Home Biosfera Observatório | As queimadas no Pantanal e o efeito da má política pública
Observatório | As queimadas no Pantanal e o efeito da má política pública
Biosfera
20 set 2020 | Por Filipe Albessu Narciso (filipe.narciso@usp.br) e Lívia Magalhães (liviabmagalhaes@usp.br)

Na última segunda-feira (14), o governo do Mato Grosso informou o decreto de estado de calamidade devido aos incêndios florestais que assolam o estado. Segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o estado acumula quase 2.200 focos de incêndio, um total de 60% do índice nacional. No Mato Grosso do Sul, a situação é semelhante. A Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil reconheceu estado de emergência por causa dos incêndios e, segundo o Ibama, a estimativa é que área queimada chegue a 1,45 milhão de hectares. Bolívia e Paraguai também têm se confrontado com incêndios na sua parcela do Pantanal.

De acordo com o Centro Nacional de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais (Prevfogo), entre janeiro e a primeira quinzena de setembro de 2020, mais de 2,9 milhões de hectares do Pantanal foram consumidos pelas chamas. Esse número equivale a, aproximadamente, 19% do bioma no Brasil. “O Pantanal é o bioma mais conservado do Brasil”, afirma Ana Paula Valdiones, analista de gestão ambiental do Instituto Centro de Vida (ICV) . “É desolador ver o efeito da má política pública surgir tão rápido”.

 

Riqueza natural em cinzas

O contexto desse desastre ambiental para o maior bioma tropical de área úmida do mundo deriva da somatória de diversos fatores. Aspectos climáticos como o El Niño e o regime de ventos próprio da região contribuem para a disseminação dos incêndios, mas a atividade antrópica também é de extrema relevância.

Além do desmatamento na região, os incêndios no Pantanal nessa época do ano são ilegais, porque, devido à seca, o fogo se alastra rapidamente, gerando consequências muitas vezes irreparáveis. O desflorestamento da Amazônia é outro fator de influência, já que impacta no regime de chuvas no resto do país.

Ana Valdiones ressalta: “O Pantanal está passando pela maior seca das últimas cinco décadas”. A estiagem na região geralmente ocorre no período do mês de julho até o final de setembro, o que intensifica as queimadas. Com o início do regime de chuvas em outubro, a tendência é que os focos de incêndio diminuam, mas os estragos causados até o momento já são enormes.

https://www.instagram.com/p/CFLshOnhbIl/?igshid=1d50q4193w03k

“As medidas que estão sendo adotadas em cima da hora não são o suficiente para reverter esse cenário crítico”, argumenta Ana Valdiones. Para a analista, houve uma falta de planejamento de prevenção às queimadas, em conjunto à difusão de um discurso em prol da flexibilização ambiental. “Há um desmonte das políticas ambientais federais”, em evidência ao considerar-se que, entre os anos de 2018 e 2019, houve um aumento de 70% nos números de queimadas em todo o país, sendo a Amazônia o bioma mais afetado. 

Ainda é cedo para mensurar os estragos que esse contexto traz à biodiversidade da região. Porém, o Parque Estadual Encontro das Águas, que abriga a maior concentração de onças-pintadas do mundo, teve 85% de sua área destruída. Também a Fazenda São Francisco do Perigara, refúgio das araras-azuis, teve 92% do seu território atingido pelas queimadas.

Além de serem fatais para a biodiversidade, as queimadas também trazem consequências diretas e de curto prazo para a população. O Pantanal abriga aldeias indígenas e quilombolas, que ficam em situação de extrema vulnerabilidade.

O dano também chega nas cidades grandes, a exemplo da capital Cuiabá, onde cada dia amanhece mais nublado. A razão para isso é a fuligem oriunda do fogo, que prejudica as vias respiratórias dos habitantes. Em tempos de coronavírus, essa situação pode se tornar ainda mais perigosa. 

