Luiza Paglione (luizapaglione@usp.br)
Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade Federal do Acre (UFAC) revelou que 48% das pacas (Cuniculus paca) consumidas pelas comunidades tradicionais das cidades de Sena Madureira e Rio Branco, no Acre, estão infectadas pelo parasita Echinococcus vogeli, agente causador da equinococose policística humana, conhecida também por hidatidose neotropical.
Dentre os fatores que impulsionam o risco de infecção parasitária, estão os hábitos de caça para subsistência das comunidades e o envolvimento dos cães domésticos nas atividades. A ingestão das vísceras contaminadas das pacas torna os cachorros hospedeiros definitivos da zoonose e o contato próximo deles com os humanos facilita a transmissão.
“As comunidades desconhecem a doença e jogam as vísceras cruas [para os cães] . Nesse cenário, o fígado da paca já está infectado [pelo parasita] quando ele é ingerido pelo cachorro. Após 90 dias de maturação do E. vogeli no órgão, o cão libera os ovos nas fezes. Tais ovos vão contaminar o ambiente”, explica Leandro Siqueira, coautor do estudo e doutorando em Medicina Tropical na Fundação Oswaldo Cruz-Fiocruz.
Para a realização da pesquisa, foram entrevistadas 78 famílias – 61 delas praticantes da caça como subsistência – com 194 cachorros domésticos que circulam livremente pelas comunidades e que estão envolvidos nessas atividades.
A preferência do parasita pelo fígado das pacas, contribuiu para que 37% dos órgãos analisados pelo estudo tivessem a presença de cistos hidáticos, que consistem na fase larval do parasita Echinococcus vogeli que costuma ser associada a “bolhas d’água” nos órgãos de hospedeiros intermediários.

Falta de informações e contaminação
A hidatidose neotropical é classificada como recorrente principalmente no Acre e no Pará. Nesses estados, há núcleos de pesquisa que se dedicam ao diagnóstico da infecção. O trabalho dessas instituições realça a ausência de dados relativos a outros estados do país, resultante da dificuldade de diagnosticar a doença em locais remotos onde estão as populações mais vulneráveis e também da falta de acesso à informação pela população, pelos profissionais da saúde e pelos agentes comunitários.
Nesse sentido, a pesquisa afirma a necessidade de educar, considerando aspectos socioculturais, aqueles propensos à infecção. Tal aspecto é reforçado por Siqueira: “Não podemos chegar nas comunidades e falar que não se pode mais utilizar a paca para consumo, porque é a fonte de proteína dessas famílias. Então, partimos para a orientação do consumo: existe uma doença e para ela há prevenção.”
Há duas formas de prevenir a equinococose policística, não alimentar os cachorros com a carne da paca ou, se necessário, cozi-la antes do consumo pelos cães, quebrando o ciclo de transmissão doméstico do parasita. Além disso, o impacto da zoonose na saúde dos humanos pode ser controlado se identificado com antecedência, por meio do tratamento com albendazol, medicamento disponibilizado gratuitamente pelo SUS.
“As comunidades afirmam que é tão simples de prevenir a doença,
que só não preveniam [antes] porque não sabiam.”
– Leandro Siqueira, coautor do artigo
Métodos da pesquisa

Para confirmar a presença do E. vogeli no fígado das pacas, os cientistas utilizaram uma abordagem em três etapas com a combinação de técnicas visuais e genéticas: inspeção macroscópica para explicar quais cistos são esses; análise microscópica em busca de “ganchos” rostelares, a fim de identificar características morfológicas da espécie e, por último, o diagnóstico molecular através de testes PCR, aliados ao sequenciamento do material genético para analisar a compatibilidade com o DNA do parasita.
Para o coautor da pesquisa, a padronização do método de identificação do parasita facilita o diagnóstico. “Utilizamos duas técnicas: o parasitológico direto e a biologia molecular para detectar o DNA do parasita. O bom disso é que pode ser replicada pelos laboratórios centrais de saúde pública e os resultados podem ser liberados em 24 horas, sem a espera de 20, 40 dias. Então, já facilita muito o segmento do tratamento do paciente.”
Essas técnicas permitem que os infectados procurem tratamento antes do agravamento dos casos, uma vez que a doença pode ser silenciosa durante anos e só apresentar sintomas quando os cistos precisam ser removidos cirurgicamente. “A sintomatologia é lenta devido ao crescimento dos cistos no fígado. As pessoas só descobrem depois de 30, 40 anos que estão infectadas. Isso faz com que a doença já esteja em estágio avançado e, nesse cenário, o medicamento utilizado já não terá efeito.”
*Imagem da capa: Leonardo Milano/Wikimedia Commons
