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De volta para o futuro de Black Mirror
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05 fev 2020 | Por Danilo Moliterno (danilomoliterno@usp.br )

Desde os primórdios do cinema, é comum a produção de longas que retratam o futuro, projetando a vivência humana na modernidade. O grande sucesso de 1985, De volta para o futuro (Back to the future), foi um grande marco neste sentido, por isso até hoje nos deparamos com matérias de título: “veja as previsões do filme que se concretizaram”.

Em 2011 Black Mirror, série criada por Charlie Brooker, revolucionou o cinema de “projeção do futuro”: trouxe um conteúdo centrado em temas obscuros e satíricos que examinam a sociedade moderna, particularmente a respeito das consequências imprevistas das novas tecnologias.

Visto isso, o Laboratório selecionou três episódios da série (“Be Right Back”, “USS Callister” e “Arkangel”), que retratam ferramentas tecnológicas ainda não existentes, e junto de alguns especialistas analisou a eficiência das modernidades apresentadas, assim como a probabilidade de o ser humano alcançá-las em um futuro próximo.

Be Right Back e a inteligência artificial

Este, que é o primeiro episódio da segunda temporada da série, tem início com um casal se mudando para uma casa de campo. Um dia após a mudança, o marido é morto ao tentar retornar para o lar. Grávida, a esposa experimenta um novo serviço online que permite que as pessoas permaneçam em contato com falecidos: usando informações dos perfis de comunicação online e redes sociais, um novo marido pôde ser criado virtualmente.

A trama se dá na interação entre a mulher e o chatbot de inteligência artificial que simula o comportamento do falecido companheiro. A tecnologia retratada neste episódio existe no mundo real, porém não atua com a eficiência apresentada pela série fictícia.

Confira o trailer de Be Right Back:

Tal ineficiência do chatbot pode ser esclarecida a partir do famoso Teste de Turing. Neste, um juiz humano deve conseguir, através de conversas textuais com dois interlocutores, determinar com alta probabilidade qual é o humano e qual é o agente artificial. Caso o juiz não consiga, diz-se que o agente artificial atingiu inteligência humana. 

Segundo o especialista em inteligência artificial Dênis Mauá, “não estamos de forma alguma próximos de conseguir desenvolver um sistema que passe no Teste de Turing”. Ele complementa: “os chatbots atuais são versões simplificadas, que se atêm a um tema específico, fazendo raciocínios superficiais”. 

O chatbot Ed, que discute assuntos relacionados a gás e óleo, é um exemplo: https://www.inbot.com.br/cases/roboed/

Um demonstrativo do funcionamento desse tipo de inteligência artificial é o chatbot Eliza, que simula um terapeuta. A tecnologia por trás deste consiste na identificação de palavras-chave no texto e em regras de substituição de padrões para gerar a resposta.

Em uma breve explicação: se o humano digitar “Eu estou [expressão]”, o chatbot responde “Por que você está [expressão]?”. As palavras-chaves servem para direcionar o assunto. Por exemplo, se [expressão] for a palavra infeliz: “Por que você está se sentindo infeliz?”. 

Os chatbots mais modernos possuem parâmetros muito mais complexos e implícitos. Assim como na série, as regras são “aprendidas” a partir de uma enorme base de dados. Por exemplo, o interlocutor digita “Todos os homens são mortais. Sócrates era mortal?”. Então, o sistema busca uma informação que diga que o Sócrates mencionado se refere a um homem, e realiza uma dedução lógica para responder: “Sim, Sócrates era mortal”.

Em um exemplo mais próximo ao contexto do episódio, um aluno de doutorado do programa de computação da USP desenvolveu um TwitterBot — um programa que envia tuítes regularmente tomando a personalidade de Leonardo Sakamoto. Para isso, ele utilizou um banco de dados composto por textos do jornalista.

Acesso ao twitter pelo seguinte link: github.com/felipessalvatore/MyTwitterBot

Dênis, que auxiliou o aluno no processo de desenvolvimento da inteligência artificial, avalia que: “transformar esses sistemas em chatbots seria mais complexo, pois um humano facilmente perceberia que se trata de um impostor ao perguntar por coisas pessoais”. 

