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A Conquista da Resiliência Por Meio da Música Pop

As batidas geradas por um item mercadológico e sua importância subjetiva

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23 maio 2019 | Por Kaynã de Oliveira (kaynadeoliveira@usp.br)

Quem nunca esqueceu os fones de ouvido e se sentiu completamente nu? Quem nunca estava no tédio e colocou aquele som para tocar? Ou então quando estamos na fossa e a música parece nos abraçar. Quem gosta de música sabe da sua importância para si mesmo, mas, de fato, como a música age sobre nós? Durante esta reportagem, você entenderá como os sons são capazes de adentrar em nossos mundos pessoais e ser um SOS no meio do oceano.

A música pop tomou proporções grandiosas com artistas como Michael Jackson e Madonna que, graças a seus trabalhos e recordes de venda, são considerados os reis do estilo. Quem nunca ouviu Thriller ou Vogue? Além dos considerados reis do pop, quem nunca ouviu Toxic da Britney Spears ou Crazy in Love da Beyoncé? É um estilo que tem embalado gerações e feito parte do imaginário de milhões de pessoas ao redor do mundo. Lady Gaga, por exemplo, foi a primeira artista a atingir um bilhão de visualizações no YouTube.

Michael Jackson e Madonna no Oscar de 1991. [Foto: CR Fashion Book]

O termo pop é abreviação da palavra “popular”. Massificado, o pop é considerado extremamente comercial e generalista para alguns. Com letras que diversas vezes falam de amor, a música alcança o público. Vários artistas, ao longo das décadas, têm colocado em suas obras ainda mais intimismo, de tal forma a atingir a vida das pessoas e fazer com que a canção dialogue profundamente com o ouvinte. A música pop tem feito parte da trilha sonora de muita gente.

Desde os primórdios da humanidade, de forma ampla, a música tem feito parte da sociedade. O ritmo dita as danças e, atualmente, a arte pop em suas diversas versões tem embalado as massas. Mas, fora da generalização, sua influência atinge vidas, mudando-as ou servindo de refúgio ou apoio para a superação.

Atualmente, o acesso à música é muito mais facilitado. São diversos os serviços de streaming, como Spotify ou Deezer, em que é possível ouvir qualquer canção, de qualquer lugar do mundo e a qualquer instante, o que facilita a divulgação dos trabalhos e seu alcance.

A música faz parte do desenvolvimento humano

A audição é o primeiro dos sentidos a ter formação completa. O feto a desenvolve durante a gestação por volta da 20ª semana. O corpo da mãe é rico em estímulos sonoros. Portanto, o som faz parte dos seres humanos desde o início da vida. O ouvido é o órgão mais desenvolvido do feto, afirma a musicoterapeuta e cantoterapeuta Meca Vargas, da Clínica Tobias. Além do útero, a música se faz presente durante a infância ou desde que se tem recordações. “Desde pequeno eu gostava de música. Escutava Sandy&Júnior e eu amava porque, para mim, música sempre foi para tirar do momento, se divertir, dar risada, dançar. Então, eu cresci ouvindo música”, diz Emerson.

Feto por volta da 20ª semana já com o sistema auditivo formado. [Imagem: blog Mamãe me quer]

Segundo Lorena*, a música pop teve papel fundamental em sua vida. Conheceu o estilo ainda criança, quando ficava muito sozinha e viu na música uma companhia. Por conta de seu interesse pelo estilo musical, fascinou-se por aprender inglês e desconstruiu pensamentos. “O pop para mim é tudo. Foi o que me fez sair da zona de conforto e criou muito da minha personalidade. Eu cresci ouvindo e gostava muito das letras.”

A escolha de um gênero musical depende da cultura do indivíduo ou mesmo do gosto subjetivo, afirma Meca. O grande alcance da música pop facilita para que mais pessoas tenham acesso a ela e adentrem em seu universo, adotando a música pop como um estilo sonoro que as agrada. Sendo assim, o gênero passa a constituir a trilha sonora da vida de alguém.

São diversas as situações em que é possível se encontrar em difíceis estados nos quais nada parece ter solução. Ou que o cansaço se instaura e torna-se complicado sustentar seu peso. Ou quando o mundo pesa em preconceito. São em momentos como esses que a música torna-se fundamental. Aquela letra que gruda na cabeça, aquele trecho que está sempre na ponta da língua ou a história daquele artista que parece ter passado pelas mesmas situações e que gera identificação. “Ouvindo música, a pessoa se sente apoiada, confortada e reconhecida em seus problemas”, diz Meca.

Rita diz que a música pop significa alegria e a ajudou durante uma fase de sua vida, como um refúgio. Em determinados períodos, diz não se sentir bem não por conta de outras pessoas, mas devido a si mesma. No ensino médio, numa nova realidade, encontrou pessoas diferentes e descobriu novas visões e, com isso, adentrou em um período de descobertas. Percebeu o quanto as pessoas são ruins e o quão ingênua era. Por sua sexualidade, pensava que não seria aceita socialmente, enfrentando uma crise interna. “Eu comecei a me odiar por isso. Acho que o mais difícil não é esperar que os outros te aceitem, é você esperar que você mesmo se aceite. Então, foi um período bem difícil. Tive várias crises de ansiedade e com isso veio a depressão.”

