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Das quadras para as telas: a relação entre o cinema e o esporte

Frutos do mesmo contexto, o cinema e o esporte possuem um potencial incrível de criar narrativas que transcendam gerações, mas a falta de cuidado ao mesclá-los impede que isso aconteça

CINÉFILOS
26 ago 2021 | Por Patrick Fuentes (patyfuentes@usp.br) e Rian E. Damasceno (rian.enrique@usp.br)

Uma pessoa de origens humildes e problemáticas, que tenta sobreviver aos empecilhos que a vida impõe a ela, acaba tendo sua vida mudada ao conhecer alguém que vê nela um talento bruto e mal aproveitado. Essa figura assume um papel de mentor da pessoa e a força além de seu limites, a leva a crer que há mais na vida do que aquilo que ela achava. Além do mentor, essa pessoa conhece diversas outras pessoas que a ajudam a passar pelas várias provações que o caminho escolhido a impõe, até que, finalmente, no último deles, uma lenda nasce. Essa narrativa, por mais que genérica, é um ótimo exemplo do que é a jornada do herói, mas também serve como um ótimo resumo para a história do filme Rocky: Um Lutador (Rocky, 1976) ou qualquer uma de suas oito sequências

Certas narrativas se repetem inúmeras vezes no cinema, a jornada do herói atrelada ao mundo dos esportes é uma delas. A estrutura narrativa encaixa-se em diversos longas que usam o esporte como forma de contar uma história, desde Gol! – O Sonho Impossível (Goal! The Dreams Begins, 2005) até ao criativo Bud – O Cão Amigo (Air Bud, 1997). “Essa estruturação narrativa que discorre sobre elementos da cultura se apropria de diversas narrativas e dessas práticas corporais, dentre elas o próprio esporte, para amarrar os seus enredos, para construir as suas histórias”, contou ao Cinéfilos Allyson Carvalho, doutor e professor na área de educação física na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).

 

O personagem Rocky aparece utilizando um casaco marrom e com os braços abertos.

Uma referência entre os filmes de esporte, Rocky um lutador é um ótimo exemplo do uso de esporte nos cinemas. [Imagem: Divulgação/United Artists]

Segundo Carvalho, a relação entre esporte e cinema é algo que possui muito potencial. Ele destaca que as duas áreas como conhecemos é um fruto da modernidade. Como produtos de um mesmo contexto social, possuem princípios sociais e culturais muito próximos, como a relação com o espectador, buscando se utilizar da velocidade, da dinamicidade e do estímulo à excitação do sujeito praticante ou protagonista para instigar o interesse de quem assiste.  Ao comentar sobre o uso do esporte nas narrativas, Allysson afirma: “O esporte não garante audiência, mas ele engendrado com outros elementos que compõem a cultura cinematográfica gera uma potência muito grande, porque ele une nichos”.

 

O esporte e o público

Essa união entre os mundos esportivo e cinematográfico criam narrativas que ressoam fortemente com o público, através de gerações. Por mais que não se trate de narrativas revolucionárias, o esporte permite que temas sejam abordados de forma que o público possa relacionar-se, seja pelo apego à prática esportiva ou a similaridade que o contexto traz a sua vida. “Quando o cinema faz uso dessa prática social que é o esporte para narrar algum elemento, é importante que a gente compreenda que o esporte funciona ali como elemento alegórico para desenvolver uma narrativa cinematográfica ou se ele é central no enredo estabelecido”, diz Carvalho sobre o assunto.

Olhando para narrativas desse gênero, é possível notar qual o tipo de enfoque que o filme dá a cada momento para a prática esportiva. A franquia de Rocky Balboa é um ótimo exemplo de como cada filme utiliza-se do esporte com um enfoque diferente. Enquanto o primeiro, o terceiro e o sexto filme da série usa do esporte para abordar temas de pertencimento, superação, paternidade e sonhos, os demais que levam o nome do boxeador focam muito mais no espírito competitivo e no valor da prática do boxe como esporte. Essa mescla entre temáticas provoca um sentimento de emoção, excitação e identificação, que torce pelo protagonista, mesmo sabendo que a vitória, seja moral ou técnica, virá. 

O esporte, quando usado de forma certa, é uma ótima combinação com o cinema, pois potencializa suas narrativas e cria um mundo onde o espectador pode não só ser impactado pela história que está vendo, como ver sua própria realidade na forma que a narrativa se desenrola.  

 

Esporte como veículo

O esporte no cinema, assim como outros elementos da vida, é usado como um veículo para determinado enredo. Se pensarmos em Rocky: Um Lutador sem toda sua história cativante e suas dificuldades, o filme não seria assistível. Então “filmes de esporte” não é exatamente um gênero cinematográfico — senão “filmes de deserto” ou “filmes de oceano” também seriam —, e sim um plano de fundo para contar algo. Nesse momento, destaca-se a jornada do herói.

