Home Virou História Fim de uma hegemonia olímpica: 20 anos da vitória australiana na natação em Sydney
Fim de uma hegemonia olímpica: 20 anos da vitória australiana na natação em Sydney
ARQUIBANCADA
16 set 2020 | Por Luanne Caires (lcaires@usp.br) e Luisa Costa (luisa.mc@usp.br)

Hoje, 16 de setembro, completam-se 20 anos de um momento histórico do esporte: a prova de revezamento 4×100 metros nado livre nas Olimpíadas de Sydney 2000. Eram grandes as expectativas para a disputa pela medalha de ouro, que prometia ser muito acirrada – e cumpriu com o esperado. Quem levou a melhor foi a equipe australiana, estabelecendo um recorde mundial e quebrando a grande hegemonia estadunidense sobre a prova.

Até então, os Estados Unidos eram os “donos” do revezamento 4×100 metros livre. A equipe norte-americana havia conquistado o ouro todas as vezes em que participara da prova. Como explica Alexandre Pussieldi, jornalista esportivo e referência quando o assunto é natação, a equipe estadunidense era líder em todas as competições mundiais desde as Olimpíadas de 1960, em Roma, mas esse predomínio ficava ainda mais evidenciado nas provas de revezamento. Isso porque nas provas individuais “algum talento excepcional” pode deixar os Estados Unidos para trás, mas nas provas de revezamento, com quatro nadadores, o cenário é outro. 

Segundo Alexandre, o “espírito” dos estadunidenses também é um fator determinante para o predomínio nas provas de revezamento: “[O estadunidense] encara a natação como um esporte coletivo. Isso é cultural. Então as provas de revezamento, para eles, têm um simbolismo muito especial”.

Os Estados Unidos eram, portanto, os grandes favoritos. E pareciam estar muito confiantes: alguns dias antes da prova, Gary Hall Jr., um dos atletas que formavam a equipe, anunciou que eles iriam esmagar os australianos como um roqueiro esmaga sua guitarra ao final de um concerto. É claro que a provocação não foi vista com bons olhos pelos australianos e serviu para intensificar a atmosfera de disputa entre ambas as equipes.

 

Competição acirrada

No grande dia da prova do 4×100 metros ­(uma das provas que “abrem” a natação nos Jogos Olímpicos), as equipes eram as seguintes: do lado dos Estados Unidos havia Anthony Ervin, Neil Walker, Jason Lezak e Gary Hall Jr.; do lado da Austrália, Michael Klim, Chris Fydler, Ashley Callus e Ian Thorpe. Ainda participaram da prova Brasil, Alemanha, Itália, Suécia, Rússia e França. Mas a expectativa geral era por uma disputa entre Estados Unidos e Austrália pela medalha de ouro.

Início da prova de revezamento 4×100 metros livre nas Olimpíadas de Sydney [Imagem: Reprodução/Rede Globo]

Atletas em seus postos, a prova inicia. Michael Klim, o primeiro da equipe australiana a pular na piscina, já mostra a que veio – e que os australianos não estavam de brincadeira: o atleta quebra o recorde mundial nos primeiros 100 metros da prova.

A disputa segue, sempre bastante acirrada entre Austrália e Estados Unidos – enquanto os outros países brigam pelo bronze. Para fechar a prova, pulam na piscina Ian Thorpe, o “Torpedo”, do lado australiano, e Gary Hall Jr., do lado estadunidense.

Thorpe, com seus 17 anos, participava de sua primeira Olimpíada. Apesar da pouca idade, o atleta já era destaque internacional: tornara-se recordista mundial já com 15 anos e em 1999 havia feito uma bela participação no Campeonato Pan-Pacífico de Natação. Pulando na piscina para fechar o revezamento tão disputado, nadando junto a Gary Hall, um forte atleta e grande favorito, o jovem australiano fez jus a seu prestígio.

Como aponta Alexandre,“[Gary Hall] era mais velocista, então ele força tudo por 50 metros, mas a volta do Thorpe é muito forte”. A Austrália bate os Estados Unidos na prova do revezamento 4×100 metros livre.

Foi um momento histórico. Os Estados Unidos finalmente não ocupariam o primeiro lugar do pódio da prova de revezamento. Os australianos, que nadaram em casa, impulsionados pelo clima de disputa (também) decorrente da provocação estadunidense, comemoravam o primeiro lugar. Michael Klim, que abriu a prova do lado australiano, comemorava tocando uma guitarra imaginária – aquela que Gary Hall Jr. prometeu que a equipe dos Estados Unidos esmagaria.

Comemoração da equipe australiana após vitória na prova do revezamento 4×100 metros livre. Os atletas fazem referência à guitarra da provocação lançada pelos Estados Unidos antes da disputa [Imagem: Heinz Kluetmeier SetNumber: X61305 TK12 R8 F27/Best Swim]

A vitória australiana tinha, então, um grande simbolismo: a hegemonia estadunidense havia sido finalmente quebrada. E daí em diante os Estados Unidos teriam que se esforçar muito mais para conquistar o primeiro lugar na prova de 4×100 metros livre.

Para Gustavo Borges, que participou da disputa pelo lado brasileiro, a atmosfera de competição criada para aquele revezamento foi uma experiência interessante. “A prova dos 100 metros nado livre é muito competitiva, e a evolução dos outros países foi significativa desde então. Os Estados Unidos continuam sempre no pódio, mas aquela prova mudou o cenário em termos de as outras equipes acreditarem que podem ganhar dos Estados Unidos e terem confiança nisso”, afirma.

