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CINÉFILOS
20 abr 2020 | Por Júlia Carvalho (juliacarvalho2602@usp.br)

Quando cozinhamos ou pedimos algo em um restaurante, o primeiro sentido que nos desperta água na boca é o olfato. O cheiro da macarronada insubstituível de todos os domingos ou daquele prato novo que você está prestes a provar são responsáveis pela abertura do apetite, o primeiro contato efetivo com o prato. Mas, o que seriam dos maravilhosos aromas da culinária se não fossem suas cores vibrantes? Quase tão importante como um cheiro que remeta a algo saboroso é uma boa apresentação da comida. Comemos com os olhos.

Nada melhor para um chef aguçar a curiosidade de seus clientes do que o visual apetitoso de suas receitas. E nada melhor do que o cinema para despertar as pessoas para o mundo da gastronomia. A culinária e os filmes têm a mesma necessidade de conquistar seus críticos e apreciadores pelo visual. A combinação dessas duas áreas que a princípio parecem bastante distantes é feita há muito tempo. 

Se os primeiros longas que tinham como prato principal situações ligadas à comida eram centrados em uma personagem que sabia cozinhar, o passar dos anos fez esse tipo de roteiro se transformar. Cada vez mais podemos nos sentir dentro dos filmes gastronômicos. Os ingredientes e receitas antes desconhecidos se transformaram em realidade na frente de qualquer espectador. Ainda não podemos sentir os aromas das cenas cinematográficas marcantes de nossas vidas, mas somos capazes de reproduzi-las perfeitamente em nossa cabeça – e, quem sabe, em nossas cozinhas.

 

Lista de ingredientes

É curioso pensar que a inserção da culinária na vida das pessoas de uma forma mais popular quase que coincide com a criação do cinema. A Segunda Revolução Industrial, em meados do século XIX, foi a responsável por desenvolver tecnologias que permitiram tanto a difusão da culinária quanto a criação do cinema. É claro que, na época, não havia nenhuma relação entre o início de certa popularização de diversas comidas com as primeiras sessões de cinemas, mas ambos tiveram a mesma raiz tecnológica.

As tecnologias desenvolvidas a partir desse período permitiram que, no começo do século XX, fossem inventados os eletrodomésticos. Esses itens, que hoje parecem tão comuns a nós e são essenciais para realização de qualquer receita, facilitaram o trabalho das donas de casa e chefs de cozinha. Eles também permitiram que houvesse uma padronização das comidas, já que todos poderiam utilizar um eletrodoméstico que resultaria no mesmo efeito no alimento. As receitas passaram, então, a ser fotografadas para serem colocadas em revistas e livros. A massificação dos eletrodomésticos fez as pessoas acreditarem que conseguiriam realizar determinada receita e que ela poderia ser reproduzida em casa.

Apesar da popularização da culinária nas casas do início do século XX e em setores da comunicação – que, assim como os eletrodomésticos, se tornava massificada – até os anos 1960 apenas três filmes com uma temática relacionada à comida foram produzidos. A culinária não chegou tão rápido nas telonas como no dia a dia das pessoas.


Entrada

O aumento mais significativo na realização desse tipo de longa só aconteceu a partir dos anos 1980 – de forma mais intensa entre o final dos anos 1980 e começo dos anos 1990. Mas, novamente, foi reflexo de um movimento na gastronomia que aconteceu cerca de dez anos antes. Na década de 1970, os chefs da cozinha francesa, inconformados com a banalização da comida proposta pelas redes de fast food, desenvolveram um novo modelo gastronômico – a chamada nouvelle cousine française, algo como nova cozinha francesa. Esse movimento propunha diversas mudanças com relação ao senso estético dos pratos e a diminuição no tempo de cozimento dos alimentos.

Esse modelo se tornou extremamente popular no mundo entre os anos 1980 e 1990 e passou a despertar um interesse maior ainda das pessoas em relação à gastronomia. É nesse período, portanto, que é produzido o filme A Festa de Babette (Babettes gæstebud, 1987). O longa é considerado um dos precursores no envolvimento da gastronomia no cinema, muito porque atraiu grandes plateias ao redor do mundo. Ele conta a história de Babette (Bibi Anderson), uma faxineira e cozinheira de uma casa em um vilarejo dinamarquês, que ganha na loteria e resolve preparar um banquete para o pastor da região.

