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Guia do Cinéfilo para Stanley Kubrick
CINÉFILOS
26 jul 2015 | Por Jornalismo Júnior

por Vitor Andrade
vitortheandrade@gmail.com

Stanley Kubrick foi um dos diretores mais aclamados da história do cinema, por trazer às telonas obras como 2001 – Uma Odisséia no Espaço, Laranja Mecânica (2001: A Space Odyssey, 1968) e O Iluminado (The Shining, 1980), responsáveis por uma revolução em seus respectivos gêneros. Abordou diversos temas como guerra, crime, romance, comédia, terror e ficção científica. Dirigiu, produziu e roteirizou quase todas os seus filmes. A liberdade no conteúdo de alguns chocou os mais conservadores, gerando variadas controvérsias e proibições, como por exemplo Laranja Mecânica (A Clockwork Orange, 1971), banido do Reino Unido por décadas, e Glória Feita de Sangue (Paths of Glory, 1957), proibido na Espanha e França por mais de vinte anos. Porém, a maturidade, perfeccionismo, realismo e o toque de ironia que aplicava em todos os aspectos de sua obra, o transformaram em uma lenda do cinema, capaz de proporcionar uma experiência verdadeira e envolvente, que dava ao espectador o poder de significar o filme. Se você não ouviu falar de Stanley Kubrick antes, vai passar a conhecer quase tudo dele e se preparar para uma maratona kubrickiana da qual você não vai se arrepender!

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1928-1999- A vida de Stanley

Infância e Adolescência

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O pequeno Kubrick com sua câmera na mão; O modelo Graflex que seu pai lhe deu

Stanley Kubrick veio ao mundo em 26 de Julho de 1928 no famoso bairro novaiorquino do Bronx, filho do médico Jacob e da dona de casa Sadie Kubrick, que seis anos depois também deu luz à Barbara Kubrick. Sua família era judia, porém não era rígida religiosamente, e permitiu o pequeno Stanley a ter suas próprias visões sobre religião. Apesar da carreira do pai como médico de sucesso, Stanley não viu muito interesse em segui-lo, e se revelou um menino mais interessado nas ciências humanas. Ele costumava andar com os grupos mais intelectuais da escola, e alguns de seus amigos se envolveram nos primeiros trabalhos cinematográficos. No início da adolescência, Jacob ensinou ao filho algo que ele levou ao resto da vida: jogar xadrez, e o jogo o ajudou a ter disciplina e paciência ao fazer decisões. Além disso, após algum tempo, seu pai o proporcionou novamente algo que ia marcar a sua vida: comprou para Stanley uma charmosa câmera Graflex, que o deixou fascinado e, como qualquer criança ao ganhar seu brinquedo, não se separou dela por um bom tempo.

Ele cresceu, assim como sua paixão pela câmera, e entrou na William Howard Taft H. S., onde entrou para o clube de fotografia, em que tirava fotos para a revista da escola. Kubrick não se interessava por nada na escola, tendo finalizado o ensino médio com uma média de 67%, cuja principal causa foi o grande número de faltas. Pois é, Stanley foi um adolescente rebelde que matava as aulas pra assistir filmes no cinema mais próximo. Em 45, ele se formou, e infelizmente (ou felizmente) não teve chance de entrar para o ensino superior, por causa de sua média decepcionante e das reservas de vagas aos soldados que voltavam da Segunda Guerra Mundial.

Carreira Fotográfica

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Auto-retrato de Stanley durante um ensaio

Kubrick então passou a frequentar por um curto tempo aulas abertas na City College of New York. Conseguiu alguns trabalhos fotográficos como freelancer, e, após um tempo, conseguiu vender uma série fotográfica para a revista Look. Além dos bicos, ele ganhava um dinheiro extra jogando xadrez no Square Park e alguns clubes de enxadristas. Mais tarde, ele se tornou aprendiz na Look, e em pouco tempo, foi parte da equipe de fotografia em tempo integral. Ganhou relativa fama com as histórias que contava em séries fotográficas, como “A Short Story from a Movie Balcony”, sua primeira série, que mostrava um pequeno conflito de um casal dentro de uma sala de cinema. Durante seus anos na revista, produziu obras famosas como “N.Y. World Art Center”, “Prizefighter”, “Chicago-City of Extremes”, “Glamor Boy in Baggy Pants”, feitas em diferentes ambientes e mostravam a capacidade do fotógrafo de criar atmosfera por meio da composição visual.

Rolo de câmera da série “Prizefighter”, que mostrava a preparação pré-luta de Walter Cartier

Rolo de câmera da série “Prizefighter”, que mostrava a preparação pré-luta de Walter Cartier

Kubrick passava um bom tempo em museus e salas de cinema, além de ler diversos livros de teoria cinematográfica, para fazer resumos sobre diretores, técnicas e idéias. Ele se tornou fã de diretores como Max Ophuls, a quem ele atribui o seu manuseamento de câmera e visualidade, Elia Kazan, por seu trabalho com seus atores, e Orson Welles, pela magnitude visual. Para aqueles em sua volta era visível que ele havia ficado obcecado em produção de filmes, e que ele iria dar um pulo para o mercado cinematográfico.