 

O bronze como uma prova à parte

Enquanto a disputa pelas medalhas de ouro e prata se concentrava entre Estados Unidos e Austrália, a busca pelo bronze não estava tão definida. A competição era acirrada entre as demais equipes, com destaque para Rússia, Alemanha e Brasil. A prova acabou com o time brasileiro conquistando o bronze, que naquelas circunstâncias valia como ouro. Foi a primeira medalha do país nos Jogos de Sydney. A vitória consagrou a equipe formada por Fernando Scherer (Xuxa) e Gustavo Borges, competidores olímpicos experientes, e por Carlos Jayme e Edvaldo Valério, estreantes em Olimpíadas.

Equipe australiana faz história nas Olimpíadas de Sydney 2000

Bandeiras representando pódio do revezamento masculino 4×100 metros em Sydney 2000 [Imagem: Reprodução/Youtube]

O caminho até a vitória foi marcado por eventos inesperados. A primeira surpresa foi a desclassificação da Holanda durante as eliminatórias. A equipe holandesa contava com Pieter van den Hoogenband, vencedor dos 100 metros nado livre, e era uma forte competidora do Brasil na busca pela medalha. Outro aspecto importante para o contexto brasileiro foi a lesão no pé sofrida por Xuxa, dias antes da competição, que o deixou mancando. 

Naquele ano o Brasil também alterou a sequência dos atletas na prova. Gustavo Borges, que normalmente fechava os revezamentos, entrou em segundo na piscina, depois de Xuxa. A finalização foi responsabilidade de Edvaldo Valério. Para Gustavo, a experiência de ter sido o segundo a nadar foi memorável. “A hora em que o Edvaldo pulou na piscina foi um momento mágico. Ali eu era um torcedor. Torci metade da prova, e isso foi muito legal”, conta. 

Sobre a perspectiva oposta, de quem estava na piscina nos momentos finais, Edvaldo afirma que “foi marcante viver a história contada, nadar junto com um fenômeno mundial e fechar o revezamento com ele”, se referindo a Ian Thorpe.

O Brasil estava na quarta posição quando Edvaldo entrou na piscina, mas o crescimento no desempenho do atleta, especialmente na parte final da prova, rendeu ao Brasil o terceiro lugar. “Valério vem de uma base muito forte, com um trabalho de muita resistência. E quando ele toca a parede da piscina, o Xuxa, que abriu muito bem a prova apesar da lesão, abraça-o e fica repetindo: ‘Muito obrigado, muito obrigado, muito obrigado’. Foram tantos segundos [de abraço] do Xuxa que o Valério precisou responder: ‘Tá bom, mas deixa eu sair'”, conta Alexandre entre risos.

Equipe brasileira de natação após conquista da medalha de bronze no revezamento masculino 4x100m. [Imagem: Reprodução/Página oficial de Gustavo Borges]

A comemoração do time brasileiro foi emblemática. Para Gustavo, a positividade da equipe e o reconhecimento que eles tiveram foram impressionantes. Alexandre complementa: “A alegria dos brasileiros no pódio era muito grande. Os meninos estavam sambando, mais contentes do que a própria Austrália. Esse revezamento tem um simbolismo fantástico para a natação brasileira, e vi essa prova de uma forma muito emocionada”, diz. 

Além de ampliar o panteão olímpico nacional, a vitória ressalta o papel social do esporte. Edvaldo foi o primeiro nadador negro do Brasil a ganhar uma medalha em Olimpíadas. Ele também foi o único integrante da equipe que não passou por treinamentos nos Estados Unidos. Natural de Salvador, Bahia, Edvaldo superou várias dificuldades financeiras e de patrocínio em seu caminho rumo ao pódio. “Fui medalhista olímpico treinando e morando na Bahia, com profissionais da Bahia. Era algo muito improvável que um nadador do Nordeste fosse para o outro lado do mundo ganhar uma medalha olímpica. As pessoas costumam ver somente o resultado final, mas não sabem o quanto é difícil construí-lo”, conta.

 

Natação australiana reflete longa tradição

A natação australiana fez história no revezamento masculino 4×100 metros em 2000, mas seu protagonismo mundial vai além dessa conquista. “A Austrália sempre teve bons nadadores e, durante as décadas de 1980 e 1990, assumiu o segundo posto na natação mundial, atrás dos Estados Unidos. É um posto que a Austrália mantém até hoje”, explica Alexandre. 

Já em 1999, a Austrália acirrou a competição frente aos estadunidenses nos Jogos Pan-Pacíficos de Natação, com grande destaque para a figura de Ian Thorpe. Em 2004, nas Olimpíadas de Atenas, a equipe australiana também teve ótimo desempenho, principalmente nas competições masculinas de nado livre. 

A força da Austrália no esporte reflete uma longa tradição. O país é berço do estilo crawl, derivado de movimentos natatórios utilizados por populações nativas da região do Pacífico.   Também é australiana uma das marcas mais tradicionais na natação mundial, a Speedo. Segundo Alexandre, a importância dos clubes de natação no país e a popularidade do esporte favorecem o desenvolvimento e reconhecimento dos atletas, o que contribuiu para a histórica vitória australiana em 2000 e também justifica a força da natação australiana hoje.

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