Outro filme marcante desse período é Como Água para Chocolate (Como Agua para Chocolate, 1992). A protagonista, Tita (Lumi Cavazos), é a filha mais nova de uma tradicional família mexicana. Ela se apaixona por Pedro (Marco Leonardi), mas é impedida de se casar porque tem que cuidar de sua mãe na velhice. Ao crescer nos braços da cozinheira da família, a garota desenvolve um dom culinário impressionante, sendo capaz de transpor suas emoções para tudo aquilo que cozinha.

 

As protagonistas de Como Água para Chocolate (à esquerda) e A Festa de Babette (à direita)

As protagonistas de Como Água para Chocolate (à esquerda) e A Festa de Babette (à direita) [Imagem: Divulgação]

Os dois filmes foram muito relevantes na época, principalmente entre a crítica, e ambos refletem a visão que grande parte da sociedade tinha em relação à gastronomia. A Festa de Babette e Como Água para Chocolate têm a culinária centrada na figura feminina. A culinária era enxergada como algo apropriado apenas a mulheres, fossem elas novas ou não, e àquelas que trabalhavam nas casas cozinhando. O ato de se fazer comida, como mostrado nos longas, era visto com certo distanciamento ainda, como se fosse uma atividade que cabia apenas a um seleto grupo de pessoas. 


Prato principal

Já entre o fim dos anos 1990 e o começo dos anos 2000, a produção dos chamados food films cresceu ainda mais, triplicando em relação ao período anterior. Algo que incentivou muito esse crescimento foi o movimento de globalização, que se intensificou nessa época.  O surgimento da internet, a popularização dos programas de televisão e a explosão da criação de sites e blogs permitiu que aquele novo modelo culinário, a nouvelle cousine, ficasse cada vez mais acessível.

É nessa época que se inicia um movimento de valorização da gastronomia em todo o mundo: a cozinha passa a ser valorizada porque se torna a cada dia mais conhecida. Assim como os eletrodomésticos, no início do século XX, significaram uma revolução na popularização da culinária – porque as pessoas se sentiam mais capazes de fazer as mais variadas receitas – a globalização e a mídia foram fundamentais para poder consolidá-la no fim do mesmo século.

Em meio a esse interesse crescente sobre a gastronomia, o cinema não ficou para trás. 

O filme A Grande Noite (Big Night, 1996), por exemplo, conta a história de dois irmãos – Primo (Tony Shalhoub) e Secondo (Stanley Tucci) – que, nos anos 1950, emigram da Itália para os Estados Unidos para abrir um restaurante. Primo é o lado criativo e temperamental da dupla enquanto Secondo vê mais a parte capitalista e quer resolver a crise financeira que eles enfrentam. O longa acompanha a aposta da dupla e um cardápio ousado que será servido no novo restaurante.

Já em 2000, outro banquete foi parar nas telonas. Dessa vez, não era Babette a responsável pelas delícias que seriam servidas, mas, sim, Vatel (Gérard Depardieu), em Vatel – Um Banquete Para o Rei (Vatel, 2000). Inspirado em uma história real, o filme se passa na França do século XVII e acompanha o banquete que o mordomo Vatel tem que preparar para o rei Luís XIV (Julian Sands). Os conhecimentos culinários dele são o que poderá salvar a região do norte da França de uma profunda crise econômica.

 

Gerard Depardieu como Vatel no filme Vatel - Um Banquete Para o Rei

Gerard Depardieu como Vatel no filme Vatel – Um Banquete Para o Rei [Imagem: Divulgação]

Nesse mesmo ano, foi lançado outro longa saboroso e açucarado: Chocolate (Chocolat, 2000). Com alguns elementos que fazem lembrar as histórias dos já citados A Festa de Babette e Como Água para Chocolate, Chocolate é sobre uma jovem mãe solteira que se muda com a filha para uma pequena cidade na França e decide abrir uma loja de chocolates. Ela tem que superar a desconfiança dos moradores locais e utiliza seus deliciosos doces para conquistar a população.

