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As lutas internas que o glamour da fama esconde

Demi Lovato assume protagonismo na exposição de uma trajetória de pressões vividas por muitos sob o holofote

Escuta Aí
13 set 2021 | Por Maria Vitória Faria (mvitoriafaria@usp.br)

Ter expectativas é algo natural do ser humano, assim como almejar o sucesso. Mas há um limite. Em muitos casos, as exigências decorrentes dessa expectativa podem arruinar a saúde mental e a vida de uma pessoa. Entre as figuras públicas, a pressão da fama pode ser devastadora pela exposição constante e a consequente vulnerabilidade. 

A cantora norte-americana Demi Lovato reacendeu os holofotes sobre essa questão e quebrou dois anos de silêncio ao divulgar seu mais recente álbum e documentário, Dançando com o diabo — a arte de recomeçar (Dancing with the devil — the art of starting over, 2021), no qual ela expõe sua trajetória até a overdose de 2018, após seis anos de sobriedade. Por meio de uma explicação cronológica de transtornos mentais e alimentares, de vícios e de muitas recaídas, Demi, familiares e amigos relataram os momentos mais conturbados da vida da cantora até o atual processo de recuperação, o que inclui detalhes do dia em que ela quase veio a óbito, após ter paradas cardíacas. 

Demi é um dos muitos casos de celebridades que lutam contra distúrbios, e representa uma minoria que se dispõe a discuti-los publicamente.

Demi Lovato em imagens promocionais do novo álbum, no qual a cantora fala sobre trajetória profissional e pessoal [Imagem: Reprodução/Instagram/ Demi Lovato]

Demi Lovato em imagens promocionais do novo álbum, no qual a cantora fala sobre trajetória profissional e pessoal [Imagem: Reprodução/Instagram/Demi Lovato]

Figuras públicas, em especial os famosos, são consideradas pelo público modelos a serem seguidos. Pressionadas a não errar ou se afastar da perfeição, essas pessoas possuem todos os holofotes em si. É esperado que elas não falhem em nenhum aspecto, como comportamento e aparência. 

Quando a pressão refere-se ao aspecto físico, as mulheres tendem a ser ainda mais afetadas, devido a representações femininas existentes na sociedade como corpos que devem agradar a outros. As frequentes harmonizações faciais e cirurgias plásticas, por exemplo, feitas pelos artistas — e pelos indivíduos, no geral — são apenas um dos muitos reflexos dessa exigência.

 

O amor e o ódio dos fãs

Lindsay Lohan, Britney Spears, Amy Winehouse e Demi Lovato, mulheres que lutaram, e três delas ainda lutam, por sua saúde mental. [Imagem: Reprodução/Instagram/ @lindsaylohan/@britneyspears/@amywinehouse/@ddlovato]

Lindsay Lohan, Britney Spears, Amy Winehouse e Demi Lovato, mulheres que lutaram, e três delas ainda lutam, por sua saúde mental. [Imagem: Reprodução/Instagram/@lindsaylohan/@britneyspears/@amywinehouse/@ddlovato]

Atingir a fama é a meta de vida para muitas pessoas, mas compreender o peso de ter a vida exposta é um processo complexo. A exposição e o foco da mídia em celebridades já se mostraram nocivos: Britney Spears, Amy Winehouse, Lindsay Lohan e a própria Demi Lovato são exemplos de famosas cantoras que, em paralelo ao ápice do sucesso, estavam com a saúde mental em decadência. Para a psiquiatra, psicanalista e membro do conselho científico da Associação Brasileira de Familiares, Amigos e Portadores de Transtornos Afetivos (Abrata), Elisabeth Sene-Costa, a falsa ideia de amor adquirida com a fama por meio dos fãs é “extremamente perigosa, por ser volátil”. Em um momento, todos lhe amam e aplaudem. No outro, você é massacrado. “Posso te amar e te aplaudir, desde que seja do meu jeito”, explica Elisabeth. A reação negativa do público, para a psiquiatra, é um forte gatilho tanto para aqueles que já conviviam com alguma doença mental, quanto para aqueles que ainda não haviam tido uma experiência do gênero. Com a disseminação das redes sociais, a exposição chegou a outro patamar: a pressão para atingir o ideal saiu da esfera pública para a pessoal e passou a afetar usuários que não são celebridades. Contudo, a exigência sobre o famoso continua predominante, além de amplificada pelo alcance mundial e pelo anonimato que a internet possibilita a críticos.