Incêndio no Pantanal

Incêndio no Pantanal [Imagem: Mayke Toscano/Secom-MT]

Já outras consequências só acontecerão no período de chuvas: “As cinzas serão escoadas para os rios e toda a poluição dessa matéria orgânica ocasionará a morte de peixes”, explica Ana. Esse fenômeno, além de influenciar na fauna da região, deixará a segurança alimentar de vários de seus habitantes em risco, como das comunidades pesqueiras, quilombolas e indígenas.

 

Os impactos nos povos originários

As queimadas também estão afetando populações indígenas do Mato Grosso, como os Boé Bororo, que tiveram que ser removidos de suas terras. Alguns integrantes foram levados para outras aldeias, e outros, como idosos e mulheres grávidas, ficaram na CASAI (Casa de Saúde Indígena) de Rondonópolis, um posto de saúde para atendimento da população indígena.  

Em relação aos cuidados necessários para combater a pandemia da Covid-19, não foi possível fazer testes antes da evasão. “Tudo aconteceu tão rápido, a situação era desesperadora e a fumaça era intensa”, conta Josuel Iwagejeba, jovem liderança Boé Bororo da aldeia Gomes Carneiro.

https://www.instagram.com/p/CFITfm4B7MD/?igshid=1nw663vnawql6

Além de terem que deixar suas terras, a alimentação, a estrutura e a cultura dos Boé Bororo está em risco: “muitos dos frutos do tempo da seca se queimaram, os remédios do mato, os animais morreram queimados, que são a nossa caça. A parte da construção das casas foi prejudicada pois as palhas viraram cinzas e muitos dos moradores foram prejudicados. Alguns de nossos rituais vão ser cancelados”, explica Josuel.

 O jovem líder ressalta que, nesse período do ano, quase sempre há incêndios, que deixam o povo indígena em situação de vulnerabilidade, mas que esse ano foi mais intenso. “Já está passando a hora do governo federal, estadual e municipal instituir uma brigada indígena de combate ao fogo em nossa região”, pede. 

A primeira morte indígena pela Covid-19 aconteceu na terra dos Yanomami, na Amazônia. O vírus havia sido levado por garimpeiros, que se instalam ilegalmente no território, evidenciando o descaso do governo com os povos originários.

No Mato Grosso, não foi diferente: no início da pandemia, a falta de acesso a EPIs (equipamento de proteção individual) e a fragilidade dos serviços de saúde da região contribuíram para que, segundo a OPAN (Operação Amazônia Nativa), a taxa de letalidade da Covid-19 entre os indígenas fosse maior que o dobro da média nacional. “Passamos por um momento de grande apreensão,  medo, ansiedade. Perdemos um de nossos anciões muito respeitado. A pandemia impactou nossa cultura, não pudemos realizar nossa principal tradição que é o nosso funeral Bororo”, conta Josuel.

Com as queimadas no Pantanal e a pandemia, os Boé Bororo e outros povos estão em situação de extrema insegurança. “Quase todo ano sofremos com o período da seca por conta das queimadas. É uma soma de crises que só vieram para nos dar prejuízo e causar impactos sobre o nosso povo”, lamenta o jovem líder.

 Como o ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles diz, não é hora de,“passar a boiada”. É hora de cuidar do bem comum: o meio ambiente. A tragédia que acontece no Pantanal deve funcionar como um alerta e “precisamos sinalizar à sociedade que esse tipo de coisa não vai passar impune, responsabilizando os culpados”, explica Ana Valdiones. “Devemos passar a investir na prevenção, com brigadas de fogo, que atualmente são compostas em grande parte por voluntários, que arriscam suas vidas. A sociedade deve buscar se informar, se engajar, e auxiliar as organizações que estão ajudando”.

Laboratório
O Laboratório é o portal de jornalismo científico da Jornalismo Júnior. Apaixonados por curiosidades, nosso objetivo é levar a informação científica o mais próximo possível do público leigo. Falamos sobre saúde, meio ambiente, tecnologia, ficção científica, história da ciência, escrevemos crônicas, resenhamos livros, cobrimos eventos e muito mais!
VOLTAR PARA HOME
DEIXE SEU COMENTÁRIO
Nome*
E-mail*
Facebook
Comentário*