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Uma pedra de machismo no meio da política
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19 maio 2015 | Por Jornalismo Júnior

Por Liz Dórea (lizmdorea@gmail.com)

Mal rebentava 2015. Em verdade, era o dia oitavo de março. A noite já tinha rasgado as luzes da cidade, quando Dilma Rousseff aprumou-se, cerceada, de um lado, pela câmera; do outro, pela multidão de olhos que a acompanhou na transmissão. Também todas as bocas da mídia entonaram o primeiro pronunciamento da presidenta reeleita  mas, afinal, nem dois minutos correriam. Um surto de vaias de uma vez perfaria a televisão abaixo, seguida duma procissão de insultos, açoites verbais e, finalmente, a capitulação de toda a cobertura noticiosa. O fenômeno, embora soasse próprio à dinâmica democrática e à tensão eleitoral que tomou conta do país no último ano, põe à luz um debate que extravasa o campo político e adquire uma agudeza histórica  na medida em que se consagra numa realidade há muito hostil à existência das mulheres.

Dilma Rousseff durante pronunciamento do 8 de março de 2015, dia do primeiro panelaço e de ofensas sexistas.

Dilma Rousseff durante pronunciamento do 8 de março de 2015, dia do primeiro panelaço e de ofensas sexistas. (Foto: Reprodução)

Para a historiadora e estudiosa de relações de gênero Stella Franco Vilardaga, os acontecimentos recentes da história brasileira, que revelam um avanço dos ideais conservadores, foram canalizados não só contra o governo da presidenta, mas contra a sua figura pessoal e a sua condição de gênero. “O fato de proferirem insultos de conotação sexual e sexista, como observamos incontáveis vezes nas manifestações antigoverno e pelas redes sociais, é muito significativo de como o machismo age no jogo das forças políticas”, afirma Vilardaga.

Um estudo de retórica e linguagem da Universidade de George Washington, nos Estados Unidos, também elucida como a opressão de gênero pode ser apropriada como instrumento de dominação social, observando que mulheres, quando se comunicam, são sempre mais interrompidas do que homens  seja a interrupção forjada por eles ou mesmo por outras mulheres. Também a política, por natureza, não há de abster-se do embate comunicativo, da oposição, e, não raro, do ataque. O machismo, porém, prestará um serviço ingrato a essa correlação de forças, de sorte que mulheres, ao fazerem parte de círculos de debate, por vezes não serão questionadas pelas suas posições políticas, mas sim por conta de todos os paradigmas normativos que já as molestaram ao longo do tempo.

A historiadora afirma, nesse sentido, que existe uma noção internalizada de que força, inteligência e ação pertencem exclusivamente aos homens. Por esta razão, crê-se ser comum o sentimento de ameaça quando eles se deparam com atitudes de mulheres que subvertem essa ordem. “Pode-se aludir a uma miríade de possibilidades que provavelmente ainda afligem esses homens: perder o lugar de mando, deixar de ser o centro das atenções, não dar a última palavra, sentir abalada a sensação de poder, conferida pelo ideal de masculinidade”, avalia.

Tentando entender as forças que atuam nesse acirramento social, Vilardaga pondera: “Não se pode generalizar, mas, muitas vezes, a imprensa e os canais de comunicação contribuíram e contribuem para perpetuar versões estigmatizadas e naturalizadas das mulheres, nas quais em geral ainda são representadas, como no padrão ocidental e burguês oitocentista, como ‘anjos do lar’, ‘mães dedicadas’ e ‘esposas zelosas’”. A participação na política, por isso, pode se destrinchar numa tarefa dupla para as mulheres. A primeira travada junto ao debate ideológico e a segunda, frente à opressão de gênero.

No encalço da história do Brasil, é de se notar que o voto feminino só seria fruído a partir da Constituição de 1932. A primeira mulher eleita em esfera federal, por sua vez, ingressaria em 1934, pelo Estado de São Paulo. Vilardaga repara, contudo, que o interesse das mulheres pela política não é recente.

Carlota Pereira de Queiroz, primeira deputada federal da História do país, em 1934.

