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A Transformação e o Renascimento da Azzurri

A história por trás dos fracassos da seleção italiana na última década e os fatores que levaram à sua volta ao topo do futebol mundial

ARQUIBANCADA
29 mar 2022 | Por Fernando Cardoso (fernando.cardoso3801@usp.br)

O futebol italiano tem uma das mais bem sucedidas histórias do esporte. Na conta, são quatro títulos mundiais e dois europeus, uma quantia que deixa o país apenas atrás da Alemanha no continente europeu. O campeonato nacional, a Serie A, também marcou época como um dos mais atraentes e populares em todo o planeta.

No entanto, esta estrutura de sucesso foi durante décadas sustentada por dirigentes que pensavam apenas em seus próprios interesses e concretizavam suas vontades de maneira ilegais. Quando estes empresários saíram de cena no início deste século, uma grave crise se instalou no futebol do país e foram necessários anos para a construção de um novo modelo.

Alimentada pela nostalgia de antigas conquistas, a Itália precisou abandonar sua identidade, filosofia de jogo e mentalidade para que pudesse voltar ao topo do futebol mundial. Mas sem antes passar por uma trajetória de vexames e fracassos que ajudaram a fortalecer e transformar a base do futebol italiano para sempre.

 

Campeões apesar de tudo (2006)

azzurri campeã

O capitão Fabio Cannavaro levanta a taça ao lado dos companheiros [Imagem: Twitter/FIFA World Cup]

A Copa do Mundo de Futebol Masculino é provavelmente a mais difícil competição de se ganhar em todo o esporte. E não por ser um torneio em que é necessário regularidade e alta qualidade de futebol para se conquistar o troféu. É muito pelo contrário. A imprevisibilidade do mundial, seu principal elemento, é gerado pelo fato de ser um campeonato de “tiro-curto”, com jogos eliminatórios em sua maior parte. Para vencer, às vezes basta um elenco decente e bem treinado ou apenas um mês inspirado. E isto já abriu espaço para muitos azarões ao longo da história.

O título italiano na Copa do Mundo disputada na Alemanha é a prova disso. Não que a Azzurri não fosse uma favorita a conquista. Mas o sonho do tetra parecia ser no mínimo improvável. Em 2006, a Itália vivia o estopim daquilo que se tornaria a maior crise financeira e de confiança na estrutura futebolística do país. No escândalo de manipulação de resultados, conhecido como Calciopoli, dirigentes e clubes foram duramente punidos tanto dentro quanto fora de campo. A Juventus, que se encontrava no centro do caso, chegou a ser rebaixada para a Série B, enquanto outros clubes tradicionais, como Milan e Fiorentina, ficaram endividados devido às altas multas recebidas.

Neste cenário, a seleção italiana embarcou para terras germânicas em busca de seu quarto troféu no torneio. Ambiente externo à parte, a Itália dispunha de uma das maiores gerações de sua história. Atletas como Francesco Totti, Andrea Pirlo e Fabio Cannavaro não só se tornavam rapidamente lendas do futebol italiano, como viviam o auge de suas carreiras.

A força do elenco já dava à Azzurri boas chances de conquistar o troféu. Mas a equipe do comandante Marcello Lippi era também extremamente bem treinada. Com equilíbrio na defesa, no ataque e espaço para seus jogadores mais talentosos atuarem, o ex-treinador de La Vecchia Signora montou um time seguro, consistente e que aproveitava da capacidade individual de suas principais peças.

Durante todo o torneio, foram apenas dois gols tomados. Mas não se tratava da conhecida estratégia de retranca italiana, o Catenaccio. Com um forte meio-campo composto por Gennaro Gattuso, Pirlo e Totti, a seleção italiana gostava de ter a bola e sabia exatamente o que fazer quando a tinha. Havia uma mentalidade ofensiva que não se encontrava há anos no campeonato nacional.

Pelo caminho, a Itália despachou os anfitriões alemães de forma convincente, 2 a 0 na prorrogação, e contou com a sorte na decisão diante da França. Jogando mal, os italianos conseguiram segurar o forte time francês no tempo normal e conquistaram o título ao vencer a primeira disputa de pênaltis na história do país em Copas do Mundo, batendo os oponentes por 5 a 3. 

