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Phoebe Bridgers acalenta tanto quanto fere em ‘Punisher’
Escuta Aí
15 mar 2021 | Por Thiago Gelli (thiago.gelli@usp.br)

No mais recente episódio de seu programa de rádio (Elton John‘s Rocket Hour, Beats 1), Elton John disse que “bateria em alguém” caso Phoebe Bridgers saísse de mãos abanando da premiação do Grammy, ocorrida no último domingo (14). Se verdadeiro, hoje alguém anda por aí com um hematoma assinado pelo cantor. 

Já a cantora-compositora provavelmente não teve a mesma reação. Ela canaliza sua raiva em gritos e destruições de guitarra que provocam os internautas mais facilmente chocados por artistas femininas. Ela também provavelmente não leva premiações tão a sério, dada sua atitude blasé em relação aos preceitos de etiqueta da indústria musical. 

O sentimento expresso pelo icônico pianista, no entanto, é justificado. O segundo álbum de estúdio de Bridgers, Punisher (2020), pelo qual conseguiu quatro indicações ao Grammy, é uma elusiva e agressivamente vulnerável fusão de folk, rock e indie. A produção explora relações familiares, românticas, amigáveis e intrapessoais, não em busca de resolução, mas com foco aguçado sobre as sensações de fracasso, dúvida, insegurança e dano que observa através dos recortes narrativos específicos — e alineares — que dispõe.  

Punisher: Phoebe Bridgers sob luz avermelhada em meio a árvores em plano desfocado

O macacão de esqueleto é o figurino oficial de Phoebe, parte da morbidez de seu trabalho. [Imagem: Reprodução/Facebook/Phoebe Bridgers]

Na maioria das 11 músicas do disco, Phoebe transmite suas composições através de vocais serenos, sussurros alongados, sobrepostos à produção que beira o fantasmagórico e se assenta numa atmosfera metafísica de introspecção.

O grave da guitarra barítono domina Halloween e produz um aconchego sobre o qual é fácil se apoiar e se deixar invadir.  O lirismo e a melodia derretem sobre o ouvinte enquanto Phoebe expressa a diluição de si em conexões interpessoais. É exemplo do senso de perda de direção que permeia o álbum — em Graceland Too, ela se descreve como “rebelde sem rumo”. A claridade é calculada e emerge em pontos particulares do disco, nos quais a abstração emocional abre espaço para afirmações assertivas de autoconsciência angustiada. 

Nesse caminho tão voltado a si, como de costume aos mais autocríticos, a depreciação se torna tema comum ao álbum. Por mais de uma vez, Bridgers duvida se tem a capacidade de expressar seus sentimentos, seja para um ídolo ou para a pessoa amada que deixou escapar. “Amo um bom lugar para me esconder em plena vista”, diz na faixa-título, sentimento que repete de outras maneiras em ICU (“tenho me feito de morta por toda a vida”) e Chinese Satellite (“tenho andado em círculos, fingindo ser eu mesma”). 

Mas Phoebe, por mais que se questione, tem poder de síntese estupendo, e por essa crueza de processos sentimentais constrói canções infalíveis na sensibilização imediata e na identificação profunda. Sua transparência é impressionante e nunca ilusória ou fabricada para nichos. O que ela compreende não é o mercado fonográfico, mas suas próprias experiências. 

Punisher: Phoebe Bridgers e Phoebe Waller-Bridge (usando máscara) lado a lado, em preto e branco

Phoebe Waller-Bridge, criadora do sucesso Fleabag, foi responsável pela direção do clipe de Savior Complex. [Imagem: Reprodução/YouTube/Phoebe Bridgers]

Ela não é um referencial ou modelo a ser seguido, não há arco de superação retirado de livros de autoajuda nem qualquer pretensão generalista. Phoebe sabe que a dor não precisa ser igual ou aprazível para ser universalizada. Ela ilustra seus sentimentos com homicídio, sirenes, satélites, doenças e o apocalipse. Até o início animado e romântico de ICU se modifica para a tormenta. 

Punisher, mesmo assim, evita ser um festival de autopiedade com a diversificação sonora e a escrita inteligente. Tanto quanto sabe sobre si (para o bem e para o mal), a artista sabe sobre a música sendo produzida. Quando o encerramento do álbum se aproxima, ela observa o niilismo não negativamente, mas consciente da multitude de possibilidades disponíveis. Em Graceland Too, Phoebe canta sobre procurar o apoio de amigos, de modo a buscar na coletividade o mais humano aproveitamento dessa infinitude, enquanto a melodia tende a um country sóbrio e meditativo.

I Know the End é sua conclusão, uma enchente em constante escalada que sintetiza todas as paradas pelas quais Punisher passa. O início é lamentação vagarosa, que se torna recusa da imobilidade. Ao passo que canta sobre um mundo que acaba, Bridgers se desprende de qualquer limitação. A última estrofe é composta brilhantemente por fragmentos de histórias e vivências elencados em sequência, uma vida que passa pela sua frente antes do nada. 

“Não tenho medo de desaparecer/O outdoor anunciou: o fim está próximo/Olhei ao meu redor, não havia nada lá /É, acho que o fim está aqui”, ela canta antes de deixar instrumental e coro dominarem o espaço, para então pura e simplesmente gritar por 15 segundos ininterruptos. No final, os instrumentos se retraem, a gravação fica clara e o berro gutural se torna sopro entre uma leve risada e uma tosse, que encerra o álbum. 

Passou. O fim pode não ter de fato ocorrido, seja o literal ou metafórico, e quando o fluxo musical para, o ouvinte ainda encara sua realidade, e ainda é o “si” que tanto criticou através das palavras de Phoebe. A expurgação de toda dor que estabelece conexão com a obra da artista pode não ocorrer — o que é grande motivo para apertar o replay —, mas é um alívio gritar ao seu lado.

*Imagem de capa: Reprodução/iTunes

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