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‘The Chair’: estar no topo nem sempre é fácil

Com temáticas atuais e humor ácido, nova série da Netflix propõe reflexões sobre o ambiente acadêmico e outras áreas da sociedade

Controle Remoto
07 out 2021 | Por Victoria Pacheco (victoriapacheco@usp.br)

Sinto que alguém me deu uma bomba-relógio porque queriam que uma mulher estivesse segurando-a quando ela explodisse”. Esse é o desabafo da professora Ji-Yoon Kim, protagonista interpretada por Sandra Oh na série The Chair (2021), que estreou em agosto na Netflix. Ao longo dos seis episódios da primeira (e, por enquanto, única) temporada, a constatação da professora não poderia se mostrar mais verdadeira: Ji-Yoon assume a chefia do Departamento de Inglês da renomada Universidade Pembroke em um momento de crise, quando a instituição passa por cortes orçamentários e uma baixa considerável no número de matrículas. Além das responsabilidades de seu cargo, a personagem — interpretada com primor por Oh — enfrenta desafios adicionais enquanto primeira mulher a dirigir o departamento e uma das poucas funcionárias não brancas no campus. A comédia dramática aborda temas relevantes, como machismo, racismo, etarismo e cultura do cancelamento. 

Ji-Yoon é uma mulher coreana-americana de 46 anos tentando conciliar vida pessoal e trabalho. Por um lado, precisa lidar com os desafios da maternidade — evidentes em seu relacionamento por vezes conturbado com a filha adotiva de 7 anos, Ju Ju (Everly Carganilla). Por outro, tem a difícil tarefa de comandar uma equipe de dez professores, muitos dos quais trabalham há décadas em Pembroke, a exemplo de Elliot (Bob Balaban) e Joan (Holland Taylor). Desde os primeiros momentos no cargo, Ji-Yoon é pressionada pelo reitor (David Morse) a convencer os docentes mais velhos a se aposentarem, dado o baixo número de estudantes matriculados em suas disciplinas. Ela, porém, não cede à pressão, e propõe outras ações para solucionar a crise do departamento.

Uma de suas apostas é Yaz (Nana Mensah), professora jovem e primeira docente negra no local, com uma metodologia de ensino inovadora, que a torna popular entre os estudantes. Com o intuito de modernizar a instituição e aproximar as aulas dos anseios dos alunos, Ji-Yoon quer tornar Yaz uma professora titular e garantir-lhe um maior protagonismo no departamento. O reitor, no entanto, reprova a iniciativa, assim como a maioria dos docentes, que querem dar a posição de destaque para uma celebridade branca. A série pinta, assim, um retrato do patriarcalismo e do racismo presentes ainda em muitas instituições.

A professora Joan é outra personagem feminina de destaque — e uma das figuras mais cômicas e cativantes de The Chair. Também impopular devido à metodologia tradicionalista que adota na sala de aula, a estudiosa de Chaucer (autor inglês) teme por seu emprego, principalmente após ter o escritório transferido para o porão da universidade. As cenas dedicadas a Joan, sobretudo aquelas que narram seus esforços para recuperar o antigo escritório, em uma tentativa simbólica de restaurar também sua relevância profissional, são carregadas de leveza e comicidade. Isso garante um bom equilíbrio entre drama e humor na narrativa permeada por assuntos delicados.

 

The Chair: imagem com três mulheres segurando taças, em uma casa de paredes brancas com portas de vidro ao fundo. A mulher à esquerda é loira, com vestido preto, a mulher do meio é negra, com vestido verde e preto, e a mulher à direita é asiática, com blusa vermelha e cabelos pretos

Da esquerda para a direita: Joan (Holland Taylor), Yaz (Nana Mensah) e Ji-Yoon Kim (Sandra Oh). Três mulheres de diferentes etnias, que passam por experiências distintas dentro de um mesmo contexto patriarcal. [Imagem: Divulgação / Eliza Morse / Netflix]


Porém, o maior desafio de Ji-Yoon será ajudar o professor Bill (Jay Duplass) — que é, inclusive, seu interesse amoroso na série — quando rumores de que ele seria neonazista se espalham pelo campus e geram revolta nos estudantes, motivando protestos e o “cancelamento” do docente pelo corpo estudantil. O caso chega até mesmo aos jornais, o que agrava a crise da instituição. Tudo isso ocorre depois que Bill faz um gesto polêmico durante uma de suas aulas.

 

The Chair: imagem com vários estudantes de diferentes etnias ao fundo, com braços erguidos e roupas de frio. À frente, homem branco, de meia idade, de perfil para a câmera

Bill tenta se explicar para os protestantes, sem sucesso. [Imagem: Divulgação / Eliza Morse / Netflix]


O destino de Bill contribui para alimentar (mesmo que essa não seja a intenção) a comum narrativa de que é injusto que pessoas percam suas carreiras e reputação “só por terem feito uma coisa errada”. Além disso, os estudantes que protestam contra o professor são representados mais como jovens histéricos e reclamões do que como sujeitos com pensamento crítico e defensores de uma causa nobre como o antifascismo

Apesar dos problemas, The Chair vale cada minuto. É impossível não ser fisgado pela trama inteligente e, ao mesmo tempo, cômica.  E nem é preciso dizer que a talentosa Sandra Oh — que se tornou famosa graças ao papel coadjuvante em Grey’s Anatomy — está agora em seu devido lugar: sob os holofotes.

 

*Imagem de capa: Divulgação/Eliza Morse/Netflix

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