O tetracampeonato mundial foi um pequeno milagre no “olho do furacão” do cenário do futebol italiano. Mas apesar da alegria da vitória, a Itália se alimentou de um sentimento nostálgico em relação a sua seleção que não permitiria consertar os problemas do esporte no país. E a dívida pelo descaso acabou sendo paga durante anos, em parcelas cada vez mais salgadas.

A nostalgia e o enfrentamento da realidade (2006-2010)

 

Roberto Donadoni, o sucessor de Lippi após o título mundial em 2006 [Imagem: Twitter/Nazionale Italiana]

O ciclo do Mundial da África do Sul começou com troca de técnico na Itália. Lippi foi substituído pelo então treinador do Livorno, Roberto Donadoni. Normalmente os meses, por vezes anos, após um título mundial sempre são marcados por uma certa “ressaca”. Com o esquadrão italiano não foi diferente.

Em algumas das primeiras partidas de Donadoni no comando, muitos jogadores do elenco campeão não se disponibilizaram para a convocação. Por isso, o início da seleção nas Eliminatórias para a Euro 2008 foi péssimo. E as comparações a Lippi logo caíram nos colos do jovem técnico.

Aos poucos a equipe se recuperou e a vaga para o torneio europeu foi tranquilamente conquistada. O trabalho do novo treinador, por outro lado, não evoluiu. Na Euro disputada na Áustria e Suíça, a Itália contou com uma campanha irregular na fase de grupos. O desempenho colocou a Azzurri diante da Espanha, nas quartas de final. O esforço foi insuficiente e os italianos caíram nos pênaltis pelo placar de 4 a 2. A pressão pela eliminação precoce levou à queda de Donadoni, encerrando seu curto período no cargo.

O substituto para a posição vaga era clara, devido a constante sombra criada no antigo treinador. Marcelo Lippi reassumiu o comando da Itália após a Euro 2008. E com ele, muita nostalgia e apego a equipe campeã mundial em 2006. Adepto da premissa “não se mexe em time que está ganhando”, Lippi preparou a seleção italiana para o mundial de 2010 da mesma forma que havia feito quatro anos antes. E este era justamente o problema.

No futebol, quatro anos é um período bastante extenso. O incrível elenco que viajou à Alemanha e conquistou o tetracampeonato já não era mais o mesmo. Estava envelhecido, o que era uma verdadeira adversidade ao se considerar o intenso estilo de jogo proposto por Lippi, em que se buscava uma rápida recuperação de bola e chegada ao gol.

Sobre o período, Gian Oddi, comentarista de futebol dos canais ESPN, aponta: “Uma seleção envelhecida faz diferença. É normal que um técnico campeão com a sua seleção seja muito grato a esse grupo e, portanto, tenha uma tendência de manter em boa parte o elenco para a Copa do Mundo seguinte. Mas a gente sabe o quanto em quatro anos o futebol faz diferença. Seja no aspecto físico, seja no aspecto técnico também.”

O que parecia ser um grupo fácil para o começo da trajetória italiana na Copa do Mundo de 2010, tornou-se o palco do vexame. Contra Paraguai, Nova Zelândia e Eslováquia, a Itália não venceu uma única partida e deixou o torneio com uma das piores campanhas de um atual campeão mundial da história.

Digerida a derrota, era preciso iniciar a renovação. No entanto, quatro anos já se haviam passado desde que a estrutura do futebol italiano havia sido abalada e nada tinha sido feito para resolver a situação. Depois da Copa do Mundo, a Itália voltava para a casa sem perspectiva para o futuro.

Os escândalos de corrupção tinham derrubado sua liga nacional e a nostalgia do tetracampeonato não permitiu a chegada de uma nova safra de jogadores preparados para substituir a geração que dava adeus. Era o fundo do poço e a conta pelos anos de má gestão e imobilidade apenas começava a ser paga.

