Por Guilherme Hofer (guihofer@usp.br)
A pouco mais de 200 km da Cidade Universitária da USP, em São Paulo, está o campus de Lorena: a Escola de Engenharia de Lorena (EEL), o mais novo entre os sete campi da instituição, fundado oficialmente em 2006. A EEL surgiu a partir da Faculdade de Engenharia Química de Lorena (FAENQUIL), que há 37 anos já era um polo educacional importante na região. Essa transição gerou um contexto trabalhista que reverbera até hoje, e foi uma das razões pela decretação da greve dos alunos da EEL, no dia 24 de abril.
Antigos funcionários e professores da FAENQUIL foram mantidos pelo governo do Estado, enquanto novos docentes e profissionais eram contratados da USP. Hoje, o quadro de docentes, técnicos e trabalhadores administrativos é misto entre contratados pela USP e pela Secretaria de Ciência e Tecnologia e Inovação do Estado de São Paulo (SCTI-SP).
Quando a greve dos funcionários iniciou na capital paulista, seguida da paralisação dos estudantes, uma assembleia foi realizada entre os servidores da EEL. Porém, menos de 15% dos presentes foram favoráveis. Uma das pautas discutidas foi a renovação da assinatura do convênio com a secretaria do Estado.
Falta de Funcionários
“Achamos muito válido eles não aderirem, no entanto quisemos nos aproveitar também da greve da capital”, é o que explica a presidente do Diretório Acadêmico dos estudantes, Ana Beatriz Zimmermann. Por isso, os estudantes incluíram na pauta o avanço para as assinaturas no convênio com a SCTI e a isonomia entre funcionários FAENQUIL e USP. Outra questão importante para os alunos advinda do quadro misto de docentes, é uma medida orçamentária que dificulta a contratação de professores.
Segundo Ana Beatriz, a USP se responsabiliza por um terço do salário dos servidores da FAENQUIL. A cada professor ou funcionário que sai da instituição apenas um terço do salário dele poderia ser destinado a um novo profissional da USP. Isso significa que três contratados da FAENQUIL precisam se aposentar, vir a óbito ou parar de exercer o cargo para que apenas mais um fosse contratado. “Percebemos um déficit de professores, percebe que não cumpre a necessidade”, afirma.
“A cada professor ou funcionário da FAENQUIL que se demite, se aposenta ou vem a óbito, só poderíamos dedicar um terço do salário dele para um novo profissional da USP“.
Ana Beatriz Zimmermann
Já existia no campus de Lorena a possibilidade de uma greve por questões locais. Antes do início da paralisação, uma proposta da diretoria visava alterar o sistema de pré-requisitos de quatorze matérias do ciclo básico, de modo que o aluno não poderia mais avançar para outras aulas sem ter sido antes aprovado nestas disciplinas dos dois anos iniciais. Ana explica que o sistema de pré-requisitos anterior – que possibilita o avanço com média a partir de três e 70% de presença – foi aprovado em 2021 e é importante para evitar o atraso no curso e respeitar a estrutura do campus.
“Temos um prédio de aulas para 1.800 alunos, não dá para você contemplar todos os alunos que precisam fazer uma matéria em uma sala de aula. Não tem professores o suficiente para lecionar.” Comenta a aluna, e exemplifica: “Temos 500 pessoas reprovadas em Cálculo II, mas a gente não tem professor ou sala o suficiente para dar Cálculo II para essas 500 pessoas.” A mobilização dos alunos antes da greve conseguiu reduzir de quatorze para uma matéria a receber a alteração, somente para os ingressantes do ano que vem. Durante a paralisação foi proposto uma política de transparência maior quanto as atas dessas reuniões feitas pelos departamentos aos representantes discentes.
Necessidades de infraestrutura
A principal demanda trazida pelos alunos foi o fornecimento de refeições aos fins de semana. O campus de Lorena funciona em duas áreas: a Área I, em que se concentram os cursos de Engenharia Química, Engenharia de Produção, Engenharia Ambiental, Engenharia Bioquímica e o curso técnico em Química, e a Área II, onde são ministrados os cursos de Engenharia de Materiais e Engenharia Física.
Atualmente, as refeições aos finais de semana não ocorrem em nenhuma das áreas. Os alunos ainda demandam a inclusão de café da manhã na Área II durante a semana.

