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Michael Jackson: a rainha dos campos com nome de rei do pop
ARQUIBANCADA
03 jul 2019 | Por Gabriel Guerra e José Higídio (gabriel_guerra@usp.br e zehigidio@usp.br)

Michael Jackson? Estamos falando do cantor, certo? Um dos mais famosos da história, o Rei do Pop, dono de passos de dança inconfundíveis? Que nada! Quando o assunto é esporte, Michael Jackson é nome de craque de bola e artilheira, um dos maiores nomes do futebol feminino brasileiro.

Mas… Michael Jackson mesmo? Sim! Bom, pelo menos foi assim que Mariléia dos Santos ficou conhecida. O apelido foi dado pelo locutor Luciano do Valle, que assistia a um treino do clube Radar na década de 1980. Ele teria sugerido o apelido por associar o cabelo de Mariléia com o do artista, que entrava no auge da carreira à época. Desde então, a atacante jamais abandonou o nome — usou-o inclusive nas costas das camisas com que jogava.

Gol de Michael Jackson pela seleção brasileira contra Portugal em 1995.

O mais importante é que Michael foi muito mais do que uma jogadora com um nome curioso. Ela tem um número absurdo de gols em toda a sua trajetória: 1574. Nem mesmo Pelé chegou a esta marca. Apesar disso, mesmo no país do futebol, pouca gente conhece sua história. O Arquibancada buscou dar o devido reconhecimento e destrinchar a história desta atleta.

Do Radar para o mundo

Mariléia cresceu na pequena cidade de Valença, no interior do Rio de Janeiro, em uma época na qual o futebol feminino ainda era proibido por lei. Contudo, isso não a impediu de jogar bola no campo de várzea do seu bairro, acompanhada de seus dez irmãos e seu pai. Mesmo sendo a caçula, ela se destacou por seus gols e logo passou a integrar um time feminino da região. Pouco tempo depois, se mudou para a capital, onde se profissionalizou, já por um dos melhores clubes do país, o Radar.

Criado em 1932, o Esporte Clube Radar, foi um dos primeiros clubes de futebol feminino a ser fundado. E, na década de 1980, a Michael Jackson vestiu essa camisa — o primeiro clube de sua carreira. Em entrevista ao Arquibancada, Suzana Cavalheiro — ex-companheira de seleção da Michael — nos conta sobre o destaque de Mariléia nos gramados: “Ela era um trator. Se deixasse virar não pegava, porque era gol. Uma jogadora muito veloz, inteligente, habilidosa e com uma ótima visão de jogo.”

A equipe do Radar destoava dos demais, e poucos, clubes nacionais. “A equipe era formada assim: as meninas que se destacavam eram convidadas para compor o clube. O Radar ficou imbatível durante muito tempo. Porém, o foco do clube era nas viagens internacionais”, afirmou Suzana. Essa relevância da equipe fez com que olheiros voltassem sua atenção para o clube. Ou seja, o time era uma vitrine para os clubes tradicionais que possuíam uma equipe feminina. Seu destaque no clube fez com que Michael, após sair do Radar, integrasse as equipes do Corinthians, Vasco, Internacional e Torino — clube italiano. 

Michael representou a camisa da seleção brasileira durante 12 anos. Jogou duas Copas do Mundo, em 1991 — primeira a ser disputada pela seleção feminina — , e em 1995, além de disputar as Olimpíadas em 1996. Suzana Cavalheiro jogou com ela no torneio pré mundial em 1988, realizado na China, que serviu de base para compor o elenco no mundial de 91. Ela alega dificuldades como a falta de uniformes, materiais para os treinos e nutrientes não suficientes na alimentação. Mesmo com todas as adversidades ela ressaltou: “Acho que naquele momento era uma oportunidade única se for para falar do futebol feminino.” No torneio, o Brasil ficou em terceiro lugar, vencendo as anfitriãs. “Ficar entre as três melhores que estavam lá fez toda a diferença no sentido de valorização pessoal. Com tão pouco recurso e tempo, nós conseguimos ficar entre os três melhores do mundo.” 

