Por Ana Rita Hernandes da Costa (anaritahernandes@usp.br)
A Bósnia-Herzegovina, também chamada de Zmajevi — os “dragões”, em português —, chega à sua segunda Copa do Mundo após a estreia, em 2014, momento em que se destacou pelo futebol ofensivo e com símbolo de pertencimento e esperança, mesmo na curta passagem pelo Brasil, encerrada ainda na fase de grupos. Passados mais de dez anos, a seleção encontra o caminho de volta às grandes competições depois de uma complexa campanha de classificação e da icônica vitória sobre a Seleção Italiana.
Caminho até a Copa do Mundo
A história recente da Bósnia-Herzegovina no futebol é feita de ausências. Desde a Copa do Mundo de 2014, no Brasil, a seleção balcânica não havia conseguido retornar ao torneio. O ciclo que antecedeu a edição de 2026 começou com uma sequência de trocas de treinadores: iniciou sob o comando de Faruk Hadžibegić, técnico com passagem pela antiga Seleção Iugoslava, depois teve o interino Meho Kodro, que já havia treinado o time por apenas um mês em 2008, até a chegada de Savo Milošević. No entanto, o novo técnico, junto à equipe, apresentou uma campanha fraca: nas Eliminatórias da Eurocopa, a Bósnia conquistou apenas nove pontos e amargou a penúltima posição de seu grupo.
Com o acesso garantido na Liga das Nações, a Bósnia teve o direito de disputar a repescagem da Eurocopa, mas foi eliminada logo na primeira partida, contra a Ucrânia. Após isso, Milošević deixou o cargo e Sergej Barbarez entrou em seu lugar. O técnico herdou uma equipe sem rumo, fez uma campanha ruim na Liga das Nações e a Bósnia acabou rebaixada para a Liga B, com apenas dois pontos.
No entanto, Barbarez fez com que a equipe tivesse uma surpreendente campanha nas Eliminatórias europeias para a Copa do Mundo. A Bósnia conquistou a vice-liderança do Grupo H, com vitórias sobre Romênia, Chipre e San Marino, time do qual ganhou com vantagem de seis gols. Com 17 pontos, a Seleção Bósnia somou cinco vitórias, dois empates e apenas uma derrota.
Na repescagem da UEFA, os dragões enfrentaram o País de Gales na semifinal dos playoffs e, após empate por 1 a 1 no tempo normal, venceram nos pênaltis. A final da repescagem colocou a seleção em disputa com a tetracampeã Itália, o jogo contou com a expulsão do jogador italiano Bastoni e foi levado às penalidades após empate. Nos pênaltis, a Bósnia venceu por 4 a 1 e garantiu sua vaga na Copa do Mundo de 2026, impondo à Seleção Italiana a exclusão do torneio mundial pela terceira vez consecutiva.
Convocados da Bósnia
A seleção da Bósnia divulgou , em uma coletiva de imprensa realizada no dia 11 de maio, em Sarajevo, a lista dos 26 convocados para a Copa do Mundo, sendo a primeira equipe a divulgar a convocação final. O técnico Sergej Barbarez decidiu chamar jogadores experientes e que já possuem experiência com a equipe, como o de Edin Dzeko, do Schalke 04, maior artilheiro da história dos dragões, com 73 gols marcados.
