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A Possessão de Mary – Não foram apenas os barcos que afundaram dessa vez…
CINÉFILOS
22 jan 2020 | Por Anderson M. Lima (anderson.marques.lima@usp.br)

Lendas envolvendo bruxas, a loucura que o mar pode trazer aos menos preparados, o mito do Triângulo das Bermudas… Com uma premissa interessante dessas, podemos pensar que o longa A Possessão de Mary (Mary, 2020) tinha um caminho fácil para ser bem-sucedido. Mero engano. 

David (Gary Oldman), um marinheiro veterano, busca uma vida melhor para sua família e decide comprar uma embarcação abandonada em um leilão. Uma pessoa comum passaria pelo barco velho e destruído sem perceber sua presença, mas não David. Algo o atraiu desde o primeiro instante. Para ele, aquele objeto tinha alma, então, se destacava perante os outros navios. E ele não podia estar mais certo. 

Cheio de tentativas de nos prender através de pequenos acréscimos à narrativa, a história não deslancha. As conveniências jogadas na cara do espectador são muito evidentes, tal como o barco ter o mesmo nome que a filha mais nova de David ou a cena mostrar como tal personagem irá morrer de forma antecipada (técnica mais conhecida como foreshadowing). 

O desperdício envolvendo a narrativa é notável, mas também se aplica à escalação dos atores. Ver Gary Oldman em um projeto desses nos faz pensar como atores são submetidos a projetos esquecíveis. Além de Oldman, temos Emily Mortimer, que interpreta Sarah, uma mãe que leva consigo o sentimento de culpa devido a um ocorrido do passado, além de outros personagens que o espectador não se preocupa e até torce para saírem de tela o mais rápido possível. 

A construção do medo, a ambientação, aquele crescente comum de expectativa para algo ocorrer até acontece em determinados momentos, mas sempre há um porém que interrompe o possível pânico. Essa quebra geralmente envolve dois fatores: sonoplastia e o uso de CGI (Computer Graphic Imagery, ou seja, imagens geradas por computador). 

Durante momentos calmos, em takes que mostram o barco, ou mesmo, quando algum personagem está fazendo algo comum, a trilha sonora toca notas que não combinam em nada com um filme de terror. Nesse caso, a ausência de som seria melhor para trazer imersão ao público. 

O uso de um CGI mal feito prejudica na imersão do filme, criando uma atmosfera desleixada e com poucas chances de conseguir seu objetivo: assustar [Imagem: Divulgação]

Há diversos momentos de jumpscare que até poderiam funcionar, mas em seu clímax, o uso de um CGI mal feito estraga qualquer possibilidade de sucesso, ocasionando até risadas de quem está assistindo. A cena em que a família está tirando uma foto para marcar o novo rumo que estão tomando define bem essa questão: construção boa, desenvolvimento interessante, clímax (susto) arruinado por efeitos digitais desastrosos. 

A história poderia ter desdobramentos relevantes, pois o esquema de confissão policial mostrando o ocorrido no passado, intercalado com o presente, traz contextos relevantes para a obra e aumenta a possibilidade de sustos em outros tipos de cenários. Depender apenas do barco para ambientar as cenas é complicado e exige criatividade, coisa que não vemos aqui. 

No final, tudo é previsível demais e mesmo sem uma conclusão bem definida, o que poderia até gerar continuações, a sensação que fica é a de desperdício, tanto de uma boa premissa, quanto da escalação dos atores. A Possessão de Mary é aquele longa que poderia sair direto em DVD e ninguém perceberia. 

O longa tem estreia prevista para o dia 23 de janeiro no Brasil. Confira o trailer

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O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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