Home Cultura As lições de Svetlana Aleksiévitch para contar histórias
As lições de Svetlana Aleksiévitch para contar histórias

Conheça a narrativa do horror e beleza soviético-universais

JPRESS
24 fev 2020 | Por Amanda Mazzei (amandamazzei@usp.br)

 

“Passamos alguns dias, semanas, com água na altura do pescoço. Havia conosco uma operadora de rádio que tivera um filho havia pouco tempo. A criança estava com fome… Pedia o peito. Mas a própria mãe estava passando fome, não tinha leite, e a criança chorava. Os soldados da tropa punitiva estavam por perto… Tinham cachorros… Se os cachorros escutassem, todos nós morreríamos. Todo o grupo, umas trinta pessoas. Entende?

O comandante tomou a decisão…

Ninguém se animava a transmitir a ordem para a mãe, mas ela mesma adivinhou. Foi baixando a criança enroladinha para a água e segurou ali por um longo tempo… A criança não gritou mais… Nenhum som… E nós não conseguíamos levantar os olhos. Nem para a mãe, nem uns para os outros…”

A guerra não tem rosto de mulher,
Svetlana Aleksiévitch

A multidão também ficou com a pele gelada. Até as moscas passaram quietinhas quando Paulo Roberto Pires leu esse trecho na Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP), em 2016, para abrir a conversa com Svetlana Aleksiévitch. Os dizeres são do livro A guerra não tem rosto de mulher, da Nobel bielorrussa que então pisava terras fluminenses. 

Guerra? Aquele não era assunto inédito para qualquer um na plateia da FLIP ou fora dela. Não faltam filmes, seriados e livros ocidentais transbordando informações sobre a Segunda Guerra Mundial, desde que a partir de uma perspectiva masculina. As mulheres é que são assunto inaudível. Raramente são mencionadas, por exemplo,  as combatentes do Exército Vermelho (forças da União Soviética), ainda que seu número fosse expressivo: cerca de um milhão de mulheres lutaram na linha de frente contra o Eixo fascista. Ocuparam um espaço importante e terrível. Espaço ocupado tradicionalmente pelos homens. Svetlana não comete esse erro em A guerra não tem rosto de mulher; há um aprofundamento dignificador da experiência vivida por essas combatentes. 

Tampouco se fala do que sofreram as crianças. Mas em As últimas testemunhas, também de Aleksiévitch, há uma série riquíssima de relatos daqueles que tinham entre 5 e 14 anos de idade quando os alemães invadiram a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), em 1941. Da mesma forma, é perceptível que o maior dos desastres nucleares costuma ser contado com números demais e pessoas de menos — o que não acontece em Vozes de Tchernóbil. Já o fim da URSS, que gerou O fim do homem soviético, também é um tema tratado por Svetlana com todo o cuidado que o término de um fenômeno como esse, que criou um tipo novo de gente, exige.  

Svetlana ganhou o Nobel de Literatura em 2015 por sua “obra polifônica, um monumento ao sofrimento e coragem em nosso tempo” — palavras da Academia Sueca. Acontece que seu texto não é ficcional. Aleksiévitch fez um trabalho jornalístico de entrevistas e pesquisas, recolhidas ao longo de décadas. Como, então, escrevendo livros-reportagem, ela ganhou o mesmo Nobel que tantos romancistas excelentes?

Durante todo o processo, a palavra é alteridade. Os livros são compostos por um conjunto organizado de textos no formato de monólogo, com pouquíssima ou nenhuma interferência direta da autora nas falas, associadas à edição cuidadosa, para construir uma narrativa fluida. E, embora o contexto da obra seja o mundo socialista, em especial a bielorrússia, em verdade o cerne é o universal: a humanidade aguda, a humanidade comprimida e expandida até estourar. O horror e a beleza que todo ser humano pode ser e viver quando em situações intensamente extremas.

A temática de Aleksiévitch por si só já é atípica e relevante. Amplia nossa compreensão da história e do ser humano. Mas, a forma com a qual as informações são obtidas e se materializam para o leitor é que é o aspecto verdadeiramente revolucionário. 

