Por Lais Fernandes (laisfernandes@usp.br) turquia
Após 24 anos longe da Copa do Mundo, a Seleção Turca retorna ao torneio marcada pela lembrança de sua melhor campanha. Em 2002, a equipe surpreendeu ao conquistar o terceiro lugar da competição e agora, embalada por uma geração promissora e por um processo de renovação, espera voltar a figurar um protagonismo inesperado.
A campanha nas Eliminatórias europeias foi marcada por oscilações, principalmente associadas a falta de equilíbrio entre os setores ofensivo e defensivo da seleção. No entanto, o ciclo também evidenciou o potencial do elenco: foram quatro vitórias, um empate e apenas uma derrota. No mesmo grupo que a Seleção Espanhola, o desempenho turco não foi suficiente para alcançar a classificação direta e as Estrelas Crescentes disputaram a repescagem. A classificação veio com triunfos sobre as equipes do Kosovo e da Romênia.
Sob o comando do italiano Vincenzo Montella, a Turquia apresenta um estilo de jogo propositivo e aposta na qualidade individual de seus novos talentos. Inserida no Grupo D, ao lado de Estados Unidos, Austrália e Paraguai, a seleção pode encontrar um cenário favorável para garantir uma vaga na fase mata-mata da competição.
Divididos pelo continente e unidos pelo futebol
A presença turca em campeonatos mundiais têm uma relevância muito maior que a dimensão esportiva, poucos países possuem uma relação tão intrínseca entre geografia e futebol. Dividido entre Europa e Ásia, o território da Turquia abriga identidades e tradições diversas que encontram no esporte uma forma de expressão singular. Em competições internacionais, essas diferenças dão lugar a um sentimento coletivo que transforma a seleção nacional em um dos principais símbolos de unidade do país.

Os chamados “Três Grandes” do futebol turco dividem não apenas torcidas, mas também continentes. Galatasaray e Beşiktaş ficam na Europa, enquanto o Fenerbahçe está situado na parte asiática de Istambul [Imagem: Reprodução/Instagram/@millitakimlar]
Marcada por uma população apaixonada pela modalidade, a trajetória do país em Copas do Mundo é curta, porém significativa. Sua primeira participação em Mundiais foi em 1954, na qual a classificação turca veio por meio de um sorteio. Durante essa campanha, as Estrelas Crescentes deixaram a competição ainda na fase de grupos após duas derrotas para a Alemanha e uma vitória sobre a Coreia do Sul.
O capítulo mais marcante da história do país em Copas, porém, ocorreu em 2002. Contra as expectativas, a equipe alcançou o terceiro lugar com uma campanha surpreendente e histórica. Naquele episódio, durante a fase de grupos, os turcos sofreram apenas uma derrota, justamente para o futuro campeão Brasil, e garantiram a classificação após uma goleada sobre a China.
No mata-mata, a Turquia eliminou os anfitriões japoneses e superou o Senegal nas quartas de final. No entanto, novamente em confronto contra o Brasil, o que restou para os turcos foi o sonho do terceiro lugar, devidamente conquistado contra a Coreia do Sul. O feito transformou aquela geração em símbolo nacional e permanece como a principal inspiração para a equipe atual.
Agora, 24 anos depois de sua última participação, a Seleção Turca tem a chance de retornar aos holofotes. A evolução apresentada nos últimos anos, refletida pela campanha competitiva na Eurocopa de 2024 e pela qualidade técnica do conjunto, reforça a capacidade da equipe. Ainda assim, as Eliminatórias mostraram que os turcos precisam fazer ajustes no setor defensivo para, assim, transformar expectativas em resultados dentro do Mundial.
Convocação
A lista de convocados foi divulgada na última terça-feira (2) por Vincenzo Montella e conta com os 26 nomes relacionados para compor a Seleção Turca. Confira abaixo:
Goleiros
- Altay Bayindir (Manchester United, ING)
- Mert Gunok (Fenerbahçe, TUR)
- Ugurcan Çakir (Galatasaray, TUR)
Defensores
- Merih Demiral (Al-Ahli, SAU)
- Kaan Ayhan (Galatasaray, TUR)
- Ferdi Kadioglu (Brighton, ING)
- Samed Akaydin (Caykur Rizespor, TUR)
- Çağlar Söyüncü (Fenerbahçe, TUR)
- Zeki Çelik (Roma, ITA)
- Ozan Kabak (Hoffenheim, ALE)
- Mert Muldur (Fenerbahçe, TUR)
- Abdülkerim Bardakçı (Galatasaray, TUR)
- Evren Elmali (Galatasaray, TUR)
Meio-campistas
- Hakan Çalhanoglu (Inter de Milão, ITA)
- Orkun Kökçü (Besiktas, TUR)
- Salih Ozcan (Borussia Dortmund, ALE)
- İsmail Yuksek (Fenerbahçe TUR)
- Arda Güller (Real Madrid, ESP)
Atacantes
- Can Uzun (Eintracht Frankfurt, ALE)
- Deniz Gul (Porto, POR)
- Kerem Aktürkoğlu (Fenerbahçe, TUR)
- Oguz Zaydin (Fenerbahçe, TUR)
- İrfan Kahveci (Kasimpasa, TUR)
- Kenan Yıldız (Juventus, ITA)
- Baris Yılmaz (Galatasaray, TUR)
- Yunus Akgün (Galatasaray, TUR)
A Turquia de Montella: ofensividade e renovação