A vida adulta

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A única foto da família Kubrick, com Stanley, Christiane e as filhas Vivian, Katherina e Anya

Stanley se casou aos 19 anos, com a namorada do ensino médio Toba Metz, uma caracturista. Porém Kubrick não foi um homem muito satisfeito vivendo com Toba, e depois de três anos se divorciou. Pouco tempo depois, o rapaz já estava trocando alianças com a dançarina e designer austríaca Ruth Sobotka, com quem ele se mudou pra Hollywood. Ela teve participação nos dois primeiros filmes hollywoodianos do marido, como atriz secundária em A Morte Passou Por Perto (Killer’s Kiss, 1955) e como diretora de arte em O Grande Golpe (The Killing, 1956), porém novamente o rapaz, já consolidado como diretor em ascenção, não curtiu o casamento após o passar dos anos e se separou em 1957.

No mesmo ano, Kubrick passou um tempo em Munique na produção de Glória Feita de Sangue, e conheceu a atriz alemã Christiane Harlan, com quem começou um romance. Ela participou do filme com um papel importante, apesar de curto, como a inocente alemã que emocionadamente canta uma canção nacionalista para uma multidão de soldados americanos. Após o término da produção do filme, eles se casaram e voltaram para Nova York, onde Christiane estudou arte e se tornou uma artista independente. Caros leitores, finalmente o nosso querido Stanley ficou satisfeito e o casamento vingou pelos quarenta anos restantes de sua vida. Eles tiveram dois filhos e também criaram a filha de Christiane do casamento anterior.

Kubrick se mudou para o Reino Unido para fazer Lolita (Lolita, 1962), onde não havia a interferência dos estúdios hollywoodianos, já que o roteiro do filme tocava em alguns pontos delicados. Após o término da produção, decidiu viver permanentemente na terra da Rainha, onde ele iria, então, produzir a maior parte dos seus filmes.

Stanley e sua esposa já estavam insatisfeitos com a vida em Nova York, a rudeza e pressão por parte das pessoas e  o sistema hollywoodiano. E foi na sua casa em Abbots Mead onde produziu e administrou quase tudo que se encontra nos quatro próximos filmes, aliás por coincidência ou não, os mais conhecidos da sua carreira: 2001 – Uma Odisséia no Espaço, Laranja Mecânica, Barry Lyndon (Barry Lyndon, 1975)e O Iluminado. Em 1978, se mudou para Hertfordshire, em uma antiga mansão de um dono de cavalos de corrida, que se tornou o lugar de trabalho para ele e Christiane, onde ele se manteve até sua morte, raramente deixando a Inglaterra.

Agora que você conheceu a vida desta lenda do cinema, que tal começar uma maratona com as inovativas obras que ele nos deixou? Stanley fez no total treze longas, ganhou um Oscar e um Leão de Ouro. Pra saber a razão de todos esses prêmios, só passando um bom tempo assistindo a genialidade de Kubrick em prática!

Produção Cinematográfica


Medo e Desejo
(Fear and Desire, 1953)

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“-Há uma batalha nesta floresta. Não uma batalha que já ocorreu, ou uma que vai ocorrer , mas qualquer batalha. O os inimigos que sofrem aqui não existem, a não ser que nós os chamemos a existir. Esta floresta, então, e tudo que acontece é a história externa. Apenas as inalteráveis formas do medo – e dúvida – e morte – são do nosso mundo. Os soldados que você vê mantém nossa linguagem e nosso tempo, mas não tem outra pátria senão a mente.”

Medo e Desejo foi o primeiro longa de Kubrick, roteirizado por seu amigo Howard Sackler.  Contava a história de uma guerra fictícia, entre dois países não-identificados, em que um avião com quatro soldados cai dez quilômetros atrás das linhas inimigas. Eles decidem construir um barco improvisado para navegar em um rio próximo em direção a suas tropas, e durante construção da jangada uma menina estrangeira pobre os pede ajuda, sendo presa pelos soldados. Os quatro sobreviventes passam por dificuldades para continuar batalhando em uma guerra sem fim.

O orçamento foi de cerca de 33.000 dólares, bancados por seu tio. Aequipe tinha 15 pessoas, contando com os atores. O dinheiro limitado e a falta de experiência deram bastante trabalho para Kubrick, que improvisou bastante em equipamento (usou um carrinho de bebê para mover a câmera em algumas cenas) e teve gastos extras durante a pós-produção. O filme teve uma recepção mista, porém não foi um sucesso comercial e passou desconhecido no mercado mainstream da época. O diretor teve que trabalhar em um “bico” para conseguir dinheiro para o próximo longa, A Morte Passou Por Perto (Killer’s Kiss, 1954) e após um tempo, tentou tirar de circulação o filme por insatisfação com o resultado.

A Morte Passou Por Perto (Killer’s Kiss, 1954)

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“-É estranho como você pode entrar numa depressão dessas e nem conseguir pensar sobre isso com consciência-e também não capaz de pensar em outra coisa. Você conclui que não é bom pra nada e pra ninguém. Talvez comece ao levar a vida sério demais. Bem, esse é o jeito que começou pra mim. Antes da minha luta com Rodriguez três dias atrás…”

Este romance noir de 67 minutos foi escrito pelo próprio Kubrick e seu amigo Howard Sackler, retratando o boxeador novaiorquino Davey Gordon no fim dos seus momentos de glória no ringue, já com 29 anos e fisicamente cansado de lutar para viver.  Enquanto se prepara para lutar contra o perigoso Kid Rodriguez, Davey percebe do outro lado da rua sua charmosa vizinha Gloria, que trabalha como dançarina de aluguel para Vincent, um chefe abusivo e assediador (“alugar” um par em salões de dança era uma prática comum na época). Ao protegê-la após um conflito com ele, o lutador e a dançarina se envolvem e terão que escapar da fúria de Vincent.