O que contar é tão importante quanto o como contar. Ler Svetlana Aleksiévitch é fundamental porque ela comprime as fronteiras entre história, jornalismo e literatura.

Livros de Svetlana Aleksiévitch [Imagem: Reprodução]

  • As últimas testemunhas,
    Svetlana Aleksiévitch
    Crianças soviéticas na Segunda Guerra Mundial
    Companhia das Letras (2018)
    Publicado originalmente em 1985

 

  • A guerra não tem rosto de mulher,
    Svetlana Aleksiévitch
    Mulheres soviéticas combatentes na Segunda Guerra Mundial
    Companhia das Letras (2016)
    Publicado originalmente em 1985

 

 

  • Meninos de zinco,
    Svetlana Aleksiévitch
    Guerra do Afeganistão
    Companhia das Letras (2020)
    Publicado originalmente em 1989

 

 

  • Vozes de Tchernóbil,
    Svetlana Aleksiévitch
    Histórias humanas do desastre nuclear 
    Companhia das Letras (2016)
    Publicado originalmente em 1997

 

 

  • O fim do homem soviético,
    Svetlana Aleksiévitch
    A morte do sonho e vida socialista
    Companhia das Letras (2016)
    Publicado originalmente em 2013

 

Uma jornalista com ouvidos
“Na cela eu não dormia, e sim perdia a consciência de dor. Ora me parecia que estava na fila da escola e a professora Liubov Ivánovna Lachkévitch nos dizia: ‘No outono vocês voltam para o quinto ano, mas por agora até logo, pessoal. No verão todos vocês vão crescer. Vássia Boikatchiov agora é o menor, vai se tornar o maior’. Liubov Ivánovna sorria…
Ora andava pelo campo com meu pai, procurávamos nossos soldados mortos. O meu pai ia a algum lugar adiante, e eu encontrava um homem embaixo de um pinheiro… Não era um homem, era o que tinha sobrado dele. Não tinha braços, não tinha pernas. Ele ainda estava vivo e pedia: ‘Me mate com um tiro, filho…’.
O velho que ficava ao meu lado na cela me acordava:
— Não grite, filho.
— O que estou gritando?
— Você está pedindo que eu te mate com um tiro…”

Vássia Boikatchiov, doze anos.

As últimas testemunhas,
Svetlana Aleksiévitch

Quando alguns dos eventos sobre os quais Svetlana Aleksiévitch escreveu começaram a acontecer, ela nem havia chegado a este mundo. Só em 31 de maio de 1948, quatro anos após o fim da Grande Guerra Patriótica (período em que a URSS lutou na 2º Guerra Mundial), a escritora nasceu, na cidade ucraniana de Ivano-Frankivsk. A família logo voltou para a Bielorrússia, pátria do pai de Aleksiévitch.

Depois de terminar a escola, Svetlana trabalhou como repórter num jornal local de Narovl. Se formou em jornalismo pela Universidade de Minsk, em 72, e foi enviada para a cidade de Beresa. Anos depois, ela se tornou correspondente da revista literária Neman, e logo foi promovida para chefiar a seção de não-ficção. Também passou por um jornal das fazendas coletivas soviéticas em Minsk. Escreveu vários gêneros. Artigos, contos, reportagens. Ela diz que seu maior professor e influência sempre foi o escritor bielorrusso Ales Adamovich, por sua ideia de um romance coletivo, em que as pessoas pudessem falar sobre elas mesmas. De acordo com a biografia dos premiados Nobel, Adamovich ajudou Svelana a encontrar seu próprio caminho. 

No entanto, dar voz às contradições humanas em meio a um contexto político de tradição autoritária tem suas consequências. A obra de Svetlana não foi bem aceita em território soviético. Os livros ou foram censurados até a perestroika, ou proibidos quando publicados. Era inaceitável “romper a imagem heróica da mulher soviética”, era inaceitável seu “pacifismo” e seu “sentimento anti-soviético”. 

