Por Ana Rita Hernandes da Costa (anaritahernandes@usp.br) arábia saudita
Entre a histórica classificação às oitavas de final em 1994 e a surpreendente vitória sobre a Argentina em 2022, a Arábia Saudita construiu uma trajetória de evolução contínua no futebol. Impulsionados pelo fortalecimento da modalidade no país e por uma geração que mescla experiência e renovação, os Falcões Verdes chegam à Copa do Mundo de 2026 com objetivo e esperança de protagonizar mais um momento memorável em sua trajetória.
Rumo dos Falcões Verdes até a Copa
Quando a Arábia Saudita começou sua jornada rumo à Copa do Mundo de 2026, Roberto Mancini, que já treinou a seleção tetracampeã da Itália, havia assumido o cargo em 2023 e possuía um contrato até 2027. A expectativa era alta, afinal, tratava-se de um treinador renomado. Porém, a equipe saudita iniciou o ciclo de Copa com resultados insatisfatórios e a relação entre o treinador e seus jogadores também foi responsável por prejudicar o rendimento do time.
Em janeiro de 2024, os primeiros sinais públicos de crise vieram à tona: três jogadores abdicaram de serem convocados. Assim, a terceira fase das Eliminatórias, iniciada em setembro de 2024, encontrou um elenco fragilizado.
Na estreia do Grupo C, a Arábia Saudita empatou por 1 a 1 com a Indonésia, resultado que expôs as limitações ofensivas da equipe. Na segunda rodada, os sauditas venceram a China fora de casa por 2 a 1. Em seguida, no confronto direto com o Japão, em Jeddah, os japoneses venceram por 2 a 0, de modo a fazer os Falcões Verdes ocuparem a terceira posição do grupo e colocarem a vaga direta em dúvida.
Na quarta rodada, contra o Bahrein, a equipe saudita garantiu empate sem gols, resultado que atestou a decisão de demitir Mancini, uma vez que o jogo colocou em dúvida a própria classificação para a Copa. Em 18 jogos no comando, o italiano havia conquistado apenas sete vitórias, cinco empates e seis derrotas.
Com a seleção em crise e a Copa ameaçada, a Federação Saudita buscou Hervé Renard para assumir sua segunda passagem no cargo. O francês, responsável pela histórica vitória de virada sobre a Argentina no Catar, em 2022, já era conhecido no país. Apesar do retorno ter sido bem-recebido, Renard tinha a grande missão de reestruturar o elenco e vencer os jogos decisivos contra Japão e Austrália para sonhar com a classificação direta.
Na quinta rodada, o embate com a Austrália, em Melbourne, terminou em 0 a 0, com a equipe australiana já classificada. Renard não pôde contar com vários atletas lesionados, mas os sauditas chegaram ao jogo com apenas um ponto atrás, e o empate segurou a pressão.
No jogo da sexta rodada, último do ano de 2024, contra a Indonésia, a seleção foi derrotada por 2 a 0, resultado que continuou a não garantir a classificação da equipe.
Já no próximo ano, a Seleção Saudita abriu o ciclo de jogos com uma vitória em cima da China, 1 a 0. Em Saitama, mais um empate com o Japão, ainda sem a vaga garantida para o Mundial. Na nona rodada, o confronto direto com a Austrália era a última chance de classificação. Os australianos venceram a Arábia Saudita fora de casa por 2 a 1. Abdulrahman Alobud havia aberto o placar para os sauditas, mas a Austrália virou com gols de Connor Metcalfe e Mitchell Duke.
A classificação direta havia escapado. A Arábia Saudita terminou em terceiro lugar no grupo com 13 pontos, atrás do Japão, com 23, e da Austrália, com 19.
A AFC confirmou a Arábia Saudita como sede da quarta e última fase das Eliminatórias. Os sauditas foram sorteados no Grupo B ao lado de Iraque e Indonésia. Jogar em casa, no Estádio Rei Abdullah, em Jeddah, era uma vantagem clara.
Na estreia da repescagem, mais um jogo contra a Indonésia. Os sauditas venceram de virada por 3 a 2, em resultado disputado, e assumiram a liderança do grupo com três pontos. No segundo jogo, contra o Iraque, em 14 de outubro de 2025, um empate sem gols garantiu a Arábia Saudita na Copa do Mundo. Apesar das duas equipes terem terminado a fase com o mesmo número de pontos, os sauditas possuíam um saldo de gols maior.