“O esporte potencializa a jornada do herói”, pontua Allyson, “para o cinema, foi como faca e queijo na mão”. É visível a grande quantidade de longas focados em práticas esportivas que mostram a superação de obstáculos e inspiram seus espectadores. O uso insistente da fórmula que envolve um jovem vivendo sua vida normal, que encontra um obstáculo e um mentor que o ajuda a vencer um desafio esportivo e, paralelamente, o protagonista conquista a garota dos seus sonhos, tornou todos os filmes desse “gênero” previsíveis devido a repetição.

Com isso, a qualidade de filmes centrados em desporto caiu. O público interessa-se pelo quão imprevisível o esporte é, e a falta dessa característica dificulta a conexão com a obra.  Principalmente pois o esporte é quem fisga a audiência e a narrativa do filme é quem o mantém interessado. “Por isso que perto da Copa do Mundo ou das Olimpíadas é lançado um filme com temática esportiva”, complementou o professor da UFRN.  Este ano, durante os Jogos Olímpicos, foi anunciado o longa Rei Richard (King Richard, 2021) que abarca a vida do pai de Serena Williams.

 

Will Smith e algumas garotas aparecem utilizando roupas brancas e caminhando.

Will Smith interpreta o pai de Serena Williams no longa de 2021. [Imagem: Divulgação/Warner Bros. Pictures]

O esporte também é usado nas grandes telas pelos sentimentos que é capaz de evocar ao focar no psicológico do protagonista e nas tramas solucionadoras. Histórias como essas costumam ser extremamente comoventes, pois são uma metáfora para a vida do protagonista e demonstram uma luta interna que o esporte o ajuda a batalhar. Tal ajuda pode vir de muitas formas, especialmente como um mentor ou uma figura paternal. Nesse âmbito, muitos filmes flertam com o complexo do branco salvador e com estereótipos de grupos minoritários, como Um Sonho Possível (The Blind Side, 2009).

A possibilidade de uma derrota depois de uma longa e árdua jornada atinge fortemente as emoções daqueles que assistem, mesmo sabendo que, pela fórmula da jornada do herói, isso não vai acontecer. Mas para que isso seja possível, o espectador precisa acreditar que os eventos do filme podem ocorrer, e isso costuma ser um grande empecilho para cineastas. 

 

Dificuldades em relacionar cinema e esporte

O  cinema, por querer manipular os sentimentos do público, falha em incorporar nas suas ferramentas narrativas aspectos importantes do esporte, passando uma ideia errada, simplista ou danosa sobre ele. A principal causa disso é a falta de realidade nas coreografias de cenas desportivas e nos enredos exagerados que aproximam-se de paródias.

Pelo esporte ser apenas um veículo, poucos cineastas importam-se com suas regras. Alguns deles, na verdade, nada conhecem sobre a atividade física que estão usando em suas obras e usam jargões de modo descabido. Erros monstruosos podem ser observados nos longas, desde saltos que ignoram as leis da física como quebra de regulamentos que levam à vitória. Isso demonstra uma falta de respeito tanto com o público como com os fãs e praticantes do esporte específico.

 

LeBron James aparece ao lado de Piu-Piu,, Patolino e Lola, utilizando um uniforme azul e laranja.

LeBron James assumiu a continuação do filme estrelado por Michael Jordan, Space Jam: O Jogo do Século (Space Jam, 1996). [Imagem: Divulgação/Warner Bros. Pictures]

Outro aspecto danoso a alguns filmes são as coreografias preguiçosas em cenas de jogos e atores ou atrizes que perdem seu tempo tentando fingir que estão praticando corretamente o esporte. Eles não conseguirem correr, pegar, chutar, jogar ou driblar fazem o espectador imaginar o que o diretor de elenco pensava quando fazia a escalação. Deve ser por esse motivo que LeBron James está jogando basquete do lado de Pernalonga e Patolino em Space Jam: Um Novo Legado (Space Jam: A New Legacy, 2021). 

Esse aspecto deteriora ainda mais a obra se ela for uma biografia. Caso um ator falhe em representar um atleta no auge e no jogo mais importante de sua carreira, fica ainda mais difícil de perdoar tal erro. Para grandes fãs do atleta, imprecisões como essa podem arruinar toda a experiência cinematográfica e impedir a intimidade que dá sentimento à obra. Óbvio que isso não acontece com todos, temos ótimos atores com ótimos dublês em ótimos filmes de esporte. Um exemplo evidente é Margot Robbie em Eu, Tonya (I, Tonya, 2017), filme biográfico da ascensão e queda da patinadora no gelo Tonya Harding. O esporte e o cinema são duas linguagens que quando combinadas da maneira certa podem criar um impacto sobre o espectador, fomentar a prática esportiva e criar algo que ultrapasse por gerações. Só que a utilização de conceitos sem considerar sua relação com a trama impede que essas histórias atinjam seu verdadeiro potencial 

Cinéfilos
O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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