 

O ciclo perdido e o início da reconstrução (2010-2014)

Cesare Prandelli e Marcello Lippi

Cesare Prandelli e Marcello Lippi, sucessor e antecessor, em treino da Itália [Imagem: Twitter/Nazionale Italiana]

Passado o ciclo que terminou em vexame na Copa do Mundo de 2010, era hora de renovação e reestruturação do futebol italiano. No entanto, diversos fatores indicavam que a transformação necessitava ser mais profunda e duradoura do que se imaginava. A Itália possuía problemas em sua principal liga nacional e na formação de jovens na base, o que impactou a seleção não só no curto, mas também no longo prazo.

Após os escândalos de manipulação de resultado revelados em 2006, as consequências para a Serie A foram desastrosas. Com clubes endividados, devido a multas e perda de interesse de investidores, a liga perdeu seu poder de compra de forma severa. Vários jogadores de alto nível deixaram o país para jogar em outras nações, enquanto novos atletas do mesmo porte não chegavam.

Leonardo Bertozzi, comentarista de futebol dos canais ESPN conta sobre a situação na Itália: “O futebol italiano no seu auge se sustentou muito no modelo de mecenato, ou seja, muita gente colocando dinheiro, inclusive usando o futebol para lavar dinheiro. E com o tempo isso mudou. Ou porque estes empresários deixaram de se interessar por futebol ou porque as regras mudaram, com fair-play financeiro e tudo mais. Então houve esse momento de baixa para os clubes.”

Em um momento propício para se dar espaços a jovens vindos das categorias de base, os clubes fizeram justamente o contrário. Como uma tentativa de elevar a relevância do campeonato, investiu-se em veteranos, alguns bem próximos ao fim da carreira. Nesta leva, ocorreram as idas de Ronaldinho Gaúcho e David Beckham para o Milan, Diego Forlán para a Internazionale e Miroslav Klose para a Lazio.

Ao mesmo tempo, a Serie A perdeu algumas de suas principais estrelas. Edinson Cavani, Zlatan Ibrahimovic e Mario Balotelli, jogadores que eram protagonistas de suas equipes na Itália, decidiram atuar em clubes de outros países, onde havia projetos mais sólidos e maiores chances de competir no nível continental.

Se uma mudança estrutural ainda não era possível devido às dificuldades financeiras, uma nova mentalidade era pelo menos mais acessível. Desde o início do século, as categorias de base italianas não tinham bons desempenhos em torneios de seleções e o investimento na formação de novos jogadores era escasso. A contratação de Maurizio Viscidi como coordenador técnico do futebol de base mudaria esta trajetória.

Enquanto os grandes clubes gastavam seus recursos em veteranos, clubes médios, como Fiorentina, Udinese e Atalanta, passaram a enxergar suas academias de futebol com mais carinho. Novas práticas foram adotadas na base, como a integração do atleta jovem mais cedo ao profissional e a execução de estilos de jogo mais ofensivos, iniciando-se uma quebra ao padrão italiano de atletas experientes e formações defensivas.

Sobre a transformação da estrutura do futebol italiano, Bertozzi afirma: “Depois do vexame de 2010 começou uma reestruturação do modelo. Muitas ideias na formação foram reformuladas, a maneira de prospectar os jogadores, de trazê-los pro universo da seleção antes. A Itália pode ter ficado fora da Copa de 2018, mas uma reformulação de processo não se vê em um nem dois ciclos. Ela se vê no longo prazo.”

Para o novo ciclo, que se encerraria na Copa do Mundo de 2014, no Brasil, foi contratado o treinador Cesare Prandelli para suceder Lippi na seleção italiana. O ex-técnico da Fiorentina vinha de cinco temporadas sólidas pelo time de Florença e sua experiência com o futebol do país colocaram-no como um nome apropriado para o cargo.

Os problemas que a Azzurri encontraria pelo caminho estavam ligados ao nível de qualidade do elenco. A geração que formou a base da equipe campeã mundial na Alemanha praticamente não existia mais. Os remanescentes eram apenas Gianluigi Buffon, Andrea Pirlo, Daniele De Rossi e Andrea Barzagli. Com a exceção do meia da Roma, todos já haviam passado dos trinta anos de idade.

