Jornalismo Júnior

Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors
Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors

José Dirceu: o homem que precisou mudar de rosto para sobreviver

Figura de resistência à ditadura militar brasileira, Dirceu retorna à política em 2026 como pré-candidato a deputado federal pelo estado de São Paulo
Por Renata Paes (renatapaes777@usp.br)

Em 16 de março de 1946, nascia, na cidade mineira Passa Quatro, José Dirceu de Oliveira e Silva (PT). “Meu interesse pela política começou ainda na infância. Meu pai era filiado à UDN [União Democrática Nacional]. Convivi desde cedo com eleições e política. Meu colégio era formado por  padres barnabitas estrangeiros muito politizados. Tive um professor antifranquista”, relembra Dirceu em entrevista à J.Press. Ainda adolescente, Dirceu mudou-se de Minas Gerais para a cidade de São Paulo. Aos 15 anos, em 1961, trabalhou como office boy em um escritório político e, pela primeira vez, fez parte da organização de uma campanha eleitoral. Mais tarde, em 1965, ingressou no curso de Direito na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), onde iniciou sua trajetória no movimento estudantil. 

A atuação de Dirceu ganhou destaque no Diretório Central dos Estudantes (DCE) da universidade e no Centro Acadêmico 22 de Agosto. Pelo seu comprometimento, o então universitário passou rapidamente a ocupar cargos de liderança no movimento estudantil paulista. “Em meio à ditadura, o ensino mostrava-se autoritário. Não podíamos nem conversar de política. Meus professores da PUC, em sua maioria, eram anticomunistas”, afirmou o petista. Em 1968, foi eleito presidente da União Estadual dos Estudantes de São Paulo (UEE-SP).

Já consolidado como uma das figuras da militância universitária, José Dirceu participou, em outubro de 1968, do 30º Congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE), realizado clandestinamente em um sítio na cidade de Ibiúna, em São Paulo. Para Rafael Rezende, mestre e doutor em sociologia pelo Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), a trajetória de Dirceu da militância estudantil para a política institucional seguiu um caminho comum a diversas lideranças políticas brasileiras. “O movimento estudantil é uma grande escola de quadros políticos. Diversos líderes da esquerda e da direita passaram por ele antes de ingressar na política formal”, afirmou Rezende.

Militares com capacetes brancos segurando armas
Há suspeitas de que agentes da repressão tenham se infiltrado no Congresso de Ibiúna, o que, possivelmente, facilitou a descoberta do encontro pelas autoridades, segundo o portal Memorial da Democracia [Imagem: Reprodução/Memorial da Democracia]

A UNE havia sido colocada na ilegalidade após a ascensão militar em 1964, o que levou os seus congressos a serem organizados de forma secreta, de acordo com o portal Memórias da Ditadura. Em 12 de outubro de 1968, o local foi cercado por agentes do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) e da Força Pública paulista. A operação resultou na prisão de mais de 900 estudantes, segundo o Memorial da Democracia, incluindo José Dirceu e outras lideranças do movimento estudantil brasileiro, como Franklin Martins e Vladimir Palmeira. Dirceu ficou recluso no DOPS por aproximadamente 11 meses, de acordo com o Banco de Dados da Folha.

Em 4 de setembro de 1969, militantes da Aliança Libertadora Nacional (ALN) e do Movimento Revolucionário Oito de Outubro (MR-8) sequestraram o embaixador norte-americano Charles Burke Elbrick. Entre as exigências dos militantes, estavam a leitura de um manifesto revolucionário em transmissão nacional e a libertação de 15 presos políticos. Entre os nomes da lista, estava o do militante Dirceu.

Os anos de exílio

Como a legislação da época não permitia uma simples soltura, o governo editou o Ato Institucional nº 13 (AI-13), que bania do território nacional os presos políticos, sob a justificativa de ameaça à segurança nacional. Dirceu embarcou na aeronave Hércules C-130, da Força Aérea Brasileira (FAB), com destino ao México. Passados cerca de 30 dias em território mexicano, a maioria dos militantes libertados — 13 dos 15, incluindo Dirceu — optou por seguir até Havana, capital de Cuba. Eles buscavam o apoio do regime socialista de Fidel Castro, que na época oferecia abrigo e infraestrutura para opositores das ditaduras militares latino-americanas, de acordo com a resenha do historiador Jean Rodrigues Sales, da Unicamp. “Considero Cuba como minha segunda pátria e digo publicamente que devo a vida a Fidel Castro”, revelou Dirceu em entrevista à Folha de S.Paulo, nos anos 2000.