Aleksiévitch foi perseguida pelo regime ditatorial de Alexander Lukashenko, e por isso teve de deixar a Bielorrússia em 2000. Viveu em Paris, Gotemburgo e Berlim. Só pôde retornar em 2011. “Vivemos sob uma ditadura, há opositores na prisão, a sociedade tem medo e, ao mesmo tempo, é uma vulgar sociedade de consumo. As pessoas não se interessam pela política. É um período difícil”, ela disse à agência de notícias Agence France Presse, em 2013. 

Seus livros foram traduzidos para 45 línguas e publicados em 47 países até agora. Foram base para dezenas de peças teatrais e documentários. A série Chernobyl, da HBO, baseou-se em muitos relatos do livro de Svetlana, embora não a cite nos créditos. Ela ganhou vários prêmios além do Nobel, como o Prêmio da Paz do Comércio de Livro Alemão, o Prix Médicis, e o prêmio Ryszard Kapuściński de reportagem literária.

Para cada um de seus livros, Svetlana Aleksiévitch tem três ingredientes fundamentais: 

O tempo, o ouvido, e uma caneta-microfone 

‘Vamos namorar?’
‘Para quê? Você agora é um dos de Tchernóbil. Quem vai querer casar com você?’
Conheci outra garota. Nos beijamos, namoramos. A coisa estava ficando séria.
‘Vamos nos casar’, eu propus.
E ela me perguntou mais ou menos algo assim: ‘Será que você pode? Está em condições?’.

Eu iria embora daqui, e certamente ainda vou. Mas tenho pena dos meus pais…”

Vozes de Tchernóbil,
Svetlana Aleksiévitch

Como ela conseguiu relatos que parecem ter saído de uma sessão de terapia? 

Svetlana estabelece uma relação de confiança, às vezes até de amizade, com suas fontes. Para o livro Vozes de Tchernóbil, ela entrevistou mais de 500 pessoas, conversava por até 20 horas com cada uma delas, às vezes por vários encontros. Valorizava toda subjetividade daqueles relatos.

Marcos Zibordi, jornalista e pesquisador do livro-reportagem, explica que a pressa faz com que uma verdadeira comunicação entre entrevistador e entrevistado seja obstruída: “a gente quer uma conversa fechada em torno de X perguntas, vive atropelando as pessoas no momento da captação, cortando seu raciocínio, completando frases. Isso só nos trará respostas viciadas”. 

— São anos entrevistando. Anos. O repórter com pressa, que não olha no olho, que não escuta, não dialoga, não conversa… Enfim, que vê o outro ali como um mero objeto, como esse repórter vai conseguir que esse outro se abra como ser humano e conte uma história profunda?

Aleksiévitch, por outro lado, chama a si mesma de mulher-ouvido. Zibordi diz que o método dela se aproxima muito da teoria da pesquisadora de comunicação Cremilda Medina. “Tem que ser uma relação EU-TU, e não EU-ISTO [conceito de Martin Buber trabalhado por Medina]. É o que a Cremilda defende em Entrevista: o diálogo possível, e para que o diálogo seja mesmo possível, o fundamental é que o jornalista tenha tempo para conversar.” Cada um dos livros de Svetlana Aleksiévitch toma cerca de uma década para ser produzido. “A Svetlana está dentro do gênero livro-reportagem, que já pressupõe um maior aprofundamento, e tem a possibilidade do desprendimento temporal necessário para acontecer a entrevista.”

—Vou te dar um exemplo, você não pergunta a uma vítima de Tchernóbil: ‘é verdade que o seu marido nunca mais quis transar com a senhora porque nasceu uma verruga muito maior do que a glande no pênis dele?’ mas essa mulher é capaz de te contar algo assim se vocês estabelecem uma relação de proximidade.

Svetlana Aleksiévitch faz uma captação diferente da que se faz no jornalismo ortodoxo, no jornalismo diário do agora. Entretanto, mesmo obtendo informações tão preciosas, Aleksiévitch poderia ter um comportamento tradicional na hora de trabalhar a palavra. “Os livros da Svetlana, claro, tem altíssimo valor por sua leitura cultural, pelas investigações mentais daquele período. Ela é uma repórter eticamente comprometida. Mas também é esteticamente renovadora, e isso justifica o Nobel.”

