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Óscar Tabárez: o herói do futebol uruguaio
ARQUIBANCADA
27 jan 2019 | Por Jornalismo Júnior

Por Karina Merli

Na Copa da Rússia de 2018, Óscar Tabárez tornou-se uma figura icônica. “El maestro” (o professor) ganhou as manchetes do Uruguai e do mundo. O futebol apresentado pela sua equipe – com muitas mudanças no que tange ao comportamento dentro e fora de campo – permitiu resultados significativos nos últimos anos, mas o fato da sua figura estar, intimamente, relacionada à liderança e de superar uma doença neurológica crônica para comandar a celeste o eternizaram no futebol mundial.

El Maestro caminha durante treinamento do Uruguai na Copa da Rússia. (Imagem: Martin Benetti/AFP)

Vida dupla: da sala de aula aos gramados

Óscar Washington Tabárez Silva nasceu em Montevidéu (Uruguai), no dia 3 de março de 1947, em uma família de professores, como relatou Diego Lugano, ex-zagueiro uruguaio, em entrevista ao ESPN.com.br. Inicialmente, El Maestro seguiu os passos futebolísticos: foi zagueiro. Começou a carreira em 1967, no Sud América. Passou também por outros clubes na Argentina e no México.

Aos 32 anos se aposentou por conta de problemas nos joelhos, no Bella Vista (URU). Naquele tempo, a aposentadoria de um jogador não era tão estável quanto hodiernamente, portanto ele resolveu seguir um novo rumo: dar aulas. Suas primeiras turmas eram de uma escola primária de Montevidéu, onde ensinava castelhano. Passou por escolas dos bairros de Cerro, Paso de la Arena e de La Teja. Todas elas eram públicas.

Ainda assim, o salário era insuficiente para sustentar a família e o ex-jogador resolveu aventurar-se como técnico. Metade do dia lecionava em salas de aulas, a outra metade em gramados.

El maestro nos gramados

Sua primeira aventura como técnico se deu, curiosamente, onde se aposentou: nas categorias de base do Bella Vista (URU). Depois, seguiu para o sub-20 da seleção uruguaia. Nela, conseguiu ir longe. Conquistou o ouro nos Jogos Pan-Americanos de 1983 e voltou a dar aulas. Mas, com a conquista, o profissional atraiu olhares de clubes locais e, logo, surgiu a oportunidade de trabalhar no Danubio. Passou pelo Montevideo Wanderers e, em seguida, chegou ao Peñarol. Foi quando resolveu abandonar a carreira de professor. No time carbonero, Tabárez conquistou a Copa Libertadores sobre o América de Cali (COL), clube que, posteriormente, assumiu o comando.

Óscar Tabárez e seus alunos, após a conquista do Pan-Americano de 1983. (imagem: BolaVip)

Após o período em terras colombianas, a primeira passagem do uruguaio no comando de sua seleção se deu em 1988. O trabalho rendeu boas passagens na Copa América de 1989 e na Copa do Mundo na Itália, em 1990. Na primeira, os charrúas perderam para o Brasil na final; já na segunda, para a Itália nas oitavas de final, mas o futebol apresentado na primeira fase foi contestado e Tabárez acabou deixando o cargo. O reconhecimento de seu trabalho, por outro lado, rendeu a proposta de treinar o Boca Juniors (ARG), ficando no clube por dois anos, onde conquistou um torneio Apertura e quebrou o jejum de 11 anos sem títulos.

Com um aproveitamento cada vez mais sólido, ele recebeu a oportunidade de sair do continente americano e recomeçar na Europa, mais especificamente na Itália, comandando o Cagliari em 1994-1995 e em 1999. Em sua primeira passagem, contava com um elenco histórico que tinha jogadores como Matteo Villa, Massimiliano Allegri, Luís Oliveira e Roberto Muzzi. Derrotou times tradicionais do país e ficou em 9º lugar no campeonato local. Ao final da temporada, o técnico teve um ano sabático e retornou ao futebol no Milan. Por lá, a sua passagem foi longe de ser vitoriosa, foi o primeiro a ser demitido por Berlusconi e cedeu lugar ao lendário Arrigo Sacchi.

