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Dez anos sem domingos brasileiros na Fórmula 1
ARQUIBANCADA
13 set 2019 | Por Anderson Marques Lima e Pedro Sousa (anderson.marques.lima@usp.br e pedro_sousa13@usp.br)

Há exatos dez anos a música tema de vitórias brasileiras na Fórmula 1 não é tocada. A última vez foi em 13 de setembro de 2009, quando Rubens Barrichello subiu ao lugar mais alto do pódio no Grande Prêmio de Monza, na Itália. A 101ª vitória brasileira na Fórmula 1 – e até aqui a última – deu a Rubinho a oportunidade de encostar no líder, Jenson Button, e o credenciou a sonhar com o título mundial daquele ano. 

Seu principal concorrente ao título era seu companheiro de equipe. O inglês Jenson Button e Rubinho eram os pilotos da  estreante Brawn GP, equipe que nasceu após a Honda decidir sair da Fórmula 1 no fim de 2008. Foi então que Ross Brawn, diretor técnico da Honda, tomou a iniciativa de comprar a escuderia da Honda por um valor simbólico e criar seu próprio time para a temporada de 2009. 

Nascia ali a Brawn GP. Rubinho e Button, que corriam juntos pela Honda desde 2006, foram mantidos como dupla. Ross conseguiu a Mercedes como principal parceira e fornecedora do motor para a equipe novata. Mas o fator decisivo para o ano vitorioso da Brawn GP foi uma lida atenta ao regulamento da temporada de 2009. A FIA apresentou novidades importantes nas regras para as configurações dos carros. Ross Brawn percebeu uma brecha permitindo que fosse colocado um difusor duplo na parte traseira do carro. Tal peça tinha capacidade de melhorar o desempenho aerodinâmico, e era uma grande vantagem em potencial que Ross demonstrou perspicácia em notar.   

A teórica vantagem se mostrou na prática quando o carro da Brawn GP entrou na pista. Das sete primeiras etapas do campeonato, Jenson Button venceu seis e disparou na liderança do campeonato. Seu companheiro de equipe, Rubinho, também fez proveito do carro da Brawn GP e conseguiu dobradinhas com Button, dividindo o pódio com o inglês em algumas oportunidades e pontuando bem no campeonato. No entanto, dificuldades em se adaptar com o freio fizeram com que seu começo de temporada não fosse tão bom quanto o do líder do campeonato. 

Esse quadro mudou na segunda parte do campeonato, quando Rubinho, já mais adaptado com os ajustes de seu carro, melhorou seu desempenho, enquanto que Button, que teve um começo avassalador, apresentou dificuldades até mesmo em subir no pódio. Barrichello venceu sua primeira etapa na temporada em Valência, no GP da Europa, no que foi a centésima vitória brasileira na Fórmula 1, e representou a ascensão do piloto brasileiro no campeonato.

Menos de um mês depois da primeira vitória de Rubinho no campeonato, chega o GP da Itália, em um momento decisivo do campeonato mundial. O brasileiro já se fazia presente no retrovisor de Button. O inglês ainda tinha seu título mundial ameaçado por Sebastian Vettel, que estava numa crescente após ajustes feitos pela Red Bull em seu carro durante o ano.

No treino classificatório de sábado, Barrichello fez o quinto melhor tempo, ficando na frente dos seus principais concorrentes ao título: Button largaria em sexto e Vettel em nono. O pole era Lewis Hamilton, que manteve a ponta até a 15ª volta, quando fez sua primeira parada. Pit stop cedo do piloto da McLaren, motivado por um problema em seus pneus macios. Hamilton voltou na quinta posição, logo atrás da dupla da Brawn GP. 

Na 18ª volta, os líderes Sutil e Raikkonen fizeram seus pit stops. Rubinho e Button assumiram a dianteira, seguidos por Hamilton. A estratégia da Brawn de usar pneus duros e fazer somente um pit stop funcionou, e Button seguiu o Barrichello até a reta final da corrida. Na última volta, o terceiro colocado Hamilton bateu o carro, e o piloto brasileiro apenas administrou a vitória com a entrada do safety car. O vencedor daquela etapa já tinha dono. Ao final da corrida, Barrichello ainda foi aplaudido em peso pela torcida da Ferrari, escuderia que defendeu por anos.