A primeira participação da Turquia em Copas do Mundo seria em 1950, porém, nessa edição, a FIFA enfrentou diversos problemas para organizar o Mundial no Brasil, que resultaram na saída da Seleção Turca por questões financeiras e logísticas [Imagem: Reprodução/Instagram/@millitakimlar]
Com o início do trabalho de Vincenzo Montella, a Seleção da Turquia passou a construir gradualmente seu elenco em torno dos talentos da nova geração. A base tática da equipe é o 4-2-3-1, formação tradicionalmente equilibrada, mas que, adaptada às características do futebol turco, assume uma postura bastante ofensiva. Ainda assim, o treinador italiano costuma variar esse esquema de acordo com o adversário e o contexto da partida.
Em campo, a equipe combina controle da posse com ataques verticais, o que lhe permite acelerar o jogo e impor intensidade sobre os adversários. Nesse modelo, a movimentação dos meias, como Hakan Çalhanoğlu, é fundamental para a construção das jogadas. Além disso, a constante projeção dos laterais — principalmente pelo lado esquerdo — cria superioridade numérica pelos corredores e potencializa a criatividade e a qualidade técnica de Arda Güler e Kenan Yıldız.
A proposta de Montella, entretanto, cobra seu preço defensivamente. Com muitos jogadores envolvidos no ataque, a Turquia pode encontrar dificuldades após perder a posse de bola e ficar exposta a contra-golpes. Para reduzir essa vulnerabilidade, a utilização de uma linha com três defensores e dois volantes surge como alternativa mais segura.

A projeção constante dos laterais é uma das principais armas ofensivas da Turquia. No entanto, essa dinâmica pode deixar os zagueiros expostos durante transições rápidas, já que ficam responsáveis por cobrir grandes espaços no campo de defesa [Arte: Lais Fernandes/buildlineup.com]
Durante a Eurocopa de 2024, essas características ficaram evidentes. A Turquia chamou atenção pela disposição em assumir riscos, pelos gols de longa distância e pelas construções ofensivas bem trabalhadas. Em contrapartida, as dificuldades de recomposição também apareceram em diversos momentos da competição. Para a Copa do Mundo de 2026, a expectativa é que a equipe encontre um melhor equilíbrio entre sua vocação ofensiva e a consistência defensiva necessária para realizar uma campanha sólida.
Na fase de grupos, a variante com três zagueiros pode ser útil contra Austrália e Paraguai, já que as seleções costumam atuar de forma mais reativa e explorar contra-ataques. Já diante dos Estados Unidos, o confronto tende a ser mais equilibrado e imprevisível, com duas equipes que valorizam a pressão alta e a aceleração do jogo. Nesse cenário, a capacidade criativa dos principais nomes turcos e a organização da equipe podem representar um diferencial importante.
Fique de olho
Kenan Yildiz – o ‘Del Piero turco’