A importância do como contar, ou o que o jornalismo pode aprender com a literatura

Ela tá falando a verdade. Pra mim isso não é literatura! 

São Paulo. Discussão. A guerra não tem rosto de mulher era tema da 37ª edição do Café Literário SP, na Biblioteca Mário de Andrade. Um contrariado senhor havia tomado o microfone. Externou sua indignação com o fato de que uma repórter, uma jornalista, que escrevia sobre a realidade das pessoas, estivesse ganhando prêmio de literatura. Bradava que a verdadeira literatura tem que ser ficção. Tem que ter o trabalho do autor de criar algo que não existe. 

Alguns dos outros leitores discordaram sanguineamente, outros estavam calados, pensando em quem tinha razão. O evento acabou sem uma resposta definitiva. 

Sonia Branco, tradutora brasileira de Vozes de Tchernóbil, especialista em literatura russa, diz que não é o teor de realidade que define um texto literário.

— A organização estética do material é aquilo que o torna literatura, fenômeno artístico.  O objetivo da Svetlana ultrapassa a denúncia factual ou a comprovação dos fatos. No trabalho dela há uma escolha e combinação criativa de elementos do material bruto.

A própria Svetlana disse à Folha de São Paulo: “É ingênuo pensar que o que eu faço é simples, que é apenas gravar e transcrever. Como os compositores, que encontram melodia em meio a uma cacofonia, extraio literatura do mundo, escuto todas as vozes e barulhos, fico atenta e seleciono.”

Lucas Simone, que traduziu O fim do homem soviético e também é historiador, concorda.

— Alguns questionam a premiação oferecida a Svetlana ou a Bob Dylan. No meu entendimento, ambos trabalham com uma modalidade específica de literatura, e fizeram jus aos prêmios, inclusive por suscitar essa discussão. 

Porém, para Marcos Zibordi, na obra de Svetlana, “o que há de literatura é muito menor do que o que há de jornalismo”. Isso porque ele acredita que os recursos estéticos vistos como literários são, na verdade, também ferramentas do jornalismo para se aproximar da realidade; ou seja, uma adequação do modo de contar a o que se conta. De acordo com o pesquisador, o elemento que pode dar um caráter literário às reportagens de Aleksiévitch (dependendo das definições que se adota para o que é literatura) é o momento da edição.

Editar é trabalhar o material bruto, construir um sentido, organizar de modo que as partes tenham clareza, fazer com que elas conversem. A maneira como se faz a redação e a edição define aspectos como a estilística, o nível de objetividade ou de subjetividade do texto e o tom.

— Dá pra imaginar que as entrevistas foram longas. Um ano, talvez, para convencer o entrevistado. Imagine que essa pessoa falou chorando por duas horas e tudo parece importante. A Svetlana sabe fazer o corte e reconfiguração das partes para criar uma narrativa. Ela tem essa consciência. Com certeza seria uma grande editora de vídeo ou áudio.

E, nessa edição, a autora propõe uma nova maneira de o repórter contar histórias, que é o exercício da alteridade. “Ela não quer se colocar em primeiro plano, ela não conduz a narrativa. O que ela faz é dar a fala literal, sem interferências. Ela abdica do ‘fulano disse’, ‘fulano falou’. Nem isso ela faz, que seriam amarrações mínimas da narrativa tradicional.” Zibordi explica que, embora o livro-reportagem seja, via de regra, um livro muito autoral, Aleksiévitch prefere abandonar as marcas egocêntricas. “Svetlana não quer essa hierarquia, ela está nos dizendo: ‘neste livro, eu não vou falar. Eles vão falar’.” O autor torna-se radicalmente submerso em prol da alteridade.

Flávio Ricardo Vassoler, especialista em literatura russa, atualmente trabalha em um pós-doutorado sobre a obra de Aleksiévitch. Ele acredita que Svetlana fez sim literatura, que o trabalho de edição e preocupação estética é fundamental, mas acentua que essa literatura não está ausente na fala de pessoas “comuns”. 

— É interessante ouvir essas críticas ao Nobel, porque sim, são relatos jornalísticos, mas não podemos nos esquecer de que os autores desses relatos são leitores que também foram socializados numa tradição de como se conta uma história. 

