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Dia 02 | A Feira do Livro 2026: segundo dia conta com programação voltada à literatura, cultura e política

Com debates, encontros, bate-papos e mais de 20 convidados, o festival movimentou o último domingo de maio
Arena Pacaembu ao fundo. Na frente, tendas da Feira do Livro 2026
Por Kaylaine Farias (kaylainemdsf@usp.br)

O segundo dia d´A Feira do Livro 2026 ocorreu neste último domingo (31) e reuniu milhares de pessoas, desde amantes da literatura até autores renomados. Em um espaço de cerca de 15 mil m² na Praça Charles Miller, no Pacaembu, em São Paulo, o evento apresenta expositores de mais de 160 livrarias, editoras e instituições socioculturais, dispostas entre três diferentes tipos de espaços: ilhas, bancadas e tendas.

A praça foi palco de diversas atividades, como debates, bate-papos, encontros e oficinas. A programação oficial contou com 15 atrações, distribuídas entre o Espaço Rebentos, o Auditório Museu do Futebol e o Palco da Praça. Outro local de destaque foi a Livraria dos Autores, organizada pela Livraria Travessa. A tenda, além de expor as obras dos convidados do evento, também recebeu os autores para uma sessão de autógrafos após seus respectivos debates.

As outras 18 atividades paralelas ocorreram nos tablados literários, espaços menores preparados especialmente para o evento. A organização da feira também ofereceu pontos de hidratação e informações; banheiros; ambulâncias; unidades móveis para prestação de serviços à população LGBTQIA+ e para mulheres; praças de alimentação; e vans com transporte gratuito da praça à estação de metrô Paulista.

A edição de 2026 reuniu mais de 250 convidados entre escritores, jornalistas, pesquisadores e profissionais da cultura [Imagem: Kaylaine Farias/Jornalismo Júnior]

Debates

O Auditório Museu do Futebol recebeu os autores Mario Mendoza, Andrés Montero e Christiano Aguiar, autores das obras Satanás (Tusquets, 2002), O Ano em que Falamos com o Mar (Pinard, 2026) e Gótico Nordestino (Alfaguara, 2002), respectivamente. Com o apoio das editoras Planeta, Companhia das Letras e Pinard, a mesa Latinidades em Conversa discutiu o horror presente em suas obras. Os autores pontuaram os governos ditatoriais latino-americanos e o processo de colonização como eventos traumáticos que por si só já inspiram o horror nas narrativas, também debateram sobre o sobrenatural, os narradores e personagens femininas de suas obras.

Temas como identidade, memória, ditaduras, desigualdade social, elementos fantásticos e migração aparecem com frequência na produção literária latino-americana contemporânea [Imagem: Kaylaine Farias/Jornalismo Júnior]

Durante o horário de almoço, o escritor e deputado português Rui Tavares tratou de assuntos associados à política e história no Palco da Praça. Tavares abordou temas como liberdade de expressão, tecnologia, o papel da população nas mudanças políticas e guerras culturais —  que Tavares definiu como “altamente polarizadoras”. Outro tema relevante mencionado pelo autor foi a relação entre Brasil e Portugal, com um destaque para o desejo da direita política de ambos os países pelo início de uma guerra cultural entre as nações.

Rui Tavares é formado em História pela Universidade Nova de Lisboa e também possui doutorado pela École des Hautes Études en Sciences Sociales, em Paris [Imagem: Kaylaine Farias/Jornalismo Júnior]

Em um debate mediado pela editora executiva da Quatro Cinco Um, Beatriz Muylaert, Natália Timerman e Camila Appel conversaram sobre temas presentes em suas mais recentes obras. Antes que Apague (Companhia das Letras, 2026) e Enquanto Você Está Aqui (Fósforo, 2026) falam sobre a maternidade e a morte, de uma perspectiva de filhas que se preparam emocionalmente para a partida de suas mães. No debate, as autoras citaram suas próprias experiências pessoais com a morte e como as utilizaram de base na construção de suas narrativas.  