Carlota Pereira de Queiroz, primeira deputada federal da História do país, em 1934. (Foto: Reprodução)

“Recuando para o século XIX, fitaríamos mulheres participando de guerras, atuando como soldados, influenciando, por caminhos indiretos, decisões tomadas nas altas esferas, publicando em periódicos, opinando sobre processos históricos que envolveram grupos sociais marginalizados. (…) Já na aurora do século XX, por sua vez, buscariam a militância em partidos e em associações feministas e trabalhistas, articulariam formas de resguardar direitos próprios, lutariam pelo sufrágio universal, pretendendo votar e ser votadas. Em absolutamente todas essas investidas para o alargamento da rígida malha que vetava formas de atuação mais proeminentes, elas sofreram restrições, censuras e impedimentos”.

Nessa sequência, galgar cargos de governança, quando o acúmulo de direções foi historicamente cerceado, pode até ser uma conquista simbólica importante. Há, porém, que se ressalvar: “É claro que, nem sempre, a simples participação é suficiente. Mas, quanto mais envolvidas, maior é a possibilidade de que outras mulheres se sintam inspiradas em participar, reconhecendo a política – seja em cargos diretivos ou não –, como algo mais próximo de suas realidades. Nesse caso, as mulheres não engajadas, quando se encontram com outras, são, via de regra, estimuladas a participar politicamente”.

Apesar disso, uma vez que no poder, mulheres não necessariamente vão interceder por outras mulheres; disporão de autonomia legislativa para fazê-lo; ou, mesmo, estarão a salvo de lhes pungirem opressão. É de se pensar que se, dum lado, uma dirigente carrega o fardo do machismo institucional sobre sua persona política – do outro, também ela, enquanto agente do aparelho hegemônico, pode tornar-se sujeito do mesmo alheamento que aparta as instâncias oficiais das demandas objetivas dos setores oprimidos.

Um relatório para a OIT (Organização Internacional do Trabalho), feito pela economista e membro do conselho editorial de estudos feministas Lena Lavinas, também encerra essa balança de poder e emancipação que inflama a esfera pública: “índices elevados de participação feminina são, antes de mais nada, expressão da pressão espontânea exercida pelas mulheres e não um reflexo de uma política voluntarista”.

A conquista essencialmente simbólica gerada a partir de suas ascensões públicas, portanto, nem sempre vai confluir para conquistas materiais rumo à igualdade de gênero, sobretudo se essa ocupação alegórica se alienar a todas às demandas materiais do sistema econômico. Vilardaga aponta, todavia, que a impressão de que a desigualdade seja externa ao capitalismo não convém. “Creio que seria mais interessante pensar que essa situação é fortemente acentuada por ele, e que tal sistema tende, pelo menos, a intensificar desníveis que deterioram as já lamentáveis condições de vida das minorias sociais”.

 

Resistência organizada de mulheres em ato contra a repressão do regime militar, em 1968.

Resistência organizada de mulheres em ato contra a repressão do regime militar, em 1968. (Fonte: Reprodução)

Estaria na altura do horizonte, pois, tornar a política um arauto da construção da igualdade de gênero?

É de se pensar que sim. A organização coletiva, porém, talvez seja um campo muito mais fecundo do que o povoamento das cortes oficiais. “Creio que, aqui, o movimento feminista cumpre um papel muito importante: o de mostrar que não é a simples chegada ao poder que resolve milagrosamente todos os problemas. A contestação e a publicização da falta de atendimento às demandas particulares das mulheres deve ser constante; daí, ele alimentar essa discussão, cobrar dos representantes, negociar, deflagrar os problemas e forçar sua entrada na agenda política em esferas mais elevadas”, afirma a historiadora.

Num estudo do plano orçamentário brasileiro, Sonia Corrêa, fundadora da entidade feminista SOS Corpo, chegaria a uma conclusão semelhante. Por obra da movimentação massificada das mulheres, galopante na década de 70 no Brasil, uma ótica de gênero seria proposta às agendas públicas pela primeira vez, aplacando, em 1982, Conselhos Estaduais de Direitos das Mulheres e, em 1985, um Conselho Nacional. Nesse momento, no qual a autonomia do movimento feminista – mais que a direção na vida pública – tentou comunicar o coro da igualdade de gênero ao novo decênio e à Constituição que o anunciava, mal rebentava 1988.

Mas poderia, afinal, ter sido 2015.

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