Para produzir esse filme, Kubrick acabou tendo que pegar novamente dinheiro do tio rico, desta vez 40.000 dólares. Novamente, a equipe não era muito grande e era composta de família e amigos, inclusive a protagonista Gloria é interpretada por sua então cunhada Irene Kane. A recepção do filme foi também mista, porém chamou atenção para os talentos de Kubrick em múltiplas funções, que o renderam um Leopardo de Ouro como melhor diretor no Festival de Locarno. A coisa mais curiosa é que esse filme teria um final trágico na primeira edição, porém a distribuidora exigiu um final feliz. Porém valeu a pena, já que lhe foram pagos 100.000 dólares em direitos e foi garantido o investimento para o próximo longa, O Grande Golpe.

O Grande Golpe (The Killing, 1956)

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“-Você tem minha simpatia, então. Você ainda não aprendeu que nessa vida você tem que ser igual aos outros- a mediocridade perfeita; nem melhor, nem pior. Individualidade é um monstro que deve ser morto no berço pra que nossos amigos sejam confiantes. Sabe, eu sempre pensei que o gangster e o artista são os mesmo na visão das massas. São admirados e venerados como heróis, mas sempre há um desejo secreto de os verem destruídos no pico da sua glória”

A primeira grande produção de Kubrick é um filme noir que conta a história do planejamento de um grande assalto em um hipódromo, retratada antes no livro “Clean Break” de Lionel White. A narrativa não-linear mostra como o ex-presidiário Johnny Clay articula um último roubo antes de se aposentar do crime. Ele forma um time com Randy, um policial corrupto, George, um caixa do hipódromo, Nikki, um atirador, Maurice, um lutador, e Mike, um bartender do hipódromo, para executar um plano ambicioso. Porém, enquanto o plano se desenvolve, surge um inimigo: Sherry, a esposa adúltera e mal-humorada de George, sabendo do roubo, irá tentar roubar o dinheiro do golpe com a ajuda de seu amante Val.

O filme foi o primeiro de Stanley a receber críticas boas e ser considerado um dos melhores do ano, e também a ganhar um status cult anos depois, ganhando notoriedade no gênero noir mesmo após a época de ouro. Apesar de falhar nas bilheterias, resultou numa perda de 130 mil dólares (o investimento foi de 320 mil). Quentin Tarantino revelou que a narrativa não-linear a partir de diferentes perspectivas o inspirou na produção de Cães de Aluguel e Pulp Fiction.

Glória Feita de Sangue (Paths of Glory, 1957)

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“Há poucas coisas mais estimuladoras e motivadoras do que ver outro homem morrer”

Baseado na obra “Paths of Glory”, de Humphrey Cobb, retrata um drama real da Primeira Guerra Mundial, durante as batalhas de trincheira em território francês. Em um ponto de ofensiva francesa em Souain, o ambicioso comandante General Mireau é pressionado pela alta cúpula a realizar um ataque suicida no monte Anthill, defendido por alemães com poder de fogo muito superior, que obviamente falha e resulta em múltiplas baixas. O general, irritado pela falha, determina que três soldados sejam escolhidos aleatoriamente para a pena de morte por covardia. O protagonista, líder das trincheiras, Coronel Dax(Kirk Douglas), defende os seus homens no tribunal contra a sentença de morte.

O longa foi filmado inteiramente na Bavária, custou cerca de 1 milhão de dólares e foi um teste da capacidade de Kubrick de controlar o set, sendo questionado pelo seu perfeccionismo. Inclusive, curiosamente o ator Timothy Carey(um dos soldados escolhidos para a execução) foi despedido durante as filmagens, e um dublê o substituiu nas filmagens restantes. Glória Feita de Sangue teve relativo sucesso na bilheteria e consolidou o diretor como um dos maiores de Hollywood. Porém teve problemas na Europa, já que a França(criticada no filme) pressionou os distribuidores antes do lançamento e também não permitiu a exibição no país até 1975. O ditador espanhol Francisco Franco também censurou o filme por sua mensagem antimilitarista e assim ficou até 1985. O longa ganhou um prêmio Jussi, o Grand Prix da Associação Belga, e foi nomeado para um BAFTA e um prêmio da Writers Guild of America.

Spartacus (Spartacus, 1960)

“-Se você visse num cristal mágico, você viu seu exército morto. Se você visse isto no futuro, como sei que está vendo agora, você iria continuar lutando? -Sim. -Sabendo que você vai perder? -Sabendo que podemos. Todos os homens perdem ao morrer e todos morrem. Mas um escravo e um homem livre perdem coisas diferentes. -Ambos perdem a vida. -Quando um homem livre morre, ele perde o prazer de viver. Um escravo perde a dor. Morte é a única liberdade que ele sabe. Por isto ele não tem medo. Por isso iremos vencer.”

Este drama de 1960 conta a história baseada na obra homônima de Howard Fast. Ambientada em Roma no século I A.C., repleta de corrupção e escravidão, mostra o escravo Spartacus, um homem talentoso e orgulhoso, que se nega a ser subordinado. Por sua rebeldia, é mandado a uma escola de gladiadores de Lentulus Batiatus, para ser treinado por Marcellus, que recebe ordens de Lentulus para maltratá-lo e desmotivá-lo. Ele ganha amizade de uma escrava mandada para sua cela para “entretê-lo”, porém o senador Marcus Crassus a compra, além de armar uma luta de pares com Spartacus e mais três gladiadores. Um gladiador salva o protagonista da morte e é assassinado, o que o motiva a fazer uma rebelião. O escravo e seus companheiros seguem uma longa aventura  em direção a liberdade.