Apesar de Chocolate seguir um pouco a linha dos filmes dos anos 1980, em que a função de cozinhar era muito centrada nas mulheres, Vatel e A Grande Noite são exemplos de uma aparente mudança na concepção sobre o que é cozinhar e quem poderia desempenhar essa atividade. Em ambos, a gastronomia gira em torno da figura masculina, algo impensável nos filmes do período anterior. Os dois apresentam um homem como o chef ou aquele que tem conhecimentos culinários. 

Essa alteração, que pode parecer pequena aos olhos do espectador, anuncia e demonstra a modificação do olhar das pessoas em relação à gastronomia. O saber cozinhar começa, mesmo que de forma tímida, a se tornar algo que sai das mãos das mulheres, donas de casa ou cozinheiras. O cinema, bem como a sociedade, passa a assimilar melhor a popularização da culinária que ocorria rapidamente nesse período, algo que entra de fato em ebulição na primeira década dos anos 2000.

 

Sobremesa

É nos anos mais avançados da primeira década de 2000 e no começo da segunda década que os food films passam a ter uma produção de grande expressividade. Nesse período, a internet avança cada vez mais rápido e é possível, para grande maioria das pessoas, ter acesso às mais diferentes culinárias mundiais. Além disso, a televisão também tem um papel fundamental nessa receita de sucesso. Os programas de culinária e os reality shows sobre o assunto conquistam uma audiência crescente a cada ano.

Esse programas – especialmente os focados em culinária, fora do gênero reality – já existiam há muitas décadas. Era muito comum na programação ter uma senhora que mostrava receitas incríveis utilizando determinada comida ou eletrodoméstico. Porém, os programas se modificaram muito ao longo dos anos, principalmente em relação ao formato e à relação que se tinha com as receitas. Eles atingiram um outro patamar nos anos 2000, assim como os filmes gastronômicos.

Talvez umas das maiores provas da popularização da gastronomia tenha sido a animação Ratatouille (2007). Apesar de ser um desenho, o longa é bem mais complexo do que apenas o entretenimento infantil. No filme, Remy (Patton Oswalt) é um rato que vive em Paris e sonha em se tornar um grande chef. Desacreditado por sua família, ele mora embaixo do restaurante de seu ídolo na gastronomia, o chef Auguste Gusteau (Brad Garret), e decide visitar o lugar. Nessa visita, conhece Linguini (Lou Romano), um ajudante atrapalhado e sem o menor talento para a cozinha. Desse encontro surge uma parceria inusitada que permite que Remy realize seu sonho.

Um ponto que vale ser destacado, também, é o retrato das cozinhas profissionais ainda como um ambiente bastante machista no desenho. No primeiro contato de Linguini com Colette (Janeane Garofalo), que trabalha no restaurante de Gusteau, ela dá uma bronca no ajudante, se mostrando bastante dura. A cozinheira deixa bem claro que só há ela de mulher naquela cozinha e isso foi resultado de muito esforço e de seu jeito rigído. Mesmo sendo uma animação, o filme traz de forma bastante clara a dificuldade da inserção feminina no ambiente da alta gastronomia. 

Outro filme que escancara a difusão da culinária é Julie&Julia (2009). Com uma história baseada em fatos e que se confunde com a da própria gastronomia, o longa conta, paralelamente, a vida de duas mulheres. A primeira delas é Julia Child (Meryl Streep), que no final dos anos 1940, se muda para Paris por causa do emprego do marido. Lá, se interessa por culinária e passa a estudar gastronomia, o que resulta em um livro e em um famoso programa de televisão. Do outro lado do Atlântico, mais de 50 anos depois, vive Julie Powell (Amy Adams). Prestes a completar 30 anos, ela se vê frustrada com a vida que leva e decide passar um ano cozinhando as 524 receitas do livro de Julia Child – relatando a sua experiência em um blog. 