Tabárez no comando do Milan. (Imagem: Imigrantes da Bola)

O técnico também treinou o Oviedo (ESP) e o Vélez Sarsfield (ARG) – além disso, teve uma segunda passagem no Boca. Durante quatro anos, ficou longe dos gramados e dentro de salas de aula. Voltou em 2006, em casa, na seleção uruguaia. A partir daí, iniciou um trabalho que englobava o futebol de todo o país, com o intuito de modificar a postura da seleção e revelar novos talentos para a sua manutenção.

A volta para casa

As campanhas da seleção uruguaia não convenciam há tempos. Desde 1995, não ganhava um título e, das quatro últimas edições da Copa do Mundo, havia ficado de fora de três. O estereótipo de um elenco pouco técnico, mas garrudo até demais – ao ponto de agredir o adversário – mostrava que o futebol do país precisava ser revisto com urgência. A Federação Uruguaia de Futebol (AUF) resolveu, então, em 2006, convidar Tabárez para essa missão. Iniciou-se um projeto amplo que envolveu as categorias de base e mudanças técnicas, unificou-se o trabalho da base com o da seleção principal. Algo de longo prazo que tinha como objetivo criar uma identidade futebolística uruguaia.

De acordo com O Globo, na apresentação do técnico, ele declarou: “Não peço piedade: só espero que haja pessoas que acreditem nisso”. De fato, não demorou muito para que novos talentos chegassem à seleção principal cientes de que não era suficiente marcar, mas era preciso saber jogar com técnica. Para se ter noção do quanto este trabalho vem sendo extremamente sólido, dos convocados uruguaios da última Copa, apenas Carlos Sánchez não havia passado pelas categorias de base do país.

Na matéria do ESPN.com.br, Lugano destacou que Tabárez, ao convocar seus homens de confiança, não prioriza necessariamente o talento: “Antes de ser jogador de seleção do Uruguai, você precisa ser um bom ser humano para jogar com ele. Tabárez só convoca profissionais com valores e éticas. Isso importa mais para ele [do] que ser um grande jogador. Se coincidirem as duas coisas, ótimo, mas essa é a ideia dele. Para estar na seleção, primeiro precisa ter esses dois requisitos: valores e ética. Se o cara é bom ou não, vem depois.”

Na Copa de 2010, na África, a seleção sul-americana começou a mostrar que estava de volta à ativa e chegou ao 4º lugar no torneio. Na Copa América de 2011, sagrou-se campeã. O atual dirigente do São Paulo também falou que, para o técnico uruguaio, é muito importante que os jogadores saibam se expressar bem. A língua castelhana é tão valorizada por El Maestro que, após a Copa da África, o técnico ficou mais eufórico com a comenda da Real Academia Española (instituição responsável pela preservação do idioma espanhol) do que a vitória na competição.

Campeã da Copa América de 2011, seleção uruguaia comemora. (Imagem: Martin Acosta/REUTERS)

Na última edição deste torneio (2016), no entanto, iniciaram-se os questionamentos sobre a sua permanência. Os avanços da doença neurológica e a eliminação vexatória diante da Venezuela encabeçaram esse processo tenso, que em pouco tempo foi deixado para trás.

Nesta Copa, sob o seu comando, o Uruguai chegou às quartas de final, sendo eliminado pela França – campeã do torneio. Na coletiva, o técnico apresentava um olhar triste, mas dizia estar orgulhoso de dirigir a seleção. Até porque, ele também quebrou recordes: tornou-se o técnico com mais jogos em uma seleção (186), além de ter sido o mais velho da última Copa. Seu trabalho fez com que o Uruguai disputasse três Copas seguidas, feito que não acontecia desde a Copa de 1974. A bagagem como educador foi, sem dúvidas, fundamental para essas mudanças.

Técnico charrúa cede entrevista coletiva, após a derrota para a França. (Imagem: LANCE!)