Jenson Button (esq.) e Rubens Barrichello (dir.) durante a cerimônia de premiação em Monza, Itália [Imagem: LAT Photographic]

Segunda vitória no campeonato e esperanças vivas para a conquista de seu primeiro título na Fórmula 1. Rubinho estava apenas a 14 pontos de Button e sabia que essa era a maior chance de ser campeão mundial que teria em toda sua vasta carreira. Como ele disse à época: “Estou sem palavras. É um momento fantástico. Tenho um carro fantástico e vou dar o máximo de mim para conseguir manter a chance de ser campeão.” 

O significado daquele Grande Prêmio passou a ser um marco histórico para o automobilismo brasileiro com o decorrer do tempo. Mesmo que por um indicador negativo. Já são 10 anos sem vitórias brasileiras desde então. É o maior jejum vivido pelo Brasil desde de sua primeira vitória com Emerson Fittipaldi, no GP dos EUA, em 1970. Monza acabou representando mais do que uma perspectiva por um título mundial.

 A luta acirrada pelo título na reta final daquela temporada só teve fim na penúltima corrida do ano, em Interlagos. Jenson Button, Barrichello e Vettel estavam no páreo. A segunda metade de campeonato permitia que o alemão e o brasileiro sonhassem com uma reviravolta. No entanto, a gordura acumulada pelo inglês nas sete primeiras etapas fez diferença, e a quinta colocação em Interlagos foi suficiente para garantir seu primeiro troféu mundial. Pelo segundo ano seguido, São Paulo viu um inglês desbancar um brasileiro em casa.

 

A década do insucesso: o Domingo que nunca mais foi o mesmo 

A rotina do brasileiro, se pensarmos nos finais de semana, era motivada por dois esportes antigamente. Especialmente aos domingos, a manhã ou a hora do almoço era reservada para as corridas de F1. A tradição automobilística foi se esvaindo nos últimos tempos, ao mesmo passo que as vitórias brasileiras, e num contexto mais amplo, até mesmo as participações de brasileiros em Grandes Prêmios, reduziram até não mais existirem. 

Para alguns, o início dessa derrocada foi com o acidente envolvendo o piloto Felipe Massa em 2009. O incidente ocorreu durante um treino classificatório do GP da Hungria, numa curva em que o piloto passou direto após ser acertado por uma mola que escapou do carro do também brasileiro Rubens Barrichello. Ao acertar a proteção de pneus, a viseira de Massa acabou se desprendendo, e assim o piloto teve um corte de oito centímetros no supercílio esquerdo. Após ser operado, foi colocado em coma induzido e não voltou a correr pela sua escuderia naquele ano.  

Em entrevista ao jornalista Fred Sabino, do GloboEsporte.com, Massa descreveu como se sentiu durante o acidente: “Foi um acidente muito grave e inesperado, peguei uma mola pingando na pista, você não espera. Por um lado, foi até positivo porque não lembro de nada e acordei alguns dias depois no hospital. Analisando tudo o que aconteceu, dei muita sorte. Aconteceu o que aconteceu, e a minha vida voltou ao normal, fazendo o que eu gosto. Só fiquei com algumas marcas na testa e uma peça de titânio na cabeça, mas nada mudou”. Realmente, Massa retornou no ano seguinte e pilotou na Fórmula 1 até o ano de 2017. No total, foram 15 temporadas, vencendo 11 corridas e sendo vice-campeão em 2008. 

No entanto, essa reflexão que o acidente de Massa possa ter influenciado nesse momento ruim do automobilismo brasileiro vai na contramão do que pensa Victor Martins, jornalista da ESPN: “Não foi sua perda de título ou seu acidente que influenciou em algo. O Brasil vivia um ótimo momento econômico, mas havia uma recessão econômica mundial”.