 

Remy, de Ratatouille, e Julie e Julia

Remy, de Ratatouille, e Julie e Julia [Imagens: Disney/Divulgação]

Algo interessante que surge nesse período, também, é o interesse pela profissão de chef de cozinha. Tanto o filme Chef (2014) quanto o filme Pegando Fogo (Burnt, 2015) acompanham a vida de chefs e o seu dia a dia muitas vezes caótico. O longa Chef conta a história de Carl Casper (Jon Favreau), chef de um renomado restaurante em Los Angeles. Apesar de ser apaixonado pela gastronomia, Carl se vê frustrado com seu trabalho porque sente que sua criatividade é sempre reprimida pelo dono do local. Após a publicação de uma crítica bastante negativa à comida do restaurante – que destacava a falta de criatividade – e mais um embate com seu chefe, Carl acaba tendo de recomeçar no comando de um trailer de comida.

Pegando Fogo, por sua vez, mostra a tentativa de recomeço de um dos chefs mais renomados de Paris, Adam Jones (Bradley Cooper). Por causa do seu envolvimento com álcool e outras drogas, Adam acaba provocando uma decadência em sua carreira e vai trabalhar abrindo ostras em um restaurante, em Nova Orleans. Consciente de seu talento e obcecado com a grandiosidade, Jones vai para Londres para tentar recuperar seu posto de grande chef e conseguir uma estrela Michelin – categoria de premiação de restaurantes de excelência culinária.

Os quatro filmes mostram aspectos completamente diferentes da gastronomia, mas constroem muito bem um panorama de como as pessoas passaram a enxergar e a se interessar pela culinária. Se Julie&Julia retrata diretamente a mudança de visão em relação às receitas e, muitas vezes, a inacessibilidade da gastronomia, Pegando Fogo e Chef exploram a rotina fervente dos chefs de cozinha, uma realidade bastante nova no cinema. A cozinha se torna um lugar cada vez mais íntimo aos espectadores, seja a de um restaurante profissional ou a de um apartamento apertado.

Porém, algo que permeia esses filmes é a ideia que pode ser resumida pelo lema do chef Gusteau, de Ratatouille: qualquer um pode cozinhar. A curiosidade sobre a gastronomia, alimentada pela internet – que dá acesso às mais diferentes comidas e técnicas culinárias – e pela globalização – que permitiu o maior contato com a gastronomia de todo o mundo – fez com que a visão dessa atividade se transformasse totalmente. Cozinhar não só deixou de ser uma obrigação centrada nas mulheres e nos cozinheiros, como adquiriu um status. As pessoas passaram a se sentir mais confiantes para se arriscar na cozinha porque a culinária se tornou bem mais acessível.

 

Licor ou cafezinho

O cinema, ao longo de quase 100 anos, retrata a imagem que a sociedade tem sobre a culinária. Sem dúvida as mulheres foram o centro dessa atividade por muito tempo, afinal, acreditava-se que era delas o papel de cozinhar para a família ou, até mesmo, trabalhar como cozinheira. Mas isso, como tantas coisas nas telonas e na vida real, se transformou. A cozinha deixou de ser um lugar exclusivamente feminino e passou a ser frequentado por todos que lá quisessem deixar sua marca.

A cada ano surgem novos programas sobre o assunto, novos reality shows que revelam cozinheiros talentosos, novos filmes. Não só houve uma certa democratização das receitas, como da própria rotina dos grandes chefs e restaurantes. O interesse e o acesso à gastronomia cresceram e, assim, houve a maior possibilidade de qualquer um aprender a cozinhar. As pessoas passaram a entender que faz parte da gastronomia errar e tentar de novo, continuar tentando até aprender. 

A culinária, como as artes, se tornou um hobby, algo para além das cozinhas profissionais. A cozinha se tornou mais acessível, mais popular. Se, antes, um garoto – ou, quem sabe, até um rato – que tinha o sonho de se tornar um chef era totalmente desacreditado, hoje ele pode aprender a cozinhar. E chef Gusteau, novamente com sua filosofia muito além do mundo infantil, já dizia o que passamos a entender, tantos nos filmes quanto na vida real. “Nem todos podem se tornar grandes artistas, mas um grande artista pode vir de qualquer lugar”. 

Cinéfilos
O Cinéfilos é o núcleo da Jornalismo Júnior voltado à sétima arte. Desde 2008, produzimos críticas, coberturas e reportagens que vão do cinema mainstream ao circuito alternativo.
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