Emerson, no primeiro ano do ensino médio, enfrentou o preconceito por conta de sua sexualidade. Começou cedo, claro, desde a quinta série, mas foi no colegial que a homofobia se intensificou contra ele. De acordo com seus relatos, ouvia termos como “viadinho” e diz que coisas desse tipo o abalavam, pois não se considera uma pessoa forte. Ficava bastante magoado por todas as humilhações, todos os xingamentos, todas as risadas maldosas e deboches, por toda a dor interna que lhe era causada. Born This Way, música da cantora Lady Gaga que fala sobre amar a si mesmo, aceitar-se e orgulhar de ser quem é fez parte de sua playlist mental e foi usada para que pudesse suportar tudo pelo o que passava. “Em tudo sempre lembrei de Born This Way. Eu ficava, na minha cabeça, cantando”.

Cena do clipe de Born This Way, da Lady Gaga. [Imagem: Observatório IG]

Lorena teve problemas durante a infância. Usava a música pop como um refúgio onde buscava a felicidade quando não estava em momentos tão bons. Teve diversos problemas com seu pai que, segundo ela, era uma pessoa bastante agressiva. Ele tinha depressão, mas ao invés do tratamento, descontava sua frustração e raiva na menina agredindo-a várias vezes com tapas no rosto sem motivo algum. Em meio a tudo isso, “eu comecei a usar a música pop como refúgio para ter alguma coisa que me tirasse desse mundo, porque eu ia ter que continuar convivendo com o meu pai e eu precisava de alguma coisa que me tirasse daquele medo, daquele pesadelo que se repetia todos os dias”.

Em 2016, Joana começou a ter sintomas de depressão. No ano seguinte, foi diagnosticada e entrou em depressão profunda. Fazia tratamento, tomava remédio para levantar da cama, para dormir, para comer. Ela não mais sentia fome. Em meio a isso, a fã de Katy Perry conta como a cantora foi importante e a ajudou muito na época. Não foram somente as músicas que versam sobre se reerguer e ter força, mas até mesmo as mais agitadas como Teenage Dream. Foi aí que viu um motivo para continuar vivendo. “Eu colocava isso na minha cabeça: ‘não posso morrer agora porque tenho a Katy Perry, não posso desistir agora por conta dela’.”

Os relatos são exemplos da utilização da música pop com algum objetivo, mesmo que não declarado inicialmente. Observa-se a naturalidade de buscar refúgio em algo que seja agradável, e que tenha função de escape de algum momento, ou algo para se agarrar em determinada conjuntura. O fato é que a música mexe profundamente com as emoções e com as memórias. “Acessa imagens, recordações, ajuda a fazer projeções. Consegue até acelerar ou diminuir os nossos batimentos cardíacos”, afirma Maria Amélia Vaz, musicoterapeuta e arteterapeuta da Clínica Cor do Som.

Quem nunca ouviu uma música em outro idioma e não entendeu nada da letra, mas mesmo assim foi tomado pela emoção? “A música possui a capacidade de adentrar no território mais afetivo. Ou seja, há uma relação muito óbvia entre a matéria sonora e os componentes, muitas vezes consciente, dos planos mais profundos do afeto”, afirma o professor Adilson Citelli, da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP.

As melodias podem ser aceleradas ou calmas, com batidas fortes ou acordes singelos, dançantes ou perfeitas para ficar parado e em reflexão. Cada verso cantado, em sua totalidade, pode ser absorvido e repetido, como um mantra. Segundo Meca Vargas, as letras são significativas de acordo com o indivíduo, mas, quando juntas do som e  da música, são intensificadas. A música pode promover situações de manifestação intensa: trazendo tristeza ou intensificando o estado de euforia, de alegria. Conforme Adilson Citelli, há um disparador no campo da música que não se dá apenas no campo da racionalidade, mas também no plano da subjetividade que nem sempre se é possível realizar a leitura. “Além de Born This Way, eu tinha também Firework, da Katy Perry. Eu escutava direto. Me sentia tão vivo. Eu passava por muita coisa escutando música, escutando Firework”, afirma Emerson.

De acordo com Maria Amélia, a música pop e os sons no geral atuam diretamente no cérebro, praticamente em quatro campos: cognição, comportamento, emoção e movimento. A música tem o poder de liberar hormônios e substâncias associadas ao prazer e à felicidade, como dopamina, endorfina e serotonina. Isso ocorre quando alcança o sistema límbico, responsável pelas emoções e pelo comportamento social, assim como as drogas, o chocolate e os exercícios físicos. Como qualquer medicamento que age no cérebro, a música pode ter efeitos colaterais.

