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Uma Mulher no Escuro: entre o trauma e a perseguição
Na Estante
22 set 2019 | Por Gabriela Caputo (gabrielacaputo@usp.br)

Na noite de seu quarto aniversário, Victoria Bravo presenciou a invasão de sua casa e o assassinato brutal de seus pais e irmão. O Pichador, como ficou conhecido o garoto de dezessete anos que cometera o crime, poupou a vida da garota, mas deixou-a com a memória de corpos esfaqueados e rostos pichados de tinta preta, o dela incluso. Victoria cresce com o trauma e, vinte anos depois do ocorrido, vive a isolar-se do mundo, confiando em quase ninguém além de si mesma. 

Roteirista e autor de títulos como Dias Perfeitos e Suicidas, Raphael Montes é nome marcante na literatura policial e de suspense nacional. Uma Mulher no Escuro (Companhia das Letras, 2019) é o primeiro livro do escritor a apresentar uma protagonista feminina, que é muito bem construída.

Já adulta, Victoria tenta conviver com a depressão, angústia e medo, quase sempre na solidão de seu pequeno apartamento, localizado na Lapa, no Rio de Janeiro. Além desse canto particular, fazem parte do cotidiano de Victoria, o café onde trabalha, a casa de repouso em que está internada a tia-avó, Emília, e o consultório do psiquiatra, o Doutor Max. 

Como consequência de tudo que viveu, Victoria desenvolveu grandes dificuldades de relacionar-se. Tia Emília é a única familiar próxima que restou, não construiu laços profundos de amizade (seu único amigo é um rapaz apelidado Arroz, que conheceu na internet e pouco sabe sobre)  e não tem interesses românticos. O afeto e a possibilidade de perda — assusta Victoria, que o evita. Não confia verdadeiramente em ninguém, nem mesmo no Dr. Max, seu psiquiatra. São essas características que tornam um pouco questionável a rápida aproximação da protagonista ao escritor Georges, que frequenta o café em que ela trabalha. A maneira como o romance se desenvolve não parece coerente ao resto da narrativa.

O autor consegue expor o interior conturbado de Vic, e transmite sua amargura e inquietude com uma escrita muito inteligente e perspicaz. Victoria não acolhe em sua vida nada do que não necessite para sobreviver, não se dá o direito de se apoiar em ninguém. Em alguns momentos, se mostra apegada a elementos relacionados à certa infantilidade e inocência, provavelmente por conta dos traumas que sofreu.

Ainda no início do livro, Victoria enfrenta a continuação do pesadelo que vivia a anos: O Pichador retorna. E talvez sempre estivera presente. Quando encontra sua casa invadida e os dizeres “Vamos brincar?” em tinta preta na parede do quarto, Vic se aprofunda na escuridão aterrorizante que a cerca e passa a investigar todos os fatores ligados àquela noite, ao criminoso e à família que perdeu.

O suspense de Montes, como todo bom thriller, prende facilmente a atenção. As reviravoltas são constantes e as suposições do leitor são contraditas a todo momento. Nada é o que parece. 

A pequena quantidade de personagens é, ao mesmo tempo, ponto positivo e negativo da trama. Não há grandes fugas do enredo principal, mas o leitor que espera surpreender-se com o final, pode acabar frustrado. Desde o início, fica evidente que algum personagem que faz parte do cotidiano de Victoria teria algo a esconder. Além disso, o desfecho acaba sendo brusco, e cede ao clichê, deixando um pouco a desejar.

Outro ponto que vale destacar é a ambientação da história no Rio de Janeiro, com imagens do cotidiano carioca contracenando com Vic, em seus momentos de calmaria ou aflição uma das vantagens de se ler um romance nacional.

Em Uma Mulher no Escuro, o autor tece críticas sutis a certos comportamentos presentes na sociedade, como a hipocrisia da moral religiosa e o machismo, ao mesmo tempo que trata de temas mais pesados* e de grande importância. Sobretudo, a temática da formação da personalidade de vítimas, a partir de acontecimentos traumáticos, confere uma dimensão psicológica muito interessante. Raphael Montes entrega uma obra intensa, assustadora, e difícil de largar.

* É importante deixar o alerta de gatilho para cenas de violência e abuso sexual.

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