Jornalismo Júnior

Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors
Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors

‘The Purple One’: a história e o legado de Prince

Após 10 anos de sua morte, sua memória continua inspirando novos artistas e trazendo alertas para o uso de medicamentos controlados
Ao centro, o cantor Prince em uma performance. Ao fundo, raios e trovões. O roxo é a cor predominante na imagem.
Por Bianca Candido (biancasantoscandido@usp.br) e Kaylaine Farias (kaylainemdsf@usp.br)

Músico, cantor, compositor, multi-instrumentista, produtor, ator, dançarino, filântropo e ativista, com um  nome singular e seu estilo único, o astro musical se destacou e ainda se destaca nos dias de hoje. Prince revolucionou a indústria da música, e — ainda que, muitas vezes, seja reconhecido por  sua rivalidade com Michael Jackson — construiu uma carreira na qual escrevia, produzia e interpretava sua própria discografia.

Participação ativa em lutas ainda muito atuais, como a do controle de sua própria arte e imagem, Prince provou que um homem negro poderia ter sua própria identidade e desafiar os estigmas sociais no auge dos anos 1980, uma época em que se encaixar nos padrões era sinônimo de vitória.

Prince era conhecido por ligar para amigos e músicos de madrugada quando tinha alguma ideia nova para uma música [Imagem: Reprodução/IMDb]

Infância 

Nascido em 7 de junho de 1958, em Minneapolis, nos Estados Unidos (EUA), Prince Rogers Nelson era filho de Mattie Shaw, cantora de jazz e assistente social, e John L. Nelson, pianista e letrista. John utilizava o nome artístico “Prince Rogers” e se inspirou em seu pseudônimo para nomear o filho. 

Mattie e John vinham de famílias afro-americanas da Louisiana, e se conheceram devido ao mútuo interesse do casal pelo jazz, que também foi transferido ao filho. Entretanto, o relacionamento entre o casal era conturbado, e eles se separaram  quando Prince ainda era criança, o que  impactou diretamente a infância do artista.

Após o divórcio, Prince começou a alternar entre morar  com o pai e com a mãe, o que desencadeou um sentimento de não pertencimento ao cantor. Sua mãe se casou novamente com Hayward Baker e — apesar de reconhecer, mais tarde, que ele ajudava financeiramente a família e até o levou para assistir um show de James Brown, conforme relatado pelo biógrafo Ronin Ro (2011) — Prince nunca se adaptou muito bem à mudança da dinâmica familiar e viveu uma relação conflituosa com o padrasto. 

Durante o ensino fundamental, a situação no lar de Prince piorou, o que levou o artista a fugir de casa. Mais tarde, ele seria enviado para passar temporadas na casa do pai e de outros parentes, sem conseguir obter uma moradia fixa. Sua situação familiar continuou complexa, o que resultou na mudança do músico  para a residência da família Anderson, vizinhos e amigos de longa data de seus pais. A família ofereceu a Prince a estabilidade emocional que ele não encontrava em casa, e desempenhou um papel importante em sua vida.

“Quando você o conhecia melhor, ele era realmente engraçado e tinha um senso de humor selvagem.”, disse a fotógrafa Maya Washington, amiga do cantor [Imagem: Reprodução/IMDb]

Início da carreira 

Filho de dois músicos, Prince cresceu em um ambiente repleto de instrumentos musicais, e seus familiares relatam que o piano sempre foi seu favorito. Ainda criança, ele arriscava pressionar as teclas sozinho, com o objetivo de reproduzir os sons que ouvia. O cantor não gostava de ser ensinado, preferia aprender e descobrir as coisas por conta própria. Prince observava, praticava e absorvia tudo de forma independente, sem a necessidade de aulas formais. O resultado da  dedicação veio aos seus 7 anos de idade, quando compôs sua primeira música autoral, chamada Funk Machine.

André Cymone, filho dos Andersons, foi uma figura crucial para o desenvolvimento artístico de Prince. Juntos, os dois passavam horas ensaiando, e com o tempo, adquiriram o costume de tocar instrumentos, criar canções e observar apresentações de bandas amadoras. André relatou que ao aprender um acorde novo, o cantor ficava obcecado e só cessava os treinos após dominá-lo completamente.

Na adolescência, Prince começou a tocar em grupos locais, e uma de suas primeiras formações importantes foi no grupo Grand Central. Mesmo jovem, ele já queria compor, tocar, cantar e dirigir os ensaios da banda, uma  multifuncionalidade que fazia com que ele se destacasse entre os outros integrantes. Aos 17 anos, o jovem músico foi notado por Chris Moon, dono de um estúdio em Minneapolis, que, impressionado com sua habilidade musical, permitiu que Prince gravasse algumas demos. Mais tarde, Owen Husney percebeu que estava diante de um talento fora do comum e se disponibilizou para ajudá-lo a conseguir um contrato com uma gravadora grande.

