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O Dia das Mulheres como palco do combate ao feminicídio

Confira na fotorreportagem de Amanda Yoshizaki e Hellen Indrigo momentos do ato "Juntas em uma só voz", que aconteceu no dia 8 de março

Por Amanda Yoshizaki (amanda.yoshizaki@usp.br) e Hellen Indrigo (hellenindrigoperez@usp.br)

Em 1975, a Organização das Nações Unidas (ONU) instituiu o dia 8 de março como o Dia Internacional das Mulheres. Mais do que uma simples comemoração, a data simboliza a luta histórica de movimentos feministas pela garantia de direitos, como a igualdade de oportunidades, o direito ao voto e o fim da violência de gênero. Mas além de homenagear o esforço que resultou em inúmeras conquistas ao longo de décadas, o Dia das Mulheres também serve como palco de discussão sobre direitos que ainda não foram conquistados.

Em 2015, a Lei do Feminicídio qualificou o homicídio de mulheres motivado pelo gênero como crime hediondo no Brasil. De acordo com dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, ao menos 13.703 mulheres foram vítimas de feminicídio nos dez anos que se seguiram à instituição da lei, sendo 1.568 apenas no ano de 2025 – um aumento de 4,7% nos registros em relação ao ano anterior. 

Como resposta a esse cenário violento, mulheres e homens utilizaram o simbolismo do dia 8 de março de 2026 para se reunir em protesto e reivindicar mudanças. O ato “Juntos em uma só voz” foi uma das manifestações que mobilizaram o público em defesa da causa, e ocorreu às 10 horas da manhã na Avenida Paulista.

A maior parte dos feminicídios ocorre dentro da própria residência da vítima, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública
A violência doméstica, denunciada pelo cartaz, não se limita à agressão física, ela também pode ser psicológica, moral, patrimonial ou sexual
A presença de crianças no evento destaca que a prevenção da violência de gênero deve começar desde a infância, por meio de educação e políticas públicas
A participação de homens na manifestação demonstra a importância do engajamento de todos para que o ciclo de violência contra a mulher se encerre
Ao serem perguntadas quantas já sofreram algum tipo de assédio, mulheres presentes no ato contra o feminicídio levantam a mão

Dados do Relatório Anual de Feminicídios no Brasil 2025, elaborado pelo Laboratório de Estudos de Feminicídios da Universidade Estadual de Londrina (Lesfem/UEL), revelam que, em média, mais de quatro mulheres foram mortas por dia no país. Cerca de 8 em cada 10 feminicídios são cometidos por parceiros ou ex-companheiros, de acordo com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Durante a manifestação na Avenida Paulista, cartazes, faixas e camisetas foram usadas para denunciar o feminicídio e outras formas de violência contra mulheres
Além de São Paulo, protestos do Dia Internacional da Mulher ocorreram em diversas cidades brasileiras para denunciar a violência de gênero e defender a igualdade de direitos
Em 20 anos de funcionamento, o Ligue 180 já realizou mais de 16 milhões de atendimentos a mulheres em situação de violência no Brasil

A Central de Atendimento à Mulher – Ligue 180 é um serviço gratuito do governo federal que recebe denúncias, orienta vítimas e encaminha casos de violência contra a mulher para a rede de proteção. O atendimento funciona 24 horas por dia. Em 2025, foram registrados 877.197 atendimentos entre janeiro e outubro.

Diversos manifestantes utilizaram o espaço da Avenida Paulista para honrar a memória das vítimas
Em 2026, casos recorrentes como o de Bruna Aline Rodrigues de Souza, Beatriz Benevides e Valdirene dos Santos Ferreira demonstram a necessidade urgente do combate ao feminicídio

Novos casos de violência contra a mulher surgem diariamente no Brasil em 2026. Em janeiro, o Judiciário registrou 947 novos processos de feminicídio no país. Desse total, 27 ocorreram no estado de São Paulo, região que concentrou o maior número de ocorrências do crime no Brasil em 2025.

O movimento “Juntos em uma só voz” foi conduzido na Avenida Paulista por Ana Carolina Oliveira, mãe de Isabella Nardoni, que foi assassinada pelo pai e pela madrasta em março de 2008
O feminicídio de Tainara foi lembrado em manifestações do Dia Internacional das Mulheres, como símbolo da luta contra a violência de gênero

Em 2025, Tainara Souza Santos, de 31 anos, foi atropelada e arrastada por cerca de 1 km na Marginal Tietê, em São Paulo, pelo ex-companheiro. Ela teve as duas pernas amputadas, ficou 25 dias internada e morreu em dezembro. O agressor foi preso e responde por feminicídio.

O evento reuniu pessoas de diferentes idades, demonstrando que a misoginia persiste como um problema que atravessa décadas

Além da violência direta contra a mulher, outras formas de agressão também podem resultar da discriminação de gênero. Em fevereiro de 2026, Thales Naves Alves Machado assassinou os dois filhos, de 12 e 8 anos, e cometeu suicídio em seguida, motivado pelo desejo de vingar-se da ex-companheira. O crime ocorreu em Itumbiara, no interior de Goiás, e trata-se de um exemplo de violência vicária – ou seja, a agressão ou o assassinato de pessoas íntimas de uma mulher com o objetivo de atingi-la.

Durante a manifestação, a participação feminina na política foi abordada como uma das principais formas de promover medidas eficientes para combater a misoginia
Segundo o Mapa da Segurança Pública de 2025, o Brasil registrou uma média de 227 estupros por dia no ano de 2024; 86% das vítimas são do sexo feminino
O testemunho de sobreviventes de violência doméstica e tentativa de feminicídio comoveu os manifestantes
Após o testemunho de vítimas, as organizadoras da manifestação externaram o desejo de que um próximo Dia das Mulheres seja marcado pelo fim da violência de gênero, ao invés da luta por um respeito que parece nunca chegar

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