Desde 2000, Arábia Saudita e Iraque somavam apenas quatro duelos em Eliminatórias asiáticas até então, com duas vitórias para cada lado [Imagem: Reprodução/X/@SaudiNT_EN]
Apesar da classificação da seleção, Hervé Renard foi demitido em abril de 2026, a pouco mais de cinquenta dias do início da Copa do Mundo. Rumores de uma separação já circulavam duas semanas antes do anúncio oficial. Apesar do motivo não ter sido oficialmente divulgado pela federação, a inconstância nos resultados do time é creditada como principal causa para a saída do francês.
Com o Mundial na porta, a Federação Saudita agiu rápido: o grego Georgios Donis, então técnico do Al-Khaleej, foi anunciado como novo comandante da seleção.
A chegada de Donis representou uma mudança drástica na proposta do combinado saudita, mudando até mesmo o sistema de jogo do time. Os amistosos pré-Copa, porém, não trouxeram confiança para o trabalho do grego: os últimos jogos escancararam instabilidades, com duras derrotas para o Egito, por 4 a 0, e para a Sérvia, por 2 a 1.
História da Arábia Saudita em Copas
A trajetória dos Falcões Verdes nos Mundiais começa há mais de 20 anos: desde o feito único em sua estréia, os anos de apagamento profundo, até o momento de volta aos holofotes em 2022. O retrospecto saudita em Copas do Mundo acumula 19 jogos, quatro vitórias, dois empates e 13 derrotas, com 14 gols marcados e 44 sofridos.
A melhor participação da história da seleção ocorreu nos Estados Unidos, em 1994, quando alcançaram pela primeira vez as oitavas de final embalados por um gol antológico de Saeed Al-Owairan que deu a volta ao mundo.

O meia Al-Owairan recebeu a bola, driblou cinco adversários em uma arrancada de quase setenta metros e finalizou por cima do goleiro belga Preud’homme, uma jogada comparada ao gol de Maradona contra a Inglaterra, em 1986, e eleita um dos gols mais bonitos de todos os Mundiais [Imagem: Reprodução/FIFA]
Nas três edições seguintes, os asiáticos estiveram presentes, mas com um desempenho que não chamou à atenção. Em 1998, uma derrota de 4 a 0 para a França de Zidane, equipe que levantou a taça naquele ano, antecipou a eliminação precoce. Em 2002, Copa do pentacampeonato brasileiro, o episódio mais constrangedor da Arábia Saudita até então: uma goleada por 8 a 0 para a Alemanha, um dos piores resultados da história das Copas.
Em 2006, mais uma queda na fase de grupos. A seleção ficou fora dos Mundiais de 2010 e 2014, voltando em 2018, mas com participação curta, sem conseguir chegar até o mata-mata.
No Catar, em 2022, a vitória por 2 a 1 sobre a Argentina de Lionel Messi entrou para a história da equipe saudita como um dos resultados mais surpreendentes e emblemáticos da competição. A Argentina abriu o placar, mas os Falcões Verdes viraram com dois gols rápidos no segundo tempo.
Convocação da Arábia Saudita
No dia 1° de junho, a Federação Saudita de Futebol anunciou, através de seus canais oficiais, os 26 convocados para o Mundial. A lista do técnico Georgios conta apenas com um jogador que não atua na liga do país, a Saudi Pro League. A seleção contará com:
Goleiros
- Ahmed Al Kassar (Al-Qadsiah)
- Mohammed Al Owais (Al-Ula)
- Nawaf Al Aqidi (Al-Nassr)
Defensores
- Saud Abdulhamid (Lens, FRA)
- Mohammed Abu Al Shamat (Al-Qadsiah)
- Khalid Al Ghannam (Al-Ettifaq)
- Moteb Al Harbi (Al-Hilal)
- Abdulelah Al Amri (Al-Nassr)
- Nawaf Boushal (Al-Nassr)
- Hassan Kadesh (Al-Ittihad)
- Ali Lajami (Al-Hilal)
- Ali Majrashi (Al-Ahli)
- Hassan Tambakti (Al-Ahli)
- Jehad Thikri (Al-Qadsiah)
Meio-campistas
- Nasser Al Dawsari (Al-Hilal)
- Alaa Al Hajji (Neom)
- Ziyad Al Johani (Al-Ahli)
- Musab Al Juwayr (Al-Qadsiah)
- Abdullah Al Khaibari (Al Nassr)
- Mohammed Kanno (Al-Hilal)
- Sultan Mandash (Al Hilal)
- Ayman Yahya (Al-Nassr)
Atacantes
- Feras Al Brikan (Al-Ahli)
- Salem Al Dawsari (Al-Hilal)
- Abdullah Al Hamdan (Al-Nassr)
- Saleh Al Shehri (Al-Ittihad)
Como jogam os sauditas
A Arábia Saudita chega à Copa do Mundo de 2026 como uma grande interrogação. A troca de técnico em abril, a menos de dois meses da Copa do Mundo, deixou a seleção praticamente sem identidade tática definida. A chegada surpresa do treinador grego significou uma mudança drástica na proposta do combinado saudita. O comandante buscou simplificar os conceitos, com menos variações de posicionamentos e esquemas elaborados, ou seja, jogadores com funções mais fixas e previsíveis, e transições objetivas a partir de saídas de bola diretas.
Enquanto estava no comando da equipe, durante as Eliminatórias, Hervé manteve a identidade que já havia caracterizado sua primeira passagem pela Seleção Saudita. O treinador francês priorizava a organização defensiva e a disciplina tática, utilizando principalmente formações como 4-3-3 e 4-2-3-1, com linhas compactas e forte comprometimento coletivo, de modo a fazer a equipe buscar controle de espaços e dificultar a construção ofensiva dos adversários.
Taticamente, a partir do que Donis já fez com a equipe nos últimos amistosos, é possível que ele opte por um bloco mais recuado, explorando contra-ataques e ligações diretas, especialmente nos duelos contra Espanha e Uruguai, equipes tradicionalmente muito fortes. Os dois esquemas mais prováveis são o 4-2-3-1 e o 5-4-1 sem a posse de bola, com os detalhes ainda indefinidos, sobretudo na linha defensiva.

