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Os Meninos na Dança
Em Cena
05 jan 2018 | Por Jornalismo Júnior

Thiago Soares (Imagem: Loja Ana Botafogo)

Entre tutus, sapatilhas, laços e fitas, os meninos que se apaixonam pela dança e decidem viver nesse universo sofrem preconceitos com a concepção de que essa expressão artística é “coisa de menina”. Em conflito com as questões de gênero, a sexualidade e a vocação, os bailarinos enfrentam resistências do patriarcalismo na sociedade contemporânea enquanto unem delicadeza, força e determinação.

Assuntos como machismo e a necessidade de certificação da masculinidade entre os homens foram sempre recorrentes, mas não em relação à dança. Nos primórdios do balé, no século XVI, os rapazes eram figuras importantes na composição da arte. O rei da França, Luís XIV, conhecido como Rei Sol, era bailarino clássico e fundou a escola Ballet de la Nuit, e os principais coreógrafos da época eram homens, como Beaujoyeulx e Beauchamps. Como as roupas das moças eram um fator limitante da movimentação, o destaque nas coreografias era do homem.

O século XIX foi o auge dos balés de repertório, que são histórias contadas por meio dos passos da dança, mímica, música – geralmente erudita – e cenário. Os principais coreógrafos eram homens, apesar de o destaque principal nos palcos já ser da figura feminina, que agora tinha um figurino mais adequado aos movimentos. Entre os maiores nomes do período estão Jean Coralli, Jules Perrot, Marius Petipa e Arthur Saint-Léon.

O Lago dos Cisnes (Imagem: Veja São Paulo)

Atualmente, muitas das principais personalidades da dança são homens, o que não significa que o processo de entrada e permanência nesse universo seja fácil. O diretor e coreógrafo da Companhia Independente de São Paulo, Edson Santos, conta que já passou por situações difíceis, mas que o amor pela dança é maior que qualquer preconceito. “Por parte da minha família, houve um tempo em que duvidaram da minha capacidade para sobreviver disso. Fui questionado algumas vezes, mas hoje entendem que sou um artista e que conquistei algo de real valor”, comenta Edson. “Fazer o que gosta é tão bom que esses aborrecimentos evaporam depois de alguns pliés”.

No filme Billy Elliot, o menino de 11 anos que lutava boxe decide deixar o esporte e opta por fazer aulas de balé clássico contra a vontade do pai. A história lida com o preconceito e o livre-arbítrio, além de mostrar a beleza da dança e a força da perseverança. (Trailer do filme “Billy Elliot”)

Billy Elliot (Imagem: Reprodução)

Santos ainda afirma que o Hip Hop trouxe uma mudança nesse aspecto social. “Tínhamos ali uma alternativa mais ‘apropriada’ para os rapazes. Para um pai ou uma mãe, talvez, dizer que o filho faz Danças Urbanas é muito mais fácil e aceitável do que dizer que o filho faz Balé.”

Ainda assim, muitos homens decidem persistir nessa arte. Por mais que seja um processo difícil, existe uma lista enorme de rapazes da contemporaneidade que se mostraram extremamente talentosos, apesar das críticas e preconceitos, com nomes como  Mikhail Baryshnikov, Fernando Bujones, Rudolf Nureyev, Thiago Soares, Victor Navarro Capell, Marcelo Gomes e Pedro Romeiras.

Mikhail Baryshnikov (Imagem: Gin Dance)

A associação que se faz entre a dança e a fragilidade, devido à expressão da delicadeza, leveza e disciplina, desencadeia a concepção de feminilidade, o que leva a julgamentos prévios que podem envolver personalidade e, principalmente, sexualidade.

A professora Susan Stinson escreveu em artigo (“Reflexões sobre a dança e os meninos”) que “o medo da homossexualidade – a própria ou a dos outros – realmente pode afastar potenciais estudantes de dança do sexo masculino. Entretanto, acho que o problema não é a homossexualidade, mas as atitudes que tantas pessoas adotam a respeito do assunto.” Como a homofobia ainda existe em grande proporção, o distanciamento dos meninos por qualquer aspecto que possa ser relacionado à homossexualidade é compreensível, mas não aceitável ou tida como permanente.

Em resposta ao posicionamento negativo da sociedade frente aos rapazes que dançam até os dias atuais, a Escola de Dança de São Paulo criou, em janeiro deste ano, a primeira turma especial para meninos. Com o intuito de estimular a sensibilidade e enfrentar os preconceitos, os garotos, com idades entre 8 e 11 anos, têm aulas com professores do gênero masculino. A diretora da escola, Susana Yamauchi, em entrevista para matéria do Catraca Livre, afirmou que a cada 25 meninas que estudam na instituição, há apenas um menino, e a criação dessa turma busca o incentivo à arte da dança.

Turma de garotos da Escola de Dança de São Paulo (Imagem: Agenda da Dança)

“Tudo está sujeito a mudanças. Se, nos dias de hoje, homens na dança já não é mais novidade, todo o resto vai se diluindo aos poucos e tudo parecerá uma grande bobagem, mas o preconceito sempre existirá. Torço para que seja sempre cada vez menor”, disse Santos.

Por Júlia Mancilha 
juliabman@gmail.com

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