Por Melissa Siqueira (melissasiqdiogo@usp.br) como
Em um país onde o futebol ocupa um lugar central na cultura, seguir carreira no esporte é um dos grandes sonhos de muitos jovens. Eles enxergam o futebol não só como uma realização pessoal, mas também como uma possibilidade de melhoria de vida. Segundo uma pesquisa do portal Bolavip Brasil, realizada em parceria com a instituição Research Without Barriers, em 2025, o desejo de jogar futebol profissionalmente cresceu 47% entre crianças e adolescentes nos últimos dois anos. Esse levantamento reflete o peso cultural e econômico que o esporte ainda carrega no Brasil.
A realidade por trás desse sonho, no entanto, é bem mais restrita do que parece. Dados indicam que menos de 1% dos jogadores brasileiros conseguem chegar à elite do futebol – a grande maioria enfrenta um caminho marcado por incertezas, cortes precoces e poucas oportunidades. Em muitos casos, ainda na base, esses jovens já lidam com a pressão por desempenho e com a dificuldade de se manter em um sistema altamente competitivo.
Promessas de avaliação em grandes clubes, contatos com supostos empresários e cobranças indevidas são algumas das estratégias utilizadas para enganar famílias que muitas vezes não entendem como funciona, de fato, o processo de entrada no esporte profissional. Nesse contexto, surgem os chamados golpes da “falsa peneira”: esquemas que exploram o sonho de ascensão no futebol.
Como funcionam as peneiras oficiais
Diferente do que muitos golpistas propagam, as peneiras, também chamadas de avaliações, seguem regras claras. De acordo com Clodoaldo Silva, proprietário da unidade de Barueri da “escolinha” licenciada Chute Inicial e de sua própria, chamada GF Sports, o processo legítimo não envolve cobrança: “As avaliações feitas oficialmente pelos clubes não são pagas. Se alguém está cobrando qualquer valor para colocar um garoto em uma peneira, já é um sinal de alerta”, afirma em entrevista ao Arquibancada.
Segundo ele, existem dois caminhos principais para se chegar às categorias de base: por meio de escolinhas licenciadas, que funcionam como uma ponte com os times, ou através de peneiras abertas, divulgadas pelos canais oficiais dos clubes.
Em ambos os casos, o vínculo com a instituição é direto, de forma que seja possível entrar em contato com a mesma para buscar informações, seja pelos sites oficiais ou pelo departamento responsável, como é o caso do Sport Clube Corinthians Paulista: “Você pode entrar em contato com o Departamento do Chute Inicial, dentro do Departamento de São Jorge, e pode falar com eles. Eles podem te direcionar para o Departamento de Categorias de Base do Clube”, aconselha Clodoaldo.
Embora o processo tenha diretrizes formais, a percepção de quem vive essas experiências nem sempre acompanha essa lógica. O jogador amador Maxuel Alan, entrevistado pelo Arquibancada, relembra uma peneira que fez ainda adolescente em um grande clube paulista, marcada por um longo processo seletivo: “Foram várias fases, a gente ia passando semana a semana, até chegar na final. Selecionaram 23 jogadores para um jogo decisivo contra o time da mesma idade do clube”.

Maxuel com a taça da Copa dos Campeões do Futebol Amador em 2025, pelo time E. C. Só Quebrada [Imagem: Acervo pessoal/Maxuel Alan]
O que aconteceu depois, porém, colocou em xeque a ideia de que apenas o desempenho em campo define o resultado: “Cinco não jogaram, e dois desses cinco foram aprovados. Tinha gente ali que a gente sabia que tinha contato, dinheiro. Parecia que já tinha nome marcado”, relata.
Esse tipo de experiência reforça uma percepção, recorrente entre atletas, de que nem sempre os melhores ou mais esforçados passam nas avaliações. Seja por influência de empresários, indicações ou interesses internos, a justiça no futebol nem sempre é absoluta. Esse cenário cria um efeito perigoso, uma vez que, ao perceberem possíveis injustiças no sistema, muitos jovens e familiares passam a acreditar que pagar por facilidades pode ser um caminho legítimo – justamente o tipo de pensamento que abre espaço para golpes.
Entender como funcionam as peneiras é fundamental, mas reconhecer suas limitações também é parte do processo. Entre regras oficiais e práticas informais, o futebol se constrói em uma zona onde talento, oportunidade e influência muitas vezes se cruzam, e é nesse espaço que o sonho pode tanto se concretizar quanto ser explorado.
Como reconhecer um golpe
A identificação de um golpe nem sempre é simples. Embora a principal regra seja clara: não se paga para ser avaliado; algumas situações vividas por atletas mostram como a prática enganosa pode se aproximar perigosamente da normalidade.
