Home Festivais Mostra Internacional de SP: Gaivotas
Mostra Internacional de SP: Gaivotas
CINÉFILOS
27 out 2015 | Por Jornalismo Júnior

por Flávio Ismerim
flavio.ismerim@gmail.com

Este filme faz parte da 39ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Para conferir a programação completa clique aqui

Escalado na seção de Novos Diretores da 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, o drama Gaivotas (Chaiki, 2015) desponta como o primeiro longa filmado na distante república russa da Calmúquia em 25 anos. E é justamente em cima das histórias e dos costumes daquela região às margens do Mar Cáspio que o enredo do filme se constitui.

A obra marca a estreia espetacular da diretora Ella Manzheeva e da premiada modelo Evgeniya Mandzhieva. E é de um requinte artístico quase tão espetacular quanto a atuação de Mandzhieva no papel de Elza, uma mulher insatisfeita com seu casamento e que cogita deixar o marido. Impedida pelas tamanhas incertezas de uma nova vida, vê seu marido Dzhiga (Sergey Adianov) sair para pescar na iminência de uma forte onda de frio.

chaiki_gulls_still

Os longos planos estáticos são uma marca forte do longa, causando até uma certa sensação de cotidiano quando Elza circula pelos cômodos da casa ou vai dar de comer ao cão e às galinhas. Seria tedioso, se não fosse a profunda carga dramática carregada pela protagonista e alinhavada pelo trabalho incrível de Alexander Kuznetsov como diretor de fotografia. Tudo no filme parecia combinar para significar a forte influência budista sobre a Calmúquia, de forma que os planos apresentavam sempre uma beleza leve mesmo diante de pontos de tensão no que diz respeito à trama.

Surge como exceção apenas o momento em que Elza se vê sem perspectiva de retorno do marido e não sente qualquer segurança no porvir. Ela, então, vai a um templo budista da cidade em busca de conforto espiritual. E somente nesse momento é que a câmera vacila, se deixa tremer e denuncia todo o caos em que se encontra a moça.

201505604_1_IMG_FIX_700x700

 

O posicionamento da câmera certamente faz com o espectador se insira nas cenas de forma a tentar entender protagonista, nunca chegando a ser o ponto de vista de alguém. Nesse ponto, nós nos sentimos tão sozinhos e sofremos tanto quanto Elza. Os longos planos estáticos contribuem em muito, ao conferir realidade próxima à da câmera de segurança, para a criação de uma esfera separada da moça.

A trilha sonora também cumpre um papel vital na relação entre enredo e fotografia. Ela é extremamente seca – por vezes faltante – e contribui para conferir a secura que estrutura o drama da trama. A fotografia de Kunznetsov, como nos momentos em que o Elza anda de carro ou se locomove pela cidade, é de tamanho êxito que, por vezes, o som se vê obrigado a não aparecer e deixá-la brilhar.

8527

De recortes culturais bastante exatos, o filme nos brinda com os traços étnicos da região onde foi produzido. A convivência entre os hábitos consagrados como russos e os tidos como budistas permeia o filme. E, como se não fosse suficiente, o enredo lança mão de um elemento milenar do folclore acerca das gaivotas como forma de amarrar o filme. São as gaivotas que aparecem para levar os pescadores ao mar, voltam para avisar de suas mortes e dão um desfecho ao filme. São elas as almas dos pescadores; são elas que, simbolizam a transformação em Elza após a morte de seu marido. Afinal, “as gaivotas voando são as almas dos pescadores mortos”.

Confira o trailer:

Cinéfilos
O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
VOLTAR PARA HOME
DEIXE SEU COMENTÁRIO
Nome*
E-mail*
Facebook
Comentário*