Os nomes que ocupariam as vagas deixadas pelos tetracampeões não possuíam a mesma qualidade dos seus antecessores. A equipe montada por Prandelli girava em torno de Claudio Marchisio, Riccardo Montolivo e Mario Balotelli. Este último, além de protegido do treinador, era a principal esperança para o futuro da seleção. Sendo um dos mais jovens do time, Balotelli reuniu nas costas toda pressão e expectativa por dias melhores na Azzurri

Prandelli montou uma equipe mais defensiva do que seus antecessores. A escolha pouco tinha a ver com as preferências do técnico e mais com as características que seu limitado elenco fornecia. Na linha de defesa, a Itália ainda possuía nomes de bastante destaque, como Giorgio Chiellini e Leonardo Bonucci. Era mais interessante apostar em uma defesa sólida do que em um time inapropriadamente ofensivo.

 Com a chegada da Euro 2012, o favoritismo italiano não era o mesmo de torneios anteriores. A expectativa abaixo do normal abria espaço para que a seleção atuasse sem pressão e avançasse além do que seu elenco permitia. E isto de fato ocorreu. Após uma fase de grupos irregular, a Itália passou pela Inglaterra nas quartas de final e encontrou a Alemanha na fase seguinte.

Diante dos alemães, os italianos foram pressionados, pouco tiveram a bola e viram os adversários perder inúmeras oportunidades claras de gol. Mais eficiente, a Azzurri marcou duas vezes com Balotelli ainda na primeira etapa e aceitou o sufoco alemão. Não era um dia inspirado para os comandados de Joachim Low, que saíram derrotados pelo placar de 2 a 1. A Itália avançou à final, mas o estoque de milagres estava esgotado.

Balotelli comemora seu segundo diante da Alemanha na Euro 2012 [Imagem: Twitter/Nazionale Italiana]

Na final, a campeã mundial Espanha passou por cima e goleou por 4 a 0, garantindo seu bicampeonato europeu. Como resultado final, a equipe de Prandelli não jogava bem, mas o desempenho deu confiança e tranquilidade para o treinador seguir o seu trabalho, com o Mundial a ser disputado em 2014.

Na Copa do Mundo do Brasil, a Itália novamente seria vítima de um elenco enfraquecido e com baixa qualidade individual, fruto da falta de renovação gerada pela nostalgia do tetracampeonato e do descaso com o futebol local. O sorteio colocou o país no grupo da morte da competição, junto de Uruguai, Inglaterra e Costa Rica. Com vitória apenas diante dos ingleses, os italianos novamente deixaram o mundial na primeira fase.

Apesar do novo vexame, os anos seguintes trariam novas esperanças para o torcedor italiano, desde a reconstrução da liga nacional até a chegada de uma geração de jogadores mais talentosos e preparados para o futebol moderno. Mas a dívida que era paga desde 2006 ainda cobraria a sua parcela mais dolorosa.

 

Colhendo os primeiros frutos e pagando as últimas dívidas (2014-2018)

Antonio Conte no comando da Itália [Imagem: Twitter/Nazionale Italiana]

O ciclo iniciado após a Copa do Mundo de 2014 foi no mínimo ambíguo. O futebol italiano começou a mostrar os primeiros sinais de sua reconstrução, com a liga nacional evoluindo o seu nível técnico e tático e o surgimento de uma nova geração de jogadores e treinadores que tomariam os grandes clubes do país.

No entanto, o período terminaria com o fracasso da seleção em conquistar uma vaga para a Copa do Mundo de 2018, marcando a primeira vez que a Azzurri ficaria fora de um mundial desde 1958. Pelo menos este vexame, ao contrário dos anteriores, não se tratava de um reflexo verdadeiro do estado do futebol no país.

O maior investimento nas academias de base e formação de novos atletas no início da década começou a dar resultados para a Itália a partir deste ciclo. Em 2016, a seleção italiana conquistou o vice-campeonato da Euro sub-19 e repetiu o feito dois anos depois. Em 2017 e 2019, o país voltou às semifinais do Mundial sub-20. Na categoria sub-17, vieram mais dois vice-campeonatos europeus em 2018 e 2019.

