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‘WandaVision’: o escapismo de uma realidade inóspita
Controle Remoto
08 mar 2021 | Por Pedro Ferreira (umpedroferreira@gmail.com)

Quando WandaVision (2021) foi anunciada no evento D23 Expo da Disney, já era possível sentir que o Universo Cinematográfico da Marvel (MCU) tomaria novos rumos. Adicionar um novo formato do audiovisual a uma saga que foi vista no cinema durante os últimos 13 anos era uma proposta ousada, ainda mais para uma produção “metade sitcom, metade espetáculo MCU”, nas palavras do produtor Kevin Feige. Após a estreia do último episódio no Disney+, a tão aguardada série sobre o casal de Vingadores não decepcionou os fãs.

Depois dos trágicos eventos em Vingadores: Guerra Infinita (2018), Wanda Maximoff (Elizabeth Olsen) e Visão (Paul Bettany) se mudam para uma pequena cidade de Nova Jersey chamada Westview em busca de uma vida comum assegurada pelo anonimato. Porém, entre jantares estranhos e conversas peculiares com os vizinhos, o casal começa a desconfiar da realidade em que vivem.

 

WandaVision: cena em preto e branco na qual Visão segura os ombros de Wanda e ambos miram pires voadores

Wanda com seus “pires voadores” e Visão com sua “cabeça indestrutível”. [Imagem: Reprodução/Disney+]

Sem dúvidas, o maior apelo de WandaVision é a metalinguagem que permeia toda a estrutura da série. Cada episódio se atém a uma década diferente e explora os programas de comédia transmitidos pela TV estadunidense. Isso permite um espetáculo de comentários sobre as mudanças pelas quais o entretenimento televisivo passou ao longo dos anos e o impacto social que cada uma infligiu.

Os episódios dos anos 1950 e 1960 retratam Wanda como uma dona de casa subserviente e reclusa, envolta em uma atmosfera conservadora e com papéis de gênero rigidamente estabelecidos. Mas há também espaço para grandes transformações, como a superação do tabu de casais dormirem na mesma cama e o início da televisão em cores.

Enquanto o episódio dos anos 1970 abre sutis espaços para reprovações a comentários machistas, o dos 1980 celebra a já avançada liberação sexual. Wanda já não se sujeita a imposições externas e assume deliberadamente o controle de sua realidade, enquanto Agnes (Kathryn Hahn), a vizinha intrometida, adere a um humor libidinoso sem hesitação.

 

WandaVision: cena em cores na qual Agnes, à esquerda, e Wanda, à direta, conversam

A vizinha Agnes fazendo uma visita antes da aula de jazzercise no episódio dos anos 1980. [Imagem: Reprodução/Disney+]

A produção dirigida por Matt Shakman possui uma frequente alternância entre razões de aspecto, ou seja, as proporções da tela. A série começa com o formato 4:3, comum às televisões antigas, evoluindo para a proporção 16:9 das TVs em HD, a partir dos anos 1980, e se consolidando na mais recente 21:9, conhecida como Ultrawide. A troca entre essas razões está intimamente ligada à narrativa, o que revela o trunfo da produção em alinhar texto e subtexto de forma esplêndida.

O roteiro de Jac Schaeffer surpreende por não seguir à risca a tão consolidada fórmula Marvel. Os constantes embates superpoderosos dão lugar a uma trama centrada no psicológico frágil e imprevisível de Wanda. A história é um comentário certeiro sobre as dores e paixões que nos conferem humanidade, com uma protagonista que passa por um avassalador e reincidente período de luto, mas que conquista uma vida que sempre sonhou.

Elizabeth Olsen entrega uma performance que supera o seu já marcante histórico como atriz no MCU. Sua jornada emocional ao longo de nove episódios é capaz de despertar uma experiência catártica em todos os espectadores. Esse intenso processo é ainda mais libertador em um contexto de mais de um ano de pandemia, com um luto coletivo que parece não ter fim. Não havia momento mais apropriado para a estreia de WandaVision.

Negação, raiva, barganha, depressão e aceitação. As cinco fases do luto alicerçam e dão um poder inimaginável à narrativa. WandaVision é uma série sobre perda, mas também sobre amor. A epifania da inerente correlação entre esses dois sentimentos é a grande lição desta que é a produção mais humana já feita pelos estúdios Marvel. 

O luto é o amor que persevera.

*Imagem de capa: Reprodução/Disney+

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