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Imagens em movimento: há espaço para o conservadorismo na arte?
Em Cena
30 nov 2020 | Por Thiago Gelli (thiago.gelli@usp.br)

A reinvenção está no cerne de um intrigante paradoxo cada vez mais presente na cultura. A torrente de revisitações, remakes e releituras irrompe as barreiras de todas as linguagens artísticas da contemporaneidade e causa, simultaneamente, êxtase e revolta. Por um lado, a nostalgia clama por produtos passadistas (de American Horror Story: 1984 a Mulher Maravilha 1984). Por outro, a reutilização de obras estabelecidas em novos contextos causa fúria dos mesmos nostálgicos, como ocorre com o Batman de Robert Pattinson e A Pequena Sereia de Halle Bailey. 

Tais casos dizem respeito a certas características do consumo cultural. O primeiro – super-herói que se recusa a malhar – confronta o símbolo da masculinidade que narrativas fantasiosas de histórias em quadrinhos se tornaram. Quando adaptadas à telona, são geralmente acompanhadas por um extensivo processo de publicidade pautado na fadiga de atores condenados a passarem meses em academias em nome do físico irreal de desenhos cartunescos.

Já o segundo lida com o explícito racismo de um público branco habituado a se observar exclusivamente em tela, que admite a presença negra apenas em narrativas construídas para suprir nicho determinado ou sustentar a excelência de um white savior (personagem branco sobre o qual recai a responsabilidade de combater o racismo – vide Histórias Cruzadas e Green Book: O Guia).

Ambos, no entanto, se escondem sob o véu de um conservadorismo inofensivo, que busca apenas preservar obras originais – mesmo que não estejam ameaçadas – e estimular a criação de novas histórias, desde que essas, também, não sejam provocantes demais. Por trás do argumento, no entanto, recaem séculos de história da arte movidos por revisionismo e mudança.

 

Diferentes tempos, diferentes provocações

Para Wagner Pinheiro Pereira, professor de História da Arte e da Cultura no Instituto de História da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), “não é possível pensar em uma arte homogênea, nem em uma única fonte produtora absoluta e muito menos em uma interpretação única”. Já Edy Carlos Leite da Silva, mestre em história da arte pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), diz que “chegamos a um nível de entendimento no qual tudo já foi inventado e daí caímos na reinvenção, o que não é negativo, mas extremamente positivo, pois arte tem que ser revista, relida e repensada em constante mutação”.

Ao encararmos sua história, então, nos deparamos com uma série de diálogos entre passado e inovação. As vanguardas modernistas, que hoje são de extremo sucesso e amplamente aceitas, se apropriavam de linguagens europeias que desafiavam a norma para compor uma nova identidade visual e conferir protagonismo a novas faces nas telas. Wagner comenta que a transplantação e a importação cultural deveriam urgentemente ser revistas e que, para tanto, A Semana de Arte Moderna de 1922 foi decisiva. A pluralidade e subversividade dos modernistas levou a episódios como o de 1917, em que Anita Malfatti foi notoriamente atacada por Monteiro Lobato, que considerava seu expressionismo o antônimo da “arte pura”. Já em 2019, a exposição Tarsila Popular, do Museu de Arte de São Paulo, quebrou o recorde de mostra mais visitada da instituição. 

Recorte de A Boba, de Anita Malfatti. [Imagem: Reprodução/ Facebook/ Secretaria Especial da Cultura]

Recorte de A Boba, de Anita Malfatti. [Imagem: Reprodução/Facebook/Secretaria Especial da Cultura]

Por sua vez, o famigerado Renascimento, que hoje sustenta a ideia de arte como algo que deva prezar pela beleza e simetria, foi largamente transgressor em seu tempo tanto ao infundir diferentes ciências à arte, quanto ao representar divindades católicas em retratos humanizados e estimular o antropocentrismo. Exemplo mais célebre de tal movimento é a Mona Lisa de Leonardo da Vinci, que ainda movimenta multidões a seu encontro no Museu do Louvre, em Paris. Para Edy é “onde as pessoas vão enlouquecidas só para vê-la, como se não houvesse mais nada dentro daquele espaço museológico. Digladiam-se para tirar uma selfie rápida diante daquela imagem e esquecem tudo que está por trás daquilo”.

Vista apenas como expressão imponente da tradição artística, a pintura é reverenciada sem questionamento pelas massas, mesmo que não haja compreensão do porquê de seu valor. Mas há quem siga ousando ao propor novos diálogos e espaços para a obra de arte. Em 1919, Marcel Duchamp, dadaísta consagrado, divulgou sua releitura da Mona Lisa. L.H.O.O.Q é um simples folhetim estampado com a imagem consagrada, sobre o qual foram pintados bigode, cavanhaque e a sigla que dá título ao ready-made (obra composta de objetos prontos antes da concepção da arte). As cinco letras referenciavam, em francês, a frase “ela tem o rabo quente” — vulgar e provocativa — a fim de desconstruir não só a aura intocável do retrato, mas, como alguns acreditam, abordar a homossexualidade de da Vinci, convenientemente ocultada de vários livros de História.