“Não fui para o exílio, fui banido. Passei a ser apátrida. Estava condenado à morte no meu próprio país.” 

 José Dirceu

Homens de terno na frente de um avião
Dirceu tinha 23 anos quando foi incluído na lista dos presos políticos exigidos pelos militantes para a libertação de Elbrick. Na foto, corresponde ao segundo homem em pé da esquerda para a direita [Imagem: Reprodução/Memórias da Ditadura]

Em Cuba, o político passou por cirurgias plásticas para modificar alguns traços de seu rosto e adotou a identidade de Carlos Henrique Gouveia de Melo. As medidas tinham o objetivo de dificultar sua identificação pelos órgãos de repressão da ditadura militar. “Eu precisava disso. Estava jurado de morte. Minha figura já era muito conhecida. Construí um personagem e uma história”, revelou.

A vida sob identidade falsa

Dirceu afirmou que nunca quis que seu “exílio” fosse permanente. Em meados da década de 1970, decidiu retornar clandestinamente ao Brasil. “Nunca me conformei com a ideia de que um general pudesse assinar um ato totalmente inconstitucional e me tirar a nacionalidade”, disse. 

Com a identidade de Carlos, Dirceu se estabeleceu inicialmente na cidade de Cruzeiro do Oeste, no interior do Paraná. Durante esse período, conheceu Clara Becker, na época proprietária de butiques no Paraná, com quem se casou e teve seu primeiro filho, José Carlos Becker Dirceu (PT), hoje deputado federal. 

Em 1979, com a aprovação da Lei da Anistia (Lei nº 6.683) pelo governo federal, exilados, presos políticos e perseguidos pelo regime puderam recuperar direitos e retornar oficialmente à vida pública. A medida permitiu que José Dirceu deixasse a clandestinidade e reassumisse sua verdadeira identidade. Após quase uma década vivendo sob outro nome, ele voltava à cena política nacional em um contexto marcado pelo fortalecimento dos movimentos sociais e pelas crescentes reivindicações por eleições diretas e democráticas.

Homem branco segurando folhas olhando para baixo
Sob a identidade de Carlos, Dirceu disse que, na época, mentia ter nascido na cidade de Guaratinguetá, em São Paulo. Para sustentar a personagem, chegou a abrir uma alfaiataria, uma boutique e, posteriormente, uma fábrica de confecção, contou em entrevista à J.Press [Imagem: Reprodução/Wikipedia]

Uma das mentes fundadoras do PT

Dirceu mergulhou na reestruturação da esquerda brasileira e, em 1980, participou da fundação do Partido dos Trabalhadores (PT). Rezende avalia que a participação de Dirceu na construção do partido foi decisiva: “Além de ser um grande articulador político, ele sempre foi um dos principais formuladores das estratégias do PT. Sua influência ajudou a definir os rumos que o partido tomaria ao longo das décadas”, afirmou.

Em 1989, coordenou a primeira campanha para a presidência de Lula (PT), que levou o PT pela primeira vez ao segundo turno de uma eleição presidencial. Embora derrotado por Fernando Collor de Mello (na época, filiado ao PRN; hoje, filiado ao PTC) , o partido consolidou-se como uma das principais forças políticas do país, segundo o sociólogo Rafael Rezende. “A importância dele reside na capacidade de dialogar, formar coalizões e construir consensos em torno de um projeto político. Isso vem tanto de sua capacidade analítica quanto de seu carisma pessoal”, observou.

Dirceu assumiu o cargo de presidente nacional do PT em 1995, e liderou um projeto de profissionalização da legenda e de ampliação de alianças políticas para o fortalecimento partidário. Sob sua direção, o PT ampliou sua presença institucional e preparou o caminho para a vitória de Lula nas eleições presidenciais de 2002, de acordo com o doutor em ciência política pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Oswaldo Amaral.