Ele diz que existe, em qualquer um de nós, uma preocupação automática com certos elementos da narrativa, como a coesão, a concatenação, e a ênfase. Além disso, Flávio Vassoler afirma que uma série de histórias contadas pelas testemunhas que Svetlana entrevistou dão conta de páginas de grandes clássicos da literatura russa. “Aleksiévitch é altamente poética na sua escrita, tem um lirismo voltado para aquilo que desponta de entre os escombros. Svetlana diz que os grandes clássicos lidam com o céu, mas as pessoas por ela entrevistadas lidam com a terra, a terra da vida, da qual a literatura se nutre.” A autora conta o que é humano e universal a partir do que viveram os soviéticos. 

— A Svetlana é uma revolucionária. Mostra que não é preciso aceitar a divisão do trabalho entre literatura, jornalismo, história, sentimentos e afetos; e mesmo entre autor e pessoa-personagem. Isso é muito radical, precisa ser estudado com bastante cuidado. 

 

Um punhado de história: o humano século 20 de Svetlana Aleksiévitch

“O primeiro medo foi… De manhã cedo, havia toupeiras no jardim e na horta, asfixiadas. Quem fez isso? Em geral elas não saem de debaixo da terra para luz. Alguma coisa as expulsou de lá. Juro pela cruz!
O meu filho me telefona de Gómel:
‘Os besouros de maio estão voando?’
‘Não há besouros nem lagartas em lugar nenhum, eles se esconderam.’
‘E as minhocas?’
‘Se você encontrar minhocas, a galinha vai ficar feliz. Não há mais nenhuma.’
‘Este é o primeiro sinal: onde não se vê besouros e minhocas, é que ali a radiação é alta.’
‘O que é radiação?’
‘Mamãe, é uma espécie de morte. Convença o papai a ir embora. Vocês podem viver conosco.’
‘Mas se ainda nem plantamos a horta…’ 

[…] 

Ligo o rádio. E não param de nos assustar com a radiação. Mas nós vivemos bem com a radiação. Juro pela cruz! Repare só: nos trouxeram laranjas, três tipos de salsichas, o que você quiser. E isso para aldeia! Os meus netos já conhecem metade do mundo. A neta mais nova chegou da França, lá de onde Napoleão veio nos invadir… ‘Vovó, eu provei abacaxi!’ O segundo neto, irmão dela, foi levado para Berlim para se curar de uma doença… Lá de onde Hitler veio nos invadir…”

Vozes de Tchernóbil,
Svetlana Aleksiévitch

— Quando os arquivos soviéticos foram abertos, a maioria dos historiadores correu para eles a fim de descobrir novas fontes e recontar a história a partir daí. Já Aleksiévitch fez um movimento diferente. Ao invés de ir aos arquivos, ela foi conversar com as pessoas reais que participaram ou pelo menos testemunharam os eventos. 

Para Henrique Canary, especialista em história soviética pela Universidade da Amizade dos Povos da Rússia, Svetlana acessou “uma nova dimensão, que não tinha sido acessada nem por pesquisadores russos, nem por estrangeiros”. Ele defende que, embora os depoimentos compilados por Aleksiévitch contribuam muito para o conhecimento histórico, a construção historiográfica exige que se submeta qualquer material à crítica e rigor científicos. “Ela publicou lembranças, que entram em camadas que os documentos oficiais não abordam, o que é interessante. Mas esse material naturalmente também está subordinado às vicissitudes, limitações e seletividades da memória.”

Flávio Vassoler também considera a obra de Aleksiévitch rica em informações para se compreender o século 20. “Os livros são formidáveis para entrar em contato com a história e cultura desses países que compunham a URSS, com a dimensão dos sonhos utópicos e também com as privações e contradições.” Para ele, vários aspectos do cotidiano do bloco socialista são desvelados. “Svetlana quer contar a pequena historia, a historia dos sentimentos, a história sobre a qual a macro-história pisa com o coturno. Há essa carnalidade, essa concretude, essa cotidianidade.” 