O atacante, filho de mãe alemã e pai turco, nasceu e cresceu na Alemanha, porém optou por defender as Estrelas Crescentes [Imagem: Reprodução/Instagram/@kenanyildiz]
Mesmo com a pouca idade, assim que chegou na Juventus, o atacante já trouxe a esperança de recolocar o clube entre os protagonistas do continente europeu. Transferido das categorias de base do Bayern de Munique para o clube italiano, Yıldız logo foi comparado com o maior ídolo de Turim, Alessandro Del Piero, graças ao estilo de jogo semelhante. O paralelo explicita como o jogador tem construído uma das carreiras mais promissoras do futebol europeu e da nova geração.
Dono de grande habilidade no um-contra-um, drible curto e capacidade de improviso, Yıldız rapidamente se consolidou no time titular da Juventus. Na seleção, não é diferente, o jogador oferece mobilidade, criatividade e capacidade de desequilibrar partidas em jogadas individuais, qualidades que o transformam em uma das principais esperanças do país para o Mundial.
Arda Güler – o maestro da nova geração

Na temporada 2025/26, Güler recebeu o prêmio de Jogador Revelação da UEFA Champions League, reconhecimento destinado aos atletas que mais se destacam em seu processo de evolução durante o torneio [Imagem: Reprodução/Instagram/@millitakimlar]
O meio-campista de apenas 21 anos é uma promessa que já se tornou realidade. Após a adaptação no Real Madrid, a cada temporada que passa Arda Güler tem se provado um nome fundamental, seja pelo clube ou pela seleção. O meio campista é uma das principais peças na equipe de Vincenzo Montella. Capaz de acelerar a circulação da bola e criar oportunidades em poucos toques, ele é um dos responsáveis por mudar o cenário da Seleção Turca nos últimos anos.
Güller iniciou a carreira profissional no Fenerbahçe e, em 2023, foi contratado pelo clube merengue depois de uma temporada de destaque em seu país de origem. Canhoto e dono de uma visão de jogo apurada, se destaca pela criatividade, pelos passes verticais e pela facilidade em encontrar espaços entre as linhas adversárias. O meia representa o perfil técnico que simboliza a renovação da seleção e traz esperança para que as Estrelas Crescentes surpreendam na Copa do Mundo.
Hakan Çalhanoğlu – o capitão da reconstrução

A maior qualidade do camisa dez são as cobranças de bola parada: marcou 26 gols de falta em sua carreira por clubes. Cristiano Ronaldo e Lionel Messi são os únicos jogadores em atividade que marcaram mais do que ele [Imagem: Reprodução/X/@hakanc10]
Capitão da Seleção Turca, Hakan Çalhanoğlu é a principal liderança técnica e emocional da equipe. Nascido na Alemanha, o meio-campista construiu uma sólida carreira no futebol europeu com passagens por Bayer Leverkusen, Milan e Internazionale, clube no qual atingiu o auge e se consolidou como uma das referências da posição.
Presente na seleção desde 2013, Hakan assumiu gradualmente o papel de principal referência do elenco da Turquia. Atualmente, em uma equipe marcada pela ofensividade, sua experiência, capacidade de controlar o ritmo das partidas e conectar defesa e ataque podem ser fundamentais para as ambições turcas no Mundial.
Programação da Turquia
A Seleção da Turquia faz sua estreia no Mundial na próxima segunda-feira (15) contra a Austrália, à 1h (BRT), em Vancouver, no Canadá. Em um grupo marcado pelo equilíbrio, a disputa pode ser decisiva para as pretensões turcas e surge como uma boa oportunidade para iniciar a campanha com três pontos.
Em seguida, o segundo embate das Estrelas Crescentes ocorre no dia 19 contra a Seleção Paraguaia, novamente, à 1h (BRT), em uma partida possivelmente perigosa para o estilo de jogo turco. Por fim, a Turquia encerra sua participação na fase de grupos diante dos anfitriões Estados Unidos, no dia 25, às 23h (BRT), um embate que promete ser balanceado e imprevisível.
*Imagem da Capa: Reprodução/Instagram/@kenanyildiz
