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O impacto da explosão de realities de culinária na população brasileira
Água na Boca
19 jun 2018 | Por Jornalismo Júnior

Créditos: Drew Bardana/Pinterest

De uns anos para cá, a televisão brasileira vem exibindo muitos programas de culinária, e são eles os mais variados: competições entre profissionais, amadores e até crianças, ou então mais especializados em alguma área da cozinha, como por exemplo, churrasco ou confeitaria. Entretanto, o que realmente nos diverte é ver todas aquelas pessoas (pelas quais nós torcemos até o final) cozinhando pratos que nos dão água na boca, e claro, vontade de cozinhar também.

A população brasileira está constantemente vidrada nos realities culinários: ver provas inusitadas, as situações de tensão dentro da cozinha e as histórias pessoais, analisar pratos direto do sofá de casa e fazer memes virou costume na maneira como os brasileiros acompanham os programas. Se formos contar a quantidade de realities  que surgiram nos últimos anos, vamos ver que realmente foi uma explosão.

Dois ex-participantes de um dos realities culinários mais conhecidos do Brasil, o Masterchef, aceitaram falar sobre o assunto com o Sala33. Vitor Bourguignon e Fernando Cavinato ficaram marcados na história do programa e deram sua opinião sobre como anda a culinária em solo brasileiro, qual a importância dessa área na cultura da nossa população e, claro, falaram o que a gastronomia pôde proporcionar para a vida deles.

Fernando trabalhava como analista de controladoria antes da participação do programa, e agora segue carreira gastronômica com a Gangue Erva Doce. “Só consegui trabalhar na área de gastronomia depois que participei do programa. Quando saí do Masterchef vi que era o momento certo para eu mudar de carreira”, diz ele. E além disso, fala que seu interesse aumentou muito após a passagem pelo Masterchef. “Eu adoro aprender. Sempre quis fazer um curso de gastronomia. Mas me especializei em defumação”.

Vitor diz que sempre esteve ligado à gastronomia, desde criança. Durante o programa, o Chef Jacquin muitas vezes falava sobre o seu sobrenome, Bourguignon, por ser o nome de um prato conhecido.  Ele contou como sentia a culinária em sua vida, e como enxerga isso na vida da população..brasileira: “Independente do meu sobrenome, a culinária esteve presente na minha vida por interesse exclusivo meu. Desde criança via naquilo uma forma de fazer outras pessoas felizes e daí, o meu interesse. Acredito que a culinária vista como arte e ofício esteja numa crescente em termos de presença na vida dos brasileiros, mas em comparação com outros países, ainda é baixa”.

 

E realmente, essa explosão atingiu diretamente não apenas a população brasileira, mas toda a indústria culinária. Segundo uma pesquisa realizada pelo site Infood, o setor teve um aumento de aproximadamente 70% no crescimento, e os realities abriram porta para o que se está chamando de nova gastronomia brasileira.  “Está mudando aos poucos. As pessoas ainda são muito tradicionalistas. Eu acho que a gastronomia está crescendo muito no Brasil. Principalmente com o acesso à informação, o interesse acaba aumentando. As pessoas usam a gastronomia para sair do desemprego e muitas vezes dá certo”, disse Fernando.

“A culinária está presente e enraizada de maneira forte em todas as culturas mundiais. No Brasil, acredito que ela faça parte de maneira muito marcante na cultura do País, com inspirações em algumas outras, mas com um DNA e características totalmente próprias”, diz Vitor.

Quem assiste qualquer reality culinário que seja, com certeza já se pegou procurando receitas novas para aprender ou tentou imitar algum prato que viu no programa. Até o vocabulário que é usado na cozinha muda. Agora ninguém faz um simples creme de confeiteiro, mas sim, um creme pâtissière. O interesse da população aumentou e dos participantes também. “O meu interesse aumentou, naturalmente. O programa me permitiu viver a gastronomia de maneira profissional e já com um respaldo de alguém que vivia e respirava isso há muito tempo.” diz Vitor.

O brasileiro agora também está preocupado  em comer bem e está tomando mais cuidado com a sua dieta. Por sua vez, os fornecedores estão dando maior importância à qualidade do produto desde sua origem no campo. Outro ponto importante é o desperdício de alimentos e o respeito para com eles. “Eles (os realities) ajudam as pessoas a conhecer uma pequena parte (dos ingredientes nacionais). O mais importante é despertar o interesse da pessoa, para que ela fique curiosa e vá pesquisar mais sobre o assunto. As pessoas estão começando a se preocupar mais sobre o desperdício de comida. Mas estamos longe de ser um país exemplo. De forma geral, o brasileiro respeita e dá muito valor a comida, mas ainda vemos muito desperdício por aí.” diz Fernando sobre como os realities influenciaram a população a conhecer os ingredientes que temos no Brasil e a respeitá-los.  Sobre o mesmo assunto, Vitor fala: “Com certeza, além da corrente mundial, no que se trata desperdício, sustentabilidade e etc, os realities também têm um papel de conscientização da população nesse sentido, mostrando e ensinando as pessoas de uma maneira entretida”.

E todo esse encanto que o brasileiro tem pela cozinha é refletido na parte educacional. A demanda por cursos de culinária aumentou muito e desde 2015 foram criadas várias escolas especializadas em cursos de gastronomia. Muitas pessoas começaram a encarar a gastronomia como uma profissão, não apenas um hobbie. “A carreira gastronômica é muito difícil tanto psicologicamente como fisicamente, mas retorno do seu trabalho é dos mais gratificantes. Não tem preço ver uma criança comendo o seu lanche feliz e achando uma delícia”, diz Fernando. E para quem quer seguir nesse ramo, Vitor deixou um recado: “Se você ama, corra atrás. Se dedique e seja o melhor que puder ser. Mas ame. E isso vale para tudo na vida, não só para a gastronomia”.

Finalizando a entrevista, Fernando e Vitor contaram o que mais os marcou durante a participação do programa. Vitor relembrou o momento em que cortou o dedo: “Esse momento foi muito marcante para mim, por conta do misto de sensações que tive. Primeiro, a decepção e raiva de ter sido desatento a ponto de cortar o meu dedo de maneira funda e dolorosa que se uniu ao medo de ser eliminado por não poder completar a prova. Em seguida todas essas sensações deram lugar ao de reconhecimento do trabalho bem feito, empatia aos companheiros pela torcida e o de gratidão com a vida por tudo aquilo acontecer e me permitir crescer não só como cozinheiro mas como pessoa também”.

“Quando eu escorreguei e caí no chão”, comenta Fernando, rindo. “Todo mundo lembra. Eu sempre soube que a cozinha era o meu lugar. O Masterchef só confirmou isso para mim”, lembrou.

O Brasil está sim mudando e a cada dia surgem mais realities culinários.  Querendo ou não, há maior informação sobre a gastronomia sendo veiculada nos meios de comunicação, um ponto muito positivo que a torna mais acessível para a população. Gastronomia é arte, é paixão, é estudo e é para todos.

Por Mariana Arrudas
maarrudas@usp.br

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