Com apenas 18 anos, Prince fechou um contrato com a Warner Bros. Records, um feito extraordinário para alguém tão jovem, principalmente por conta de toda a liberdade criativa que a gravadora cedeu ao artista. Seu álbum de estréia, For You (1978), foi publicado no dia 7 de abril, quando ele estava prestes a completar 20 anos. Todas as faixas da obra foram produzidas, arranjadas, compostas e tocadas pelo próprio Prince, que conduziu cerca de 27 instrumentos musicais diferentes apenas neste disco. O álbum não foi um enorme sucesso comercial, ele alcançou apenas a 21ª posição na parada de álbuns de R&B/Soul dos Estados Unidos, mas foi o ponto de partida para introduzir um artista que a indústria musical ainda não tinha visto.

Em vários álbuns, os fãs pensavam estar ouvindo uma banda inteira quando, na verdade, era só Prince tocando quase todos os instrumentos[Imagem: Reprodução/IMDb]

Destaques

Desde seu primeiro lançamento até 1981, Prince focou em desenvolver uma identidade própria, consolidou sua reputação como multi-instrumentista e explorou gêneros como o funk, pop, rock e R&B, além de mesclar  as sonoridades quando julgava necessário. Em produções como Prince (1979), Dirty Mind (1980) e Controversy (1981), o artista abordou temas considerados polêmicos para a época, como sexualidade, religião e identidade, para ressaltar uma imagem inovadora e ousada .

Já entre os anos de 1982 e 1984, o músico se tornou um fenômeno mundial com os lançamentos de 1999 (1982) e Purple Rain (1984). O uso de sintetizadores, refrões marcantes e a fusão entre funk e rock em suas canções ampliaram seu público e consolidaram sua posição entre os maiores artistas da década de 1980. O álbum Purple Rain foi o principal destaque da carreira de Prince, o disco alcançou o primeiro lugar na Billboard 200 dos Estados Unidos, posição que manteve por 24 semanas consecutivas. 

A obra também vendeu cerca de 25 milhões de cópias no mundo inteiro, e  até hoje é um dos discos mais vendidos de todos os tempos. O álbum Purple Rain também conquistou três prêmios, dois na premiação 27th Annual Grammy Awards e um no 57th Academy Awards, e também foi transformado em um filme posteriormente, no qual Prince atuou.

O próprio Prince explicou que a “chuva roxa” simboliza o fim do mundo, o céu sangrando e a oportunidade de estar com quem você ama enquanto enfrenta essa transformação ou o apocalipse [Imagem: Reprodução/IMDb]

Prince amadureceu artisticamente e trabalhou um novo lado seu em obras como Around the World in a Day (1985) e Sign o’ the Times (1987), abraçou sua liberdade criativa e apostou em influências psicodélicas, jazz, música eletrônica e reflexões sociais e espirituais. Em Sign o’ the Times (1987), por exemplo, abordou questões como violência, pobreza, drogas e a ameaça nuclear, retratando as inquietações da década de 1980.

Nos álbuns Batman (1989), Diamonds and Pearls (1991) e The Gold Experience (1995), incorporou novas tendências musicais dos anos 1990, como o hip-hop e o new jack swing, enquanto também enfrentava disputas com sua gravadora. A Warner desejava exercer controle na frequência de lançamentos de seus álbuns, mas ele, por outro lado, pretendia conquistar ainda mais autonomia em seus projetos. A situação desencadeou a mudança de seu nome para um símbolo e para aparições públicas com a palavra slave (escravo, em tradução livre), escrita em seu rosto como forma de protesto.

Nos anos seguintes produziu outros sucessos como Musicology (2004), 3121 (2006) e Hit n Run Phase One (2015). Nessa etapa, Prince já era visto como uma lenda da música. Seus trabalhos revisitaram influências do funk, soul e R&B que marcaram sua trajetória, enquanto realizava turnês de sucesso e continuava a produzir materiais inéditos.  

Prince tinha um cofre com centenas de músicas inéditas guardadas em seu estúdio [Imagem: Reprodução/IMDb]

Religião

Prince foi batizado como Testemunha de Jeová em 2003. Apesar de ter sido criado como adventista do sétimo dia, ele adotou a nova religião na fase adulta e chegou a ser muito ativo, participando inclusive da pregação de porta em porta em sua comunidade. O príncipe do pop — como ficou conhecido na mídia — passou a evitar palavrões e músicas com letras sensuais em suas regravações e apresentações ao vivo, além de assumir uma postura política neutra e  abdicar do seu direito de voto. 

Os fãs ficaram confusos com a postura de  Prince. No artigo da Billboard em 2016, a revista assumiu que a fé do cantor era um tópico complexo e evolutivo. Sua amiga e parceira de palco Sheila Escovedo afirmou à revista que quando o cantor se tornou um testemunha de Jeová, “sentiu que acreditar em algo era melhor do que não acreditar em nada”.

A chuva roxa é uma metáfora para um momento de transição e cura, onde a dor (representada pela cor azul) se mistura ao amor e à espiritualidade (o vermelho) [Imagem: Reprodução/IMDb]

Relacionamentos e isolamento

Durante sua trajetória, o cantor teve inúmeros casos amorosos, porém dois se destacam: Mayte Garcia, bailarina de sua equipe, e Manuela Testolini, funcionária de uma de suas instituições de caridade. Prince se casou com Mayte em 1996 e juntos, tiveram um filho, Amiir, que faleceu apenas seis dias após o nascimento devido a uma doença congênita. A tragédia abalou o casal, e resultou  no divórcio em 2000. 