Os dois grandes últimos representantes da F1 brasileira: Rubens Barrichello e Felipe Massa [Imagem: Motorsport.com]

Rubens Barrichello, último piloto brasileiro a ouvir o hino nacional no lugar mais alto do pódio, é o recordista em número de provas da categoria: 326 em 19 temporadas, com dois vice-campeonatos. Iniciando em 1993, com Senna ainda vivo, Barrichello correu até 2011, e sua última vitória foi justamente a do Grande Prêmio de Monza, em 2009.    

Ao se aposentar em 2011, deixou um vasto legado aos admiradores do automobilismo, um legado que não foi ocupado por nenhum outro piloto até hoje. Mesmo no Brasil, alguns espectadores não entendiam a forma que o piloto levou sua carreira. Em entrevista ao site Extra, Barrichello comentou: “Não penso que a visão das pessoas (sobre a minha carreira) mudou com o tempo. Sempre estive muito tranquilo em relação ao que realizei. Tem gente que não gosta e gente que gosta, não agrado a todo mundo. Porém, vejo que hoje tenho uma recepção mais legal ainda dos brasileiros. Diria que realmente consegui fazer com que entendessem a minha carreira”. 

Após a morte de Senna, a torcida brasileira tentou procurar um sucessor e sabemos que Barrichello não alcançou esse status, em grande parcela devido ao maior predomínio de um único piloto sobre os demais: Michael Schumacher. Na questão de sucessão, é mais crível pensar que Massa foi o sucessor do próprio Barrichello. 

Desde a morte de Senna, mais de 16 pilotos correram pelo Brasil. Na última década, alguns nomes apareceram, mas nenhum foi destaque ou manteve o nível que Massa e Barrichello alcançaram. “Nelsinho Piquet acabou com sua carreira na F1 ao forçar propositalmente seu carro para ajudar a Renault; Lucas Di Grassi não foi além de um ano numa equipe ruim; Felipe Nasr tinha potencial, mas não teve sorte na maior parte das vezes e não correspondeu em algumas outras”, comentou Victor, em breve análise sobre os pilotos que não mantiveram o nome do Brasil em evidência na F1. 

Vivendo o pior momento dentro das pistas, o Brasil já amarga quase 10 anos sem vitórias. Apesar de bons nomes, como Sette Câmara e Pietro Fittipaldi, a perspectiva para o retorno das glórias brasileiras na F1 parece distante na visão de Victor, tanto que quando perguntado o que o Brasil precisaria fazer para voltar aos bons tempos, respondeu: “O inverso do que faz. Ou melhor, do que não faz”.  

 

Quando o talento é desbancado por erros e falta de investimento

Foram 47 anos de F1 com pilotos brasileiros, desde a estreia de Emerson Fittipaldi em 1970 até a saída de Massa em 2017. A tentativa de achar o que ocasionou a ausência de um piloto brasileiro a partir de 2018 é infrutífera, já que existem diversos motivos para tal acontecimento, como a falta de investimento ou mesmo erros estratégicos cometidos durante os últimos tempos. 

Em entrevista ao site GRANDE PRÊMIO, Felipe Nasr, última esperança brasileira que esteve na F1, comentou que a ausência de brasileiros passa por diversos motivos: “É um pouco de tudo. É um pouco do momento que o país está passando, pois isso interfere diretamente na questão de investimentos. Hoje, 80% dos pilotos que estão na F1 é porque tem investimento do próprio país. Eu não acho que seja falta de qualidade ou de talento, pois nós temos muitos pilotos que poderiam estar lá. Mas hoje, nós dependemos muito mais do país poder acreditar em um projeto como esse, em um investimento como esse, do que depender só do talento. Hoje, na F1, o talento já não é o fator principal, virou uma coisa muito secundária”. 

Victor corrobora esse pensamento, ao culpar justamente essa falta de investimento da CBA: “A completa falta de investimento por parte da CBA (Confederação Brasileira de Automobilismo), que achou que safras de pilotos se formariam, principalmente com o boom dos anos 90, pós-Senna, por naturalidade. Nunca houve, e não haverá, projeto para esta entidade voltar a formar e incentivar pilotos – diferente do que fez a França, por exemplo, quando se viu na mesma situação. Anthoine Hubert, morto no acidente na Bélgica, era um destes frutos, bem como Pierre Gasly, Charles Leclerc e Esteban Ocon”.