Goleiros:
- Nikola Vasilj (St. Pauli, ALE)
- Martin Zlomislic (HNK Rijeka, CRO)
- Osman Hadzikic (Slaven Belupo, CRO)
Defensores:
- Sead Kolasinac (Atalanta, ITA)
- Amar Dedic (Benfica, POR)
- Nihad Mujakic (Gaziantep, TUR)
- Nikola Katic (Schalke 04, ALE)
- Tarik Muharemovic (Sassuolo, ITA)
- Stjepan Radeljic (Rijeka, CRO)
Meio-campistas:
- Dennis Hadzikadunic (Sampdoria, ITA)
- Nidal Celik (Lens, FRA)
- Amir Hadziahmetovic (Hull City, ENG)
- Ivan Sunjic (Pafos, CYP)
- Ivan Basic (Astana, CAZ)
- Dzenis Burnic (Karlsruher SC, ALE)
- Benjamin Tahirovic (Brondby, DEN)
- Amar Memic (Viktoria Plzeň, CZE)
- Armin Gigovic (BSC Young Boys, SUI)
- Kerim Alajbegovic (Red Bull Salzburg, AUT)
- Esmir Bajraktarevic (PSV, NED)
Atacantes:
- Ermin Mahmic (Slovan Liberec, CZE)
- Ermedin Demirovic (VfB Stuttgart, ALE)
- Jovo Lukic (Universitatea Cluj, ROU)
- Samed Bazdar (Jagiellonia Białystok, POL)
- Haris Tabakovic (Borussia Mönchengladbach, ALE)
- Edin Dzeko (Schalke 04, ALE)
E ainda anunciou alguns nomes extras: Tarik Karic, Mladen Jurkas, Arjan Malic, Emir Karic, Jusuf Gazibegovic, Ifet Djakovac, Dario Saric, Amer Gojak e Haris Hajradinovic, que ficam à disposição caso algum jogador seja cortado durante a competição.
O estilo bósnio
A nova geração da Bósnia e Herzegovina de Barbarez tem transformado o perfil tático da equipe. Conhecida historicamente por um jogo mais físico e direto, a seleção passou a incorporar maior mobilidade ofensiva graças ao surgimento de jovens pontas e à versatilidade de seus laterais.
O resultado é uma equipe capaz de alternar entre uma postura agressiva e um bloco mais cauteloso a depender do adversário e do momento da partida. Em cenários mais ofensivos, os dragões costumam flexibilizar seu sistema para criar superioridade pelos lados do campo. A presença de jogadores versáteis como Amar Dedić e Amar Memić permite mudanças constantes durante a partida.
Nesse contexto, Dedić pode inverter para a lateral-esquerda, enquanto Memić recua para atuar pelo lado direito da defesa, de modo a abrir espaço para a entrada de Kerim Alajbegović no ataque, por exemplo. Dessa forma, a equipe passa a contar com dois laterais de perfil ofensivo, que apoiam simultaneamente pelos corredores.
A dinâmica ofensiva se fortalece principalmente pelos movimentos interiores dos pontas. Tanto Esmir Bajraktarević quanto Alajbegović se movimentam em diagonais para dentro e se aproximam dos atacantes para liberar os corredores às ultrapassagens dos laterais. Esse mecanismo transforma a estrutura ofensiva bósnia em algo próximo de um 4-2-4 em posse de bola, com muitos jogadores ocupando o campo ofensivo e alternando constantemente de posição.

Possível sistema 4-2-4, escalação em que os dois pontas, Bajraktarević e Alajbegović, têm a possibilidade de se infiltrar por dentro, enquanto os laterais Dedić e Memić sobem pelos corredores [Arte: Ana Rita Hernandes/https://www.buildlineup.com/]
Mesmo com a presença de dois centroavantes de porte físico, o sistema não se resume a bolas longas ou jogo aéreo, uma vez que Demirović e Džeko possuem capacidade associativa e frequentemente deixam a área para participar da construção das jogadas. Ambos conseguem atuar como referência física, e também podem recuar para gerar superioridade numérica no meio-campo.
Já sem a bola, a tendência é de uma equipe mais cautelosa. Em jogos de maior dificuldade, a Bósnia pode vir a se organizar em um 4-4-2 de linhas baixas, para apostar em força física. A saída ofensiva acontece de maneira mais direta, utilizando lançamentos longos para os atacantes segurarem a posse e permitirem a aproximação dos meias e pontas.

Possível sistema 4-4-2, escalação em que a linha de quatro meias tem um papel fundamental, principalmente para fechar os corredores e impedir que o adversário encontre espaço nas costas dos laterais [Arte: Ana Rita Hernandes/https://www.buildlineup.com/]
A principal mudança recente da seleção parece estar justamente na oxigenação trazida pelos jovens jogadores de lado de campo. A aceleração, agressividade e capacidade de condução de atletas como Bajraktarević e Alajbegović adicionam novas possibilidades ofensivas a uma equipe que antes dependia quase exclusivamente da experiência de Džeko.