A dificuldade de replicar aspectos culturais como ironia e humor são, para o especialista, o principal empecilho no desenvolvimento de tecnologias semelhantes às do episódio. “Como essas características são parte da personalidade, acredito que as tecnologias atuais não conseguiriam enganar alguém por muito tempo”.

USS Callister e a realidade virtual

O primeiro episódio da quarta temporada retrata um solitário e talentoso programador de um popular jogo RV (realidade virtual). Este, amargurado com a falta de reconhecimento de seus colegas de trabalho, desconta suas frustrações em uma simulação semelhante a Star Trek, em uma versão privada do videogame.

A tecnologia RV apresentada é avançada o suficiente para que o usuário “entre no jogo”. Todos os cinco sentidos são afetados pela realidade simulada. A experiência é de, realmente, viver o videogame. Sem dúvida, a ferramenta é o sonho de todos os gamers da vida real.

Confira o trailer de USS Callister

Sonho, pois na atualidade ainda não existe um “Display Definitivo” termo definido em um artigo de Ivan Sutherland como um gerador de realidades virtuais tão perfeitas, que seria possível sentar numa cadeira projetada e ser atingido por um projétil virtual. 

Apesar disso, segundo o especialista em RV Romero Tori, “estamos bastante avançados”. Ele complementa: “com a realidade misturada (mixed reality), já é possível sentar numa cadeira virtual. Basta que exista uma cadeira física real rastreada pelos óculos de RV e representada no mundo virtual na mesma posição”. O sistema citado preenche o primeiro requisito da tese de Ivan.

A segunda exigência soa mais complexa. Porém, em um jogo RV nomeado The Void é possível caminhar livremente em uma instalação física, assistindo a um mundo virtual e interagindo de maneira palpável com portas e botões os contatos táteis são proporcionados por objetos sólidos existentes no local. Neste jogo, ainda que não seja fatal, é possível receber e sentir tiros. Também é oportunizado interagir com os demais participantes e personagens virtuais, tudo em tamanho real.

“Há momentos em que a gente esquece estar em um jogo e tem a sensação de que aquilo está de fato acontecendo. Então não considero uma utopia que no futuro esses jogos serão tão realistas a ponto de ser difícil distinguir real de virtual”, conta o especialista sobre sua experiência com a tecnologia The Void.

Arkangel e os sistemas de monitoramento

Por fim, o segundo episódio da quarta temporada da série. Arkangel é o nome de uma tecnologia de implante que permite aos pais monitorarem seus filhos 24 horas por dia. A modernidade também é capaz de censurar, aos olhos dos pequenos, imagens potencialmente aflitivas. A mãe solteira Marie, traumatizada com eventos passados,  implanta em sua filha, Sara, e dá início à trama.

Confira o trailer de Arkangel

No mundo real, as ferramentas de monitoramento não são consideradas futurísticas como os exemplos dos episódios anteriores. Por isso, é possível afirmar que esta tecnologia não só existe, como pode ser projetada de diversas formas a fim de atingir o mesmo objetivo.

“Não é exatamente um implante em uma pessoa, mas colocar um rastreador (software) no celular de alguém já é o suficiente para saber tudo sobre a vida dela: pode registrar sons e conversas, imagens, GPS, deslocamentos, etc”, considera o especialista em sistemas de vigilância Fernando Osório.

Os avanços tecnológicos em captura de vídeo, áudio e posicionamento global naturalizaram a vigilância no século 21. Atualmente somos vigiados facilmente via diferentes aparatos, sejam eles distribuídos em ambientes públicos ou implantados em equipamentos que carregamos conosco os chamados dispositivos embarcados. 

Exemplos deste “poder de vigilância” são as pulseiras de monitoramento de idosos com Alzheimer. O sistema permite localizá-los, caso eles se percam. Além disso, algumas versões alertam em casos de problemas clínicos, já que acompanham batimentos cardíacos, pressão, etc.

Apesar da variedade de possibilidades, Fernando Osório comenta empecilhos encontrados no desenvolvimento deste tipo de dispositivos: “eu diria que a tecnologia atual de vigilância só tem uma limitação: a duração das baterias. Normalmente a energia é o fator que mais dificulta um sistema destes de operar por longos períodos, sem ser notados, e sem precisar de recargas”.

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