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Além do impacto: Júlio Bressane como a essência viva do Cinema Marginal 

Ao desafiar categorias históricas e o mercado, a obra de Júlio Bressane se firma como uma fonte permanente de renovação estética para o cinema brasileiro e mundial
Por Daniel Mota (danielzinhomota@usp.br)

No final dos anos 1960 e começo dos anos 70, o cinema brasileiro vivia um dos momentos mais turbulentos de sua história. Em meio à repressão e à agitação cultural, Júlio Bressane e Rogério Sganzerla fundaram, no Rio de Janeiro, a produtora Belair, em 1970. O chamado “cinema marginal” nasceu ali, não como um gênero definido, mas como uma resposta intensa e espontânea ao contexto da época. 

Bressane tinha como proposta experimentar a linguagem cinematográfica de forma radical, operando no caminho inverso do alinhamento comercial do período e estabelecendo algo que, décadas depois, impactaria produções contemporâneas.

O cinema que Bressane passa a realizar, assim como o de Andrea Tonacci, Rogério Sganzerla, Luiz Rosemberg Filho, Carlos Reichenbach, Ozualdo Candeias e tantos outros de sua geração, dialoga de forma criativa com as chanchadas e acaba se confundindo com o que ficou conhecido na história do cinema brasileiro como Cinema Marginal.

 Esse “marginal” nasce do embate entre cineastas que desafiaram o horizonte do Cinema Novo e recusaram a utopia de uma comunhão nacional futura, mas pode se dizer que é também marginal por ser um cinema sem concessões: autoral, agressivo, independente, muitas vezes pouco comunicativo. Pode-se, então, dizer que a obra de Bressane está profundamente ligada a uma reflexão sobre a cultura brasileira, sempre em diálogo com a experimentação cinematográfica.

As duas amigas Marcia e Regina brincam perigosamente com uma arma [Imagem: Divulgação/Cinemateca Brasileira]

A estética do lixo

O período de 1970 pode ser visto como um período de muita criatividade e intensidade na carreira de Júlio Bressane. Foram apenas seis meses mas, nesse curto espaço de tempo, a produtora Belair conseguiu concluir seis longas-metragens. A famosa máxima “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça” de Glauber Rocha já não bastava aos cineastas nesse momento; era preciso ir além e reinventar as próprias limitações, o que fez com que eles transformassem a falta de recursos em invenção. 

Obras como Cuidado, Madame (1970) e O Anjo Nasceu (1969) vieram desse impulso, desafiando a lógica tradicional do cinema ao apostar em narrativas fragmentadas e também sujas, como forma de resistência ao sufocamento cultural imposto pela censura. Esse período não só marcou profundamente a trajetória de Bressane, mas também deixou um legado de ousadia e inventividade que ainda hoje inspira o cinema brasileiro. 

Para Bressane, assumir o “mau gosto” e o “tosco” era, na verdade, uma escolha deliberada — uma forma de rejeitar os padrões estéticos impostos de fora e afirmar uma identidade própria, livre de amarras. Bressane se dedicou a explorar novas possibilidades de linguagem, apostando em recursos como o tempo morto (cenas onde nada acontece, estendendo a duração da cena focando no silêncio e contemplação), o plano fixo e a metalinguagem. Esses elementos, embora pudessem afastar o público acostumado ao cinema tradicional, serviam como um convite à reflexão e criavam um elo forte com a vanguarda intelectual da época, mostrando que o cinema poderia ser, acima de tudo, um espaço de experimentação e liberdade. 

O termo “marginal” estaria obsoleto?

O debate sobre como rotular a obra de Bressane tem ganhado novas discussões no cenário acadêmico atual. Segundo o professor Bernardo Oliveira, vinculado ao departamento de Filosofia da UFRJ e pesquisador da obra de Bressane, a expressão “cinema marginal”, que é usada há tanto tempo como categoria histórica, estética e política, hoje soa “genérica e obsoleta”. 

Para o pesquisador, utilizar esse termo para definir Júlio Bressane é um marcador histórico muito limitado. Bressane não estava apenas à margem de um sistema; ele estava construindo um novo centro de gravidade visual. Oliveira defende que a obra de Bressane não “teve impacto” no sentido tradicional de influência externa: ela “é o próprio impacto”. 

Essa percepção retira o cineasta da “vala comum” dos movimentos datados e o coloca em um diálogo direto com a vanguarda mundial. A singularidade da produção de Bressane, especialmente na transição da década de 60 para a de 70, aproxima-o de nomes como Jean-Luc Godard, Stan Brakhage e Orson Welles, pois são filmes que funcionam como fontes permanentes de ideias, procedimentos que ainda não foram totalmente digeridos pela indústria.