Nas mãos de treinadores com ampla experiência em futebol de base, como Alberico Evani e Paolo Nicolato, as seleções juvenis da Itália voltaram a protagonizar as principais competições e revelaram jovens que logo estariam ganhando seu espaço na equipe principal. Foi neste momento que nomes como Nicolò Barella, Manuel Locatelli e Moise Kean começaram a surgir.

Na Serie A, as atenções estavam voltadas ao domínio da Juventus, que emplacava títulos nacionais consecutivos. Outros clubes tradicionais, como Milan e Internazionale, aos poucos recuperaram a saúde financeira graças a investimentos vindos do exterior. Ambos foram adquiridos por investidores estrangeiros, o que não só encerrou a era de poderosos dirigentes italianos como trouxe novos recursos para o futebol local.

À parte dos três gigantes italianos, era preciso prestar atenção no que ocorria em outros clubes, pois uma revolução se iniciava. Para quem rotulava o futebol jogado na Itália como excessivamente defensivo, bastava olhar para o que se construía em equipes como Napoli, Atalanta, Lazio e Roma.

Comandados por técnicos inovadores, de mentalidade ofensiva, como Maurizio Sarri (Napoli), Gian Piero Gasperini (Atalanta), Simone Inzaghi (Lazio) e Luciano Spalletti (Roma), os clubes coadjuvantes da Itália passaram a mudar completamente a imagem do futebol do país. A partir de 2015, estas equipes colocaram o nível do campeonato em um novo patamar, superando até mesmo a Juventus, que possuía bem mais armas ofensivas, em quantidade de gols.

Na temporada 2015-16, Roma e Napoli marcaram, respectivamente, 83 e 80 gols, enquanto a Juve anotou 75. Na temporada seguinte, foram 94 gols da equipe de Sarri, 90 do time de Spalletti e 77 de La Vecchia Signora. Um ano depois, foi a vez da Lazio deixar 86 tentos na conta. Em 2019-20, a equipe de Gasperini marcou incríveis 98 gols.

Na seleção italiana, Antonio Conte assumiu o comando técnico em 2014. O treinador chegou a Azzurri como uma espécie de “salvador”. Após três títulos italianos pela Juventus, Conte tinha como missão revitalizar o futebol do time nacional. A seu dispor, no entanto, um dos elencos mais fracos da história do país.

Sobre o cenário, Gian Oddi comenta: “O elenco fraco da Euro 2016 tem a ver com o fato de que o Campeonato Italiano naquele momento havia caído muito nos últimos tempos. Era um campeonato que apostava pouco nos jovens, que colocava suas fichas em jogadores já muito mais veteranos. Não tinha ainda o trabalho tão legal de alguns treinadores de fazer um jogo mais ofensivo, mais interessante, que potencializa o valor do jogador mais técnico.”

Apesar de sua filosofia de jogo mais defensiva, Conte estava muito acima da média de treinadores que haviam passado recentemente pela seleção. Mesmo com um grupo de jogadores inferior, o técnico conseguiu montar uma equipe bem organizada taticamente, até mais do que os times de Marcello Lippi.

Às vésperas da Euro 2016, o favoritismo italiano era praticamente nulo, o que novamente permitia que a pressão e a atenção da imprensa ficassem distantes. A Itália de Conte surpreendeu o mundo futebolístico no torneio europeu, conquistando vitórias diante das favoritas Bélgica e Espanha e sendo eliminada pela Alemanha apenas pelos pênaltis, já na fase quartas de final.

Conte mostrou ser o homem certo para conduzir a seleção até a Copa do Mundo da Rússia. E caso optasse por ficar no cargo, seu trabalho seria até mais tranquilo devido a quantidade de jogadores jovens que começavam a assumir papéis de protagonismo em clubes italianos e pediam uma vaga nas convocações do país.