Dois homens brancos sorrindo na frente de uma bandeira vermelha
Durante sua atuação como ministro da Casa Civil, Dirceu era considerado o homem mais influente do governo depois do presidente Lula, segundo o jornal O Globo [Imagem: Reprodução/Wikimedia Commons]

Em 2003, foi escolhido por Lula para ocupar a chefia da Casa Civil em 2003. O cargo era responsável pela coordenação política do governo e pela articulação entre o executivo e o Congresso Nacional. Rafael Rezende avaliou que, ao assumir um cargo de liderança, Dirceu criou muitos inimigos, inclusive dentro do PT. “Existem setores mais radicalizados dentro do partido que o acusam de fazer um giro à direita, de ser mais preocupado com a ordem do que com o socialismo”, pontuou o sociólogo.

No centro da crise

O cargo de Dirceu como ministro da Casa Civil foi interrompido em 2005, quando seu nome passou a ser associado a uma crise política que ficou conhecida como “Escândalo do Mensalão”. As denúncias vieram à tona após declarações do então deputado federal Roberto Jefferson (na época, filiado ao PTB), à jornalista Renata Lo Prete, então editora na Folha de S.Paulo. O deputado acusou integrantes do governo e do PT de participarem de um esquema de pagamentos a parlamentares em troca de apoio político aos seus projetos no Congresso Nacional.

Embora negasse qualquer envolvimento nas irregularidades apontadas, a repercussão das denúncias levou a sua saída da chefia da Casa Civil em junho de 2005. Cerca de cinco meses depois, a Câmara dos Deputados aprovou a cassação de seu mandato parlamentar por quebra de decoro parlamentar. “A verdade é que foi uma forma de me retirar da vida institucional do país, porque eu era uma das principais lideranças da esquerda brasileira. Fui absolvido de ser chefe do Mensalão pelo Supremo”, defendeu o político.

“Tomei todos esses acontecimentos como parte da minha luta política. Recomecei a minha vida do zero quatro vezes.”

José Dirceu

Em 2012, Dirceu foi condenado pelos crimes de corrupção ativa e formação de quadrilha pelo Supremo Tribunal Federal (STF). O ex-ministro contestou as acusações durante todo o processo, sustentando que não participou do esquema. “Zé [Dirceu] perdeu grande parte de seu público com o processo do Mensalão. Enquanto uma parte da população passou a enxergá-lo como corrupto, outra parte considerava-o vítima de perseguição política”, apontou Rezende. 

Na Operação Lava Jato, em 2016, José Dirceu foi condenado em diferentes processos e chegou a ser preso. Em 2024, o ministro Gilmar Mendes, do STF , anulou as condenações da Lava Jato contra Dirceu com a justificativa de imparcialidade pelo então juíz do caso, Sérgio Moro.

De volta à política

Mesmo após anos marcados por processos judiciais, prisões e disputas nos tribunais, José Dirceu permaneceu influente nos debates internos do Partido dos Trabalhadores e na articulação política da esquerda brasileira, segundo Rafael Rezende. Para o sociólogo, a trajetória de Dirceu também contribuiu para transformá-lo em uma figura polarizadora: “Para alguns, ele representa um importante militante da resistência à ditadura. Para outros, simboliza erros e contradições da esquerda brasileira. É uma figura que mobiliza muitos sentimentos”, avaliou.

Em 2026, ano em que completa 80 anos, José Dirceu reapareceu como pré-candidato a deputado federal por São Paulo pelo PT. A movimentação marca mais uma reviravolta em uma trajetória política atravessada por militância estudantil, exílio, clandestinidade, liderança partidária, cargos de governo, condenações judiciais e retornos sucessivos à vida pública.

“O que me motiva a permanecer no Brasil é o meu sonho de um país justo, no qual a classe trabalhadora participe da riqueza que cria. Sem pobreza e desigualdade social. Um país soberano e desenvolvido tecnologicamente.”

José Dirceu

[Capa: Reprodução/Agência Brasil]

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para cima