Os destaques balcânicos
Edin Džeko
Maior nome da história da seleção, o atacante de 40 anos, atualmente no Schalke 04, segue como líder técnico e emocional, conta com 73 gols pela equipe bósnia e soma mais de 140 jogos. Apelidado de “Diamante Bósnio”, Edin passou como ídolo por gigantes europeus, como Manchester City, Internazionale e Roma, e é conhecido por sua presença física, com força e habilidade no jogo aéreo, mas também se destaca como um jogador generoso, que fornece um bom número de assistências.
Ermedin Demirović
Atacante do VfB Stuttgart, com 28 anos, é visto como o principal nome da nova geração ofensiva bósnia. Um camisa nove de muita intensidade física e movimentação constante, Demirović tem ganhado protagonismo ao lado de Džeko, e costuma participar bastante da construção das jogadas, recuar para tabelar e pressionar a saída de bola adversária.
Sead Kolašinac
Experiente defensor de 32 anos, atualmente na Atalanta, é um dos poucos remanescentes da campanha de 2014. Com longa passagem pelo Arsenal, clube pelo qual chegou a ganhar a Copa e a Supercopa da Inglaterra, Kolašinac apresenta grande força física e segue como peça importante no sistema defensivo da Bósnia, especialmente em jogos intensos, uma vez que entra firme em divididas e protege a defesa em confrontos individuais. Além disso, ele se destaca pela sua versatilidade defensiva, uma vez que, ao longo da carreira, já atuou como lateral-esquerdo, ala em linha de cinco e zagueiro pelo lado esquerdo, principalmente em sistemas com três defensores.
Benjamin Tahirović
O meio-campista, revelado nas categorias de base da Roma, ganhou notoriedade por suas atuações no Ajax e no Brøndby. Representante da tentativa bósnia de renovar seu meio-campo com jogadores mais técnicos e modernos, Tahirović gosta de atuar como segundo-volante, clássico “camisa seis”, que organiza a saída de bola e distribui o jogo com passes progressivos. Ele também é agressivo na marcação e consegue atuar tanto como volante de marcação quanto em uma dupla de meio-campistas, com liberdade para avançar.
Kerim Alajbegović
Com apenas 18 anos, o ponta canhoto é apontado por torcedores e imprensa como uma das grandes joias da nova geração. Alajbegović joga pelo Red Bull Salzburg, da Áustria, e já apresenta nove gols em 28 jogos, com características criativas e agressivas de muita velocidade e capacidade para atacar espaços entre as linhas.
Os desafios de voltar ao Mundial
A Seleção Bósnia se encontra no Grupo B, junto de Canadá, Catar e Suíça, pelo qual estreia já nesta sexta-feira (12) contra os canadenses, em Toronto.

Canadá, Catar e Bósnia somam apenas seis participações em Copas do Mundo anteriores à de 2026. Sozinha, a Suíça já disputou mais Mundiais do que os outros três integrantes juntos [Imagem: Reprodução/Fifa]
A Bósnia e Herzegovina chega à Copa inserida em um dos grupos mais equilibrados do torneio. Os bósnios terão pela frente adversários de estilos distintos e que percorreram trajetórias diferentes até o Mundial, cenário que transforma o Grupo B em uma disputa imprevisível.
A Suíça aparece como a seleção mais consolidada da chave, sustentada pela regularidade nas competições europeias e pela experiência recente em Copas. Já o Canadá tenta aproveitar o fator casa e o crescimento vivido pelo futebol nacional nos últimos anos, impulsionado pela boa campanha nas Eliminatórias da Concacaf. O Catar, apesar de menos tradicional, chega amparado pela experiência adquirida após sediar a Copa em 2022.
Nesse contexto, o Grupo B se desenha como uma chave sem favoritos absolutos, já que a diferença técnica entre as seleções não parece ampla o suficiente para garantir classificações antecipadas.
*Imagem de Capa: Reprodução/X/@bih.reprezentacija
