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Guga: o campeão de carisma
ARQUIBANCADA
04 set 2019 | Por Júlia Carvalho (juliacarvalho2602@usp.br)

Antes de a bola entrar em jogo, nunca pisava nas linhas. Em hipótese alguma. Durante cada intervalo entre os sets, mordia sua toalha. Entre uma jogada e outra, puxava as mangas da camiseta. Todos esses rituais poderiam ser feitos por qualquer jogador supersticioso de tênis, mas pertencem ao brasileiro que, aos 20 anos, entrou para a história do tênis: Gustavo Kuerten, o Guga.

Torcedor fiel do Avaí e surfista nas horas vagas, o catarinense de sorriso largo herdou do pai a paixão pelo tênis. Aldo Kuerten, um esportista desde criança, sempre incentivou nos filhos a prática do tênis e acompanhava todos seus torneios e de seu irmão mais velho, Rafael. Sabia que Guga seria um campeão, mas não teve tempo de assistir ao sucesso de seu filho. Em 1985, com apenas 41 anos, sofreu um ataque cardíaco enquanto arbitrava uma partida infantil de tênis e deixou Guga, com então oito anos. Aldo se tornou para o filho não só um ídolo como uma motivação para seguir no esporte. A quadra de tênis era, agora, a maneira que ele tinha de se conectar e se comunicar com o pai.

Gustavo Loio, jornalista especialista em tênis e autor do único blog de tênis – Top Spin – no site do O Globo, acredita que alguns dos traços da personalidade do tenista foram fundamentais para ele obter êxito no esporte. “Considero o carisma e a simplicidade de Guga inigualáveis no tênis, mas o foco é uma das características que o fez ir tão longe. Sem ele, certamente teria desistido do esporte quando seu pai faleceu”, afirmou o jornalista.

Guga ao lado de seu irmão mais velho, Rafael [Imagem: Arquivo pessoal]

Mas não foi apenas Aldo que passou a Guga valores que formaram o catarinense. Seu irmão mais novo, Guilherme, que nasceu com paralisia cerebral, trouxe ensinamentos ao tenista que ele considera fundamentais tanto para o tênis quanto para o dia a dia. Em sua autobiografia Guga, Um brasileiro, o atleta relata o impacto positivo que o irmão trouxe para sua vida. “O que me fascina é o que chamamos de ‘efeito Gui’, aquele que faz com que a gente valorize uma coisa de cada vez e extraia o máximo de cada situação e cada instante”. O tenista dava os troféus que ganhava ao irmão, que vibrava com os presentes. Gui faleceu em 2007, aos 28 anos.

Além de seu pai e seus irmãos, sua mãe, Alice, foi uma figura fundamental no desenvolvimento de Guga. Mulher forte e de grande vocação social, Alice foi essencial na criação dos irmãos Kuerten após o falecimento de Aldo, dando apoio para o filho seguir na carreira de tenista e incentivando nele um lado social.

 

De Santa Catarina para o mundo

Quatro anos depois da morte de seu pai, Guga começou a ser treinado por Larri Passos. O técnico, que havia recebido um pedido de Aldo para treinar seu filho anos antes, estabeleceu com o jovem atleta uma forte e duradoura relação, assumindo, também, o papel de um segundo pai na vida do tenista.

Nos primeiros anos, a parceria rendeu diversas participações em torneios juniores, tanto no Brasil como no exterior. Como juvenil, chegou a ser o terceiro do mundo em torneios simples e o segundo em duplas, sendo campeão nessa categoria no torneio de Roland Garros, em 1994.

A carreira profissional de Guga teve início em 1995 e ele realizou seu primeiro feito de expressão logo no ano seguinte, quando ajudou a equipe brasileira a alcançar a primeira divisão da Copa Davis. Em 1997, já há dois anos como profissional, alcançou a segunda posição no ranking brasileiro de tênis, atrás apenas de Fernando Meligeni.

Foi nesse mesmo ano que o brasileiro conquistou seu primeiro grande título, no que ele mesmo considera a atuação mais surpreendente de sua carreira. Em junho de 1997, o tenista conquistou seu primeiro Roland Garros, mesmo sendo apenas o 66º do mundo no início do campeonato. Com vitórias impressionantes sobre jogadores como Thomas Muster, primeiro do mundo um ano antes, Yevgeny Kafelnikov, um dos favoritos ao título, e Sergi Bruguera, um dos “reis do saibro”, o catarinense até então desconhecido surpreendeu o mundo.