Este projeto, para um Stanley Kubrick de 30 anos, era o maior que ele já tinha dirigido, com um investimento de 12 milhões(hoje em dia valem 92 milhões) e uma equipe de  quase 11 mil pessoas. O cinematógrafo  Russell Metty teve problemas com o perfeccionismo de Kubrick, mas foi convencido a ficar e acabou ganhando seu único Oscar da vida em cinematografia. O filme foi gravado, por incrível que pareça, majoritariamente no estúdio, e para os gritos da multidão, foi gravado em um jogo de futebol americano a torcida gritando “Hail, Crassus!” e “Eu sou Spartacus!”. Cenas de batalhas foram feitas com 8 mil soldados espanhóis numa planície perto de Madrid, foi necessário cortar muito material dessas filmagens devido ao nojo dos espectadores em prévias. O longa foi um sucesso na bilheteria e ganhou quatro Oscars (ator coadjuvante, direção de arte, cinematografia e figurino), porém Kubrick não o adicionou ao seu cânon, porque o contrato tirou dele a total liberdade nos aspectos da produção. O próximo, Lolita (Lolita, 1962), seguiria a sequência de sucesso.

Lolita (Lolita, 1962)

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O filme de 1962 é uma tragicomédia baseada no romance de Vladimir Nabokov, de mesmo nome. O narrador e coprotagonista é Humbert Humbert, um professor inglês de literatura francesa que vem pra os Estados Unidos para lecionar em Beardsley. Ele aluga um quarto na casa de Charlotte, uma viúva carente que vive com sua filha de 12 anos apelidada de Lolita(diminutivo de Dolores), que possui feições bastante maduras para sua idade. Humbert passa a ter uma paixonite por Lolita, enquanto sua mãe tenta conquistá-lo. O professor faz de tudo para se aproximar de Lolita, inclusive casar-se com sua mãe, e tenta estabelecer uma relação com a menina, enquanto sofre com pegadinhas de Clare Quilty, famoso roteirista que também é apaixonado por Dolores.

Apesar do sucesso crítico e comercial, Lolita foi um filme bastante controverso, mesmo para os padrões atuais, por mostrar um confuso caso de amor entre uma menina de 12 anos e um homem bastante mais velho. Ele foi filmado no Reino Unido para fugir da censura americana, e Kubrick sofreu pressões de diferentes partes para fazer o filme “de maneira mais respeitosa”. O livro original de Nabokov possui uma história muito diferente do que é mostrado no filme, já que Kubrick cortou partes e mudou detalhes de modo a construir um romance na base da sugestão e não de atos explícitos. Além disso, ele aumentou a participação do esperto personagem Clare Quilty, com a intenção de mostrar a abrangência e a improvisação de Peter Sellers, já que Clare utiliza de vários disfarces e perfis durante a história. Com o sucesso de Peter em criar um efeito cômico em suas cenas em Lolita, Stanley se sentiu inspirado a usá-lo em mais um filme audacioso, Dr. Fantástico.

Dr. Fantástico (Dr. Strangelove, 1964)

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Mais conhecido pelo nome original , Dr. Strangelove, este filme é uma sátira repleta de humor negro, adaptada por Kubrick da história séria e dramática do livro “Red Alert” de Peter George.  No meio do período de extrema tensão da Guerra Fria, o agressivo General Ripper, comandante da Base de Força Aérea Burpelson, ordena o capitão Mandrake(Peter Sellers) a enviar todos os aviões em ar para dentro da Rússia, para que lancem bombas atômicas em todo o país, além de fecharem a comunicação externa. Porém o General não havia recebido ordens superiores, tendo comandado o ataque por simples desejo próprio. Um drama entre os principais líderes do país se articula e as tentativas de comunicar com os aviões falham, enquanto estes se dirigem ao ínicio de uma guerra apocalíptica.

Dr. Fantástico é uma das obras mais admiradas de Stanley, e o consolidou de vez como melhor diretor da época. O filme é marcado pelo uso massivo da ironia e humor negro e pelas atuações brilhantes, principalmente de Peter Sellers, que atuou como três personagens bem distintos: Capitão Mandrake(um humilde e assustado capitão da força aérea), Presidente Merkin Muffley (líder americano maduro e controlado) e o Dr. Strangelove(estranho e excitado consultor científico do Presidente e ex-nazista). O longa é uma sátira da Guerra Fria, dos chefes de estado, dos militares e até mesmo do armamento nuclear. Tão repleto de provocações que o final original era uma grande guerra de tortas na cara no Salão de Guerra, que foi filmado porém cortado por Kubrick porque os atores não conseguiam parar de rir e jogar glacê na câmera nos takes. Foi nomeado para 4 Oscars e 7 BAFTAs, em que ganhou quatro. Houve um projeto em 1995 de uma sequência chamada Son of Strangelove, porém Stanley morreu antes que algo se concretizasse.

2001- Uma Odisséia no Espaço (2001- A Space Odissey, 1968)

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“-HAL, você tem uma enorme responsabilidade, de muitas maneiras talvez a maior responsabilidade de qualquer elemento na missão. Você é o cérebro, e sistema nervoso central da nave, e suas responsabilidades incluem cuidar dos homens em hibernação. Isso já te causou alguma falha de confiança?”