A proposta do Chelsea, no entanto, foi irrecusável para o treinador italiano. Após a disputa da Euro, Conte deixou o comando técnico para assumir o clube inglês e continuar sua trajetória de sucesso no futebol europeu. Há menos de dois anos do mundial, a Itália, que parecia estar finalmente caminhando na direção correta, estava sem técnico.

Com tudo de positivo que ocorria no futebol italiano, a escolha do treinador da seleção parecia ser o último passo na reconstrução total do esporte no país. Mas a decisão da federação, indo na direção contrária dos acontecimentos futebolísticos daquele ciclo, foi a mais desastrosa possível.

Gian Piero Ventura foi o selecionado para comandar a seleção italiana após a saída de Conte. O ex-treinador do Torino seria o responsável por levar a Azzurri até o mundial na Rússia, aproveitando o período para realizar a transição entre a fraca geração dos últimos anos e a nova que pedia passagem.

Gian Piero Ventura e Gianluigi Buffon em coletiva antes da partida contra a Suécia [Imagem: Twitter/Nazionale Italiana]

Ventura tentou manter a forma de jogo de seu antecessor, priorizando um jogo mais defensivo. Mas nas partidas sob seu comando, ficaria claro que o novo treinador era bastante inferior a Conte. Nas eliminatórias para a Copa do Mundo, o time italiano mostrava pouca criatividade no ataque e muitas dificuldades com as bolas no pé.

Suas convocações eram consideradas conservadoras, com jogadores preparados apenas para executar seu plano de jogo e que não ofereciam muita variedade técnica ou tática. Um dos atletas considerados injustiçados foi o centroavante Mario Balotelli, que, após algumas temporadas conturbadas que o tiraram da seleção, vivia ótimo momento no Nice, da França.

Além do estilo de jogo que não valorizava as qualidades técnicas do elenco, Ventura se mostrou receoso em testar as novas peças que surgiam no futebol local. Lorenzo Insigne, por exemplo, ascendia de forma astronômica no Napoli, liderando as campanhas goleadoras do clube na Serie A. O atacante, no entanto, teve pouca minutagem na seleção. 

O treinador exibia a conhecida insistência de diversos técnicos italianos em apostar em seus atletas mais experientes. Jogadores como Marco Parolo, Antonio Candreva e Daniele De Rossi, todos acima dos trinta anos, eram excessivamente escalados, enquanto os jovens recebiam poucas oportunidades.

No jogo que concretizou o fracasso da busca pela vaga no mundial, ocorreu o momento mais constrangedor do comando de Ventura. Durante o segundo tempo, na repescagem contra a Suécia, a Itália precisava de um gol para não ser eliminada. O treinador decidiu colocar De Rossi em campo, um volante. O atleta da Roma se recusou a entrar e mandou o técnico apostar em um atacante, apontando explicitamente para Insigne. O atacante do Napoli, no entanto, seguiu no banco.

A derrota causou a demissão de Ventura e do presidente da Federação Italiana de Futebol, Carlo Tavecchio. A Itália deixou de disputar uma Copa do Mundo pela primeira vez desde 1958. Para o futuro da seleção, era preciso um treinador que estivesse disposto a abandonar os vícios futebolísticos italianos e tivesse coragem de levar a revolução que já ocorria na Serie A para dentro da Azzurri. Este homem era Roberto Mancini.

 

De volta ao topo (2018-2021)

Roberto Mancini e Leonardo Bonucci após a conquista da EURO-2020 [Imagem: Twitter/Nazionale Italiana]

Em maio de 2018, a federação italiana confirmou a contratação de Roberto Mancini para o comando técnico. A escolha não parecia absurda, mas o fato do treinador querer dirigir a Azzurri sim. Em uma era em que o futebol de seleções perdeu tanto espaço para os clubes, não é comum ver técnicos consagrados como Mancini se arriscarem em uma seleção.

Mancini, em contrapartida, é um técnico vencedor. Por onde passou, conquistou títulos. Revitalizar a seleção e dar de volta o protagonismo merecido seria uma enorme vitória para seu currículo. E obviamente, havia um caminho claro a ser seguido. Bastava coragem e paciência.