Camila é escritora do blog Morte Sem Tabu, da Folha de São Paulo, enquanto Natália é médica psiquiatra, psicoterapeuta e lida com o Alzheimer de sua mãe. Juntas, elas discutiram sobre relações caóticas entre mães e filhas, o preparo para o luto, o tabu de falar sobre a morte, fé e espiritualidade, como abordar o suicídio nas obras, percepção das crianças sobre a morte e, principalmente, sobre a culpa sentida não apenas pelas próprias personagens de suas tramas, mas também por elas mesmas.

Muitas narrativas sobre luto não tratam apenas da perda de alguém, mas também das transformações na identidade e na forma como os personagens enxergam o mundo [Imagem: Kaylaine Farias/Jornalismo Júnior] 

Encontro

O Frade dominicano, escritor e teólogo Frei Betto compareceu ao Palco da Praça no fim da tarde para apresentar seu novo romance, revisitar suas memórias da época da ditadura militar no Brasil, falar de religião e do cenário político atual no país. O autor revelou que sua obra mais recente, O Voo da Locomotiva (Rocco, 2026), foi baseada na história de vida de uma militante chilena com quem manteve uma amizade no passado. Ele afirma que escolheu reproduzir esta narrativa devido ao anti-heroísmo e à fragilidade humana que ela transmite. Esta é sua sexta obra que retrata memórias da ditadura, mas a primeira escrita com uma voz feminina.

O frei relembrou suas passagens pela prisão durante o regime militar e o que observou ao conviver tanto com detentos políticos quanto com os comuns. Quando questionado a respeito das gerações pós-ditadura, ele respondeu que o assunto, infelizmente, é pouco tratado nas escolas e que mesmo com o sucesso do filme nacional Ainda Estou Aqui (2024), ainda não é trabalhado o suficiente.

Betto ainda definiu a democracia brasileira como frágil, ressaltou a importância do voto obrigatório, condenou a descontextualização da bíblia pela direita e o abandono do trabalho popular pela esquerda. O autor também repudiou o genocídio em Gaza e comentou sobre a situação em Cuba, baseado em suas visitas ao país por conta de seu trabalho.

“Quem tem nojo da política é governado por quem não tem.”

Frei Betto

Devido à sua atuação política, Frei Betto foi preso duas vezes pelo regime militar brasileiro, em 1964, por 15 dias, e de 1969 a 1973 [Imagem: Kaylaine Farias/Jornalismo Júnior]

Oficinas

Frequentadas principalmente por famílias com crianças, as oficinas ocorreram no Espaço Rebentos em diferentes momentos do dia, como uma forma de integrar o público infantil ao universo dos livros. A primeira oficina foi a do Brinquedo-livro, onde artistas e escritoras auxiliaram pais e seus filhos durante a criação de livros analógicos com recortes criativos, que fizeram da leitura uma atividade mais dinâmica e atrativa para os mais novos.

A próxima atividade, realizada no mesmo local, reuniu o público no período da tarde para a confecção de um zine, com direito à colagens, monotipia botânica e entalhes no EVA, para que as crianças pudessem dar vida às suas próprias histórias. A última oficina do dia ensinou os participantes a produzirem um ex-libris, um pequeno desenho personalizado que identifica o autor de uma obra, através de técnicas de gravura em relevo. 

O contato com livros na infância contribui para o desenvolvimento da linguagem, da criatividade e da capacidade de interpretação das crianças [Imagem: Kaylaine Farias/Jornalismo Júnior] 

Sobre o evento

Em entrevista ao Sala33, Almério Barbosa, escritor e visitante do festival, afirmou que compareceu com o objetivo de prestigiar a exposição de sua obra Manifestações Contra a Periferia (Editora Terra Redonda, 2026), mas que ainda visitaria outras tendas e que considerou o serviço de informações muito eficaz.

Uma visitante que desejou não ser identificada afirmou já ter participado de edições anteriores e apresentou uma avaliação positiva do evento. “Pelo o que eu vi, a estrutura está melhor do que a do ano passado. Acho que tem mais editoras, mas está sendo incrível. Sempre amo a feira do livro”, comentou a jovem.

A quinta edição d´A Feira do Livro acontece  até o dia 7 de junho e irá oferecer mais de 190 atividades no total. O evento possui entrada gratuita e é realizado em uma parceria entre a Associação Quatro Cinco Um, a Maré Produções e o Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet.

*Imagem de Capa: Acervo Pessoal/Kaylaine Farias

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