O filme mais aclamado de Stanley e um dos 10 melhores filmes da história na visão de uma maioria esmagadora de críticos, 2001 – Uma Odisséia no Espaço é como a pedra fundamental para filmes de ficção científica. O roteiro, escrito por Kubrick e Arthur Clarke, é inspirado em uma curta história de Arthur chamada “The Sentinel”, que mais tarde se tornaria um livro publicado com o mesmo nome do filme. No cinema, a narrativa retrata o aparecimento de um misterioso monólito negro em um local de conflito entre duas tribos de hominídeos (ponto evolutivo entre macacos e humanos). Após a chegada do objeto, surge uma grande conquista: um hominídeo aprende a usar um osso como arma e sua tribo triunfa sobre os inimigos e assim o ser descobre a ferramenta. Viajamos milhões de anos e encontramos o ser humano no espaço, com capacidade de estabelecer construções na Lua e de levar tripulantes a planetas longíquos. Outro monólito negro é descoberto enterrado na Lua, e alguns meses depois, a nave Discovery One é mandada a Júpiter para encontrar o sinal de outro monólito. A bordo estão David Bowman, Frank Poole e mais três cientistas mantidos em estado de hibernação em cápsulas, além do computador HAL 9000, um sistema avançadíssimo e à prova de falhas, que controla toda a espaçonave. Um drama entre humanos e computadores continua enquanto a Discovery segue para Júpiter em direção a uma nova etapa da evolução.

2001 é para muitos a obra-prima de Stanley, um trabalho totalmente controlado por ele que desafiou as possibilidades do cinema nos anos 60. Ao ver o filme é difícil assimilar que ele foi feito há quase 50 anos atrás. Kubrick trabalhou incessantemente para fazer um filme a frente do seu tempo, que resultou em um trabalho que se assemelha surpreendentemente à realidade, em uma época que o homem estava começando a explorar o espaço. Há um respeito total às propriedades físicas do espaço. A maquiagem e produção dos hominídeos foi tão desenvolvida, que nos cinemas muitos achavam que haviam sido usados primatas de verdade. A exibição do ambiente espacial foi tão realista ao ponto de penetrar a mente dos mais céticos. É difícil achar um erro na composição do filme, o que até gerou uma famosa conspiração de que Stanley Kubrick armou em um estúdio a primeira aterrisagem do homem na Lua, que rendeu um mockumentário (documentário falso com intenção de satirizar) chamado Dark Side of The Moon. A produção possuiu colaborações até mesmo de Christiane Kubrick e ex-astronautas, e infelizmente, muita gente não percebeu que era falso.

É desnecessário dizer que 2001 foi um sucesso estrondoso de bilheteria, e que ele revolucionou de maneira surpreendente o gênero sci-fi. Foi nomeado pra múltiplos Oscars, mas só ganhou o óbvio Oscar de Efeitos Especiais, e ganhou quatro BAFTAs. O motivo de uma certa morosidade crítica é a dificuldade de entendimento e também a irrelevância das falas. Se após ver o filme você tiver alguma dúvida, visite o site http://www.kubrick2001.com e receba uma ajudinha.

O livro 2001 – Uma Odisséia no Espaço possui três sequências escritas por Clarke, chamadas “2010”, ”2061” e “3001”. Apenas 2010 se tornou filme, porém não foi dirigido por Kubrick e sim por Peter Hyams, e não teve o grande sucesso do antecessor. Se você gostar da história de 2001, é válido dar uma conferida nos próximos épicos. Além disso, há boatos que “2061” e “3001” possivelmente se tornarão filmes em um futuro próximo, então fique ligado.

Laranja Mecânica (A Clockwork Orange, 1971)

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Um dos filmes mais controversos e mais aclamados pelo movimento cult, situa o espectador na Grã-Bretanha em um futuro distópico do livro A Clockwork Orange, de Anthony Burgess. A história segue Alex DeLarge, líder de uma gangue de droogs (amigos em russo), que após goles de Moloko Plus (leite com drogas), saem à noite para desfrutar da ultraviolência. Alex é um carismático sociopata viciado em Beethoven, estupro e violência.

Após ser pego em flagrante após um assassinato, Alex é preso. Alguns meses depois, ele toma conhecimento de um procedimento em teste chamado de “Método Ludovico”, que o livraria da prisão. Por bom comportamento, ele é escolhido para ser objeto dos testes do método, que muda completamente sua personalidade.

O filme tem um foco bem claro em moral, liberdade e psicologia behaviourista (mudança de comportamento), deixando os espectadores a refletir sobre a dualidade entre liberdade e vida em sociedade. Alex é um anti-herói dos mais memoráveis, mas ele não é o único errado. Cada personagem de destaque possui algum tipo de falha de moralidade, deixando implícito que a causa de seu comportamento é o ambiente, repleto de crime e pecado. É também necessário apontar o papel da linguagem (Nadsat) e pronúncia na criação de um clima exótico e sugestivo no diálogo. É garantido que você vai querer ouvir de novo algumas falas e que vai rir quando o inspetor Deltoid começar a falar. As cenas de violência gratuita, estupro, abuso, corrupção e tortura do longa causaram uma grande controvérsia, principalmente no próprio Reino Unido, onde o filme não foi exibido até pouco depois da morte de Stanley. Porém no resto do mundo, o filme foi um sucesso desde a estreia e garantiu 24 milhões de dólares apenas em bilheteria, sendo nomeado para Oscars e BAFTA mas não faturando nenhum, devido à reprovação das esferas conservadoras que os filmes de Kubrick frequentemente sofriam.