L.H.O.O.Q. de Marcel Duchamp, um símbolo de reinvenção na arte. [Imagem: Reprodução/Instagram/afieldfellowship]

L.H.O.O.Q. de Marcel Duchamp. [Imagem: Reprodução/Instagram/afieldfellowship]

Um século depois, o revisionismo foi outro. Beyoncé e JAY-Z, um dos casais mais influentes da cultura pop e da música, alugaram o Louvre para a gravação do clipe da canção APESHIT. A faixa é carregada de referências às conquistas e à irreverência da dupla, que não só atingiu patamar ímpar de significância e sucesso, como se estabeleceu expoente do ativismo negro no mainstream. No clipe, a arte eurocêntrica das paredes contrasta com os corpos, arte, amor e expressões negras. Edy aponta que “quando Beyoncé e JAY-Z fazem aquilo, trazem a história do negro, do consumo e das artes e estão discutindo qual o lugar dessas histórias e quem tem poder sobre isso”. O historiador da arte também destaca: “imagine todas as pessoas que são fãs da Beyoncé, pela sua militância e postura diante das artes, de repente encararem-na dentro do Louvre, em frente à Mona Lisa – pondo um ícone da arte sob desconstrução”.

Além disso, a trajetória de Beyoncé em si também é de grande importância para a discussão de reinvenção de espaços e linguagens na cultura pop. Tendo alcançado o estrelato como parte da girlband Destiny’s Child, a cantora mergulhou no mercado fonográfico com seu inegável talento e presença de palco como parte da música pop, vista no geral como expressão artística comercial, divertida e sem grande profundidade. Ainda assim, Beyoncé não só ofereceu ótimos trabalhos como, em 2016, entregou ao mundo seu sexto álbum de estúdio solo, Lemonade, que elevava a questão racial ao epicentro de sua persona pública e subvertia a noção de sucesso e caráter apolítico do meio. O lançamento do single Formation gerou até mesmo um esquete do Saturday Night Live, maior programa de comédia dos EUA, sobre a reação a seu protesto. 

Wagner crê que o mundo artístico esteja espelhando as demandas e aspirações discutidas pelas sociedades contemporâneas:  “Beyoncé é, portanto, uma artista autoral, e não um mero produto comercial alienado/alienante da indústria cultural. Ela sabe da responsabilidade social do seu papel histórico na cultura midiática e o utiliza sabiamente para conscientizar as pessoas a construir um mundo melhor, livre de intolerâncias, preconceitos e racismos”.

O casal posa diante da Mona Lisa em imagem do clipe de APESHIT. [Imagem: Reprodução/Youtube/Beyoncé]

O casal posa diante da Mona Lisa em imagem do clipe de APESHIT. [Imagem: Reprodução/YouTube/Beyoncé]

Outro exemplo é o musical Hamilton, que se diferenciou ao infundir diversidade e a musicalidade do rap ao espaço predominantemente branco da Broadway, de modo a reler não uma obra de arte, mas a própria história estadunidense. O espetáculo aborda a atualidade e coloca no palco a população negra e latino-americana que teve terras e corpos explorados para a construção dos pilares da maior potência mundial. Tornou-se o maior sucesso do teatro musical em anos ao mesmo tempo que abordava racismo, feminismo, xenofobia e revolução. 

Já algumas décadas antes, em 1989, Madonna confrontou a Igreja, o diálogo sobre sexualidade e racismo no vídeo de Like a Prayer. A música em si tratava-se de uma mescla de coro religioso, guitarra e os vocais animados e sensuais da cantora, que descrevia um amor misterioso, transcendental e inevitável – em uma das mais aclamadas músicas pop já lançadas, Madonna reforçava seu espaço na indústria, mas não era recebida de forma tão acolhedora. O clipe de cinco minutos – que a acompanha em uma jornada na qual dá vida a um santo negro, o beija, canta em frente a cruzes em chamas e testemunha brutalidade policial – gerou revolta e perda de contratos. A reapropriação de símbolos religiosos e cenários barrocos levou até mesmo a um boicote apoiado pelo papa João Paulo II.

A composição da obra, aliás, remete a outro desafeto do Vaticano: o pintor conceitual argentino León Ferrari, que produziu a série Releituras da Bíblia, na qual associava religião, guerra e sexualidade. Chegou a cunhar a frase: “a arte não será nem a beleza nem a novidade, será a eficácia e a perturbação”. As ameaças não eram estranhas ao artista, que foi perseguido pela ditadura argentina e refugiou-se no Brasil. Em maio de 2000, uma de suas exposições em Buenos Aires sofreu atentado com bombas de gás lacrimogêneo. 