Escalação em 4-2-3-1, sistema que fortalece o equilíbrio entre defesa e ataque, com dois volantes à frente da zaga que dão proteção defensiva, e permite que os sauditas mantenham uma estrutura defensiva sólida sem abrir mão da velocidade para atacar [Arte: Ana Rita Hernandes/https://www.buildlineup.com/]

Escalação em 5-4-1, sistema que propõe maior solidez defensiva e a ocupação de praticamente todos os espaços sem a bola, representando uma postura mais cautelosa, mas que ainda facilita o contra-ataque ao oferecer amplitude ao jogo pelas alas [Arte: Ana Rita Hernandes/https://www.buildlineup.com/]
Nos amistosos pré-Mundial contra o Egito e a Sérvia, a equipe obteve resultados negativos e que denunciaram a instabilidade que ainda assola o elenco, mas foram úteis ao técnico recém-chegado para que explorasse as opções de escalação que podem ou não funcionar na Copa.
Os destaques dos Falcões Verdes
Salem Al-Dawsari
Atual capitão da seleção, principal referência técnica da equipe e artilheiro de sua geração, Salem Al-Dawsari chega à sua terceira Copa como um dos maiores nomes da história recente do futebol saudita. O atacante ganhou reconhecimento mundial ao marcar o gol da vitória por 2 a 1 sobre a Argentina no Mundial de 2022.
Al-Dawsari atua preferencialmente pela ponta-esquerda, onde tem muita liberdade no setor ofensivo. Seu estilo de jogo é marcado pela velocidade, pelos dribles em espaços curtos e pela capacidade de cortar para dentro em busca de finalizações e criação de jogadas.
Mohammed Kanno
Veterano da equipe e um dos líderes do meio-campo, atuando como volante ou meio-campista central, Kanno é responsável por dar equilíbrio à seleção e se destaca pela leitura de jogo e pela capacidade de controlar o ritmo das partidas. Embora tenha forte participação defensiva, também contribui na construção das jogadas, ao distribuir passes e organizar a saída de bola.
Saud Abdulhamid
O único jogador convocado que atua fora do futebol saudita, no Lens, da França, Abdulhamid representa a crescente internacionalização dos jogadores do país. Na última temporada, conseguiu o vice-título do Campeonato Francês e foi campeão da Copa da França. Lateral-direito de perfil ofensivo, destaca-se pela velocidade, intensidade e apoio constante ao ataque. Sua experiência no futebol europeu pode ser um diferencial para a equipe em partidas de maior exigência técnica.
Hassan Al-Tambakti
Pilar do sistema defensivo saudita, Al-Tambakti consolidou-se como um dos melhores zagueiros do país nos últimos anos. Seguro nos duelos individuais, destaca-se pelo posicionamento e pelo jogo aéreo, tanto defensivamente quanto em jogadas de bola parada. Al-Tambakti foi peça importante na campanha das Eliminatórias e terá papel fundamental na missão de conter os ataques de seleções como Espanha e Uruguai.

A derrota para a Arábia Saudita interrompeu a sequência invicta de 36 partidas da Argentina, uma das mais longevas da história do futebol mundial [Imagem: Reprodução/Instagram/@hos_5]
Musab Al-Juwayr
Considerado uma das principais promessas da nova geração saudita, Al-Juwayr, que já veste a camisa dez do Al-Qadsiah, representa o futuro da seleção. Com apenas 22 anos, o meia ganhou espaço graças à sua visão de jogo, qualidade nos passes e capacidade de atuar em diferentes funções no meio-campo. Só na equipe nacional, já conta com seis gols marcados e a Copa de 2026 pode ser o torneio que o apresente definitivamente ao cenário internacional.

O camisa sete da Seleção Saudita recebeu o título de Jogador da Temporada 2025/26 da Saudi Pro League [Imagem: Reprodução/instagram/@m.aljuwayr43]
Desafios e expectativas para a campanha
A Arábia Saudita se encontra no Grupo H, ao lado da Espanha, Cabo Verde e Uruguai. Seu primeiro jogo será no dia 15 de junho contra a seleção uruguaia, em Miami.
Os sauditas chegam ao torneio com o peso de uma contradição: apesar de terem derrotado a campeã do mundo no Mundial anterior, classificaram para o mesmo torneio em terceiro lugar nas Eliminatórias, com troca de técnico a dois meses da estreia e goleadas nos amistosos preparatórios. As expectativas, portanto, oscilam entre a esperança gerada em 2022 e a cautela exigida pelo momento atual. Realisticamente, espera-se que a Arábia Saudita dispute vaga com Cabo Verde pela terceira posição do grupo.
*Imagem de Capa: Reprodução/X/@SaudiNT_EN
