Por Ana Carolina Mattos (a.carolinamattosn@usp.br)
Em 1996, Pânico (Scream), de Wes Craven, foi lançado nos Estados Unidos e mudou para sempre a forma como slashers, final girls e metalinguagem sobre o terror são abordados no gênero. Isso tornou Pânico uma das mais inesquecíveis e bem sucedidas franquias do slasher, tanto que, nesta quinta-feira (26), estreia nos cinemas Pânico 7 (Scream 7, 2026).
O longa apresenta uma Sidney Prescott (Neve Campbell) diferente. Agora Sidney Prescott Evans, casada e com três filhas, a sobrevivente reconstruiu sua vida em uma pacata cidade onde é dona de uma cafeteria e parece tentar seguir em frente, deixando seu sofrimento e passado doloroso para trás. Mas, antes que se esqueça de quem é de fato, um Ghostface aparece na cidade e parece ter um novo alvo: Tatum (Isabel May), sua filha de apenas 17 anos, a mesma idade que tinha quando foi atacada pela primeira vez.
Pânico 7 consegue um grande feito já no começo: ter a pior sequência de abertura de toda a franquia. O segmento apresenta logo de cara alguns dos principais problemas do filme: na tentativa de criar cenas interessantes e grandiosas que referenciam outros capítulos da franquia, acaba realizando cenas divertidas mas sem nenhum sentimento além de humor por sua má qualidade, com mortes absurdas que se assemelham mais a um longa da franquia Premonição do que qualquer outra coisa.
Dirigido por Kevin Williamson, roteirista criador da franquia mas que aqui atua pela primeira vez na direção, o longa tenta inovar do ponto de vista técnico. Vai de brincadeiras com plano sequência até uma montagem mais ousada e planos bem diferentes que apostam no grotesco e até uma espetacularização da violência, questão criticada rapidamente sem nenhuma profundidade ou sutileza.
Essa nova forma de filmar ganha um novo grau com o que talvez seja a melhor sequência do filme: um ataque acompanhado pelas filmagens de uma câmara de segurança no celular de um dos personagens, que transforma a cena de perseguição em algo dinâmico e muito interessante. É, definitivamente, o momento mais divertido.
Apesar de seus pontos altos, esses novos planos de Pânico 7 que parecem ser algo positivo se tornam, na verdade, um grande problema. Algumas cenas são confusas, a continuidade e a passagem do tempo não são muito bem definidas e as cenas grotescas de assassinatos se tornam ainda piores quando auxiliadas por um CGI de baixíssima qualidade que transforma o filme praticamente em uma comédia.

[Imagem: Reprodução/IMDb]
O ar cômico não teria problema algum se não fosse pelo fato do filme se levar a sério demais. Diferentemente dos anteriores, Pânico 7 não faz um comentário esperto sobre o gênero do terror ou encontra graça em sua metalinguagem, o humor nasce simplesmente da falta de qualidade dos diálogos, da repetição de comentários já conhecidos e de cenas com violência exagerada muito pioradas pelo CGI. Cenas essas que não se sabe se são tão ruins por intenção, uma ideia de simular algo mais voltado para o gore, crescente nos últimos anos no horror, ou se são apenas mais um deslize de uma produção marcada por problemas desde seu início.
As duas sequências anteriores, Pânico (Scream, 2022) e Pânico 6 (Scream 6, 2023), foram protagonizadas por Melissa Barrera, que interpreta Sam, jovem que se vê obrigada a retornar a cidade de Woodsboro quando sua irmã mais nova, Tara (Jenna Ortega) é ataca por Ghostface. A atriz foi demitida do projeto ainda em 2023, quando manifestou sua posição de apoio à Palestina no contexto da guerra entre Israel e Hamas e foi afastada sob a justificativa de que a Spyglass, produtora do filme, condenava qualquer tipo de comentário antissemita ou falsa referência a genocídio. Em seguida, Jenna Ortega também anunciou sua saída do projeto.
Apesar do sexto filme ser referenciado constantemente em Pânico 7 como “os ataques de Nova Iorque”, as irmãs protagonistas e quase tudo o que ocorreu nos últimos dois longas, com exceção de utilizar os ataques e a ausência de Sidney para criar um conflito barato e sem importância sobre amizade entre as sobreviventes do ataque de 1996, parece irrelevante.

[Imagem: Reprodução/IMDb]
Os gêmeos Chad (Mason Gooding) e Mindy (Jasmin Savoy Brown), também apresentados em Pânico e Pânico 6, e até mesmo Gale Weathers (Courtney Cox), personagem clássica da franquia, não tem utilidade alguma para a narrativa além de se tornarem caricaturas de si mesmos em filmes anteriores. Isso é claro com os gêmeos, que aqui são uma versão ainda pior de personagens que nunca foram lá grande coisa e com sua única força narrativa sendo reunir figuras novas, quase tão inúteis e desagradáveis quanto eles, em um bar. Depois disso, desaparecem em meio ao caos narrativo que é Pânico 7.
A falta de personagens cativantes também é um grande problema aqui. Se antes o sofrimento de assistir a franquia estava em se preocupar com quem seria a próxima vítima, aqui isso não acontece de forma alguma já que os personagens são tão desagradáveis e pouco envolventes que as cenas impactantes de mortes de personagens queridos não existem, transformando as famosas cenas de perseguições, antes carregadas de sentimentos, em algo tão sem vida quanto a sequência de abertura sem sentido do filme.
A dificuldade na escrita dos personagens vale também para Tatum, que passa boa parte do filme extremamente apagada por um conflito clichê e mal feito sobre uma filha que quer descobrir mais sobre o passado traumático de sua mãe. O conflito é interessante à primeira vista mas o roteiro e a direção conduzem isso de maneira superficial e sem sentido, criando uma personagem vazia cujo único ponto interessante é seu parentesco com Sidney Prescott que aqui também não é muito bem utilizada, coisa difícil de se atingir com uma personagem já tão bem estabelecida por outros cinco longas.
Ainda nesse sentido, a motivação do Ghostface e dos personagens que parecem obcecados por Sidney e seu passado são péssimas. Em nenhum momento se entende suficientemente aqueles personagens para tentar responder às inúmeras perguntas que a narrativa coloca, mas nunca se atreve a responder ou, no mínimo, ceder recursos suficientes para que o espectador chegue a suas próprias conclusões. O filme apresenta algo e se esquece daquilo logo em seguida, coisa que atrapalha muito a narrativa, especialmente pensando em Pânico 7 como um filme de mistério e terror.
Outro grande defeito é tentar utilizar CGI e uma discussão sobre inteligência artificial junto com uma nostalgia barata. Com o péssimo uso dessas ferramentas como coisas que deveriam, em tese, movimentar a narrativa, o filme se transforma em um conglomerado de coisas bregas e sem sentido que fazem com que o longa pareça preguiçoso.
Pânico 7, sem dúvida, se escora na nostalgia e no amor à franquia para tentar se safar de seus erros. Isso junto aos personagens chatos e sem complexidade alguma, mistérios mal resolvidos e um roteiro preguiçoso transformam uma experiência que deveria ser prazerosa aos fãs da franquia em um filme brega, cômico por sua falta de qualidade e truques narrativos baratos e que se segura com dificuldade ao legado de uma das maiores franquias de terror da atualidade.

Pânico 7 já está disponível nos cinemas brasileiros. Confira o trailer:
*Capa: [Imagem: Reprodução/IMDb]
