Home Moldura Templos e santuários: onde arquitetura e religião se misturam
Templos e santuários: onde arquitetura e religião se misturam

Arquiteturas religiosas no Japão se destacam não só pela beleza e pelo design, mas pela diversidade de funções sociais e espirituais que exercem

Moldura
30 ago 2021 | Por Diogo Bachega Paiva (bachegapaiva@usp.br) e Gabriela Lima (gabi.lima2711@usp.br)

O xintoísmo e o budismo são as duas maiores religiões do Japão. Ao se pensar nessas práticas, é comum lembrar dos templos, que chamam atenção pela beleza arquitetônica e pela riqueza de detalhes. Mas, enquanto os santuários xintoístas surgiram no próprio país, os templos budistas tiveram origem na Índia e depois se diversificaram em terras japonesas. Entenda mais sobre essas estruturas ricas em cultura, história e beleza e sobre as práticas espirituais a que pertencem.


Os santuários xintoístas
 

As práticas xintoístas têm como essência a conexão entre a espiritualidade e a natureza e, por isso, não se concentram nos santuários, mas permeiam o cotidiano dos praticantes.

 

Templos japoneses: imagem da entrada frontal de templo, em cor vermelha, com escadaria à frente. À direita, uma árvore se destaca contra o céu cinza-escuro, em um canteiro com flores rosas

O santuário de Fushimi Inari-taisha, localizado em Kyoto, Japão, é o principal templo de Inari Ōkami, kami associado aos negócios. [Imagem: Reprodução/Pxfuel]

 

Em entrevista ao Sala33, Andréa Tomita, pós-doutora em Ciência da Religião com formações em Teologia e em Língua, Literatura e Teologia Japonesa, conta que a principal função dos santuários é “abrigar ou consagrar os kamis – forças sobrenaturais que podem ser nomeadas como divindades ou espíritos presentes na natureza”. Segundo a pesquisadora, “os ofícios religiosos são realizados por sacerdotes xintoístas e a circulação de pessoas é restrita a fins de visitação”. 

 

Templos japoneses: na imagem, duas mulheres em roupas tradicionais japonesas estão paradas em frente a uma construção de madeira, parcialmente coberta pelos galhos de uma cerejeira

O santuário Kitano Tenmangu também se localiza em Kyoto e está associado a Tenjin, kami da educação. [Imagem: Reprodução/Wikimedia Commons]


Os santuários costumam estar associados a lugares presentes na mitologia e surgem, também, a partir do culto de personalidades mitológicas e políticas importantes, como imperadores e xoguns, como explica Rafael Shoji, pós-doutor em Ciências da Religião pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Outra função desses espaços é abrigar matsuris, festivais japoneses que celebram os kamis por meio de procissões, danças, performances teatrais e desfiles.

 

 


 

Os templos budistas

Os templos marcam a paisagem japonesa por sua estrutura de madeira e cores fortes. Normalmente, eles se localizam em pontos próximos a paisagens naturais, como florestas e cachoeiras que são consideradas sagradas. É o caso do Templo Água Pura (Kiyomizu-dera, em japonês), construído próximo à cachoeira Kiyomizu os visitantes bebem de sua água, pois acredita-se que ela tem poder de realizar desejos. 

 

Templos japoneses: imagem lateral de templo em cores vermelhas, telhado cinza

Vista do templo Kiyomizu-dera, localizado em Kyoto e considerado patrimônio mundial da UNESCO. [Imagem: Reprodução/Wikimedia Commons]

 

Ao contrário do xintoísmo, no budismo os templos são dedicados ao culto e à consagração de Buda. As histórias de suas construções relacionam-se às narrativas religiosas, como, por exemplo, o templo Horyu-ji, que foi construído como oferenda a Buda pelo príncipe Shōtoku para curar a doença de seu pai. Outros seguem uma linha mais divina, como o Seiganto-ji, que, de acordo com a lenda, foi feito por um monge indiano que vislumbrou Kannon (deusa da compaixão e piedade) no local. Rafael conta que “o budismo é uma religião bastante diversificada” e, ao longo da sua história, se fundiu a religiões locais como o Taoísmo e o Xintoísmo, o que influenciou também no significado dos templos. “Inicialmente, os templos eram mosteiros, dedicados à formação de monges e instrução de leigos”, diz Rafael.