Guga levantando o troféu de sua primeira conquista de Roland Garros, em 1997 [Imagem: Ron Angle / Estadão]

No final de 1997, alcançou a 14ª posição no ranking mundial, muito graças à vitória em Roland Garros. Essa colocação, porém, não se manteve durante o ano seguinte. Em 1998, o brasileiro caiu nove posições, terminando na 23º colocação. Apesar da queda, o tenista considera o ano como de grande aprendizado, pois disputou os maiores torneios da ATP (Associação de Tenistas Profissionais). “Conquistei dois títulos importantes [torneios de Sttutgart e Palma de Mallorca] […]. Se em 1997 subi três anos em um no ranking, em 1998 vivi o equivalente a cinco anos de aprendizado”, relata em sua autobiografia.

Já em 1999, obteve ótimos desempenhos nos mais diversos torneios, incluindo dois títulos de Masters Series e sua melhor campanha em Wimbledon, na qual chegou às quartas de final. Assim, apesar da queda nas quartas de final em Roland Garros, Guga terminou o ano como quinto tenista no ranking mundial. Era, então, uma questão de tempo para que se tornasse o primeiro do mundo.

No ano seguinte, o tenista manteve seus resultados positivos em torneios, justificando sua classificação entre os melhores do mundo. O ano de 2000 representou o auge de sua carreira, conquistando, em junho, o bicampeonato de Roland Garros. Porém, o Guga dessa conquista era totalmente diferente daquele que levou o título em 1997. O que se via nas quadras não era mais o desconhecido catarinense de cabelos compridos que, de forma inusitada e improvável, conquistou seu primeiro Grand Slam. Aquele que venceu em 2000 era o experiente Gustavo Kuerten. No final do mesmo ano – após vencer Peters Sampras na semifinal e Andre Agassi na final do Masters Cup de Lisboa – o brasileiro atingiu o tão desejado primeiro lugar no ranking mundial.

Em 2001, o tenista sustentou seu posto de melhor do mundo por 43 semanas, vencendo três torneios da ATP e dois Masters Series. Além disso, foi para a França defender o título do ano anterior em Roland Garros. Segundo o próprio Guga relata em sua autobiografia, era uma satisfação imensa defender esse título: “Mais do que em qualquer outro ano, eu me sentia em casa em Roland Garros […]. Era magnífica a chance de defender o título do ano anterior, com possibilidades efetivas de ser tricampeão naquele lugar especial, onde toda a magia começou”.

E o tri realmente ocorreu. Com direito a Allez, Gugá! por parte da torcida francesa e seu famoso coração desenhado na quadra após sua vitória nas oitavas de final, o brasileiro conquistou o tricampeonato de Roland Garros. Vestindo a camiseta na qual ele mesmo escreveu Je t’aime, Roland Garros (Eu te amo, Roland Garros), Guga levantou mais uma vez a taça e entrou para o seleto grupo daqueles que haviam ganhado três vezes o torneio, sendo o único brasileiro.

Não tenho dúvidas de que o tricampeonato de Roland Garros foi um ponto muito fora da curva. Pelos investimentos e oportunidades tão escassos no nosso país, é um milagre termos um jogador que conquistou tanto quanto ele“, disse Gustavo Loio. O jornalista ainda afirmou que, se não tivesse se contundido “ele [Guga] poderia vencer mais umas duas vezes Roland Garros, o que seria um feito enorme”. 

No fim de 2001, o brasileiro começou a sentir os problemas físicos. As dores no quadril e constantes contusões o impediram de dispor de seu melhor desempenho nos torneios, ficando em segundo lugar no ranking mundial ao término do ano.

Guga no tricampeonato de Roland Garros, em 2001 [Imagem: Getty Images]

 

Aposentadoria precoce

As dores que já incomodavam o atleta no final do ano fizeram com que, em 2002, ele realizasse a primeira de três cirurgias no quadril direito. O procedimento da época para a correção do problema de Guga e de muitos tenistas era agressiva e de efeitos ainda não totalmente conhecidos. “Com o conhecimento que tenho hoje, se soubesse tudo o que vinha pela frente, não faria a operação nem a pau, continuaria buscando alternativas, pararia de competir por um ano se fosse o caso, pesquisando soluções”, diz o tenista em sua autobiografia.