Renata Sorrah fez sua estreia no cinema na obra de Bressane; sua personagem, Regina, aparece morta na escada após conflito familiar [Imagem: Divulgação/Cinemateca Brasileira]

O ponto alto da carreira

O filme Matou a Família e Foi ao Cinema (1969) talvez seja a síntese mais poderosa desse momento e do impacto de Julio Bressane no cinema brasileiro. A obra causou espanto ao público e à crítica ao trazer uma narrativa fragmentada, feita a base de tédio e violência gratuita da classe média. A reação foi intensa: enquanto alguns enxergaram ali a marca de um gênio, outros viram apenas uma afronta aos valores morais, deixando-se levar pelo “susto” e sem considerar as críticas ou ousadia da obra. 

Com o passar do tempo, no entanto, ficou claro que essa ousadia de Bressane em Matou a Família e Foi ao Cinema abriu caminhos para que o cinema brasileiro pudesse discutir o desejo e a pulsão de morte sem os tradicionais filtros do moralismo, tornando a obra um marco de liberdade e provocação estética. 

Um aspecto interessante que podemos observar na trajetória de Bressane é a forma como ele trabalha a metalinguagem. Em seus filmes, o espectador nunca se esquece de que está diante de uma obra cinematográfica. Os personagens olham diretamente para a câmera, quebram a quarta parede ou se envolvem em situações tão absurdas que toda ilusão de realidade se desfaz  — tudo isso faz parte do seu repertório. 

Esse distanciamento brechtiano era essencial para o cinema marginal: Bressane queria provocar reflexões, fazendo com que o público pensasse sobre a própria imagem, em vez de apenas consumi-la de forma passiva. Além disso, o uso de trilhas sonoras exageradas e a valorização de ruídos ambientes, que por vezes ofuscam os diálogos, eram estratégias para acentuar a estranheza e o caráter experimental de seus filmes.

O culto que vira lixo

Ao contrário do que muitos imaginam, o cinema de Bressane estava longe de ser desleixado. Havia um cuidado muito grande com suas obras, mesmo quando a temática parecia provocativa e imunda. Bressane era um estudioso apaixonado pela história da arte e da literatura, e trazia para o seu universo “marginal” referências sofisticadas, como Oswald de Andrade, a poesia barroca, Nietzsche e Schopenhauer. Essa combinação entre o erudito e o “trash” é justamente o que faz sua filmografia ser algo único. 

Bressane mostrou que era possível criar um cinema intelectualmente sofisticado, mesmo com uma estética visual “suja”. A repressão política acabou forçando Bressane ao exílio em 1970, encerrando a fase mais intensa da Belair, mas longe de silenciar seu impacto. Durante o tempo que passou na Europa, ele seguiu experimentando, absorvendo novas influências que, mais tarde, enriqueceriam ainda mais sua obra no retorno ao Brasil.

 Apesar de breve, o Cinema Marginal plantou uma semente que germinou no movimento “Udigrudi” e em várias outras manifestações da contracultura brasileira. O legado de Bressane está justamente nessa coragem de filmar o “infilmável” e na defesa radical da liberdade artística, mesmo diante de um cenário de censura e perseguição. 

Os dois criminosos Santamaria e Urtiga dão uma pausa na fuga para ler seus crimes noticiados no jornal [Imagem: Divulgação/Cinemateca Brasileira]

A herança no mundo atual

Hoje, ao revisitar as obras de Júlio Bressane, fica claro que ele esteve muito à frente de seu tempo, antecipando debates atuais sobre a imagem digital e a democratização das ferramentas de filmagem. Sua produção é um exercício de resistência da memória, pois vários de seus filmes foram perseguidos, sofreram cortes ou chegaram a ser proibidos de circular, mas conseguiram sobreviver graças ao esforço incansável de cinematecas e colecionadores apaixonados. 

Ao analisar obras como O Anjo Nasceu (1969), percebe-se como Júlio utiliza a figura do fora da lei não como um herói romântico, mas como reflexo de um sistema em franco colapso. O impacto dessa leitura ainda é sentido em festivais internacionais, onde Bressane é reconhecido como um dos últimos grandes autores vivos — alguém que mantém acesa a chama da experimentação radical e da desobediência visual no cinema. 

Bressane nunca se acomodou em uma fórmula. Mesmo depois do fim do movimento marginal, sua obra continuou em evolução, mas sempre carregando aquele espírito provocador que o marcou desde 1969. Seu cinema segue sendo um verdadeiro “respiro” em meio a uma indústria cada vez mais dominada por algoritmos e fórmulas prontas de sucesso comercial. Ele permanece como um lembrete fundamental de que, para a arte continuar relevante, é preciso, de vez em quando, buscar espaço nas bordas, nas margens e nas zonas sujas da sociedade.

O movimento que Bressane ajudou a liderar não transformou apenas o cinema brasileiro, mas a visão dele para o público externo. Bressane apresentou ao mundo um país complexo, contraditório, feio, belo e impossível de ser domado. Ao descrever sua trajetória, é perceptível como  sua vida e obra seguem uma lógica invertida: o impacto mais transformador está logo no topo, na ousadia de romper o silêncio e desafiar convenções, enquanto os detalhes e nuances de sua vasta filmografia sustentam, na base, a trajetória de um dos maiores cineastas que o Brasil já teve.

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