A musicoterapeuta também explica que a música pode ajudar a pessoa a reagir não só no caso de transtornos mentais, como no caso de problemas neurológicos. Os estímulos sonoros atuam nos dois lados do cérebro: razão e emoção. “É como se fosse conquistada uma homeostase entre a parte interna e externa da pessoa, um equilíbrio.” E, segundo Meca Vargas, “um tratamento musicoterapêutico pode ajudar bastante no tratamento da depressão, que não é só uma doença da psique, mas tem um fundo orgânico significativo”.

A música possui um papel importantíssimo na vida de várias pessoas. Emerson relata que em determinada fase de sua vida, após o ensino médio, pensou em suicídio. Porém, mais uma vez, a música foi uma luz. “Eu pensava direto ‘não estou aguentando mais, vou fazer alguma coisa’ é horrível falar de se matar, mas eu pensava muito. Daí eu escutava Born This Way e Firework e falava: está tudo bem. Eu escutava para ficar vivo, para ter uma força para viver.”

Cena retirada do clipe de Firework, da Katy Perry. [Imagem: Daily Mail UK]

Segundo Emerson, sua história e a música se entrelaçam. Desde quando era pequeno até os dias atuais. “Eu já acordo com ‘I Slay, I Slay’ na cabeça.” Para ele, música é algo que o inspira, que o move e não saberia viver sem. “Uma música vira a filosofia da minha vida.”

Para Joana, diversas músicas da Katy Perry foram importantes em sua história e em sua luta contra a depressão. “Double Rainbow, na minha interpretação, fala sobre encontrarmos pessoas raras e, na minha vida, eu tenho muita gente que considero rara justamente por terem me ajudado naquela fase difícil, tipo a Katy Perry, ela é o meu double rainbow”, diz. “Power está ligada mais para um empoderamento feminino, me ajudou muito com a minha autoestima e Pendulum fala sobre a vida realmente ser um pêndulo, que nada nunca será sempre um mar de rosas”.

Na musicoterapia é levantado um histórico sonoro da pessoa. Leva-se em consideração não só ritmos e letras, mas também os sons que agradam ou irritam. “Seria muito simples curar uma depressão com a escuta de uma música considerada alegre pela maioria.” Maria Amélia complementa que, “para alguns, letras e ritmos considerados festivos ou incentivadores são sinônimos de angústia ou frustração. Cada pessoa tem uma história de vida e uma trilha sonora que a acompanha”.

Diversos artistas pop também passaram por péssimos momentos em suas vidas e carreiras. Lady Gaga, em entrevista ao The Guardian, disse já ter sido jogada numa lata de lixo, tudo porque as pessoas a consideravam excêntrica demais. Era maltratada por ter ‘grandes sonhos’ e sofreu bullying durante a maior parte de sua adolescência. Hoje, Born This Way é considerada um hino dos diretos humanos e da autoaceitação:

“[..] Não importa se você é gay, hétero ou bi

Lésbica, transexual

Estou no caminho certo, querido

Eu nasci para sobreviver

Não importa se você é negro, branco ou pardo

Hispânico ou oriental

Estou no caminho certo, querido

Eu nasci para ter coragem!”

Demi Lovato também sofreu bullying durante sua infância e adolescência e, além disso, enfrenta até hoje uma luta contra as drogas. Em reportagem para a CBS News, disse ter saído da escola pública porque os ataques ficaram fortes demais e que fizeram, inclusive, uma petição para que ela se matasse. Demi tem tatuado nos pulsos a frase “Stay Strong” que em português significa “fique firme” e já disse diversas vezes que o bullying e todo o sofrimento pelo qual passou a fez uma pessoa mais forte. Em 2011 lançou a canção Skyscraper na qual fala sobre ter força e resistir:

“[…] Você pode pegar tudo o que tenho

Você pode quebrar tudo o que sou

Como se eu fosse feita de vidro

Como se eu fosse feita de papel

Vá em frente e tente me derrubar

Eu vou me levantar do chão

Como um arranha-céu”

Cena do clipe de Skyscraper, da Demi Lovato. [Imagem: US Magazine]

Além de Demi e Gaga, são vários os relatos de artistas que enfrentaram situações cruéis e cantam sobre suas histórias e inspiram milhões de pessoas. A expressão de um sentimento por parte do intérprete é, muitas vezes, a conexão precisa com o ouvinte.

A música pop possui laços profundos com várias histórias de vida. Fora dos tapetes vermelhos, dos Grammy’s, dos altos lucros e das turnês faraônicas, há a arte em sua pura forma: sensibilidade. A junção entre letra e som formam a combinação perfeita para aquele que escuta a música. Cada indivíduo possui uma experiência pessoal e intransferível com as sonoridades. A função musical é diferente para cada pessoa. No fim, a música pop pode ser utilizada na construção da resiliência, auxiliando na capacidade de passar por situações difíceis, como traumas e doenças e se recobrar, superando. Música é vida.

* Para a preservação da fonte, foi utilizado um nome fictício.

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