A operação impediu que o brasileiro obtivesse resultados à altura de sua capacidade nos torneios de 2002. Apesar disso, o tenista venceu seu primeiro Brasil Open, o que dava esperança ao brasileiro em relação à sua recuperação. No ano seguinte, ainda enfrentando muitas dores e necessitando de grande esforço para ganhar de qualquer adversário, venceu os ATPs de Auckland e de São Petersburgo. Foi em 2003 também que o catarinense venceu Roger Federer por 3 sets a 0, algo que demorou anos para acontecer novamente com o suíço. Segundo o atleta, essa vitória sobre Federer foi seu último grande momento em Roland Garros.

Em 2004, Guga passou por nova cirurgia e resolveu parar de treinar com Larri, decidido a dar uma pausa nos treinamentos. A operação o deixou fora dos circuitos até abril de 2005, iniciando uma sequência de anos na qual a participação em torneios decairia progressivamente. A difícil recuperação da última cirurgia que realizou, em 2006, tornou a volta às quadras com o mesmo rendimento ainda mais difícil.

Foi então em 2007, já de volta aos treinamentos com Larri e aos torneios, que o tenista decidiu realizar uma turnê de despedida das quadras. No ano seguinte, disputou cinco torneios, incluindo seu último Roland Garros. Repletos de homenagens e emoção, os torneios trouxeram ao brasileiro uma despedida que ele a todo custo tentou adiar. 

Guga, agora, se dedica ao Instituto Guga Kuerten [Imagem: Léo Cardoso / Agência RBS]

Após sua aposentadoria, Guga se voltou à construção de sua nova família e a contribuir socialmente para o tênis. Pai de duas crianças, o catarinense passou a se dedicar de forma mais intensa ao Instituto Guga Kuerten, criado em 2000 e comandado por sua mãe. O instituto atende crianças e adolescentes, promovendo o incentivo à prática de esporte, além do desenvolvimento de atividades culturais e educacionais. Segundo Loio, “o tênis brasileiro precisa de muito mais investimento, tanto privado quanto público. Mas é fantástico o trabalho do Instituto Guga, dele se preocupar em ajudar ao próximo. A realização da Semana Guga Kuerten, em que ele dá oportunidade a juvenis e cadeirantes, sem dúvida é um dos poucos estímulos ao surgimento de novos talentos no Brasil”. 

Hoje, após proporcionar tantas alegrias aos brasileiros através do tênis, Guga ainda é motivo de orgulho ao buscar que crianças tenham a oportunidade de se tornarem grandes atletas.

 

Uma pessoa de verdade

Além do inegável dom de Guga no esporte e de sua genialidade nas partidas, seu jeito humilde e carismático sempre atraiu muitos fãs. O tenista conquistou admiração não só dos amantes por tênis, como daqueles que nada entendiam do esporte e dos que trabalhavam diretamente com ele.

Gustavo Loio não é diferente e não esconde o carinho que tem pelo tenista: “Ser uma das pouco mais de 100 pessoas que ele segue no Twitter sempre foi motivo de orgulho pra mim. Lembro-me de ter agradecido a ele, pessoalmente, por me seguir e ele responder com aquele jeitão espontâneo e sorriso, dizendo algo como: ‘Imagina’ “.

O jornalista ainda relembrou o contato que teve com Guga: “Ter trabalhado com o meu maior ídolo no esporte é outro orgulho que tenho não apenas nesta profissão de jornalista, mas na vida. Durante dois anos, de 2012 a 2014, tive o privilégio de desenvolver um trabalho com ele de mídias sociais e em seu blog. Em todas as vezes em que estava perto dele – mesmo sem qualquer câmera ligada – o que testemunhei foi a simplicidade e o carisma que sempre admirei pela TV”.

Gustavo contou, também, sobre um momento em que presenciou o carinho que as pessoas têm pelo tenista. “Em novembro de 2012, quando Djokovic veio ao Rio para inaugurar a quadra da Rocinha e jogar um amistoso com o Guga no Maracanãzinho, testemunhei a admiração de grandes nomes do futebol, como o Zico, por ele. Na ocasião, o tricampeão de Roland Garros e o sérvio disputaram uma partida de futebol no Engenhão. A idolatria de crianças que nunca o viram jogar é outro termômetro da genialidade, carisma e simplicidade do Guga, que também testemunhei naquele novembro de 2012”.

O catarinense cabeludo e de sorriso fácil faz fãs mesmo entre aqueles que nunca tiveram a oportunidade de vê-lo jogar. Seu talento e sua dedicação permitiram que fosse campeão de Roland Garros três vezes e o tornaram o melhor do mundo. Porém, é seu carisma e bom coração que fazem com que Guga permaneça conquistando a admiração dos brasileiros até hoje.

Arquibancada
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