O legado: reunificação do país com o seu futebol

Apesar de nunca ter confirmado, a imprensa aponta que Tabárez sofre de uma rara doença autoimune, a síndrome de Guillain-Barré. O que se sabe é que, em virtude da intensificação da mazela – que atinge os nervos periféricos do corpo, responsáveis por ligarem os órgãos e músculos ao sistema nervoso – o futuro do técnico dentro da seleção uruguaia ainda era incerto. A Federação Uruguaia de Futebol, então, anunciou em setembro a permanência do treinador, renovando o contrato que terminara junto à última Copa por mais quatro anos.

A sua trajetória no comando da seleção uruguaia é um marco indiscutível. A mudança de postura e a clara melhora do futebol trouxe o amor adormecido dos uruguaios, pelo futebol, à vida, mais uma vez. A relação entre o técnico e a torcida charrúa, aliás, é intensa e bela. Mesmo sendo contestado em algumas oportunidades, há um sentimento de gratidão partindo dos uruguaios em direção a Tabárez. Em um jogo das Eliminatórias para a Copa no Brasil, por exemplo, muitos torcedores não conseguiram conter as lágrimas ao verem El maestro adentrando o campo de muletas, nitidamente fragilizado com a doença, perante o Equador. Recentemente, uma petição com dez mil assinaturas foi enviada ao Ministério de Educação e Cultura do Uruguai. Nela constava o pedido de que uma escola pública local recebesse o nome de Óscar Washington Tabárez Silva.

Torcedor com máscara de El Maestro. (Imagem: Murad Sezer/REUTERS)

Muitos membros da imprensa também o admiram. Atílio Garrido, jornalista da TV Saeta Canal 10, em entrevista ao jornal O Globo para a matéria: “Óscar Tabárez, o ‘maestro’ que é sinônimo de futebol no Uruguai”, declarou: “Ele construiu com sua trajetória quase uma unanimidade. Claro que tem seus opositores, mas são mínimos. Hoje, se tirarmos o Monumento do General Artigas (herói da independência uruguaia) e colocarmos Tabárez, 80% da população aplaude.” Finaliza brincando.

Na mesma reportagem, Gustavo Botti da rádio Universal afirmou: “É um sujeito que transmite os valores de respeito, solidariedade, de trabalho coletivo, e isso não alcançou apenas o âmbito esportivo. Mas chegou à sociedade uruguaia.”

Com o elenco, a coisa não é diferente. De acordo com Diego Lugano, em entrevista ao portal da ESPN, Tabárez sempre é muito respeitador e sabe empregar as palavras certas para os seus jogadores, mas ressalta: “(..) ele é muito firme. Muito firme mesmo! Sem nunca levantar a voz ou faltar com o respeito, mas é muito claro mesmo tomando decisões difíceis. E ele já tomou muitas na seleção. Todo mundo o respeita muito, tanto os que já jogaram, os que seguem jogando ou os que não tiveram oportunidade, pois Tabárez trata a todos com igualdade.” Além disso, para o técnico, quem não treina como os demais não joga, sem exceções.

O ex-zagueiro e El Maestro trabalharam juntos na seleção uruguaia. (Imagem: Getty Images)

Em entrevista à revista The Blizzard, traduzida pelo Trivela, ele deixa claro: “O futebol é um esporte coletivo, não individual. Quando quero ver estrelas, eu olho para o céu. Se você está disposto a formar um grupo sólido, deve começar dando o mesmo respeito ao famoso e àquele que não é. Felizmente, na seleção uruguaia provamos que isso é possível. Quando esses jogadores badalados têm senso de grupo e liderança positiva, as coisas acontecem de maneira mais fácil.”

Enquanto o seu futuro é uma incógnita, nós, amantes do futebol, contemplamos essa personagem humilde e exemplar. Coisa rara no futebol e que merece ser muito valorizada. Tabárez é o maior técnico do Uruguai de todos os tempos e uma preciosidade do futebol mundial!

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