Ele defende que os livros são totalmente contíguos: o apogeu e o declínio da URSS não estão descolados dos acontecimentos da Segunda Guerra, a Guerra do Afeganistão e Chernobyl. Esse entrelaçamento criou um ambiente comum vivido pelas cinco gerações entrevistadas pela autora, ainda que cada contexto tenha suas muitas particularidades. “Os livros só têm fronteira entre um e outro de maneira artificial. As histórias são fluidas, ali tem uma negação da delimitação, uma retroalimentação muito grande entre todas elas.”

Sonia Branco diz que a obra de Svetlana problematiza a cultura soviética e é vital buscar outras leituras e aproximações culturais para entender bem as críticas da autora. Lucas Simone concorda:

—Sim, acredito que seja uma excelente introdução ao tema, bastante humana e sensível. Por outro lado, e falando mais como historiador que como tradutor, eu considero que outras abordagens são necessárias para uma compreensão mais completa do fenômeno. 

A história nas histórias

“Nós nos despedimos da época soviética. Daquela nossa antiga vida. Venho tentando ouvir com franqueza todos os participantes do drama socialista.
O comunismo tinha um plano insano: refazer o ‘velho homem’, o antigo Adão. […] Depois de setenta e tantos anos, cultivaram uma espécie peculiar, o homo sovieticus.
Tenho a impressão de que conheço essa pessoa muito bem, eu estou junto dela, vivi ao lado dela por muitos anos. Ela sou eu. São meus conhecidos, meus amigos, meus pais. Durante anos, viajei por toda a antiga União Soviética — porque o homo sovieticus não é apenas o russo, mas também o bielorrusso, o turcomeno, o ucraniano, o cazaque… Agora vivemos em países diferentes, falamos línguas diferentes, mas somos inconfundíveis. […] Somos todos pessoas do socialismo, semelhantes e não semelhantes às demais: temos nosso vocabulário, nossa noção de bem e mal, de heróis e mártires. Temos uma relação peculiar com a morte. […]
Busquei aquelas pessoas que se apegaram com todas as forças ao ideal, absorveram esse ideal de tal forma que não podiam se desprender dele: o Estado tornou-se seu universo, substituiu tudo nelas, até a própria vida.” 

Observações de uma cúmplice
O fim do homem soviético
Svetlana Aleksiévitch

Teríamos dois momentos principais abordados pela obra dela: a Segunda Guerra Mundial, pelo ponto de vista das crianças (As Últimas Testemunhas) e mulheres soviéticas (A Guerra Não Tem Rosto de Mulher), e as partes finais da Guerra Fria, com os livros sobre a Guerra do Afeganistão (Meninos de Zinco, lançamento em 28 de fevereiro no Brasil), o desastre nuclear de Tchernóbil (Vozes de Tchernóbil), e o fim da URSS (O Fim do Homem Soviético). Henrique Canary explica o contexto dos livros. 

— Sobre a Segunda Guerra, os russos têm uma visão diferente porque separam em duas: a Segunda Guerra Mundial em si, que teria começado em 1939 e acabado com os bombardeios nucleares de Hiroshima e Nagasaki, em agosto de 45, e a Grande Guerra Patriótica, que teria começado em 41 e terminado antes, em maio de 45, com a tomada de Berlim pelo Exército Vermelho. 

Os soviéticos entendem sua participação no confronto como muito mais decisiva para a derrota alemã do que a atuação dos Estados Unidos. Canary diz que o nacionalismo foi, sem dúvida, uma grande potência impulsionadora dessa força soviética, antes e depois da guerra.

A partir de 1965, o feriado da vitória passou a ser considerado, de fato, mais importante do que o aniversário da Revolução de 1917. “Hoje, a Grande Guerra Patriótica é muito mais do que um feriado ou um evento histórico. É um marco na memória coletiva dos russos, praticamente um fato fundador ou refundador da nação.” 

Os livros mostram cenas de crueldade e horror impensáveis. Terror, mutilações físicas e psicológicas contra adultos, idosos e crianças. Não havia idade ou gênero para se tornar vítima:  As últimas testemunhas mostra o processo de amadurecimento forçadamente relâmpago que as crianças soviéticas sofreram a partir de 41 e o massacre destas, de suas mães e avós. 

