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Dia 07 | A Feira do Livro 2026: Os filhos da ditadura militar e a geração dos anos 80 são foco de romances contemporâneos brasileiros

Os autores Chico Mattoso e Maria Brant discutem sobre seus livros que narram a infância em um dos períodos mais violentos da história brasileira
A imagem mostra Chico Mattoso e Maria Brant presentes em na mesa de Infâncias Sob Ditadura em A Feira do Livro 2026

Por João Paulo Mansur (joaopaulomansur@usp.br)

O sétimo dia d’A Feira do Livro de São Paulo trouxe diversas atrações e convidados para sua programação. Com uma dia recheado de palestras, conversas e debates — além de tendas com livros com diferentes editoras — o evento continua com a sua missão de ocupar um espaço público e promover a leitura.

As principais mesas foram mediadas no Palco da Praça e no auditório do Estádio Municipal Paulo Machado de Carvalho. Dentre as atrações do dia, estiveram presentes os autores Chico Mattoso e Maria Brant, em conversa mediada por Patrícia Ditolvo, que subiram ao palco para discutir as suas obras, que retratam crianças nascidas nos anos 1980 e o dilema de  viver em um Brasil pós-ditadura.

Chico é autor de O hipopótamo (Todavia, 2025), obra que é focada em Rodrigo, um garoto introspectivo. Filho de pais separados, o garoto vive na São Paulo do início dos anos 1990 e observa com atenção o pai e a mãe — que carrega consigo estranhas marcas no antebraço. Algo que, ao longo da obra, ele passa a entender como marcas que o passado ditatorial deixou em sua mãe.
Maria é autora de O Ano do Cometa (Fósforo, 2026), livro que se passa em um Brasil em processo de redemocratização, que espera a passagem do Cometa Halley, algo raro para os olhos humanos. O livro acompanha três crianças, Íris, Violeta e Rosa, e as jornadas individuais das garotas para entender o mundo em que estão inseridas e o passado de seus familiares.

A pandemia como um espelho da Ditadura 

A mesa Infâncias Sob Ditadura iniciou às 17h15 e reuniu uma multidão que acompanhava a conversa dentro e fora do local estabelecido para o encontro. Os autores explicaram um pouco do processo de escrita de seus romances, ambos iniciados na pandemia da Covid-19, em 2020.

“Eu trabalhava numa organização de direitos humanos, tinha duas crianças pequenas em casa e estava terminando o meu doutorado. Tinha a sensação de ser impotente, contra um governo, um horror, a apologia da morte. O que você fala para as crianças? O que você filtra? Essas questões reacenderam coisas da nossa infância
Maria Brant

Segundo Chico, a pandemia foi terrível, mas lhe ofereceu tempo para trabalhar em sua obra. Também concordou com a mediadora, quando trouxe à tona  que foi “a primeira vez que o nosso corpo [de pessoas que não viveram a ditadura] esteve em risco”.

Ainda sobre o início da escrita de seus livros, os autores responderam à pergunta da entrevistadora Patrícia acerca das influências para suas obras. Chico apontou o título Forma de Voltar para Casa (Cosac & Naify, 2014), de Alejando Zambra, pois o ajudou a entender sobre a literatura dos filhos — estilo de escrita sobre paternidade/maternidade — e o ponto de vista de crianças.

Maria, disse que leu diversas escritoras latino-americanas que escreveram a partir de uma realidade ditatorial. Segundo ela, em outros países o assunto foi mais discutido em comparação ao Brasil. Laura Alcoba foi citada como a principal influência da autora. Ela é filha de militantes políticos argentinos e viveu na clandestinidade durante a ditadura argentina.

A imagem mostra Maria Brant sentada recitando ao público da Feira do Livro 2026 palavras em um livro
Maria também citou Ainda Estou Aqui (Alfaguara, 2015), de Marcelo Rubens Paiva, como uma leitura feita por ela antes de iniciar a escrita de sua própria obra [Imagem: João Paulo Mansur/Acervo pessoal]

O contraste entre a inocência infantil e a violência ditatorial

A mediadora, Patrícia, perguntou sobre o desafio de escrever sob a perspectiva de uma criança. Chico disse que foi difícil e um desafio escrever uma história sem deixar muito explícitas a violência e a ditadura. “Escrevi do ponto de vista de uma criança que não nomeou isso”, concluiu.

Já Maria afirmou que mostrar ou não foi uma questão por se tratar de crianças que não viveram aquilo de forma direta: “Não podia deixar muito sutil, mas não podia deixar dúvidas do que tinha acontecido”.

Chico afirmou que no início do processo de escrita lia muitos testemunhos de sobreviventes, mas depois de entender que o ponto de vista era infantil, começou a inserir a violência “vazada” em outros personagens, como a mãe dele.

A última pergunta abordou o tema maternidade e a relação de proteção da mãe ou da avó com os familiares. Maria contou que o seu livro é muito focado nas crianças que se diferem muito das outras e que são mais próximas das mães do que dos pais. Em sua obra, existem diferentes figuras maternas, algumas mães contam a verdade para as filhas, enquanto outras tratam a criança com mais dureza, de forma mais fechada.

A imagem mostra Chico Mattoso, Maria Brant (escritores) e Patrícia  Ditolvo (mediadora da mesa)  abraçados posando para foto na Feira do Livro 2026
Os três integrantes da mesa de conversa concordam que, naquela época, existia uma rigidez com as crianças que não tem hoje e que  eram “tratados como adultos” [Imagem: João Paulo Mansur/Acervo pessoal]

Segundo Chico, os dois livros, dele e de Maria, são protagonizados por crianças que reproduzem o ato de silenciar as outras crianças pois foram ensinados, dentro de casa, a ficarem calados.

“Foi algo que eu fui entendendo e escrevendo. O livro é um pouco sobre a relação dele com a mãe, ela é como uma espécie de mistério, embora seja transparente, tem alguma coisa que ele não consegue acessar nela. A jornada do Rodrigo é de entender a própria mãe”
Chico Mattoso

Após o fim da conversa, a mediadora Patrícia Ditolvo concedeu entrevista à Jornalismo Júnior e disse a importância de discussões sobre esse tema na sociedade atual. “Eu acho que a gente não pode esquecer: somos de uma geração que achou que esse problema estava superado, e com a polarização e durante a pandemia vimos que não está. A única forma que a gente tem de saber e não repetir é falando a respeito”, afirmou.

* Imagem de capa: João Paulo Mansur/Acervo pessoal

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