Os estudantes que estudam na Área II não conseguem ir tomar café no restaurante da Área I e voltar a tempo das aulas [Imagem: Guilherme Hofer/Jornalismo Júnior]
Os alunos reivindicaram também a adoção de mais horários dos ônibus contratados pela USP para realizar o transporte entre as áreas e também a reforma da biblioteca, que funciona de modo parcial há sete anos. A falta de iluminação noturna, de moradia estudantil e de uma enfermaria foram incluídas como pautas essenciais para os alunos.
“É necessário uma enfermaria em uma unidade em que se trabalha com equipamentos de solda, com ácidos, com reagentes fortes. Nós estamos longe do centro [da cidade]”, aponta a presidente do DA.
O decorrer da greve e as conquistas

A assembleia realizada na EEL superou em muito o quórum mínimo de 5%, que exigia um mínimo de 91 alunos [Imagem: Acervo Pessoal/Isabella Tauany]
A greve foi aprovada no dia 24 de abril com a participação de 634 estudantes. Desses, 527 votaram a favor da paralisação, 101 foram contrários e seis alunos se abstiveram. O movimento se dividiu entre as reivindicações locais e gerais e os discentes da EEL conseguiram uma cadeira na mesa de negociação com a Reitoria, em São Paulo, importante avanço para a continuidade das discussões. Mitigar a falta de visibilidade do campus interiorano também foi uma questão trazida para a diretoria local: “Entendemos que o papel do nosso diretor também é levar as nossas questões, as questões dos alunos, para a Reitoria”, concluiu Ana Beatriz.
Após uma semana de greve, o movimento estudantil conseguiu várias conquistas, como o avanço para as assinaturas da renovação do convênio entre a SCTI e a USP e o envio das atas das reuniões dos colegiados sobre as mudanças nos requisitos das matérias. Haverá a análise e formulação de proposta pela diretoria local sobre questão 3×1 dos docentes com a garantia de que o reitor assine o projeto que for apresentado a ele. A biblioteca iniciará reforma em junho, os horários e os ônibus do “intercampus” serão fiscalizados e, se não houver melhoria, será implementado um novo projeto de mobilidade gratuita com o uso de bilhete da USP, como o BUSP.
A reitoria autorizou a proposta de moradia estudantil se for comprovada a necessidade. Com relação às demandas de alimentação, após o fim dos contratos com os restaurantes, que se encerram em agosto, serão incluídos café da manhã e jantar no “bandejão” da Área II, durante a semana, além de duas refeições aos sábados – café da manhã e almoço, nas duas unidades. Além disso, a instalação da enfermaria também foi aprovada e existe o projeto de edificá-la na entrada do campus para atender também os moradores do bairro do Campinho, mas ainda é necessário um acordo com a Prefeitura de Lorena quanto ao envio de profissionais de saúde. Permanece ainda em discussão a melhoria da iluminação no campus, a diretoria não ofereceu plano de ação para o tópico.

Se após período de testes, o resultado for favorável, as novas refeições serão mantidas permanentemente. Na imagem, o restaurante da área II [Imagem: Acervo Pessoal/Isabella Tauany]
Ana concedeu entrevista à Jornalismo Júnior na semana em que as aulas retornaram, após uma prova de laboratório, um sinal de outra conquista da greve: a não punição dos participantes e o adiamento das avaliações. “É uma pauta que tem circulado muito. O direito à greve é um direito legítimo. Não faz sentido você zerar a prova de alunos que não foram fazer a prova, que foram impedidos de fazer a prova, justamente porque eles escolheram se manifestar. Foi uma conquista muito importante”.

Praça recém-inaugurada da EEL, onde foi realizada a entrevista, com o prédio do Colégio Técnico de Lorena ao fundo [Imagem: Guilherme Hofer/Jornalismo Júnior]
Antes da avaliação, a presidente do Diretório participou da palestra do deputado estadual Guilherme Cortez (PSOL), junto da vereadora de Taubaté, Talita Cadeirante (PSB), realizada na frente do Restaurante Universitário. Cortez, em entrevista à Jornalismo Júnior, comentou a importância do diálogo, da união dos estudantes e do movimento estudantil como parte da experiência universitária: “Por muito tempo se falou que o movimento estudantil estava enfraquecido, eu acho que o que a greve dos estudantes da USP mostrou é que basta a gente encontrar formas novas de comunicar, de mobilizar. E encontrar as pautas certas, o discurso correto.”
“Cada lugar tem sua realidade, cada UNESP tem sua realidade, cada campus da USP tem uma realidade, a capital ou o interior. Mas todos os lugares têm demandas muito justas, pessoas que estão incomodadas com elas e a necessidade da gente conseguir se fazer comunicar através delas”, comentou o deputado.

A palestra “Nossa Chance” foi realizada no dia 7 de maio, com falas da presidente do Diretório Acadêmico Ana Beatriz [Imagem: Guilherme Hofer/Jornalismo Júnior]
![Imagem da Capa: Prédios da FAENQUIL e EEL, respectivamente [Imagens: Divulgação/EEL-USP]](https://jornalismojunior.com.br/wp-content/webp-express/webp-images/uploads/2026/06/Design-sem-nome-3-1024x576.jpg.webp)