Por Ana Carolina Mattos Nobrega (a.carolinamattosn@usp.br)
Chega aos cinemas nesta quinta-feira (26) o longa A História do Som (The History of Sound, 2025), uma narrativa contida e reflexiva sobre os impactos de uma relação inesquecível. A trama acompanha a vida de Lionel Worthing (Paul Mescal), um jovem prodígio musical do Kentucky que em 1917 conhece David Smith (Josh O’Connor), um músico e acadêmico que acaba por mudar para sempre a trajetória de sua vida.
Baseado no conto de mesmo nome de Ben Shattuck, que também é roteirista do longa, A História do Som se estabelece desde cedo como uma narrativa intimista, mais interessada em deixar que o espectador se conecte aos sentimentos do que em construir lentamente a relação amorosa de Lionel e David ou preencher a tela com cenas frenéticas e cheias de ação.
O longa acompanha dois jovens que, quando se apaixonam perdidamente, são separados pela Primeira Guerra Mundial. Enquanto Lionel volta para sua fazenda de origem humilde, David é convocado para o combate. Depois da Guerra, os músicos se reúnem mais uma vez para uma viagem com propósitos acadêmicos: coletar músicas tradicionais estadunidenses. Relembrado por Lionel como o momento mais feliz de sua vida, os amantes se afastam e perdem contato depois da viagem, deixando uma “pulga atrás da orelha” de Lionel, que continua a escrever e a lembrar de David com o mesmo carinho que sempre sentiu.

O maior ponto de destaque inicial de A História do Som é a dupla principal de atores, Paul Mescal e Josh O’Connor, que, de fato, mantêm as características e competentes atuações. Mescal faz uma atuação cativante e no tom, sutil por boa parte do filme, mas dramática quando o roteiro toma tais caminhos. A entrega do ator nas músicas são ótimas e ajudam a carregar a dramaticidade que o roteiro pede.
Como um bom filme sobre música, eventuais cantorias movem a narrativa. Apesar disso, o longa não assume a forma de um musical, utiliza canções e uma montagem perspicaz como forma de conduzir momentos importantes da narrativa. Paralelamente a isso, A História do Som é silencioso, fazendo bom uso das músicas folk mas não dependendo apenas delas, ou para criar a ambientação dramática desejada.
A obra falha na tentativa de ter em sua narrativa um personagem que assombra a trama, coisa que parece ser o caso com David Smith. Abordado pela trama como central e inesquecível aos olhos de Lionel e aos olhos do público, a escrita do personagem de O’Connor falha ao tentar criar essa atmosfera. David é sim um personagem misterioso e atraente, mas não o suficiente para fazer o espectador se perder e se apegar a ele como Lionel se apega, coisa que derruba um dos pilares centrais de A História do Som: a conexão e influência de David na vida do protagonista.
Além das atuações excelentes, outro ponto a se elogiar é a ambientação, que não só desempenha papel central na trama como também transforma a experiência em algo imersivo, criando a sensação de que tudo que se conhece é a década de 1920, as florestas da Nova Inglaterra e uma fazenda isolada em uma terra falida no Kentucky. Mérito, em partes, do diretor, Oliver Hermanus, que constrói planos interessantes e muito significativos, que em momentos transmitem a implacável conexão e aparente intimidade entre o protagonista e seu grande amor e, em outros, exacerba sua solidão e pequenez.

A fotografia e direção de arte são muito embasadas em cores mais sóbrias, que também transmitem a sensação de solidão que o filme busca emplacar; Apesar de funcionar bem inicialmente, tal truque se desgasta um pouco e ao final se torna cansativo.
Ao longo de toda a narrativa, se faz constante a presença de uma sensação de que é como se o filme se esforçasse demais para ser trágico. À primeira vista, é de fato uma história trágica, mas o longa exagera em tais atributos, criando um certo cansaço da dramaticidade dos elementos ali presentes. De diálogos muito carregados a cenas mais contemplativas que parecem se juntar a trama apenas para “emocionar”, o fim das mais de duas horas de duração de A História do Som é arrastado e um campo minado de cenas dramáticas que pouco contribuem para a trama, apenas martelam o clima melancólico estabelecido desde o fim da viagem de Lionel e David.
Apesar de ser competente, A História do Som para por aí. As boas atuações, música comovente e fantástica ambientação não deixam a falta de originalidade passar despercebida. A produção pouco inova a fórmula tão conhecida de um filme contemplativo, romântico e acima de tudo dramático. Está no mesmo balaio de tantas outras obras semelhantes que, apesar de boas, são esquecíveis. Mesmo assim, a experiência não é negativa, pelo contrário, provoca reflexões e, em diversos momentos, atinge o grau de dramaticidade que tão desesperadamente procura.

A História do Som já está em cartaz nos cinemas brasileiros. Confira o trailer:
*Capa: [Imagem: Divulgação/Diamond]