Manuela Testolini foi sua segunda esposa, casamento que durou de 2001 a 2007, e terminou  de forma amigável. Depois da perda de seu filho, há rumores de funcionários e pessoas próximas sobre Prince ter desenvolvido um quadro depressivo, diante do seu isolamento e carga de trabalho intensa.

Prince namorou diversas celebridades ao longo da vida, incluindo Apollonia Kotero e Susannah Melvoin, embora raramente comentasse sobre seus relacionamentos publicamente [Imagem: Reprodução/IMDb]

Em 1991, Prince e a New Power Generation chegaram ao Brasil com dois shows na segunda edição do Rock in Rio. Em terras cariocas, o cantor fez um show repleto de sucessos e viveu um romance com Marianne Cotrin, modelo fluminense de 16 anos na época. O clipe da música The Most Beautiful Girl in the World foi estrelado pela brasileira, mas alguns fãs afirmam que o verdadeiro amor de Prince foi a cantora e modelo Vanity, em razão da parceria e a morte de ambos com apenas dois meses de diferença.

Anteriormente conhecido como Prince

Jamie Starr, The Starr Company, Joey Coco, Paisley Park, Alexander Nevermind e Christopher são algumas variações de nome  que o cantor usava. Prince trocou seu nome por um símbolo impronunciável: The Love Symbol, uma cruz curvilínea que mistura os gêneros femininos e masculinos, “Se você não possui suas masters, elas possuirão você” disse o cantor sobre ter os direitos de suas gravações oficiais. Além dos símbolos, o cantor explorava  pseudônimos para assinar diversas músicas e álbuns, tudo para garantir a manutenção de sua liberdade pessoal e criativa

Ao trocar seu nome por um símbolo, Prince passou a ser chamado pela imprensa de “The Artist Formerly Known as Prince” (“O Artista Anteriormente Conhecido como Prince”, em tradução livre) [Imagem: Reprodução/Wired]

Prince: o eterno príncipe do pop

“Não existem reis na terra, somente príncipes”, o músico gravou essa frase como uma introdução falada (spoken word) na faixa 2 Whom It May Concern, lançada no álbum Love Symbol (1992). A fala foi uma crítica do próprio artista para seus companheiros da música que se denominavam reis dos estilos musicais como pop e rock (Michael e Elvis). Em 2016, Prince faleceu em seu complexo de estúdios e residência, o Paisley Park, devido a uma overdose acidental de fentanil. O cantor não tinha histórico de fumo e bebida, mas por conta de décadas de apresentações intensas, sentia dores intensas no quadril, que exigiam  analgésicos fortes e acarretaram sua morte prematura com 57 anos. 

Desde o governo Obama, nos Estados Unidos, existe uma preocupação do Estado com o uso de medicamentos. Em casos como o do astro, médicos prescrevem medicamentos considerados 50 vezes mais fortes que a morfina. Os casos evidenciam uma grave crise de saúde pública, devido ao uso abusivo de opioides, classe de analgésicos potentes que causou a morte de Prince.

Após sua morte, descobriu-se que ele não havia deixado um testamento, o que gerou uma longa disputa judicial sobre sua herança [Imagem: Reprodução/IMDb]

Artistas como Beyoncé, Lady Gaga, The Weekend e Bruno Mars são exemplos de seguidores da persona de Prince, com o uso da pirotecnia e dos figurinos marcantes, característicos das performances do pop. O legado de Prince também aparece no estilo das músicas, com a mistura de R&B, pop, soul e hip hop em uma única canção.

Além de seus próprios sucessos, ele escreveu músicas para outros artistas e ajudou a impulsionar carreiras nos bastidores [Imagem: Reprodução/IMDb]

Em 2017, Bruno Mars realizou um tributo à Prince na premiação do Grammy, considerado um de seus ídolos. Desde então, transmite admiração à figura histórica do cantor.

No total, foram 136 clipes gravados, mais de 100 milhões de álbuns vendidos mundialmente, 28 turnês, sete Grammys, quatro Video Music Awards (VMAs), um  Oscar de Melhor Canção Original por “Purple Rain”, 104 singles lançados, além de 27° maior artista de todos os tempos segundo a revista Rolling Stone

Através de sua liberdade criativa e seu comportamento andrógino, o multiartista Prince deixou uma carreira de prestígio e uma história de inspiração para seus fãs e outros artistas. Ao desafiar as normas para um homem negro e heterossexual — ao se apresentar de biquíni e salto alto, por exemplo — o cantor incentivava o debate sobre identidade, sexualidade e liberdade, considerados polêmicos na década de 1980. Alheio às críticas, o artista deixou sua marca na indústria da música, da moda e da cultura pop, no geral, como um astro polêmico, mas impossível de ser ignorado.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para cima