Elisabeth Sene-Costa, membro do conselho científico da Abrata. [Imagem: Acervo pessoal]

Elisabeth Sene-Costa, membro do conselho científico da Abrata. [Imagem: Acervo pessoal]

Preconceito em relação à saúde da mente

Embora os transtornos mentais sejam comuns, especialmente a depressão e a ansiedade, estigmas em relação a eles ainda estão presentes na sociedade. O preconceito generalizado dificulta, e muitas vezes impede, a fala do artista sobre seus distúrbios na mídia. O caso de Demi Lovato é quase uma exceção. O estigma sobre as doenças mentais transforma a dor do indivíduo em fraqueza e ter depressão, por exemplo, pode virar sinônimo de desleixo ou de reclamações sem fundamento quando falta compreensão da situação. Com isso, a tendência geral é esconder. 

Como explicitado por Demi em seu documentário, além da vergonha e do tabu, guardar a doença para si, entre os famosos, representa o medo de decepcionar os fãs. A luta contra esses transtornos torna-se mais difícil e pode levar ao isolamento e a vícios, como álcool e drogas. Foi o caso de Amy Winehouse, cantora e compositora britânica, que faleceu em 2011 após uma trajetória de uso abusivo de álcool e problemas de saúde mental.

 

O diálogo como elemento de identificação e recuperação

A possibilidade de dialogar abertamente sobre esses temas entre as celebridades, como feito por Demi, é importante não só para o tratamento do famoso, mas também para os fãs.

Giovanna Campos, estudante que teve Demi Lovato como sua inspiração no cuidado da saúde mental. [Imagem: Acervo pessoal]

Giovanna Campos, estudante que teve Demi Lovato como sua inspiração no cuidado da saúde mental. [Imagem: Acervo pessoal]

A estudante de terapia ocupacional Giovanna Campos, 20, começou a desenvolver depressão, distúrbios alimentares e de imagem aos 13 anos. Ela conta que não entendia o que estava sentindo e, consequentemente, se isolava. Mas, ao ver Demi Lovato expor sua experiência, formou-se um vínculo de identificação entre a jovem e a cantora.

Segundo Giovanna, em situações como essa, o indivíduo no geral se sente solitário e único, logo, a identificação com o outro, principalmente com um famoso, admirado por todos, é tranquilizadora. Além disso, as diversas recaídas de Demi e seus relatos sobre sua situação mental eram um incentivo para o tratamento de Giovanna, pois ela via que recaídas existem e podem ser superadas: “É difícil se sentir confortável para conversar, pedir ajuda a amigos. Você nem sabe o que está acontecendo, você se esconde num casulo e quando um artista fala, você pesquisa sobre, você percebe que sente o mesmo e você descobre o que é. Eles precisam usar a própria plataforma para disseminar conhecimento”.

 Para  Elisabeth, o único meio possível de solucionar a falta de informação sobre transtornos mentais é falar sobre o problema. Caso contrário, os tabus, os preconceitos e os estigmas ficarão parados e não haverá mudança. “Transmitir conhecimento e lutar por uma causa é essencial na vida de todo ser humano”, diz Elisabeth.

Nesse sentido, o documentário Dancing with the Devil abre uma porta para o diálogo sobre o assunto e encoraja outros artistas a admitirem seus problemas ao público e, consequentemente, suas vulnerabilidades. Entretanto, é importante que o sujeito em questão esteja confortável para discutir o tema e que o público respeite o tempo e as experiências daquele indivíduo. Como pontua Giovanna, ninguém compartilha todos os aspectos de sua vida, nem as celebridades. Demi Lovato tem sido, durante anos, um modelo na luta pela saúde mental e, até aprender a lidar com esse posto, a ideia de modelo a sobrecarregou durante muito tempo, como ela mesma expõe no documentário.

Além do papel de identificação promovido pelos famosos, outras iniciativas oferecem suporte para lidar com os distúrbios mentais, como a Abrata, que proporciona encontros entre portadores e familiares de pessoas com depressão e transtorno bipolar, além de palestras para o esclarecimento de dúvidas com especialistas. 

Diante da crescente pressão midiática e social, ter empatia e resiliência, tanto com um famoso, com alguém próximo, quanto consigo mesmo, é um caminho possível para minimizar cenários destrutivos.

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