O Iluminado (The Shining, 1980)

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Um dos filmes de suspense mais célebres e referenciados da história conta uma das histórias mais famosas de Stephen King: The Shining. O drama se localiza no Hotel Overlook, nas montanhas do Colorado, que apesar do sucesso no verão, fecha as portas durante todos os invernos, contratando um zelador para cuidar do hotel durante o período. Jack Torrance (Jack Nicholson), um ex-professor tentando a carreira de escritor, aceita o trabalho com o objetivo de ter tempo para escrever, e leva sua mulher Wendy e seu filho Danny. O garoto possui um amigo imaginário chamado Tony, que revela fatos intrigantes. No entanto, ao chegar ao hotel, o chefe de cozinha Dick mostra para Danny que seu amigo imaginário é a manifestação do seu “brilho”, propriedade que Dick, Danny e o próprio Hotel possuem de se comunicar sobrenaturalmente. Ao passar do tempo no hotel, a sanidade de Jack vai de mal a pior enquanto algumas ocasiões assustadoras assombram Wendy e Danny.

O Iluminado é um filme de terror psicológico e se difere de outros filmes do gênero por possuir poucas cenas de sobrenaturalidade, e não ser recheado de “terror mágico” que tenta nos assustar no cinema. É um longa que não foca nos fatores sobrenaturais do livro de Stephen King, e sim na parte que se aplica à realidade e aos horrores que realmente nos atingem: paranoia, desespero, depressão, solidão, raiva e vício. Kubrick quis mostrar como o ser humano pode agir longe da normalização da sociedade. A família Torrance, longe de contato humano por meses, é capaz de viver em um mundo fabricado por si próprio, em que não há punição e os medos e desejos se realizam.

Para as filmagens, a nova câmera Steadicam foi utilizada em diversas cenas, que permitiu que mesmo em trajetórias tortuosas, como o passeio de triciclo de Danny, a filmagem mantivesse a fluidez. Enquanto os fãs do livro não gostaram do que Kubrick fez na história, o resto do mundo se agradou — e se assustou — com o filme, que rendeu múltiplos dígitos de bilheteria. O sucesso econômico do filme trouxe confiança das grandes companhias novamente, e permitiu que houvesse um grande orçamento para o próximo filme, Nascido Para Matar.

Nascido para Matar (Full Metal Jacket, 1987)

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O filme mais recheado de ação de Kubrick retrata novamente a temática da guerra, como em Glória Feita de Sangue. O roteiro foi adaptado do livro The Short-Timers, de Gustav Hasford, que se situa nos Estados Unidos e no Vietnã durante a Guerra do Vietnã. O filme é como um pacote de dois filmes, que possuem foco, ambiente e protagonistas diferentes: o primeiro se situa no campo de treinamento americano Parris Island, onde um grupo de futuros Marines passa por um sofrido treinamento com o rigoroso Sargento Hartman. Apesar de existirem aproximadamente trinta treinados, o destaque é dado aos soldados Cowboy, Joker, Snowball e Pyle, apelidos dados aos perseguidos pelo Sargento. Enquanto os três primeiros conseguem se adaptar ao treinamento, Pyle sofre por sucessivos erros, que resultam em pressão do Sargento e seus colegas.

O segundo se passa alguns meses após a formação dos soldados, que já se encontram no Vietnã. Agora o foco passa para Joker, que foi atribuído ao setor de Jornalismo Militar e encarregado de fazer matérias sobre o que acontecia na Guerra e mandá-las para os EUA. Após o início da Ofensiva Tet, uma das maiores campanhas da Guerra, ele e seu fotógrafo são mandados para Phu Bai, onde encontram Cowboy e sua divisão, que estão prestes a tomar uma cidade dominada por koogs (vietnamitas do norte). Durante essa operação, Joker é forçado a travar uma dura batalha junto aos seus companheiros, desafiados por um sniper habilidoso.

O senhor leitor com certeza já percebeu que Kubrick gosta de fazer filmes sobre guerra, como Medo e Desejo, Glória Feita de Sangue, Spartacus e agora Nascido para Matar. Neste filme ele foca na transformação do homem em instrumento de guerra, explícito na primeira parte, e a resistência das emoções e virtudes no soldado, que é mostrado no drama da segunda parte, no Vietnã. Stanley deixa claro que por mais que os comandantes do exército tentem transformar seus recrutas em máquinas de matar disciplinadas e obedientes no treinamento, no momento da verdadeira guerra são os sentimentos  que dirigem o homem. O filme foi aclamado como um dos melhores filmes de guerra da história. Um dos papéis mais geniais é o do Sargento Hartman, interpretado por R. Lee Ermey, que realmente foi um instrutor de Marines na Guerra do Vietnã. Ele foi primeiro contratado como consultor, mas pediu para Kubrick deixá-lo tentar fazer o papel de Hartman. Ao vê-lo agir em frente a um grupo de verdadeiros Marines que seriam figurantes, o diretor ficou impressionado e o deixou improvisar quase todas as falas no filme. Veja o vídeo para entender o porquê:

De Olhos Bem Fechados (Eyes Wide Shut, 1999)

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Após 15 anos de sem novidade, surge o último filme de Kubrick, que estreou nos cinemas após sua morte. Trata-se de uma história recheada de sexo explícito, traição e ocultismo escrita originalmente por  Arthur Schnitzler no livro Dream Story, de 1926. Ambientada em Nova York, o drama segue o médico Bill Harford (Tom Cruise), cuja esposa, após fumar maconha, revela uma quase-traição no passado. Bill então sai de casa para uma noite repleta de aventuras carnais, chegando a invadir o culto sexual de uma sociedade secreta.