Maxuel, por exemplo, relata uma experiência que ilustra essa zona cinzenta. Aos 21 anos, após passar um período em um clube do interior paulista, ele foi surpreendido por uma cobrança no momento em que poderia se profissionalizar: “Fiquei alojado quatro meses. Quando disseram que iriam assinar contrato profissional, pediram sete mil reais. Pra gente, que joga futebol, isso não fazia sentido. A gente tem que receber, não pagar”, conta. Desconfiado da situação, ele decidiu deixar o clube. Outros atletas, segundo ele, também voltaram para casa frustrados após investirem tempo e expectativa no processo.
Casos como esse mostram que nem sempre o problema aparece como um golpe explícito. Em alguns contextos, práticas irregulares se misturam com estruturas aparentemente legítimas e dificultam a percepção de fraude.

Amistoso entre os alunos do Chute Inicial Barueri [Imagem: Acervo pessoal/Escola Chute Inicial Corinthians Barueri]
De toda forma, o princípio é o mesmo: o clube deve investir no atleta ao oferecer estrutura e formação, e não o contrário. Em janeiro de 2012, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) criou um mecanismo formal que reforça essa responsabilidade: o Certificado de Clube Formador (CCF). Esse documento exige o cumprimento de uma série de critérios estruturais, como presença de psicólogo, nutricionista, fisiologista e assistente social, de modo a garantir que o atleta tenha suporte completo em sua formação. Em alguns casos, a depender da categoria, o clube também é obrigado a oferecer ajuda de custo ao jogador.
“Os clubes não podem cobrar, e se o clube cobra, ele está totalmente fora da normalidade da lei. Nenhum tipo de peneira pode ser cobrada”
Clodoaldo Silva
Os meios utilizados pelos golpistas
Os golpes da falsa peneira não seguem um único padrão de divulgação. Pelo contrário, eles se adaptam aos meios mais acessíveis para alcançar os atletas e familiares, desde o contato direto até estruturas digitais cada vez mais sofisticadas.
Além disso, a existência de intermediadores amplia o risco, como ressalta Clodoaldo: “Existem intermediadores e é aí que está o perigo, porque o intermediador normalmente busca alguma vantagem. Em alguns casos é cobrado um valor do pai para fazer essa indicação. […] Normalmente, esses intermediadores são pessoas que não fazem parte do clube, mas têm alguma ligação com alguém lá dentro, têm algum envolvimento e usam isso para enganar as pessoas”.
Esse tipo de abordagem ganha força justamente por explorar as exigências do próprio meio. Como explica Joaquim Henrique, ex-preparador físico do São Paulo e proprietário da Academia de Futebol Camisa 10, em entrevista para o Arquibancada: “Nesse meio, existe muita concorrência, a necessidade de aprovação em peneiras, além de preparo físico e mental rigorosos, e do apoio financeiro do clube. […] A dificuldade é grande, por isso poucos atletas conseguem se tornar profissionais”.

Foto do time União São João de Araras em 1990 (Joaquim é o terceiro homem em pé da direita para a esquerda) [Imagem: Reprodução/Facebook/@JoaquimHenrique]
Com isso, outra prática comum vem à tona: a atuação de pessoas que se apresentam como empresários ou agentes e oferecem supostas facilidades mediante pagamento. Como alerta Clodoaldo, essas abordagens costumam vir acompanhadas de justificativas que parecem plausíveis para quem não pertence ao meio. “Hoje acontece muito de pessoas que se dizem empresários falarem: ‘eu consigo colocar o seu filho para ficar um mês em avaliação em tal clube, em tal cidade’, só que custa um valor X. E aí esse valor é dividido, vai um pouquinho para cada um”.
Ele ainda reforça que, em alguns casos, a promessa vai além da avaliação: “Tem pessoas que dizem que conseguem colocar o atleta direto no clube, que ele vai jogar, mas que precisa pagar um valor mensal”. Nesse tipo de situação, o pagamento é apresentado não como uma taxa direta pela vaga, mas como um meio para se ter acesso a uma oportunidade, o que pode confundir famílias e dificultar a identificação do golpe.
Porém, é no ambiente digital que esses golpes se tornam ainda mais difíceis de serem identificados. Casos recentes mostram que golpistas criam sites falsos que imitam clubes, com cobrança de taxas. Em um dos exemplos, criminosos divulgaram uma suposta peneira do Flamengo com cadastro online e pagamento via PIX, alegando vagas limitadas para categorias de base, algo que o clube não realizava. O Corinthians, em março de 2025, emitiu um alerta oficial sobre a circulação de anúncios falsos usando o nome do clube para atrair jovens atletas e reforçou que qualquer processo legítimo é divulgado apenas em seus canais oficiais.
