Por Manuela Trafane (manutraf@usp.br)
‘Você é muito corajosa’. Essa é uma frase que a diretora editorial do veículo de notícias indiano Newslaundry – financiado por assinatura –, Manisha Pande, escuta há doze anos, desde a posse do atual primeiro-ministro Narendra Modi. “Sinto que essa afirmação é uma indicação triste de onde estamos. Apenas fazer notícias não deve ser um ato de coragem. Estamos apenas fazendo o básico, noticiando, denunciando o que não é verdade”, relata.
Em sua participação no 10˚ Festival Piauí de Jornalismo: ‘No olho do furacão – diretores de redação em tempos de tormenta’, na Cinemateca Brasileira, sábado (05/09), às 16h, Pande deu um panorama da imprensa indiana, ao abordar desde a influência do estudantil Partido das Baratas, até o conceito do jornalismo como seu próprio moderador. A mesa foi mediada pelos repórter Danilo Marques (Piauí) e pela colunista Patrícia Campos (Folha de São Paulo).
Para Pande, os últimos doze anos e três mandatos sob comando de Naendra Modi — caracterizado por ela como autoritário e censor — mudaram o que significa ‘ser jornalista’ na Índia. “Quando comecei minha carreira em 2009, o papel do jornalista era muito simples, fazer perguntas às pessoas no poder. Não era nada extraordinário. Hoje isso mudou.”
Desde sua entrada no poder, Modi nunca concedeu uma conferência de imprensa, o que não só impede a contestação de suas decisões, como também não permite reportagens que contam o lado do Estado. Apenas alguns poucos selecionados podem fazer perguntas a ele perto das eleições. Perguntas essas que ela considera, no mínimo, curiosas. “Eu juro que um ator de Bollywood já o perguntou se tinha um bestie (melhor amigo)”, diz.
O primeiro-ministro contorna a falta de entrevistas por meio de uma forte presença nas redes sociais. Apesar disso, não tem conseguido contornar os protestos do Partido das Baratas.
As baratas entram por onde der
Depois do presidente da Suprema Corte da Índia, Surya Kant, comparar jovens desempregados e ativistas a “baratas” e “parasitas da sociedade” durante uma audiência, esses mesmos jovens da geração Z formaram um partido de resistência. Nomeado pelo próprio insulto do político, o Partido das Baratas contesta o desemprego e a censura na Índia.
Seus protestos são, além de físicos, um fenômeno do Instagram. Pande descreve esse formato de publicação como sua principal arma contra o poder. Por meio do satirismo, eles mostram não terem medo do controle, mesmo frente a ataques policiais extensivos durante as passeatas que promovem. Os vídeos publicados, em sua maioria por estudantes, são divulgados pelas redes sociais e ganham força como um dos principais discursos críticos ao sistema.
A jornalista explica que isso acontece porque o país tem um modelo de publicidade pública que norteia o discurso midiático. O governo é um dos maiores investidores do setor e muitos jornais dependem de seu patrocínio para funcionar. Os programas de TV – fonte tradicional mais acessada pelo público do país – , então, limitam-se a elogiar Modi e a caracterizar a oposição como ruim: “anti-nacional, controlada pela CIA, pelo Paquistão ou por George Soros”. Aqueles que divergem disso, perdem os fundos, podem ser fechados e seus profissionais perseguidos, conforme dito pela periodista.
“O microfone passou a representar um Estado que não liga. Vinte anos atrás recebiam jornalistas em protestos, porque mostravam o que realmente acontecia. Hoje, não mais.”
Manisha Pande
Em seu programa televisivo semanal, TV Newsance, Pande critica esses veículos de forma irônica e bem humorada. “Meu trabalho nos últimos dez anos tem sido fazer brincadeiras com esses repórteres, para lembrar aos indianos que não é isso que a imprensa deveria ser. Nós deveríamos estar questionando o governo em poder.”

Tem que explicar, sim!
Ela expõe que, quando começaram a produzi-lo, a Índia não tinha uma tradição robusta de questionar os jornalistas sobre seus processos de produção de notícias. Sua lógica era: se burocratas, políticos, atores e futebolistas, todos são entrevistados sobre seus posicionamentos públicos, as mídias também deveriam ser perguntadas sobre suas escolhas e seu financiamento – em uma espécie de autorregulação.
Divulgar essas informações significava ser transparente com o público. E ser transparente, segundo a diretora editorial, era conseguir a confiança da população. Ela atribui o sucesso do modelo de assinaturas do Newslaundry a seu hábito de explicar a produção de suas matérias, apesar de a Índia não ter uma “forte tradição de pagar por notícias”.
“Acho que muitas vezes nós jornalistas assumimos que não precisamos explicar como as coisas funcionam. Que ‘é como é’”, conta. Segundo Pande, as pessoas assinam o jornal que dirige porque seus repórteres e editores ressaltam sempre o quão caro é fazer notícias e explicam seus processos. Por isso, justificam o motivo pelo qual as pessoas devem acompanhá-lo: para receber informações de qualidade.
Mas qualidade implica, em sua opinião, uma vontade de neutralidade. Apesar de entender os “repórteres mais novos” que desejam fazer ativismo, acredita que esse não é o papel do jornalista. Contar os fatos é a prioridade, em especial num momento de alta de fake news, impulsionadas por conteúdo gerado por Inteligências Artificiais Generativas, como deepfakes. Ela admite já ter ligado para colegas ao acreditar em vídeos falsos deles comentando uma notícia. Lidar com os ataques, nesse contexto, se torna papel dos editores dos veículos.
“Se você quer fazer uma diferença, as pessoas precisam confiar em você e isso só acontece quando você reporta a história bem, ao invés de opinar sobre ela”, diz. “O povo indiano está cansafo de ser contado como deve se sentir sobre um ocorrido. Nossos assinantes sempre dizem: nos dêem os fatos, nós os levamos a mente.”
[Imagem da capa: Renata Paes/Jornalismo Júnior]