Mariléia em campo pela seleção canarinho [Imagem: FIFA]

Mariléia dos Santos possui em seu currículo um número expressivo. A jogadora fez mais de 1.500 gols — 1.574 para ser mais preciso – , sendo 800 gols feitos quando ainda jogava pelo Radar. Contudo, não há nenhum registro formal acerca dos gols da jogadora. No entanto, Suzana apresentou uma versão que explica a marca expressiva de Mariléia: “Esse número não surpreende por causa da elasticidade dos placares que tinham os jogos”. A superioridade do Radar promovia jogos com grandes resultados. Ela também contou que, além do futebol de campo, eram realizados torneios de futebol de salão, e, portanto, não sabe ao certo se os gols da Michael nesta modalidade estariam inclusos nesta contagem.

Independente da modalidade, seja campo ou salão, Mariléia foi uma jogadora diferenciada. Sua carreira esportiva e seus números são importantes para a consolidação da memória do futebol feminino. A cada bola na rede Michael não só ultrapassava as goleiras, ela também vencia os preconceitos sofridos pelo futebol feminino. A cada grito de gol ecoava também o grito de liberdade para a consolidação do respeito ao futebol feminino no país. 

Mesmo com a aposentadoria tardia aos 46 anos, Michael continuou marcando importantes “gols”. Em 2011, foi empossada como Coordenadora Geral de Futebol Feminino do antigo Ministério do Esporte. Desde então, a modalidade obteve avanços importantes, incluindo a retomada do Campeonato Brasileiro Feminino em 2013, a realização de diversos campeonatos escolares e universitários, edições da Libertadores feminina no Brasil, investimentos em futsal feminino e no Bolsa Atleta. “Eu acho que ela conseguiu fazer uma coisa bacana também pro feminino dentro do Ministério do Esporte, principalmente a parte dos jogos estudantis. O jeito como ela organizou com a garotada ficou bacana”, opinou Suzana. Como se não bastasse, a ex-atacante trabalhou como assistente pontual do técnico Vadão durante a disputa do Torneio Internacional de Natal pela seleção brasileira feminina em 2015.

As conquistas de Michael Jackson foram para além dos gramados [Imagem: Reprodução/Casa.com.br]

O reconhecimento que Michael (não) teve

O estilo de jogo matador foi responsável por escrever seu nome na história. Para quem já está imerso no mundo do futebol feminino, Michael Jackson realmente carrega status de lenda. Não à toa foi eleita a terceira melhor jogadora do século XX na América do Sul pela Federação Internacional de História e Estatística do Futebol (IFFHS). 

Entretanto, é curioso notar que, apesar da habilidade incomparável e os números extraordinários, Michael não é vista como um ícone do esporte nacional – diferente de muitos atletas do futebol masculino com marcas bem menos expressivas.

Suzana Cavalheiro disse acreditar que isso ocorre devido a um desconhecimento da história do futebol feminino em seus primeiros anos após a regularização, e à falta de preocupação em resgatar esta memória hoje em dia: “Levou 30 anos para o futebol feminino conseguir aparecer. Quase o mesmo tempo de proibição nós tivemos”. Outro fator apontado pela ex-lateral é a própria inconstância da popularidade da modalidade no Brasil. “O futebol feminino vive de períodos assim: na Copa, sobe. Após o seu término, cai. Chega as Olimpíadas, sobe. Acaba, e nunca mais se escuta. Então você tem esse sobe e desce que faz com que as meninas fiquem chateadas”.

Por fim, Cavalheiro propõe a reflexão sobre o fato de o futebol atualmente não ser mais um esporte de descontração. “Hoje o pessoal não brinca na rua, está muito institucionalizado. Vão para escolinha ou clubes, e com isso eu acho que a criatividade se perde”. Para ela, a carência de um futebol aprendido nas ruas é a razão pela qual jamais existirá uma geração como a sua, que conte com uma jogadora artilheira do calibre de Mariléia dos Santos.

[Imagem: Lance!]

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