Além dos sites, as redes sociais se tornaram um dos principais canais de disseminação. Anúncios patrocinados, perfis falsos e publicações impulsionadas ajudam a dar aparência verídica às falsas oportunidades. Em muitos casos, o conteúdo promete contato com olheiros, empresários ou até jogadores conhecidos e cria uma narrativa convincente para quem busca uma chance no futebol. Entre as fraudes, um padrão pode ser identificado: o interessado é atraído por uma publicação ou link, realiza um cadastro e, em seguida, é direcionado para o pagamento de uma taxa que costuma ser justificada como valor de “inscrição”, “avaliação” ou “garantia de vaga”.
Os golpes também podem surgir dentro do próprio ecossistema do futebol, com abordagens feitas em jogos e treinos, onde indivíduos se apresentam como empresários ou intermediários e oferecem “facilidades” mediante pagamento, prática que, segundo Clodoaldo, não faz parte do funcionamento legítimo do esporte.
O papel das escolinhas
As escolinhas de futebol ocupam um espaço central na formação de jovens atletas, mas seu papel vai além do desenvolvimento técnico, sendo também um dos principais pontos de orientação para as famílias. “No caso das escolas oficiais, como o Chute Inicial, o clube oferece anualmente uma avaliação para os alunos. Essa avaliação não é cobrada e acontece diretamente com o Corinthians”, explica Clodoaldo.
Segundo ele, os atletas que se destacam podem avançar dentro de um sistema interno e, assim, passam por uma seleção que reúne os melhores jogadores das unidades antes de chegarem, de fato, ao radar das categorias de base do clube. “Os aprovados passam a integrar a seleção das escolas. A partir daí, eles podem ser observados pelo clube e, se tiverem nível, seguir adiante”, afirma.

Campeonato Interno do Chute Inicial Unidade Tamboré em 2024 [Imagem: Acervo pessoal/Escola Chute Inicial Corinthians Barueri]
Esse modelo reduz a exposição a intermediários e garante maior transparência no processo. No entanto, ele revela a busca cada vez mais precoce por talentos, uma transformação importante no futebol de base. “Hoje, quanto mais novo, melhor. A partir dos 8 ou 9 anos, o garoto já começa a ser observado com mais atenção “, diz.
Essa mudança não acontece por acaso. Do ponto de vista dos clubes, captar atletas mais jovens significa ter mais tempo para desenvolver o jogador dentro de uma metodologia própria, moldando aspectos técnicos, físicos e até comportamentais. Também há um fator econômico, uma vez que formar um atleta desde cedo reduz custos com contratações futuras e aumenta o potencial de retorno financeiro em uma eventual venda. Outro ponto é a competitividade: com cada vez mais clubes investindo em suas categorias de base, identificar talentos antes dos concorrentes se tornou uma vantagem estratégica.
Com a pressão por começar cedo, muitas famílias passam a acreditar que qualquer oportunidade pode ser decisiva. A ideia de que “quem chega primeiro sai na frente” abre espaço para abordagens enganosas, principalmente quando envolvem promessas de acesso rápido a clubes ou avaliações antecipadas.
Fique atento!
Os golpes costumam seguir padrões semelhantes e, em muitos casos, apresentam sinais claros de irregularidade. Entre os principais sinais de alerta estão:
- Cobrança para participar de avaliação;
- Promessa de aprovação garantida;
- Intermediários sem vínculo comprovado com clubes;
- Falta de divulgação em canais oficiais;
- Propostas que envolvam viagens, alojamento ou contratos mediante pagamento.
Mais do que reconhecer esses sinais, é fundamental saber como agir diante deles. Antes de qualquer decisão, o ideal é buscar confirmação nos canais do próprio clube, como sites institucionais, redes sociais verificadas ou contatos diretos com o departamento de base.
Além disso, pesquisar o nome da pessoa ou empresa envolvida pode ajudar a identificar denúncias anteriores ou inconsistências. Conversar com treinadores, escolinhas confiáveis ou pessoas do meio também pode servir como um filtro importante.
“O principal de tudo: o clube já tem que ter uma estrutura financeira para sustentar as categorias de base dele. […] Ele está investindo um valor naqueles atletas, então ele tem que formar aquele atleta. E a formação, ela envolve tudo: parte psicológica, parte social, educacional e a parte como jogador”
Clodoaldo Silva
No fim, a linha que separa o sonho do prejuízo está, muitas vezes, na informação. Entender como o sistema funciona, desconfiar de facilidades e buscar caminhos oficiais são as principais formas de evitar cair em armadilhas. No futebol, como na vida, não existe “atalho garantido” – e quando ele aparece, geralmente custa caro.
*Imagem de capa: Emilio Garcia/Unsplash