Andréa complementa que “além de ser o local para a realização de cultos, rituais e meditações budistas, [o templo] também abriga objetos sagrados e de valor artístico”. Ela explica que esse papel mudou ao longo da história. Durante o período Edo, que compreendeu os séculos 17 a 19, os templos, além de serem centros culturais, tinham como função receber registros de nascimento e óbito. Atualmente são locais de peregrinação e culto, mas também constituem os principais pontos de visitação turística no Japão.

 

Templos japoneses: imagem de tempo vermelho e branco, em área cercada de árvores e pessoas

A visitação é uma das principais atividades em muitos templos budistas atualmente, como é o caso do templo de Kiyomizu-dera, em Kyoto [Imagem: Flickr/Bernard Spragg]


Ainda que o país se destaque por suas estruturas budistas, a religião não nasceu no Japão. Na verdade, o budismo tem origem na Índia antiga, e foi levado ao país por chineses e coreanos através da Rota da Seda. “As escolas budistas japonesas foram importadas a partir da cultura chinesa, como também foi o caso da escrita e de várias artes tradicionais chinesas, que foram trazidas ao Japão”, conta Rafael. De acordo com a Agência de Assuntos Culturais da Embaixada do Japão no Brasil, em uma pesquisa de 2018, 66% da população segue o budismo e o primeiro lugar pertence ao xintoísmo, com alta sobreposição entre as duas religiões.

 

Inspirações no Brasil

Em várias cidades brasileiras, podem-se encontrar muitas referências à arquitetura japonesa. Na região de Ribeirão Pires, no estado de São Paulo, a Torre de Miroku é um exemplo. 

 

Imagem de torre com seis pisos sobrepostos, que reduzem em largura progressivamente em direção ao topo, em meio a área verde com várias árvores

A Torre de Miroku em Ribeirão Pires, SP,  fica às margens da Represa Billings. Seu acesso só é possível por meio de barco  [Imagem: Reprodução/Facebook/Torre de Miroku]

 

A torre tem oito metros de altura e foi construída sem pregos ou parafusos, como a maioria dos templos japoneses. Rafael diz que a Torre de Miroku “é uma cópia do templo Horyuji de Nara, considerado um dos templos budistas mais antigos do Japão”. Ele ainda explica que a torre, ainda que seja inspirada num templo budista, incorporou figuras católicas — como um espaço reservado para a imagem da Nossa Senhora Aparecida.

A mistura de crenças demonstra a grande importância dos templos japoneses não apenas como locais de consagração budista, mas de contemplação de todos os públicos no país.

 

As práticas espirituais no cotidiano japonês

No dia a dia do Japão, xintoísmo e budismo muitas vezes interagem. Segundo Andréa, não é incomum que japoneses se declarem ao mesmo tempo budistas e xintoístas. As duas religiões se conectaram com os passar dos séculos e “costuma-se dizer que, no Japão, o xintoísmo se encarrega da vida e o budismo da morte. O primeiro cuida dos ritos de nascimento e matrimônio, enquanto o segundo atua na esfera do culto aos antepassados e dos ritos funerários”, como conta Andréa.

Entre culto às divindades, contemplação da natureza, eventos culturais e atividades administrativas, templos e santuários extrapolam o valor arquitetônico. Quem se aventurar a pesquisar sobre um templo específico perceberá a profundidade de informação que cada um desses lugares carrega. Cada estrutura interage com lendas e episódios da história japonesa, além de participar de todo um universo de relações humanas, práticas artísticas e espiritualidade.

Sala 33
O Sala33 é o site de cultura da Jornalismo Júnior, que trata de diversos aspectos da percepção cultural e engloba música, séries, arte, mídia e tecnologia. Incentivamos abordagens plurais e diferentes maneiras de sentir e compartilhar cultura.
VOLTAR PARA HOME
DEIXE SEU COMENTÁRIO
Nome*
E-mail*
Facebook
Comentário*