Canary explica que embora em outras guerras muitos exércitos também aniquilassem civis, esta foi mais violenta e mais cruel devido à existência do fascismo. Pela primeira vez na história, a matança da população utilizou-se de métodos industriais, como os campos de concentração e as câmaras de gases. Contudo, mais importante do que isso, “o nazismo e o fascismo são ideologias abertamente assassinas. A crueldade do soldado era argumentada, construída e justificada ideologicamente. Era, portanto, muito mais sólida e forte.”

Pensando ainda na Grande Guerra Patriótica, as mulheres foram essenciais e saíram fortalecidas em muitos aspectos. “Trabalharam na retaguarda, mas não só: foram pilotos de avião, snipers, membros das guerrilhas em territórios ocupados, e lutaram no front junto com os homens.” Henrique Canary diz que, com o fim da guerra, as mulheres ocuparam uma posição de maior prestígio na sociedade, inclusive porque muitos homens tinham morrido. “Houve vilarejos em que todos os homens morreram e as mulheres conduziram tudo depois da guerra. Mas, ainda assim, a guerra não acabou com o machismo. Ele continuou existindo.” Algumas histórias em A guerra não tem rosto de mulher contam como as combatentes passaram a ser desprezadas por vários homens, que não queriam se casar com elas, como se perdessem completamente sua “feminilidade”.

Svetlana Aleksiévitch também vai trazer as contradições do mundo soviético de momentos posteriores. Canary diz que havia um certo equilíbrio e uma ordem social mais justa na União Soviética do que em países capitalistas, ainda que de maneira controversa: em muitos aspectos, a URSS era uma potência moderna e desenvolvida; em outros, era atrasada. Apesar de não ter sido um país rico, satisfazia as necessidades básicas da população por comida, moradia, saúde, educação e cultura, de acordo com o historiador. “Além disso, há fatos que simplesmente não podem ser negados: a URSS enviou o primeiro objeto ao espaço, o primeiro homem ao espaço, a primeira mulher ao espaço, a primeira sonda para outro planeta (Vênus) e a primeira estação espacial, isso para falar apenas da corrida espacial.”

Henrique Canary explica que na URSS ainda havia diferenciação, tanto entre camadas sociais dentro das repúblicas, quanto entre nacionalidades de diferentes repúblicas, “mas nada que se compare à desigualdade que encontramos em países capitalistas. A nomenklatura, ou seja, a camada dirigente, tinha privilégios e um nível de vida melhor, mas não eram ricos, não podiam acumular nem transmitir nada por herança.” 

— Minha tese de doutorado é justamente sobre o fenômeno que se chama “nostalgia soviética”, ou seja, essa saudade que os russos sentem dos tempos da URSS, mesmo considerando a falta de liberdades políticas e as dificuldades que existiam. 

Por que as pessoas sentem saudades, apesar dos problemas? “Em primeiro lugar, por causa do trauma que foi a transição ao capitalismo durante os anos 1990. O PIB da Rússia caiu a menos da metade em 10 anos. Somente esse dado é suficiente para demonstrar o tamanho da queda no nível de vida da população.” Canary diz que a Rússia foi humilhada internacionalmente. “Os russos conheceram o desemprego, o frio, a miséria, coisas que não existiam antes. Então, eu não diria que eles sentem saudades do ideal. O ideal é apenas a forma.” O conteúdo seria, para ele, a vida de estabilidade, certeza no dia de amanhã, garantias sociais, prestígio internacional que a URSS oferecia. “Quando dizem que sentem saudades do socialismo querem dizer que sentem saudades da grande potência que era a Rússia.”

J.Press
A J.Press é uma agência de grandes reportagens que procura novas perspectivas de mundo. Com forma e conteúdo plurais, quer explorar assuntos a fundo, mesmo sabendo não ser possível esgotá-los. Em nossa agência, questões de interesse público ganham novos ares. Todos os textos da J.Press começam com uma pergunta, mas não pretendem chegar a uma única resposta.
VOLTAR PARA HOME
DEIXE SEU COMENTÁRIO
Nome*
E-mail*
Facebook
Comentário*