descoloridos pelo pó descolorante. Esse é normalmente constituído por persulfatos, que aceleram a reação e degradam a eumelanina (melanina responsável pelos tons castanhos do fio), já que a feomelanina (melanina que proporciona tons amarelos e avermelhados) é mais resistente ao processo de clareamento. Assim como na coloração, na descoloração é utilizado um meio alcalino no processo, para as cutículas serem abertas.

Após isso, é possível obter bases de tons de loiro muito mais claros do que a cor do cabelo natural, podendo-se permanecer com o tom loiro ou adicionar pigmentos, para obter cabelos coloridos.

Esse processo de oxidação intensa em meio alcalino muitas vezes pode alterar não só a melanina, mas a estrutura da fibra. É possível, inclusive, quebrar as ligações dissulfídicas e mudar a forma do fio permanentemente. Muitas vezes, quem realiza descolorações também sente que o cabelo fica com um aspecto e poroso, o que é decorrente do pH em que os reagentes químicos agem, além de um aspecto ressecado e, muitas vezes, até mesmo um aspecto elástico, em que a estrutura do cabelo foi extremamente danificada.

Porém, Barbeito afirma que é possível realizar a descoloração minimizando os danos aos fios, mesmo se tratando de um processo que os leva a um meio altamente alcalino, o que por si só, já representa um dano. “Se ocorre um respeito entre tempo de clareamento, o limite da água oxigenada, além de realizar tratamentos específicos pré e pós-procedimento, o cabelo consegue retornar de uma descoloração com a estrutura íntegra”, afirma.

 

Corte químico: o cabelo não regenera

O corte químico é o pior pesadelo daqueles que são apegados aos seus cabelos e querem manter seu comprimento ou deixá-los crescer. Isso porque quando ele acontece, não há o que se possa fazer para recuperar o fio, senão cortar a parte afetada. Mas por que ele acontece?

Por se tratar de um tecido morto, o cabelo não regenera. Isso quer dizer que temos uma quantidade limitada de proteína, lipídios e ligações dissulfídicas no fio, e que, se estas forem continuamente perdidas e rompidas, chegará o momento em que  a estrutura será insustentável, pois ela não terá seus componentes principais, levando ao rompimento e à quebra do cabelo. Esse rompimento acontece no local em que as perdas tiverem sido mais intensas, onde houver mais processos químicos sobrepostos.

Por isso, não é recomendável que se una tratamentos químicos agressivos como descolorações e alisamentos ou outros processos que danifiquem as estruturas essenciais dos fios, nem que sejam feitas repetidas vezes. Além disso, é essencial o teste de mecha, em que o produto ou processo é realizado em apenas uma mecha para observar seus resultados e evitar surpresas desagradáveis.

 

Laboratório
O Laboratório é o portal de jornalismo científico da Jornalismo Júnior. Apaixonados por curiosidades, nosso objetivo é levar a informação científica o mais próximo possível do público leigo. Falamos sobre saúde, meio ambiente, tecnologia, ficção científica, história da ciência, escrevemos crônicas, resenhamos livros, cobrimos eventos e muito mais!
VOLTAR PARA HOME
DEIXE SEU COMENTÁRIO
Nome*
E-mail*
Facebook
Comentário*