De Olhos Bem Fechados é um filme sobre fidelidade e tentação. O próprio título é inspirado numa frase de Benjamin Franklin: “Antes do casamento, mantenha os olhos bem abertos, e após, fechados pela metade”. Estar de olhos bem fechados é a melhor postura que um alguém pode tomar em relação à vida interna do companheiro. Este filme foi um dos mais trabalhosos para o diretor, e possui o recorde mundial de horas de filmagem, com cerca de 400. Com 70 anos, ele passou 15 meses trabalhando 18 horas por dia exclusivamente para o filme. Sua obsessão por perfeccionismo é acreditada como aquela a causar um extremo cansaço que levou a sua morte. Kubrick morreu quatro dias após mostrar a última edição do filme para a família e os atores principais, o que causou muita especulação sobre uma suposta relação entre o filme e sua morte. Há uma conspiração que consiste em um assassinato de Kubrick ordenado por sociedades secretas, que o diretor teria exposto no longa. Além disso, é sustentado que o filme foi reeditado após sua morte, para tirar cenas mais polêmicas que não agradariam a sociedades secretas e as camadas mais poderosas. O fato de que muito críticos consideram o filme decepcionante e “não-kubrickiano” ajuda a acreditar que há horas de cenas que ficaram por fora após esta reedição.

O estilo de Kubrick

Roteiro

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Stanley, em seus filmes, mostrava diferentes sofrimentos e pontos de vista variados. Era um diretor que focava em realismo e maturidade, e não gostava de colocar elementos mágicos ou milagrosos, muito menos se censurar. Mostrava uma realidade nua e crua, procurando aproximar os filmes da realidade no ponto que não há perfeição na história de nossas vidas. Estaríamos destinados a ter algum tipo de sofrimento, e a verdadeira perfeição se encontraria em pequenos e únicos momentos.

Além disso, ele abria os seus filmes para a interpretação de espectador, nunca tendo revelado algum tipo de objetivo por trás do filme. Uma vez, citou o escritor T. S. Elliot, ao ser perguntado sobre o que ele quis dizer sobre Glória Feita de Sangue, Kubrick respondeu: “Eu quis dizer o que eu disse. Se eu quisesse falar qualquer outra coisa, teria falado”. Ele gostava de filmar algo acessível às emoções de qualquer pessoa que assistisse, e dizia que a reação subconsciente que o espectador tinha era mais importante que o script de todas as maneiras. Por isso mantinha por muito tempo em seus filmes cenas não-verbais, em que a imagem e a música são ressaltadas, assim o espectador teria espaço pra pensar por si mesmo ao invés de processar algo dito por um personagem. Preferia deixar enigmas e alegorias do que fazer um filme em que tudo é explicado claramente.

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As histórias escolhidas por Kubrick eram  feitas de uma forma a não apenas entreter, mas tocar em pontos importantes, roteiros que, ao invés de trazer um escape da realidade, tivessem aplicação na própria vida e na maneira de pensar de quem assiste. Preferia fazer roteiros a partir de livros, mas não muito desenvolvidos, para que houvesse espaço para adicionar elementos próprios. Gostava de surpreender os espectadores a cada filme, indo em vários temas diferentes com humores diferentes, o que fica claro ao dirigir os bem humorados Lolita e Dr. Fantástico após os dramáticos Glória Feita de Sangue e Spartacus. Ele gostava muito do uso da ironia e humor negro, presente em suas obras de comédia como também escondido em suas obras dramáticas. Companheiros de Kubrick ressaltam que ele “adorava provocar”  em algumas cenas.

Direção

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Kubrick era conhecido por seu perfeccionismo, que o levava a fazer inúmeras filmagens da mesma cena até que cada detalhe o agradasse. O objetivo desta repetição era fazer o ator deixar de pensar na técnica e parar de se censurar, passando a agir naturalmente. Muitos dos seus atores sofriam com os múltiplos takes e a atenção ao detalhe de Stanley, porém nunca questionaram o seu método, descrito por vários como uma experiência única. Ele tinha uma ótima relação individual com os atores, tirando pausas longas para conversar sobre o filme e os deixando confiantes em sua própria criatividade. Kubrick teve uma relação especial com o ator Peter Sellers, que atuou nas comédias Lolita e Dr. Fantástico(três personagens). Ele percebeu que Peter tinha uma habilidade para improvisar, e deu a ele uma “licença” para que falasse o que quisesse, oferecendo apenas um guia da cena para desenvolver, o que resultou em cenas longas, fluidas e principalmente engraçadas com o estilo inesperado do comediante. Estes dois filmes foram decisivos para a futura carreira de Sellers.

Uma das marcas de Kubrick é a retroroteirização, ou seja, o diretor deixava os atores principais improvisarem em suas cenas, para assim pegar os aspectos que o agradavam e adicionar ao roteiro para os próximos takes. As cenas mais memoráveis dos seus filmes vieram deste método: Alex cantando “Singing In The Rain” ao invadir a casa em Laranja Mecânica; Jack assustadoramente perseguindo Wendy  e soltando a memorável linha “Here’s Johnny!” em O Iluminado; A introdução do Sargento Hartman em  Nascido Para Matar; Quase todas as cenas de Peter Sellers em Dr. Fantástico e Lolita, inclusive as engraçadíssimas cena final do primeiro e  cena inicial do segundo.