La Civilización Occidental y Cristiana (1965), obra de Léon que coloca Cristo crucificado em um caça norte-americano carregado de bombas, enfureceu Jorge Bergoglio – que se tornaria Papa Francisco. [Imagem: Reprodução/Galeria Nara Roesler]

La Civilización Occidental y Cristiana (1965), obra de Léon que coloca Cristo crucificado em um caça norte-americano carregado de bombas, enfureceu Jorge Bergoglio – que se tornaria Papa Francisco. [Imagem: Reprodução/Galeria Nara Roesler]

 

Por detrás da moldura

Para Wagner Pereira, “a recepção é sempre subjetiva e depende de cada público espectador. Os aspectos transgressores e/ou revolucionários na arte são sempre mediados pela visão de mundo dos indivíduos ou grupos sociais em determinado tempo histórico”. Nesse sentido, as manifestações a favor da estagnação artística são creditadas a uma série de dificuldades relacionadas à arte e ao diálogo, que parte do princípio educativo. 

O que ocorre, segundo Edy, é que “a arte entra num lugar de escanteio na vida das pessoas porque estão completamente direcionadas ao mercado de trabalho e precisam gerar capital. Sendo assim, ela continua voltada para as grandes socialites diletantes, que circulam pelos museus e têm seus nomes estampados em catálogos”. A sociedade, então, carece do cultivo generalizado de um amplo espaço para debate embasado acerca da arte, e, consequentemente, de sua significância democrática, caráter mutável e minuciosidades. Para compreender uma releitura, afinal, é necessário compreender o original. 

Parte disso é derivado da integração da educação artística como atividade obrigatória no currículo do ensino fundamental e médio brasileiros em 1971. Em meio à ditadura, era uma aula que visava a reprodução técnica das múltiplas expressões artísticas, tais quais as musicais, teatrais e visuais, mas não a reflexão ou análise da história das artes. Esvaziada de conteúdo, a educação artística tornou-se setor estigmatizado da educação, vista como trivial. A reestruturação do curso, a partir dos anos 1980 e concomitante à redemocratização nacional, almejou abordar a contextualização histórica, o senso crítico e a prática artística em diferentes escopos. Mesmo assim, até hoje a falta de recursos e espaços para tal no ensino público dificulta esse processo, além do tema ser subvalorizado em grande parte dos exames de admissão ao ensino superior. 

Na imagem, Augusto Rodrigues, um dos fundadores da Escolinha de Arte do Brasil, no Rio de Janeiro, considerada a primeira instituição de ensino artístico modernista no país e liderança do Movimento Escolinhas de Arte (MEA).  [Imagem: Reprodução/Facebook/Escolinha de Arte do Brasil]

Na imagem, Augusto Rodrigues, um dos fundadores da Escolinha de Arte do Brasil, no Rio de Janeiro, considerada a primeira instituição de ensino artístico modernista no país e liderança do Movimento Escolinhas de Arte (MEA).  [Imagem: Reprodução/Facebook/Escolinha de Arte do Brasil]

A intocabilidade de obras consagradas não almeja, então, preservar seu significado ou contexto, mas a percepção dominante construída em torno de tais obras. As princesas e super-heróis citados no início do texto são totens daquilo que é esteticamente preferido; a arte dos museus apoia o eurocentrismo; o mercado da música pop prioriza o caráter apolítico. A arte em si, no entanto, é ferramenta de destruição dessas convenções e construção de novas conversas. 

Nesse sentido, Wagner Pereira denota que “os novos cenários sociais transformam constantemente a cultura, impactando e transformando a (re)invenção da arte ao acrescentar em sua estética, linguagem, discurso e conteúdo os novos temas sociais que são colocados em pauta”. Ele conclui: “Sem a cultura artística passada não conseguiremos construir uma arte que inspire a democracia e a cidadania no presente e no futuro”

Edy, por sua vez, destaca: “Os artistas de outrora provavelmente sabiam que suas obras seriam vistas como algo passado e, mesmo que fizessem algo para ser eterno, esse eterno jamais teria a mesma ideologia da época. Todo artista deve estar muito preparado para que a obra seja suscetível a críticas e a releituras. Não é desrespeito algum. É, na verdade, privilégio, porque reler uma obra é reconhecimento de sua imponência e vitalidade”. 

Desse modo, então, através dos séculos, o diálogo entre diferentes períodos é estimulado na arte, pois assim como falamos de da Vinci – ou León, Madonna, Beyoncé, Tarsila do Amaral, Walt Disney e muitos outros –, da Vinci fala sobre nós.

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