O ex-piloto Jackie Stewart (que inclusive correu contra Fittipaldi em 72 e 73) fez uma declaração interessante sobre o assunto em reportagem dada ao Globo Esporte: “Não ter novos campeões na F1 é uma coisa. Vejo como um fenômeno cíclico. A Alemanha não teve por décadas até aparecer Michael Schumacher. Agora, não ter pilotos, dada as dimensões do Brasil e sua paixão pelo nosso esporte, é sinal de haver algo errado na sua formação ou mesmo eles não estarem mais sendo formados”. 

A falta de apoio da indústria automobilística brasileira pode ser um outro fator a ser considerado. Essa carência pode muito bem estar ligada à ausência de investimentos derivados do governo brasileiro, o que já deixa os pilotos brasileiros em desvantagem quando comparados ao investimento fornecido por países europeus.

Sergio Sette Câmara, promessa do Automobilismo brasileiro, vibrando após vitória na etapa da Áustria, da FIA Fórmula 2. [Imagem: Joe Portlock/LAT Images]

Seguindo a tendência dos esportes em geral, o automobilismo gera cada vez mais promessas que chegam mais preparadas em todos os sentidos, desde os aspectos técnicos até os mentais. Mas essa realidade não é exatamente a do Brasil. A citada falta de investimentos causa uma discrepância dos jovens pilotos brasileiros em relação aos europeus. 

Um exemplo dessa defasagem é o caso de Pedro Piquet, que durante dois anos teve sucesso absoluto na Fórmula 3 Brasil, com um bicampeonato. No entanto, ao disputar a F3 Europeia sofreu com a diferença em relação aos seus competidores, e amargou a 19ª colocação geral em 2016, e a 14ª em 2017. Victor Martins é direto ao comentar sobre isso: “A molecada que está sendo formada já tem a consciência de que chegar à Fórmula  é praticamente impossível e já se contenta com categorias nacionais, como a Stock Car. Ir para fora, correr campeonatos caros fora do país, é quase um milagre”.

Victor cita Sérgio Sette Câmara como a maior esperança para que o grid da Fórmula 1 volte a ter brasileiros para a temporada de 2020. Para isso acontecer, é preciso que o brasileiro tenha um bom desempenho na categoria que disputa, a FIA Fórmula 2, para conseguir a chamada superlicença e ter uma chance de pilotar pela categoria principal. “A FIA tem um sistema que determina que os pilotos precisam ter 40 ou mais pontos para ter a permissão de correr na F1”. O piloto mineiro já conseguiria tal feito com uma terceira colocação no campeonato. Câmara está neste momento em quinto lugar, apenas 4 pontos atrás do terceiro colocado, faltando ainda duas etapas para o fim da temporada. 

No entanto, mesmo que consiga a licença para pleitear uma vaga no grid de 2020, Victor pondera sobre as reais chances de Sete Câmara colocar o Brasil novamente na maior categoria do automobilismo: “O problema é que há poucos lugares na F1 no ano que vem. E para os disponíveis, ele não é o favorito.” 

Houve um dia que o Brasil já foi chamado de “nação da F1”. Essa década sem vitórias mostra que muitos erros foram cometidos, e, sabendo disso, Waldner Bernardo, atual presidente da CBA, espera mudar esse quadro, pelo menos se considerarmos o que ele disse em reportagem ao Globo Esporte: “Temos a Escola Brasileira de Kart, lançada pela CBA, inspirada no programa da ELF francesa, respeitamos todos os procedimentos padrão. Já opera em São Paulo, Santa Catarina e Minas Gerais. Esperamos iniciar em breve na Bahia, no Maranhão e em Mato Grosso”. 

O futuro brasileiro na F1 é incerto, mas o passado vitorioso não pode ser apagado. O talento existe, tal como já existiu com Barrichello, falta apenas saber como conduzir o carro em meio a pistas tão tortuosas e assim evitar as tempestades.

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