Kubrick tinha atenção em todos os aspectos da filmagem, e tomava decisões sobre inúmeras coisas, como figurino, lentes, posicionamento, composição, pesquisa e às vezes até mesmo operava a câmera, tudo com uma intensidade e concentração nunca antes vista.

Cinematografia

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Stanley diz que a facilidade com a composição da imagem no filme se deve a sua experiência com fotografia. Ele trabalhava intensamente com seu cinematógrafo(ganhador de um Oscar por Barry Lyndon) de maneira a ajustar ângulos da maneira que queria. Kubrick inovou em 2001 com efeitos especiais como a slit scan(cena da viagem estelar) e a projeção frontal, que o trouxeram um Oscar de efeitos especiais. Ele utilizava constantemente a perspectiva pivotal, que está mostrada na imagem acima, em que os objetos formam linhas paralelas que convergem em um ponto de foco central. Stanley foi um dos primeiros diretores a usar com frequência a Steadicam, câmera acoplada a cintura do operador, que possibilitava fluidez na filmagem em movimento.

Tecnologia

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Stanley também inovou usando o retorno em vídeo (aquela TVzinha que mostra a imagem da câmera em tempo real para os atores), com um sistema que ele mesmo desenvolveu. Tinha um vasto conhecimento em lentes, desenvolvendo algumas sozinho e pedindo para engenheiros sistemas mirabolantes, que ficaram surpresos com o entendimento de Kubrick na área. Para o filme Barry Lyndon, foram desenvolvidas lentes capazes de capturar a luz de velas, que foram as únicas fontes de iluminação em inúmeras cenas, o que trouxe um aspecto à imagem semelhante a pinturas da Idade Média, que também inspiraram bastante a composição das cenas do longa.

Pós-Produção

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O diretor tinha uma paixão especial pela fase de edição dos filmes, que ele acreditava dar possibilidade de uma “redireção”, e era essencial para o sucesso da obra. A sua exigência por inúmeros takes de diferentes maneiras tinha o objetivo de o dar múltiplas possibilidades de construir o filme após o fim das filmagens.

O uso da música foi uma das colunas da genialidade de Kubrick, e também mais uma face do seu perfeccionismo. Ele passava até meses ouvindo inúmeras músicas diferentes para achar uma que se adaptasse perfeitamente a atmosfera da cena. Para decidir pelo sarabande de Hendel para a cena do duelo entre Barry e Lord Bullingdon em Barry Lyndon, demorou 42 dias. A música foi um elemento de criação do momento nos longas, principalmente em Laranja Mecânica e 2001- Uma Odisséia no Espaço.

Influência

Kubrick deixou para trás uma família, filmes marcantes, dezenas de prêmios e uma legião de fãs mundo afora, inclusive em seu próprio campo. Scorcese, Spielberg, Woody Allen, James Cameron, George Romero, Del Toro, Christopher Nolan, David Lynch, Von Trier e até mesmo os irmãos Cohen citam Kubrick como principal fonte de inspiração para a escolha da carreira e também no próprio estilo cinematográfico. Spielberg já disse que “ninguém poderia dirigir melhor que Kubrick na história”, e o próprio Orson Welles, um dos primeiros grandes diretores de Hollywood, o chamou de “gigante da ‘nova geração’”.

A BAFTA renomeou um dos seus prêmios para “Stanley Kubrick Britannia Award”, dado por excelência em filme, e dado a destaques como Steven Spielberg, George Lucas, Hugh Grant Tom Hanks, Tom Cruise, Clint Eastwood, Denzel Washington, Sean Penn, Robert DeNiro…

Além disso, o diretor Rodney Ascher lançou em 2012 um documentário completo sobre o filme O Iluminado, que também mostra cenas de outros filmes, e que aborda diferentes aspectos da produção, repercussão e teorias sobre a obra, chamado O Labirinto de Kubrick (Room 237), que foi um sucesso nos Festivais de Cannes e Sundance.

Em 2013, a 37 ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo fez uma homenagem ao diretor, disponibilizando uma exibição no Museu da Imagem e Som da sua obra e uma retrospectiva da sua carreira no cinema, com lentes originais, prêmios, o primeiro curta do diretor, suas fotografias para a revista Look, documentos dos projetos não-realizados, e uma sala de exibição da perspectiva musical da obra kubrickiana. A Mostra também lançou o livro “Conversas com Kubrick”, de Michel Ciment, que pode ser comprado na Cosac Naify.

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No início dos anos 90, em um período que Stanley estava escondido da mídia, um agente de viagens chamado Alan Conway passou a fingir ser o diretor, e assim entrou em festas, restaurantes, clubes e também convenceu alguns jornalistas e profissionais do cinema, que o pagavam jantares e presentes enquanto ele os prometia entrevistas exclusivas e empregos em próximos projetos. Após um tempo, a farsa foi descoberta, e ao ser contatado, Kubrick ficou fascinado com a criatividade de Conway. O assistente pessoal do diretor achou o sósia, e a partir da história fez o roteiro de Totalmente Kubrick (Colour Me Kubrick), estrelado por John Malkovich.

O cunhado de Kubrick produziu um documentário após sua morte, junto à vários profissionais que acompanharam o diretor durante a carreira, como Tom Cruise, Jack Nicholson e Malcolm McDowell, chamado Stanley Kubrick: A Life In Pictures, que mostra de um ponto de vista interno às histórias de sua carreira no cinema.

Cinéfilos
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