A chegada de Mancini não indicava necessariamente uma mudança de filosofia de jogo. Nos clubes que treinou, o técnico italiano sempre preferiu montar uma defesa forte em primeiro lugar. Vitórias magras não o assustavam. No entanto, o treinador teve a audácia de, em vez de impor suas ideias de maneira cega, observar o que estava sendo feito na Serie A, de onde a maioria dos jogadores italianos vinham.

A mentalidade defensiva e conservadora, tão comum no futebol italiano por tanto tempo, não se encontrava mais no Calcio. Clubes de sucesso no país, como Napoli, Atalanta, Sassuolo e Lazio, há alguns anos apresentavam um estilo de jogo extremamente ofensivo, que colocou a Serie A entre as ligas mais goleadoras do mundo inteiro.

Se a ideia era aproveitar a individualidade de seus jogadores da melhor forma possível, era preciso que Mancini adaptasse suas ideias e, assim, passasse a adotar uma postura mais agressiva em relação ao ataque. O estilo de jogo da equipe de Mancini seria inspirado no que melhor se fazia na Itália, influenciado por treinadores como Sarri, Gasperini e Inzaghi.

Outro objetivo do técnico era também o de concretizar a transição do elenco para uma nova geração de jovens, que surgiam em seus clubes. Para isso, Mancini trouxe como assistente Alberico Evani, que, além de ex-companheiro de Sampdoria, havia treinado as seleções de base da Itália ao longo da década. 

Sob o comando de Mancini, a Itália atingiu 27 jogos de invencibilidade às vésperas da Euro 2020. O treinador construiu uma verdadeira máquina, que mostrava solidez na defesa e um futebol atrativo no ataque. Ao trazer para a seleção jovens como Manuel Locatelli, Nicolò Barella e Jorginho, a equipe italiana teve o meio-campo transformado em seu principal e mais perigoso setor, e não mais a defesa.

A organização tática do time também explicitava o quanto a seleção de Ventura era mal-treinada e mostrava a verdadeira potência da equipe nas mãos de um treinador à altura dos grandes jogadores que surgiam. Na Euro 2020, a Itália não tinha o melhor elenco, mas exibia um jogo coletivo não visto em nenhuma outra adversária.

Gian Oddi compara os dois últimos treinadores da seleção: “A qualidade do trabalho do Mancini é ainda mais escancarada do que a do Conte devido ao absurdo que foi o fato da Itália ter ficado fora na Copa de 2018. Ali escolheu um treinador que não estava à altura da seleção. Quem tem uma das principais escolas de treinadores do mundo, não podia escolher um técnico que claramente não tinha capacidade de comandar aquele grupo. As campanhas da Euro 2016 e Euro 2020 tem tanto a ver com o técnico quanto a não classificação para a Copa do Mundo”

Com o melhor futebol da competição até então, a Azzurri passou pela fase de grupos com tranquilidade, mas se viu colocada em uma chave que trazia oponentes difíceis. Não fez diferença, pois além da competência, a sorte, antiga inimiga da Itália, também se juntou a Mancini na reta final do torneio.

Após passar por Áustria e Bélgica no mata-mata, a equipe teve à frente Espanha e Inglaterra. Com duas vitórias nas disputas de pênaltis, consagrando um outro personagem da renovação italiana, Gianluigi Donnarumma, como o craque da competição, a Itália venceu o seu segundo título europeu na história.

A revitalização estava completa. Foi preciso uma década de reestruturação de ideias de jogo, formação de novos jogadores e decisões erradas para se completar o renascimento italiano no futebol. E como os jogos são decididos dentro de campo, era preciso um comandante para implementar todas as mudanças na seleção. Roberto Mancini serviu a este papel. E assim, a Itália voltou a reinar no mundo do futebol.

Sobre a transformação, Gian Oddi afirma: “A contratação do Roberto Mancini e seu trabalho é disparado o principal fator para a conquista da Euro. Mas houve sim uma evolução na valorização da qualidade técnica dos jogadores italianos. E isso se deu devido ao trabalho de treinadores de clubes, como o Gasperini e o De Zerbi, que desfizeram o clichê de que o futebol italiano só se defende.”

 

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