Por Nathalia Monteiro (nathaliam.jesus21@usp.br)
No último domingo (7), A Feira do Livro 2026 encerrou a semana de atividades com debates e encontros. Editoras, escritores e famílias se reuniram em um dia ensolarado para transformar a Praça Charles Miller em centro cultural com atrações para todos os públicos.
Com início em 2022, A Feira do Livro surgiu a partir da colaboração entre a Associação Quatro Cinco Um, uma organização sem fins lucrativos que visa divulgar a produção editorial para o público e a Maré Produções, uma produtora cultural. O projeto era de conectar editoras, livrarias, escritores e, principalmente leitores, para difundir a literatura.
Uma vez ao ano, os automóveis característicos da Praça Charles Miller cedem espaço para diversas tendas com debates, atividades infantis e oficinas culturais, divididos entre O Palco da Praça, Auditório Museu do Futebol e Espaço Rebentos, locais das programações oficiais do festival, além de Tablados Literários com apresentação de lançamentos e sessão de autógrafos.
Vozes masculinas em debate
Às 11 horas, o Palco da Praça deu as boas vindas a psicanalista Vera Iaconelli e a jornalista Carol Pires, para apresentar a seção Nem Todo Homem, um bate papo bem humorado sobre as questões da masculinidade. As criadoras da newsletter Nem Toda Mulher recebem o advogado Renan Quinalha e o ator Thomas Aquino para discutir as perspectivas do papel masculino na sociedade sob um recorte etnico e social.
Carol explica que o surgimento do nome da newsletter foi proposto por Vera, a partir do conceito de Não-Todo do psicanalista Jacques Lacan que descreve como as experiências humanas transbordam a linguagem e a lógica. O conceito se torna Nem Toda Mulher, um espaço literário que busca discutir temas da mulher moderna. Ela também relata que Nem Todo Homem, seção mensal da newsletter, é um espaço criado com o objetivo de discutir as questoẽs masculinas com homens admirados por elas.
Além de um lugar de questionamento, a seção explora o uso da expressão “nem todo homem” para mostrar a figura masculina por uma perspectiva positiva. A jornalista acredita que, embora correto, o termo é utilizado como recurso para proteção do indivíduo de se responsabilizar. “Essa expressão virou uma muleta para muitos homens. Sempre vai surgir alguém para dizer ‘nem todo homem’. Isso é uma muleta porque a pessoa se exime do debate, isso encerra a conversa. Mas não encerra o problema”, descreveu.
Os convidados foram questionados de quais acreditavam ser as motivações para a rejeição da discussão sobre o machismo pelo público masculino. Renan aponta que a socialização masculina é essencialmente reativa, onde o papel social é constantemente questionado e precisa ser reafirmado o tempo todo.
“Acho que a masculinidade tende a se colocar como centro, é uma construção e por isso é tão importante que os homens também sejam chamados também a dividir esse problema.”
Renan Quinalha
Thomas entende como necessária a discussão ampla sobre masculinidade entre os próprios homens, mas destaca que há uma dificuldade coletiva em tratar desses temas, onde a superficialidade das amizades masculinas se tornam um obstáculo para a evolução do diálogo.

Os participantes discutem os diferentes papéis da masculinidade e entendem as diferentes formas de combater a estrutura machista da sociedade. “Acho que a gente tem que desconstruir essa masculinidade e falar mais sobre ela. Mas principalmente desenvolver o que é a masculinidade.”, afirma Thomas.
Histórias nipo-brasileiras nos holofotes
O Tablado Literário Mário De Andrade, durante a tarde, exibiu o lançamento de duas obras que retratam experiências nipo-brasileiras. Os livros de Ana Shitara e Tieko Irii mesclam a memória e a ficção como registro histórico. A mesa foi mediada pelo editor Eduardo Lacerda e discutiu o papel das pessoas imigradas e com ascendência japonesa na literatura brasileira.

Ana Shitara, escritora de Sob o sol a pino (Patuá, 2023), explica que encontrou na pandemia de Covid-19 a conexão com a própria ancestralidade. Em meio ao número crescente de situações de racismo aos povos amarelos durante o período, a escrita se tornou um refúgio para a autora.
“A literatura é bonita porque transforma a dor individual em coletiva.”
Ana Shitara
A autora Tieko compartilhou que escreveu seu livro A rua sem nome (Editora Patuá, 2025) através da tradução da autobiografia secreta de seu pai, Hisashi Irii, em conjunto com o resgate de memórias coletivas da própria família. Ela afirmou que realizou um registro geracional de sua família até a sua história como nipo-brasileira. “A memória é fluida e movediça. Eu precisei resgatar memórias.”, responde Tieko ao ser questionada sobre as motivações de seu livro.
A partir da perspectiva de seus próprios livros, as autoras discutem sobre a relevância da representatividade amarela e feminina na literatura brasileira e refletem as diversas dificuldades de ser uma escritora.
“É difícil para o escritor lidar com o silêncio. É complicado acreditar que o leitor vai ser capaz de preencher o silêncio.”
Ana Shitara
Sobre o evento
Num espaço com grande diversidade, as editoras ocupam um papel central no evento. O festival se torna uma oportunidade de divulgação para publicadoras independentes de pequeno e médio porte e fomenta a valorização da produção editorial. As instituições exploram a literatura, a política, temas científicos, quadrinhos, narrativas infantojuvenis, ensaios, jornalismo e diversas outras formas de expressão.

Em entrevista à Jornalismo Júnior, a colaboradora Marcia Izzo da editora Malê, revela que o evento é um local essencial para os expositores, pois viabiliza o trabalho de cada um. “Nós estamos desde a primeira [edição]. Aos poucos fomos mudando de lugar, no começo nós ficávamos lá no fundo. Essa é a primeira vez que nós estamos com visibilidade na feira, isso mudou muito.”, mencionou.
*Imagem de capa: Nathalia Monteiro/Acervo pessoal
